Monday, May 17, 2010

Biutiful (competição)


Bardem, looking miserable.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Para quem, como eu, nunca admirou os filmes de Alejandro Gonzalez Iñarritu (Amores Brutos, 21 Gramas, Babel), dotados daquele estilo bombástico que parece sempre querer mostrar de maneira tão enrolada esse mundo já tão complicado, o novo trabalho dele deve registrar como seu nível mais baixo até agora. Biutiful (em competição), com Javier Bardem, passou hoje no Festival de Cannes, uma traquitana emotiva infernal. O japonês Takeshi Kitano também exibiu seu novo trabalho, Outrage, sobre outra coisa infernal, uma guerra entre yakuzas. E passou o novo Godard.

A competição esse ano não tem sido animadora. Biutiful, de Iñarritu, junta uma coleção de retratos da suposta realidade, cada um deles manipulados à exaustão pelo diretor para que tudo se feche direitinho sob seus desígnios.

É sobre um homem (Bardem) que agrega em si mesmo toda a crise da sociedade moderna mundial capitalista: faz bicos fora da lei para pagar as contas, trabalha com imigrantes chineses e africanos, tenta ajudá-los em ações humanitárias que soletram o quão BOM ele é, questiona sua espiritualidade, seu casamento, o amor, a bipolaridade, cuida das crianças, encara a morte, vê gente morta.

É um desses roteiros de máquina sobre alguém “à procura de redenção” e a primeira vez que Sr. Irritu trabalha sem a parceria de Guillermo Arriaga, que recebia parte das reclamações por aquele estilo colcha de retalho que encontrou em Babel sua vocação maior para aula de geografia.

Biutiful se passa em Barcelona, que na tela tem a feiúra suja de São Paulo ou Cidade do México. Não deixa de ser curioso lembrar que esta é a mesma cidade onde Woody Allen fez Vicky Cristina Barcelona. Esse look Estrada dos Remédios ou Largo de Pinheiros sugere uma busca pelo retrato dodói do mundo como um todo.

Um aspecto da projeção ontem foi revelador: Iñarritu obviamente deu ordens para que Biutiful passasse com um volume nunca antes ouvido na Sala Lumiere, como se não bastasse as imagens, situações e mensagem estridentes do filme em si. Estava alto, e suspeito que a intenção era valorizar uma sequência que parecia ser importante para o realizador (numa boate), mas que para o espectador não era realmente nada.

Um brincalhão com aspectos sonoros, ele tem duas cenas gravadas com microfones de lapela nos atores que, ao se abraçarem, ouvimos o NHhhhRRfffFFFMMoooMM dos esfregões humanos, até mesmo os corações batendo. Over.

Por nenhum motivo aparente, o filme começa e acaba em formato scope 2.35, mas o 90% do meio é tela plana 1.85. Um corte que volta para o scope rumo ao final nos mostra a imagem aberta do horizonte com o sol, mas é uma cilada. Logo após, vem mais tranqueira. Problemas de laboratório?

Primeira sensação de “socorro!” na competição, muito embora saiba que existe um mercado para esse tipo de coisa.

Filme visto na Lumiere, Cannes, 17 de Maio 2010

2 comments:

Carlos said...

E Chatroom? Conta sobre os 40 minutos.

nathalie said...

Amores perros... una de mis peliculas favoritas... sobre todo la soundtrack