Monday, May 4, 2009

Wolverine



Wolverine prestes a traçar um espaguete ao pesto.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Para cada PAM-BUM-BAM que Wolverine as Origens (Wolverine – X-Men Origins, EUA, 2009) faz estrondar na sala de cinema, eu quase que pude ouvir na mesma hora o DIM-DIM-DIM do dinheiro caindo na conta da 20th Century Fox e dos sócios majoritários desse produto. Um deles, aliás, é o próprio Hugh Jackman, o atual apresentador do Oscar e também astro/produtor do filme. É o sub-produto perfeito para ilustrar o denominador comum de um tipo de cinema atual feito para vender pipoca, balinha, nachos e refrigerante, para um público com cera nos ouvidos e limite programado de atenção de não mais do que quatro segundos.

Watchmen isso aqui não é. A interessante adaptação de Zack Snyder para os quadrinhos de Alan Moore talvez seja um dos melhores filmes americanos do ano, mas não é o tipo de coisa que Hollywood espera de um produto comercial feito para saquear mesadas adolescentes. Na verdade, lembrar que, por ter sido o último filme HQ lançado, Watchmen nos leva precisamente a esse Wolverine que estréia com 500 cópias em todo o Brasil, com uma campanha de propaganda que não poupou nem banheiro.

A adaptação de Watchmen finalmente filmada e as marcas Batman e Superman recauchutadas com novos diretores e atores provam que não sobra mais muita coisa para Hollywood consumir vorazmente em termos de material original de HQ. Resta à indústria inventar desculpas.

Nesse filme, Wolverine (Jackman), o personagem mais popular da franquia X-Men ganha seu próprio filme solo, onde podemos vê-lo menino, jovem, na sua própria historinha. Imaginem as possibilidade$ se pensarmos nos outros super-amigos de Wolverine, cada um com um filme. Porquê não as memórias íntimas de Alfred, mordomo de Batman, num blockbuster futuro? E, quem sabe, as memórias do sobrinho secreto de Alfred, mais pra frente?

Wolverine é o cara simpático que quando fica com raiva ganha uns garfos gigantes que saem das mãos. É também um super herói que vive furando sua cama e arranhando a namorada, descaradamente. As espadas são feitas de um metal alienígena, adamantium. Ele é forte, e nesse filme vemos o porquê de ele ter sua força física redobrada. Wolverine (também conhecido como Logan) é, claro, um mutante.

Essa aventura dirigida pelo sul africano Gavin Hood, que ganhou o Oscar pela sua própria mutação genética de filme turbinado de terceiro mundo (vide Cidade de Deus e Quem Quer Ser Milionário), um filme de crime e favela chamado Tsotsi, mostra o que acontece com diretores que sempre sonharam com Hollywood. Fazem filmes hollywoodianos sem qualquer alma como esse.

Inicialmente divertido na primeira meia hora, onde entendemos que Wolverine tem um irmão malvado (Liev Schreiber, presença boa) com quem lutou praticamente todas as guerras americanas, atravessando décadas sem real envelhecimento, nosso herói logo entende que o recrutamento via governo americano (Danny Huston é o vilão da peça) não é a sua praia, especialmente pela noção avariada de humanidade dos envolvidos.

Antes mesmo de integrar o X-Men nos outros filmes da série, Wolverine teria feito parte de um grupo de mercenários mutantes cujas missões em paises de terceiro mundo não parecem nada católicas. Wolverine terá, portanto, de lidar com manipulação do poder em relação a um amor e também com o seu corpo.

É tudo meio bombástico e estridente, o dinheiro gasto não foi pouco, está na tela, mas fica a sensação de uma matinê classe B. Não é B de bizarro, é B de segunda classe mesmo. Wolverine grita aos céus com raiva, como um tiranossauro rex, coisas explodem e fazem enorme barulho. Um lembrete frequente de que barulho e estímulos de luz projetada também induzem ao sono e à total monotonia.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, abril 2009

Sunday, May 3, 2009

Lírio Ferreira e Desnise Dumont sobre fazer um filme pessoal de arquivo sobre o pai dela: O Homem Que Engarrafava Nuvens



Lírio Ferreira apresentando o filme no Festival do Rio, ano passado

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Para quem conhece a pessoa do cineasta pernambucano Lírio Ferreira, uma primeira impressão é a de que ele é claramente um realizador da raiz ficção, sua capacidade de se expressar e de juntar idéias aparentemente distantes numa conversa chama a atenção e instiga. Analisa, por exemplo, que não seria uma coincidência o fato de uma primeira possível imagem para o que seria “o moderno cinema pernambucano” ser a de um homem cego numa paisagem árida, cena do seu próprio curta metragem O Crime da Imagem, lançado nos primeiros momentos dos anos 90. Esse seu olhar, que alguns fãs ousam chamar de ‘delírio’, gerou dois filmes notáveis, filhos não da ficção, mas do documentário, ambos sobre a música brasileira. O mais novo chama-se O Homem Que Engarrafava Nuvens, sobre Humberto Teixeira, que encerra hoje à noite o Cine PE.

O filme confirma algo que já havia sido percebido em Cartola (2006), co-dirigido por Hilton Lacerda, um filme não linear, um pouco como as lembranças que temos da vida, algo que Lírio repete de forma nova e orgânica no seu novo relato sobre uma outra personalidade brasileira que deixou marcas na cultura do país. Curiosamente, esse é um projeto interessante não apenas para o espectador comum, mas também pelo que existe por trás do filme.

Lírio Ferreira, na verdade, conduziu com tom autoral o projeto emotivo que pertence à produtora do filme, a atriz Denise Dumont, que vem a ser a filha do personagem principal, Humberto Teixeira. O pai dela ficou conhecido popularmente como parceiro de Luiz Gonzaga e autor de Asa Branca, clássico da MPB. O filme tem claramente o tom de uma confissão, ou de uma descoberta, e há indícios de que diretor e produtora descobriram juntos coisas diferentes.

« Exatamente pelo traço marcante do Lírio e pelo seu talento, foi que o convidei para dirigir o filme. A sua doçura e delicadeza como ser humano tornou possível essa relação tão complicada, de ter a filha do personagem principal no cangote 24 horas por dia durante 7 anos, cheia de opiniões, perfeccionista e ainda por cima com o poder de produtora... É sem dúvida um filme extremamente pessoal e por isso mesmo eu tinha que entregá-lo em boas mãos. Lírio realizou o meu sonho e o fato de continuarmos amigos e nos amarmos de paixão depois de tantos anos, é prova de que funcionou e bem », disse Dumont à reportagem do JC, de Paris, antes de vira o Recife para a sessão de hoje.

