
Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Desde que saiu a lista dos brasileiros inscritos por seus produtores para uma possível vaga brasileira no Oscar de Filme Estrangeiro (indicação), que a pergunta feita por todos é, "onde está o Linha de Passe?"
Eu havia ligado para Anna Luiza Muller (assessora de imprensa de Walter) no dia da divulgação dos inscritos, e ela me falou motivos pessoais "em off", o que me deixou, em termos jornalísticos, a ver navios, pois não poderia divulgá-los. Agora, ela me avisa que saiu esse texto, escrito pelo próprio Walter, postado no site do filme, http://www.paramountpictures.com.br/linhadepasse.
Reproduzo-o aqui, abaixo.
No mais, acho bom que Walter Salles faça o que acha melhor para ele mesmo em termos pessoais, o track record dele não é pequeno. Na verdade, sempre me interessa entender as movimentações pessoais que existem por trás do filme público que temos acesso, seja ver o meninão quarentão que é um Guillermo del Toro se esbaldando com suas criaturas, um Ben Stiller torrando toneladas de dinheiro numa gréia industrial como Tropic Thunder, ou um David Lynch vendendo café e transcendência, que me faz lembrar essa tomada de atitude de Salles e Daniela Thomas.
Sobre o Oscar de Filme Estrangeiro, por Walter Salles (14/9/08)
"Participar da campanha pelo Oscar de melhor filme estrangeiro é um processo mais complexo do que parece. Já percorri essa estrada e sei que sem uma dedicação de vários meses, as chances de um filme selecionado por um país chegar à final e possivelmente ganhar são escassas.
Fazer parte da Mostra Competitiva dos mais importantes festivais do mundo é um processo altamente seletivo, que oferece um retrato amplo do cinema independente mundial e se encerra em poucas semanas. A corrida para o Oscar, ao contrário, não se decide em um único evento e sim em etapas sucessivas. É como a diferença entre uma corrida de 400 metros e uma maratona - só que com barreiras...
Uma campanha realmente competitiva para o Oscar começa nos prêmios que são outorgados no final do segundo semestre pelo National Board of Review, a mais antiga associação de críticos dos Estados Unidos, e continua com os prêmios da crítica especializada das maiores cidades daquele país. Para cada um desses eventos, é necessário apresentar o filme, realizar debates, fazer dezenas de entrevistas desde meados do segundo semestre.
Em anos especialmente disputados, lançar o filme nos Estados Unidos até outubro ou novembro é um trunfo importante. Quando "Central do Brasil" ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro do National Board of Review em dezembro de 1998 e depois o Globo de Ouro, já tínhamos lançado o filme nos Estados Unidos e realizado dezenas de debates através do país. Roberto Begnini, que ganhou o Oscar em março de 1999, lançou o seu filme ainda mais cedo, mudou-se para Los Angeles e passou vários meses em campanha.
"Linha de passe" foi realizado sem incentivos fiscais, graças ao financiamento de uma companhia especializada em viabilizar filmes independentes e à pré-compra feita por vários distribuidores independentes europeus. Esses distribuidores que acreditaram no filme antes dele existir estão lançando o "Linha" nos próximos meses em seus países. Para ajudar esses lançamentos, me comprometi a estar presente de setembro a janeiro em festivais e debates na Inglaterra, Bélgica, Grécia, Dinamarca, França, Itália, etc. Para se ter uma idéia, só nessa semana, temos debates no National Film Theater em Londres, apresentações na London University e em outras universidades, projeções para membros do Bafta e mais de cem entrevistas com a mídia inglesa.
Não há possibilidade de se fazer um trabalho de fundo em duas frentes ao mesmo tempo. Daniela Thomas e eu conversamos longamente sobre isso e, como ela deverá estar filmando um novo projeto em outubro e novembro, não teremos como dividir as atenções até o final do ano.
Para fazer algo pela metade, é melhor não fazer. Se tivéssemos inscrito "Linha de passe" e ganhado a indicação do Brasil, não teríamos como representar o país com a responsabilidade que se faz necessária. Agradecemos a todos que torcem pelo filme e desejamos o melhor ao longa brasileiro que for escolhido pela comissão".
Walter Salles
precisava ne citar? aha, beijosss
ReplyDeleteExcelente! Esta decisao, que você chamou de pessoal, eu considero extremamente profissional, na verdade. Como o proprio Walter Salles disse em seu texto, é uma questao de comprometimento total com o projeto profissional que é a realizaçao E divulgaçao de um filme. Quanto à escolha em si, cada um com o seu gosto; eu, particularmente, aprovo integralmente a priorizaçao do mercado europeu e "independente". Que isso sirva para mostrar que nem todos consideram o Oscar como o Santo Graal da cinematografia.
ReplyDeleteAbraços,
Bruno