Perguntamos a Lírio como é administrar o personagem principal que é pai da produtora. Ele respondeu, “não foi fácil. Afinal, o filme aborda a trajetória do pai dela e todo o processo acabou sendo uma descoberta de um pai que Denise não conhecia muito bem. A trilha sonora da juventude de Denise não era o baião, mas o rock brasil dos anos 80. Ela também perdeu a mãe antes da finalização do filme. Contudo, Denise é uma pessoa muito meiga e afetiva e nós, apesar de sermos piscianos e cabeças duras, nos entendemos muito bem”.

Lírio Ferreira volta a demonstrar intimidade com o trabalho de arquivo que fez de Cartola um filme tão rico, e que parece mover Baile Perfumado com as imagens de Benjamim Abraão. “Material de arquivo sempre exerceu um certo magnetismo sobre mim. O registro de um instante único. A possibilidade de poder recriar estes instantes, através da montagem, um cenário propício para um personagem marcante cruzar este tempo, foi a energia criativa e motora que impulsionou tanto Cartola, quanto O Homem Que Engarrafava Nuvens”, nos falou Lírio há alguns dias.

Nesse aspecto do filme, Denise Dumont destaca o trabalho de Antônio Venâncio, “O melhor e mais tenaz pesquisador de imagens do mundo! Esse anjo está no projeto desde o primeiro momento e a pesquisa que ele fez enriqueceu e contextualizou o filme de forma magnífica”.

Dumont levantou o dinheiro no Brasil (governo do Ceará entrou forte, Teixeira nasceu no Cariri) e EUA (investidores privados). É ela quem apresenta o filme na frente da câmera e é vista pontualmente costurando informações e pesquisando o seu próprio passado. Seu pai faleceu em 1979, na época Dumont fazia a novela Marrom Glacê, na Globo. Ela casou e mora nos EUA já há 22 anos. A reportagem do JC tentou comunicação com Dumont, que estava essa semana em Paris, antes de vir ao Recife, mas sem sucesso.

Num filme sobre um pai, é o depoimento da mãe que deixa algumas impressões fortes e define o tom pessoal do filme para Dumont. Com cerca de uma hora de projeção, uma entrevista tão doce quanto dura com a ex-esposa de Teixeira coloca, de forma muito pessoal, as coisas em perspectiva. Esse momento foi muito comentado quando da estréia do filme no último Festival do Rio.

Sobre essa sequência do filme, Dumont nos falou que « foi difícil em termos pessoais. Por outro lado foi um resgate/exorcismo tremendo na nossa relação. Havia muito ressentimento e culpa e foi maravilhoso termos tipo a oportunidade de examinar aquilo tudo. No final daquela entrevista, me senti livre para amar a minha mãe de novo e compreendê-la. E na verdade, ao meu pai também. Tornou ele humano pra mim. Quanto a colocar aquilo tudo no filme, foi a minha vez de ter a delicadeza de sair do caminho e deixar o diretor trabalhar em paz. Esse filme é do Lírio Ferreira ».

Com entrevistas filmadas em película por Walter Carvalho, Lirinha, Otto, Nelson Motta, Gal Costa, Chico Buarque analisam o legado de Teixeira, ou simplesmente cantam-no, caso mais claro de convenção cedida pelo filme. Ouvir versões diferentes de Asa branca nas vozes de Maria Bethânia, David Byrne e Caetano Veloso resulta em audições particulares que realmente ilustram o alcance de uma peça musical que faz parte do DNA cultural do Brasil.

Teixeira, que também foi deputado federal e autor de mais de 400 músicas, deixou marcas indeléveis na cultura brasileira através de, especialmente, a música e o baião. O filme, enquanto validação de um artista que talvez não tenha os créditos que merece, também se mostra um desejo claro. O fato de ser o compositor mais discreto e Gonzaga o astro pop de gibão e sanfona sempre exposto também explicam isso.

Com a carreira do filme em festivais internacionais (Amsterdã, Miami, Toulouse, Cartagena) perguntamos como esse personagem tão brasileiro, e sua música, tem sido percebido no exterior. “Por onde passou, o filme tem tido uma recepção muito calorosa. Pessoas que conhecem a história se emocionam e as que não conhecem ficam compenetradas com a descoberta. Não é raro ver gringo agradecendo pela sessão ou fazendo um depoimento pessoal.”

Coletiva Gavras



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Costa Gavras recebeu a imprensa nacional, presente no Cine PE, durante concorrida coletiva ontem, num hotel em Boa Viagem. Falando espanhol fluente, Gavras, que é grego com cidadania francesa, respondeu perguntas durante aproximadamente uma hora. Informou que seu espanhol é chileno, e lembrou do período de Salvador Allende, antes do golpe sangrento de Augusto Pinochet, época em que filmou Estado de Sítio. Gavras falou da sua formação política em Paris, sobre a tecnologia que muda no cinema (é o diretor da Cinemateca Francesa, em Paris) e sobre sua relação com a América Latina, que inclui, ao longo da sua trajetória, uma relação de amizade com Miguel Arraes.

“A formação política percebida nos meus filmes talvez venha da vida, por ter vivido num país (a Grécia) ocupado pelos nazistas, depois vitimado por uma guerra civil que ainda passou pela Guerra Fria. Já na França, tive muita sorte de encontrar pessoas como Yves Montand e Simone Signoret, sem radicalismos ou preconceitos e muito pragmáticas na forma como vêem a sociedade”.

Perguntado se seus filmes deixaram de ser políticos ao longo dos anos para tomar o rumo do comentário social, Gavras, 76 anos, disse não ver a diferença entre filmes políticos e de cunho social. Às vezes é mais importante termos um filme de aspecto social, e aí sermos inevitavelmente políticos”.

Sobre Eden a L’Ouest, seu filme mais recente e que abriu o Cine PE na segunda à noite, alguns colegas reagiram à rapidez narrativa do filme. Gavras respondeu, “nos últimos 20 anos, tanto para os espectadores como para nós, realizadores, a linguagem do videoclipe mudou completamente a capacidade de entender o cinema. Impossível não pensar nesse tipo de mudança ao fazer um filme. Quis fazer um filme que tivesse essa pressa, mas sem apelar para a gag. Jacques Tati dizia que não é necessário fazer gags para ser engraçado, basta olhar para a sociedade”.

Com a América Latina presente em dois filmes memoráveis da trajetória de Gavras (Estado de Sítio, ambientado no Uruguai e filmado no Chile, e Desaparecido – Um Grande Mistério, filmado no México e ambientado no Chile), Gavras relatou que “a América Latina é um laboratório social e político para o observador. Essa sua impressão teve início quando buscava a história de um embaixador americano que foi da Grécia para a Guatemala. Investigando esse personagem, encontrou também um tema recorrente nos seus filmes, a intervenção dos EUA na política do sub-continente. “Perdi grandes amigos para a repressão política nesse período”.

A reportagem do JC perguntou se procedia a informação de que Gavras teria tido uma relação de amizade com Miguel Arraes. “Fui muito próximo de Arraes durante o exílio. Já nos anos 90, creio que no último governo dele, viajei com uma delegação francesa ao Chile e passamos algumas horas no Recife. Arraes falou muito mais comigo do que com o primeiro ministro francês...”

Anteriormente, Gavras conheceu Arraes na época em que pesquisava um personagem de Estado de Sitio, um americano que dava consultoria de tortura e métodos de repressão, personagem que, no filme, cita nominalmente Pernambuco como foco de violência numa cena em que o mapa e bandeira do Brasil são usados usado como pano de fundo. A cena em questão foi o principal motivo apontado pela censura federal do governo Médici para proibir o filme no pais, na época.

Nossos Ursos Camaradas

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Fernando Spencer, 82 anos, escreveu por mais de 30 anos para o Diario de Pernambuco, equilibrando ainda, ao longo dos anos, uma prolífica realização em cinema, suficiente para lhe reservar lugar de respeito na trajetória do cinema pernambucano. Spencer mostrou Nossos Ursos Camaradas fora de competição no Cine PE.

Nossos Ursos Camaradas é a nova obra de uma filmografia que já está na casa das 30 produções, marcando 40 anos de carreira para o cinema de Fernando Spencer, esse ano.

Seu novo filme é uma crônica bem humorada com aspecto de filme documentário antropológico misturado com uma graciosa narrativa popular. Investiga o papel que os ursos têm no imaginário pernambucano a partir de debochadas subversões que o lero peculiar das ruas é capaz de nos permitir, e esse urso é muitas vezes o amante da esposa, aquele que põe um belo par de chifres no marido inocente.

O filme surgiu de um pedido que Spencer fez ao amigo, escritor e folclorista Mario Souto Maior (falecido em 2001), um dos maiores pesquisadores da cultura em Pernambuco. “Pedi que me desse não mais do que uma lauda sobre os ursos, da La Ursa do carnaval ao urso que sai pela janela quando o marido o flagra na cama com a mulher”. Com 12 minutos de duração, o filme é narrado por Renato Phaelante, colaborador de Spencer já há algum tempo, e seu colega de Fundação Joaquim Nabuco (Spencer esteve à frente da Cinemateca da instituição entre 1980 e 2000).

Nossos Ursos Camaradas custou R$ 140 mil, um curta caro e, para a filmografia de Spencer, sua super produção. R$ 80 mil vieram pela Petrobras como uma incomum carta branca de realização para Spencer, honra que o levou a associar-se à empresa Página 21, que já administrara o importante projeto de lançar boa parte da filmografia de Spencer em DVD, há dois anos. Os produtores levantaram mais R$ 60 mil para o curta.

Conhecido como o cineasta das três bitolas (super 8, 16 e 35mm), Spencer deveria acrescentar uma quarta, o digital. Semana passada, ao reunir-se com a imprensa, reclamava do tempo que levou para que o filme ficasse pronto. “Minha escola é o super8, bitola que me oferecia um verdadeiro laboratório dentro da câmera”. Perguntado se gosta de poder ver o que filma no monitor digital das filmagens modernas, o cineasta afirma que “não, prefiro ter meu vistor analógico para ver o que eu quero”.

Superbarroco



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O filme Superbarroco, imaginado por Renata Pinheiro, é um desses objetos filmados não identificados que Pernambuco tem produzido com certa constância, e sem maiores explicações. Não há piadinhas, não há exatamente um início, meio ou fim, mas há algo que parece faltar a boa parte dos filmes que vemos no mundo, a imagem. O filme de Renata Pinheiro exibe hoje à noite na mostra competitiva de curtas do Cine PE, três semanas antes da sua exibição em Cannes, onde foi selecionado para a prestigiosa Quinzena dos Realizadores.

Pinheiro, que tem uma carreira reconhecida como diretora de arte (Baixio das Bestas, A Festa da Menina Morta), função que tem participação importante no visual de um filme, é também artista plástica. Em alguns casos, no cinema, esse tipo de credencial explica a total falta de interesse numa narrativa linear e uma viagem de maionese sem volta e sem fim. Não nesse caso.

Superbarroco de fato ejeta uma narrativa comum para nos apresentar um homem (Everaldo Pontes, ator na cara e no corpo) e, talvez, o que se passa pela sua cabeça, ou um pouco dos seus sentimentos. Não é exatamente simples expressar esse tipo de coisa em cinema, investir em sensações e não tanto em ações, e eis que Pinheiro, Pontes e o fotógrafo Pedro Urano aos poucos, e de maneira potente, nos levam lá.

Alguns poderão achar estranha a afirmação acima de que falta imagem na maior parte de filmes hoje no mundo. Falta pelo fato de a imagem em cinema ser tão ampla no que ela nos traz, podendo sair da obviedade do “isso é isso”. Em Superbarroco, temos muitas vezes a superposição de imagens diferentes de uma vez só, nos lembrando que a água, a comida ou a arquitetura de uma casa podem ser uma extensão de nós mesmos, dos nossos sentimentos e das nossas lembranças. Exatamente como o cinema.

Saturday, May 2, 2009

Eiffel (curta)





por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Para alguns, as duas torres residenciais gêmeas com dezenas de andares, construídas no Cais de Santa Rita e na frente do bairro de São José, são duas verrugas desproporcionais no seio da cidade. Para outros, os dois prédios são mais uma prova de progresso, sinalizando um Recife que cresce para cima, na vertical e de cima para baixo. Vendo o curta-metragem Eiffel, do jornalista e crítico de cinema pernambucano Luiz Joaquim, é fácil identificar que seu ponto de vista reside nos que integram o primeiro grupo. O filme passa hoje à noite na programação do Cine PE, na sessão dedicada aos curtas digitais.

O filme surgiu para Luiz Joaquim de uma vontade de se expressar sobre o Recife. “A idéia veio ano passado, quando revia Os Incompreendidos” (Les 400 Coups), o primeiro filme do cineasta francês François Truffaut, feito em 1959. Na abertura do filme, a câmera percorre Paris com o ponto de vista de alguém que sempre observa ao longe a Torre Eiffel.

“Me peguei deliciado com as imagens de abertura do filme de Truffaut, uma dedicatória de amor a Paris. Pensei que no Recife não poderia fazer algo assim, em torno de um único monumento, para homenageá-la, exceto por uma construção que emprestava uma imagem oposta do orgulho que tenho pela minha cidade, um monumento polêmico, mas gerador de uma polêmica velada, que pouco se discute nas mídias tradicionais locais”, disse à reportagem do JC, semana passada.

Admirador do cinema de Truffaut, Joaquim acredita que criando um vínculo entre a Torre Eiffel de Os Incompreendidos e as duas torres recifenses do seu próprio filme, ele apostaria numa simetria entre beleza e feiúra, “uma crônica audiovisual que, se fosse exibida em algum lugar, poderia chamar a atenção para isso que me incomoda como cidadão. Quando olho para aquilo, me vem sempre a idéia de que moro numa província. E me deparar com isso todo dia é ruim. Creio que esse filme não é apenas contra uma opção tomada por uma construtora, mas sobre uma combinação de fatores que permitiram que que algo do tipo pudesse acontecer”.

Sobre sua primeira realização cinematográfica, Luiz Joaquim, que é crítico de cinema da Folha de Pernambuco, diz que é um jornalista, “habituado a fazer tudo sozinho, e vi uma tranquilidade na realização e montagem, por isso segui em frente. Mas vejo que, na verdade, a simplicidade da realização e edição não diminui em nada o trabalho”. Eiffel foi produzido pela Símio Filmes com montagem do cineasta Daniel Bandeira (Amigos de Risco).

Essa sessão no Cine PE poderá ser importante no sentido de oferecer um raro retrato crítico do Recife hoje, como espaço urbano, diante de uma platéia de duas mil pessoas ou mais que poderá se ver na tela através de imagens cuidadosamente escolhidas da própria cidade.

Eiffel integra o que já se configura uma onda notável de filmes pernambucanos que questionam diretamente o traçado urbano de cidades brasileiras, e que tem no Recife um dos exemplos mais notáveis pela completa falta de planejamento e critério quando o tema é o espaço urbano. Menino Aranha (exibido ontem), de Mariana Lacerda, sobre a arquitetura do medo através da altura como dispositivo de segurança também está na seleção 2009 do Cine PE, e ainda veremos em breve o longa metragem inédito Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, também sobre um conceito social de construção, arquitetura e engenharia.

Costa Gavras



Costa Gavras socializa com fã na praia de Boa Viagem, Recife (foto KMF)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Aos 76 anos, Costa Gavras tem uma Palma de Ouro em Cannes por Desaparecido – Um Grande Mistério (Missing, 1982), sua primeira experiência com dinheiro de Hollywood, além de ter recebido o Urso de Ouro no Festival de Berlim com outra experiência nos EUA, o thriller Muito Mais Que um Crime (The Music Box, 1989). Seu filme síntese talvez seja Z (1969), que deu-lhe o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1970, obra que completa agora 40 anos e que terá uma sessão especial apresentada pelo próprio Gavras dentro da programação do Cine PE.

Sua trajetória parece dar-lhe amplas credenciais para estar à frente, atualmente, da Cinemateca Francesa, em Paris, uma das instituições mais respeitadas do mundo dentro do seu perfil. Inicialmente exilado na França nos anos 60, sua carreira foi iniciada na Grécia, naquela década, e é repleta de vitórias alcançadas com um cinema facilmente descrito como político, construído em cima de uma estética direta e voraz.

Na verdade, seus filmes tiveram uma grande relevância na época em que foram feitos, captando uma revolta contra um estado de coisas num período revolucionário em inúmeros aspectos, focando muitas vezes a repressão de regimes políticos contra o cidadão comum, que lutava sob a violência pelo direito de expressão e democracia.

Por ser tão atrelado a essa época, os principais filmes de Gavras, da sua fase 60/70, parecem ter assumido o valor de cartas históricas, atreladas ao momento por eles descritos. Tanto Z como Estado de Sítio (État de Siège, 1972) e Sessão Especial de Justiça (Section spéciale, 1975), foram queridinhos da censura no Brasil durante o período militar, todos cortados ou simplesmente proibidos para a exibição, aspecto, claro, que apenas aumentou a voltagem dos mesmos. Marcaram época em seus respectivos lançamentos tardios já na chamada abertura.

Uma cena de Desaparecido – Um Grande Mistério, lançado no Brasil pela Universal Pictures já dentro do período pré-democrático (1982), ilustra o toque Gavras. Ambientado no Chile, durante o golpe sangrento de Pinochet no governo de Salvador Allende, temos a história de um pai (Jack Lemmon), empresário americano de direita, que aos poucos acorda para Jesus no sentido de entender a participação do seu governo na política estrangeira. A cena em questão nos mostra centenas de homens reunidos e despidos nos túneis de um estádio de futebol. Um dos responsáveis engravatados à frente do esquema de tortura e morte fala com sotaque brasileiro, sutil colocação de como regimes fortes compartilhavam especialistas em repressão. Esse é o toque Costa Gavras.

Z será exibido esta semana dentro de uma curta série de quatro filmes pinçados da filmografia Gavras (são 17 longas ao todo), e que incluem seu mais recente Eden a L’Ouest, estréia recente nos cinemas franceses.

Os outros dois filmes programados esta semana são Amém (2002), sobre o oficial nazista Kurt Gerstein, engenheiro químico por trás do gás Zyklon-B, usado nas câmaras de extermínio dos campos de concentração sem que ele soubesse, inicialmente. Por último, passa O Corte (Le Couperet, 2005), sátira social sobre um desempregado que, para vencer a concorrência, decide, literalmente, eliminá-la.

1969 - Z, que deu a Gavras o Oscar de Filme Estrangeiro em 1970, parecia traduzir com precisão o clima de questionamentos políticos daquele tempo, da mesma forma que A Batalha de Argel (La Battaglia di Algeri, 1966), de Gillo Pontecorvo, o fizera três anos antes, ou Medium Cool, de Haskell Wexler, fez também em 69, nos EUA.

O filme de Gavras investiga desdobramentos que afetaram o cenário político na Grécia em 1963, quando o líder da oposição - Gregorios Lambrakis – foi morto num acidente de automóvel. A investigação desse acidente nos leva à revelação de um assassinato político e aos dilemas entre justiça e poder. A imagem final de uma Irene Papas reagindo a um desfecho que, num filme americano seria triunfal, talvez ajude a entender a ressonância do filme até hoje

O efeito moral e político de Z gerou discussões inflamadas não apenas sobre o poder que o cinema pode ter ao questionar um estado de coisas, mas também na forma como o filme foi capaz de servir de reflexo para os problemas políticos de cada sociedade, num mesmo tempo. Na Grécia, Papas e o próprio Gavras foram banidos do país, junto com o filme. Nos EUA, Z foi tido como anti-americano e, no Brasil, censurado.

Não deixa de ser curioso que, com a chegada dos anos 80, os filmes de Gavras tenham se voltado para dramas internos e individuais em personagens que entram em choque com erros do passado e, mais recentemente, com a sociedade aberta como um todo. Foi também nessa época que passou a firmar parcerias com Hollywood, selando as observações de detratores de que seu cinema sempre foi hollywoodiano, provável preconceito com um autor europeu que preza a montagem rápida, a câmera móvel e, ao seu modo, e sob a sua ética, personagens que poderiam ser descritos como heróis.

ÉDEM - No último Festival de Berlim, onde Gavras apresentou Eden a L’Ouest, ele conversou comigo sobre o filme, cronometrado como uma fábula veloz sobre a Europa hoje. Um interessante subtexto do filme é a forma como o personagem principal, Elias, vê-se explorado sexualmente por homens e mulheres.

Gavras comentou: “O imigrante ilegal é extremamente frágil, na França são cerca de 350 mil trabalhadores ilegais, para você ter uma idéia. Com o temor constante de ser deportado para uma realidade que ele ou ela não deseja mais, há uma facilidade de se sujeitar a tudo. Isso está no filme em momentos que exploram precisamente essas situações relacionadas ao sexo, como o homem do resort que o apalpa, ou a mulher alemã que o utiliza sexualmente. São idéias muito específicas escritas por mim e pelo co-roteirista Jean-Claude Grumberg em cenas que teriam como eixo questões que nos afligem como seres humanos.”

Sobre a idéia de manter a nacionalidade do personagem desconhecida, Gavras comenta, “me parece correta da seguinte forma: ao atrelar um fundo político e social a Elias, identificando a sua origem, você automaticamente traz o peso histórico, o drama dessa sua pátria mãe. Eu não queria isso, pois Elias deveria ser visto pelo que ele é, um homem, e não pela sua origem”.

A primeira parte do filme, toda ambientada num clube fechado, sugere uma versão artificial da própria Europa e, em alguns momentos, o espectador talvez acredite que Elias está preso lá.

“É verdade que existia essa idéia de ‘dublar’ uma idéia sonhada de Europa, do ocidente, através do clube fechado durante todo o filme. De qualquer forma, evoluímos no sentido de deixar o resort depois da primeira parte e levar Elias na sua viagem até Paris. A idéia foi abandonada porque, de qualquer forma, esse é um paraíso falso até mesmo para os europeus, pois no resort é possível passar alguns dias, ou uma semana, e onde tudo é caríssimo. É um lugar falso, mesmo se queiramos vê-lo como uma representação da Europa, que é um espaço real.”

Sobre o aspecto passivo do personagem central, Gavras o descreve como uma versão do Cândido, de Voltaire, “um pouco como uma criança que descobre tudo, e é através dessas descobertas que eu mostro as contradições de nossa sociedade”.

Eden a L’Ouest (Cine PE)



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


É inegável a sintonia de Eden a L’Ouest (ou O Édem no Oeste, França/Grécia, 2009), o mais novo filme de Costa Gavras, em relação a temas atuais que ganham os noticiários do mundo. O longa metragem abre, amanhã à noite, a edição 2009 do Cine PE – Festival do Audiovisual, com a presença do próprio Gavras. O filme fechou o último Festival Internacional de Berlim e terá sua primeira exibição no Brasil no Recife.

O tema de Eden a L’Ouest (O Edem é no Oeste) é o grande tema do cinema europeu já há alguns anos: o choque entre ricos e pobres, numa história narrada pela trajetória de um clandestino pobre na Europa rica.

Foi semana passada que as agências de notícias informaram que um navio turco, o Pinar, finalmente recebeu autorização do governo italiano para atracar depois que o barco salvou 140 migrantes ilegais africanos de duas embarcações clandestinas que estavam para afundar no Mediterrâneo. O Pinar passou quatro dias em águas internacionais esperando que a Itália e sua vizinha Malta, também da Comunidade Européia, resolvessem de quem seria a responsabilidade de aceitar os náufragos segundo as leis internacionais de busca e salvamento. A Itália terminou aceitando os migrantes.

O filme de Gavras começa exatamente num desses navios carregados de gente, onde Gavras, sem perder tempo e com a ligeireza que lhe é tão peculiar, estabelece uma das principais idéias do filme que é a perda da identidade, perda esta em nome da sobrevivência. Logo somos apresentados ao nosso personagem principal, Elias (o ator italiano Riccardo Scamarcio), um rapaz de origem não especificada (seria da Armênia?) que irá começar uma epopéia moderna pontuada por detalhes clássicos que não escondem a base como sendo a da viagem de Ulisses.

O mar é o Egeu e Elias vai parar no Édem, um resort grego com praias particulares (uma das grandes perversões do poder, privatizar um pedaço de mar) que bem poderia ser o cenário de todo o filme. Esta versão irônica da Europa vem completa com milionários russos (o temido novo poder da região), hóspedes à procura de prazeres sexuais, entretenimento programado e fartura de bebida e comida, elementos estrangeiros para um visitante clandestino que não fala nenhuma das línguas do continente.

E logo entendemos que Elias será uma bola de fliperama batendo e sendo rebatido, personagem passivo que apenas reage aos estímulos de terceiros. Creio que é fator inédito na obra de Costa Gavras, cineasta que sempre desenvolveu personagens ativos, caçadores da verdade e da mudança. Seu Elias é uma alma boa e pura que tem em Paris o destino final da sua viagem. Suas interações são sempre pacíficas e seu senso moral afiado.

Nos piores momentos do filme, lembrei do personagem de João Miguel, em Estômago, o ignorante gente fina que vence por ser um safo nato. Nos melhores, Gavras parece sair ganhando pela energia louca do filme, energia esta que parece mais física do que no campo das idéias.

Se Gavras sempre deixou sua marca através da agilidade das suas tramas (Z, aos 40 anos de idade, mantém firme um ritmo moderno), Eden a L’Ouest talvez esteja na pole position da velocidade narrativa. Piscou o olho, perdeu duas cenas importantes, e essa observação sobre ritmo (montagem, câmera) é válida para um realizador de 76 anos que, aliás, continua fascinado pela presença da mídia onipresente (equipes de TV nos mais estranhos lugares pontuam o filme), algo que já abordara numa das suas produções americanas, O Quarto Poder (Mad City, 1997).

PS: Misteriosamente (para mim), não entendo como Gavras escolheu acabar seu filme com plano tão feio e mal realizado.

Filme visto no Berlinale Palast, Berlim, abril 2009

Eu Te Amo, Cara



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Parece existir um nicho de mercado formidável que toma como alvo os bilhões de homens emocionalmente imaturos que, mesmo na casa dos 30, tentam lidar com a vida adulta. Parte dessa imaturidade pode, inclusive, estar relacionada à natureza da chamada preferência sexual. Exemplos recentes são os muito engraçados (e grotescamente conservadores) O Virgem de 40 Anos e Superbad, da escola Judd Apatow. Essa leva ganha mais um expoente em Eu Te Amo, Cara (I Love You, Man, EUA, 2009), filme estranhamente gay-masculino de John Hamburg.

O homem em questão é Peter (Paul Rudd, ator simpático dos filmes de Apatow, aqui finalmente como principal), que acaba de pedir sua namorada Zooey (Rashida Jones) em casamento. Promete-lhe o tipo de garantias futuras de estabilidade financeira que envolvem negócios imobiliários. Eu tenho certeza que a piada não foi planejada pelos roteiristas (filmes são produzidos com grande antecedência), mas o efeito junto à crise que ataca a economia dos EUA é engraçado, vide Sim Senhor, com Carrey.

O filme pinta Zooey como uma barbie, rodeada de amigas barbies que só falam em casar ou em casamento, ou nas seguranças garantidas pela instituição do casamento. É uma imagem deprimente das mulheres, e a desculpa é o foco ser, de fato, o elemento masculino. Uma interpretação possível é a de que o olhar gay masculino do filme começa a mostrar suas unhas afiadas no todo.

Peter descobre que não tem um amigo sequer que possa chamar para ser seu padrinho. Olha em volta e passa a entender que todo homem tem amigos, e as imagens de grupos e grupos de machos às gargalhadas nas ruas e carros podem ser realmente assustadoras e muito engraçadas, especialmente por obedecer a cartilha de linguagem básica onde alguém passa a olhar em volta para entender o que se passa, em planos e contraplanos. Acho que a última vez que vi isso com tanta sem vergonhice foi em Procura-se Amy (Chasing Amy, 1997), de Kevin Smith, onde Ben Affleck finalmente entende (ao olhar para os lados, para frente e para trás) que está num bar lesbo.

Peter descobre que até seu pai tem dois grandes amigos, um deles o próprio filho caçula gay (Andy Samberg). Gay, portanto, seria uma das palavras chave do filme, que dá início a um inusitado jogo de sugestões homo para a busca de Peter por alguém que possa chamar de amigo, tema e tom abordados de manera bem diferente em Superbad.

Aqui, no entanto, a coisa fica ainda mais inusitada, uma vez que essa busca, claramente gay no tom, nunca realmente se concretiza, provável intenção de discutir um mundo de aparências cuidadosamente projetadas. Peter não parece de fato assumir a homossexualidade sugerida a cada nova cena, especialmente na sensação acumulada de que Zooey é uma chata e de que bem mais divertido é passar horas com homens.

Efetivamente, Peter passa suas horas com Sydney (Jason Segel), seu novo amigo, um investidor meninão, típico californiano gente boa, dono de uma casa cheia de brinquedos que sugerem ter ele estacionado na adolescência (vide O Virgem de 40 Anos). Não deve ser coincidência que Sydney seja um nome híbrido, usado em homens ou mulheres, embora Sydney, o personagem em si, mostre-se um heterossexual dos mais ativos.

Há um clima geral de disfarce nas claras intenções de Eu Te Amo, Cara que aumentam o interesse por esse objeto estranho na produção hollywoodiana. O filme não parece crer que seja possível para um homem achar companhias femininas interessantes o suficiente para viver tranqüilo sem a companhia prolongada, desejada e irritante de amigos macho. De fato, o efeito geral é o de um comentário sarcástico sobre o tipo de masculinidade que mal consegue esperar a hora de livrar-se da mulher para ir encher a cara com os amigos, falar bem de futebol e mal das mulheres, fenômeno estranhíssimo que a sociedade vê como prova de masculinidade.

Ao final, Eu Te Amo, Cara parece celebrar o casamento como selador das aparências mantidas (não percam o plano do segundo grande amigo do pai) num mundo que é, em grande parte, gay, gay, gay. Engraçada provocação.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, abril 2009

Cannes 2009



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Saiu a tão esperada seleção 2009 do Festival de Cannes. Chama a atenção na lista desse ano na mostra competitiva uma espécie de colosso de grandes nomes do cinema mundial como Pedro Almodóvar, Lars Von Trier, Quentin Tarantino, Ang Lee e Michael Haneke, para citar apenas cinco, sensação ainda mais forte do que em outros anos. Na prestigiosa mostra paralela Un Certain Regard está o filme brasileiro À Deriva, do cineasta pernambucano radicado em São Paulo, Heitor Dhália. Eduardo Valente confirma exibição de No Meu Lugar na seleção oficial com sessão especial. O curta-metragem do Recife Superbarroco, de Renata Pinheiro, também estará em Cannes na Quinzena dos Realizadores.

PALMAS - Apostando nos pesos pesados do cinema de autor feito no mundo atualmente, Cannes confirma a sua vocação para seleções focadas que explicam a relevância do festival, que chega esse ano à sua 62a edição. Boa parte dos selecionados são freqüentadores premiados de Cannes, alguns com a Palma de Ouro. Nessa categoria, estão Lars Von Trier (Palma de Ouro em 2000 por Dançando no Escuro), que esse ano apresenta o seu filme de horror assumido Anticristo. Ken Loach (Palma por Ventos da Liberdade) apresenta Looking For Eric, Jane Campion (O Piano) traz Bright Star e Quentin Tarantino (Pulp Fiction) sua reinterpretação para uma aventura de guerra com Inglorious Basterds, talvez o primeiro filme anunciado na rede de boatos dos últimos meses. Na verdade, Tarantino já anunciou, antes de começar a filmar em setembro, que o seu Bastardos Inglórios seria lançado em Cannes 2009.

RESPEITO - Se esses são os ganhadores de Palmas de Ouro, há também outros nomes que já saíram reconhecidos de Cannes com prêmios nobres. Ang Lee (Leão de Ouro em Veneza por Brokeback Mountain) faz par com Tarantino nos dois filmes americanos esse ano na competição, rara participação fraca (em números) do cinema americano de autor tão valorizado pelo festival francês. Lee apresenta Taking Woodstock, revisão do evento pop-musical que definiu uma geração.

Pedro Almodóvar fará a estréia internacional (o filme já foi lançado na Espanha) de Los Abrazos Rotos, Michael Haneke (Cachê, Funny Games) chega com um novo filme (em preto e branco), Das Weiße Band, que o leva de volta à Áustria depois de seus últimos filmes terem sido filmados na França e EUA. O coreano Park Chan-Wook, que fez muita gente arregalar os olhos com Old Boy em 2005, vem agora com Bakjwi (Sede), sobre um vampiro, e Elia Suleiman (do ótimo Intervenção Divina, premiado em 2002) apresenta The Time That Remains, sobre a história recente da Palestina.

Os veteranos Marco Bellochio (Bom Dia, Noite) e Alain Resnais (Medos Privados em Lugares Públicos) também estão lá. Bellochio com Vincere, sobre a amante do ditador Benito Mussolini, Resnais (aos 87 anos no próximo dia 3 de junho), e um dos nomes por trás da Nouvelle Vague há 50 anos, exibirá Les Herbes Folles.

JOVENS - Há ainda os realizadores mais jovens que Cannes parece ter como investimento futuro. Brillante Mendoza, cineasta filipino, volta à competição com Chop Chop, um ano depois de apresentar o excelente Serbis. A escocesa Andrea Arnold (Red Road, em 2005) traz Fish Tank e a espanhola Izabel Coixet (Minha Vida Sem Mim), claramente o nome mais inexpressivo da seleção, projeta Map of the Sounds of Tokyo. Veremos. O cineasta franco-argentino Gaspar Noé mostra a produção francesa Soudain Le Vide. O filme anterior de Noé, Irreversível, é algo que ninguém esquece, projetado aos urros de horror no festival de 2002 como um tipo de experiência em imagens de choque.

Além de Noé e Resnais na competição, a participação francesa impressiona esse ano. Jacques Audiard (De Tanto Bater Meu Coração Parou) terá seu novo filme, Un Prophète, ao lado do jovem Xavier Giannoli, 37 anos, com A L'origine, totalizando quatro filmes falados em francês, embora a França e seus euros estejam espalhados por toda a mostra oficial no extenso sistema de co-produção entre europeus, hoje.

Por último, chama a atenção mais uma safra rica trazida da Ásia, região geográfica muito destacada pelo festival, em ciclos. Além do filipino Mendoza, e do coreano Park Chan Wook, temos Johnnie To, de Hong Kong, e seu sempre prazeroso cinema de gênero com Vengeance. Há promessas de controvérsia via sexualdade filmada em Spring Fever (Febre de Primavera), de Lou Ye (China), seu anterior, o muito bom Summer Palace foi proibido pelo governo chinês. Um dos mais esperados da seleção é o novo filme de Tsai Ming Liang (O Sabor da Melancia), da Malásia, que agora filmou na França Visages (rostos).

DHÁLIA – O cineasta Heitor Dhália chega a Cannes com seu terceiro longa metragem, À Deriva. Esse pernambucano foi trabalhar em São Paulo no mercado publicitário nos anos 90, fez o curta Conceição (1999), no Recife, e adaptou Crime e Castigo na forma de uma crônica moderna no seu primeiro longa, Nina (2004). Seu segundo filme, O Cheiro do Ralo (2006) tornou-se um enorme sucesso de perfil alternativo, com aproximadamente 200 mil ingressos vendidos no Brasil, um feito e tanto.

Ao tornar-se diretor da casa, na poderosa produtora O2 de Fernando Meirelles, partiu para desenvolver projetos internacionais que são o perfil da produtora. A O2, com a força de Cidade de Deus, que tomou Cannes de assalto em 2002, emplacou na mostra Un Certain Regard do festival O Banheiro do Papa (2007) e, ano passado, teve o enorme prestígio de abrir o festival com Ensaio Sobre a Cegueira, do próprio Meirelles. Segundo o site da O2, À Deriva estréia no Brasil ainda nesse primeiro semestre. O filme tem no elenco o ator francês Vincent Cassel (Irreversível), Cauão Reymond, Camilla Belle e Débora Bloch.

Em declaração ontem à imprensa, Dhália disse "Ter um filme selecionado em Cannes é ver um sonho se realizando. Há dois anos, estive lá justamente para anunciar o projeto de ‘À Deriva’. Quem é cinéfilo sabe o que essa notícia significa”, afirma Heitor Dhalia.

Terra



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Os melhores documentários de observação da natureza são ingleses, feitos pela BBC, e já existiam décadas antes de a cultura da televisão a cabo espalhar pelo mundo o onipresente Discovery Channel, que também alimenta-se do mesmo material britânico. Quem já não deitou num sofá para ver lutas territoriais entre antílopes no Quênia ou a fuga cruel e desesperada de um filhote de elefante das garras de um leão faminto? É tudo filmado de uma forma tecnicamente soberba, cativante, o tipo de coisa que está à mostra em Terra (Earth, Inglaterra/Alemanha, 2007), versão condensada para uma única sessão de cinema (90 minutos) da série Planet Earth (Planeta Terra), produzida pela BBC com 12 capítulos de uma hora cada.

O filme parece ter sido montado a partir do infindável arquivo da BBC com imagens da natureza em luta e em harmonia, com o melhor que a tecnologia de imagem é capaz de permitir. Boa parte do que vemos no filme pode ser achado em fragmentos postados no YouTube, muito embora escolher bem uma sala de cinema com ótima projeção deverá fazer justiça à experiência de ver essas imagens na tela grande.

Terra é prazeroso, não obstante a narração solene (dublada) que, em grande parte, lembra uma descrição para deficientes visuais.Não deixa de ser curioso que um filme tão cheio de imagens eloquentes ainda acredite na gordura de uma narração impostada que só reforça o que já estamos vendo. Quer uma sugestão? Leve um player mp3 e crie sua trilha sonora pessoal com fones de ouvido. Dependendo da escolha musical, Terra pode ser ainda mais interessante.

Meticulosamente embalado para satisfazer o mercado de famílias que vão juntas ao cinema, a poderosa Disney comprou os direitos de distribuição e lança o filme sob o selo Disney Nature, clara tentativa de explorar comercialmente o eco-filão que rendeu milhões de dólares para produções francesas como Migração Alada (Le Peuple Migrateur, 2001) e a Marcha dos Pingüins (La marche de l'empereur, 2005). A palestra powerpoint Uma Verdade Inconveniente (An Inconvenient Truth, 2007) também merece lembrança, onde Al Gore nos dá um “se ligue” sobre os rumos que a raça humana tem dado ao planeta, ganhando um Oscar em troca. Escolheram também lançar essa semana por causa do Dia da Terra (22 de abril).

Em Terra, a lição é mais amena. O eixo narrativo é um ano inteiro de ciclos naturais, começando no pólo norte e terminando no pólo sul. Se é que há personagens principais, estes seriam uma família de ursos polares, vítimas diretas das mudanças climáticas, principal tema em discussão na área. As imagens de uma mãe e seus dois ursinhos polares saindo da hibernação, ou a do urso pai à procura de comida, dão início às indagações de espectadores que têm a facilidade de pensar aspectos como técnica e logística: “como filmaram isso?”. A pergunta volta à mente inúmeras vezes ao longo da projeção.

A sucessão de imagens espetaculares mostra situações como cegonhas vencendo as montanhas do Himalaia e enfrentando rajadas congelantes de vento ou, no momento mais cartunesco do filme, patinhos mandarim bebês deixando o ninho pela primeira vez em vôos desengonçados e corajosos. O investimento em imagens “família” estimula uma identificação entre bichos e gente, e a seqüência onde a ave do paraíso da Nova Guiné arruma a casa para receber uma pretendente, seguido de uma dança muito louca para ganhar a menina é uma coisa engraçada e estranha.

(aliás, veja aqui e caia para atrás de graça com a dor alheia)



Imagens de famílias (elefantes, pingüins, baleias jubarte) reforçam os laços, mesmo que pequenos filhotes sejam vítimas de predadores ferozes (leões, linces, tubarões brancos). Essas seqüências de terror natural são calibradas por uma montagem ‘censura livre’ que não deixa dúvidas sobre a crueldade da natureza, mas nunca mostrando uma gota sequer de sangue. Outras imagens espetaculares feitas com lapso de tempo (a câmera permanece um mês inteiro parada, filmando algumas imagens cada dia) onde toda uma paisagem muda com o fim de uma estação e a chegada da próxima chamam a atenção pela precisão e também para um aspecto cultural.

Fica a sensação, especialmente para possíveis utilizações do filme como material didático, que espectadores dos trópicos saem com a sensação de que sua região não foi representada. Há uma breve passagem pelas florestas equatoriais, mas logo chegamos à misteriosa e fotogênica África, num todo que privilegia a vida sob as quatro estações bem definidas, especialmente sob o gelo. Talvez caiba ao cinema brasileiro filmar o próprio país como ninguém jamais o viu, menos ainda os brasileiros.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, abril 2009

Um Conto de Natal


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

O cineasta francês Arnaud Desplechin tem a capacidade de sugerir filmes que passam a sensação de estarmos diante de um livro de mil páginas. Se Reis e Rainha (Rois et Reine, 2004) já tinha isso, a idéia de um calhamaço ronda mais ainda o seu último, Un Conto de Natal (Un Conte de Noel, 2008), uma experiência e tanto em alcance dramático, excessos estilísticos e uma tapeçaria humana que é ao mesmo tempo fascinante e enlouquecedora na sua neurose. Nos convida para um final de ano com uma família cuja grande casa parece ter não apenas múltiplos cômodos, mas também túneis obscuros e passagens secretas para dentro de uma psicologia espessa que termina por oferecer mais um retrato bem impresso do bicho gente.

Vendo o filme de Desplechin, que torna-se, a cada novo trabalho, um dos principais cronistas das relações humanas atualmente em atividade no cenário internacional de cinema, pode-se pensar com curioso interesse na tradição que o cinema francês tem de filmar personagens que falam, sensação sentida outra vez recentemente em Entre os Muros da Escola, onde Laurent Cantet comanda um tiroteio verbal entre alunos e professores ambientado, em grande parte, dentro de uma sala de aula.

No caso de Desplechin, ele não apenas exercita seus quilos de texto, interpretados pelo seu elenco (Catherine Deneuve, Chiara Mastroianni, Mathieu Almaric, Emmanuele Devos) como que se num transe coletivo, mas acrescenta movimento, imagens congeladas, montagem veloz e brusca, telas divididas, direção de arte beirando o barroco, intertítulos (literários...) e referências ao próprio cinema e à música numa mistura ambiciosa. Passa a sensação de que este seria o seu último filme, e que nenhuma idéia ou imagem poderia ficar de fora.

Essa sensação talvez faça sentido levando em consideração que a matriarca da família Vuillard, Junon (Deneuve), na cidade natal de Desplechin, Roubaix, norte da França, acaba de ser diagnosticada com leucemia, doença que vitimou, anos antes, um filho aos seis anos de idade, trauma do clã e certamente dela como mãe.

Não deve ser por um acaso que os Vuillard têm uma doença sanguínea que os une, elemento literal que ilustra bem o sentido que Desplechin traz para seu cinema. Se em Reis e Rainha ele foi capaz de mostrar que uma carta tem o poder de queimar a pele pelo seu conteúdo virulento, aqui as relações biológicas entre os personagens são fortalecidas por um interesse que beira o científico e que logo se tornam questões psicológicas e mesmo espirituais.

Junon, por exemplo, teria gerado um segundo filho, Henri, com seu marido Abel (Jean-Paul Roussillon). A missão no mundo de Henri seria poder, tudo dando certo, ser um doador compatível de medula óssea para o irmão, na época, enfermo. Com a morte da criança amada, Henri teve que contentar-se com o tratamento distante dos pais, que nele depositaram uma tonelada de culpa e rejeição. Não é de se espantar que Henri adulto (Almaric, de A Questão Humana) cumprimente a mãe ao chegar para os festejos natalinos com a alegre pergunta “E aí? Continua sem me amar?”, para a qual ela responde, “Nunca amei!”.

Se fosse um filme sueco, trocas do tipo talvez agregassem peso ainda maior, mas há uma certa veia francesa que mantém a dureza dos diálogos num ritmo que parece ditado pela elegância de uma taça de vinho. Henri é claramente um homem destroçado, e sua imagem assinatura, também adequada para passar o tom do filme, é sua capacidade de cair de cara no chão numa esquina urbana, alguém que tenta se levantar depois de ter a vida inteira com a cara, literalmente, no chão.

A menção aos dramas suecos talvez não seja justa, pois temos aqui um irmão caçula do Fanny e Alexander (1983) de Ingmar Bergman, grande tapeçaria do intimismo invernal que os europeus filmam tão naturalmente em internas pontuadas por comida e bebida.

Desplechin, astuto observador das movimentações familiares, é o tipo de diretor que não apenas põe o olho nas movimentações peculiares das crianças dentro de uma casa como é capaz de escalar Chiara Mastroianni, filha de Deneuve na vida real, não como sua filha no filme, mas numa relação nora/sogra. E vejam a miniatura daquela casa, representação de toda a família como o próprio cinema muitas vezes é em relação a vida.

Filme visto no Grand Theatre Lumiere, Cannes, Maio 2008