Monday, August 4, 2008

Janela Internacional de Cinema do Recife

Queremos ver seu(s) filme(s). O CinemaScópio está organizando um festival no Recife, de perfil internacional. A idéia é apresentar retrato projetado fiel do cinema hoje, não importa o formato, do Brasil ou de fora. Foco será o curta metragem, mas não descartamos a possibilidade de exibir alguns longas.

Para maiores informações, visite o site www.janeladecinema.com.br.

Inscrições abertas até 12 de setembro, para o Brasil e mundo.

Top 10 Multiplex no Brasil 2007


1) Iguatemi Salvador – BA - (UCI/Orient) – 1.286.391
2) New York City Center – RJ (UCI) – 1.212.435
3) Santa Cruz – SP (Cinemark) – 1.091.351
4) Iguatemi Fortaleza (CE) – 1.045.175
5) Kinoplex D. Pedro Campinas (Ribeiro) – SP – 946.733
6) Hoyts Guarulhos (Hoyts) – SP – 938.827
7) Pier 21 Brasília (Cinemark) - DF – 915.697
8) Central Plaza (Cinemark) – SP – 857.058
9) Recife (UCI-Ribeiro) – PE – 851.122
10) Eldorado (Cinemark) – SP – 849.768

Fonte: Filme B / em número de espectadores

Em 10 Anos, o Cinema Saiu da Rua e Foi ao Shopping


Alien no São Luiz do Recife, em 1979. Vida na rua.


Cinemark em Aracaju, Sergipe, Abril 2008

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Esse mês de agosto marca os dez anos da chegada do sistema multiplex no Recife, uma reconfiguração de costumes para o hábito do ir ao cinema, não só localmente, mas em todo o país, seguindo revolução mundial. Em 19 de agosto de 1998, a empresa inglesa UCI, em parceria com a brasileira Luiz Severiano Ribeiro, abriu o UCI Ribeiro Boa Viagem no Shopping Recife, com dez salas. Um mês depois, a mesma UCI Ribeiro inaugurou mais oito, no Shopping Tacaruna. O surgimento de 18 salas em um mês sugeria uma recuperação contra a perda de cerca de 30 cinemas espalhados por toda a cidade, inclusive nos subúrbios, ao longo de 30 anos. Revela também a rapidez das mudanças na própria experiência social da sala de cinema.

As principais alterações nesses dez anos incluem o cinema 100% anexado a centros de compra e o fim da idéia de salas de projeção nas ruas, modelo que dominou todo o século 20. Houve também renovação técnica de equipamentos com a chegada de um padrão internacional de exibição via globalização, muito embora a excelência ainda seja elemento raro num sistema que comporta-se como uma máquina gigante que chama a atenção pela mecanicidade, e não tanto pelo esmero.

Palácios do passado deram lugar à praticidade lisa de uma dezena de salas menores que, muitas vezes, oferecem (em conjunto) número semelhante de poltronas de um desses grandes cinemas do passado que sumiram. O complexo do Tacaruna, por exemplo, com 1362 poltronas nas poito salas oferece praticamente a mesma quantidade de assentos do extinto Cine Art-Palácio, no centro da cidade.

Essa sub-divisão observada do espaço para o cinema parece traduzir o fracionamento da atenção que a experiência cinematográfica vem sofrendo ao longo das últimas décadas. Do seu reino absoluto como templo da imagem em movimento até os anos 50/60, o cinema encontrou na televisão concorrência séria, o que já levou ao fim de algumas salas e à divisão arquitetônica de outras.

Dos anos 80 para cá, o vídeo-cassete, a TV a cabo, o DVD, videogames, uma internet cada vez mais multi-mídia e também a pirataria têm roubado a atenção de filmes, o que talvez explique a fragmentação do ir ao cinema percebida no multiplex.

45 SALAS - Os 18 cinemas inaugurados em 1998 foram os primeiros de um total de 39 cinemas comerciais abertos ao longo da última década na região metropolitana. Contando os dois UCIs, surgiram ainda as seis salas do Shopping Boa Vista, as três do Cine Rosa e Silva e as 12 do Box Guararapes. Com previsão para o início de setembro, a cidade terá mais seis cinemas no novo complexo que o Grupo Severiano Ribeiro abre (também com a UCI) no Shopping Plaza, em Casa Forte, trazendo o número para 45 novas telas, em dez anos.

Para Pedro Pinheiro, programador do Grupo Severiano Ribeiro desde os anos 80, e que trabalhou com o sistema antigo dos cinemas de rua e com o multiplex, "o público pode estar mais dividido entre os afazeres e lazeres da modernidade, mas os números são parecidos, mesmo que sejam produzidos de maneira diferente".

Prova disso foi refletida por dados divulgados há duas semanas relacionados à bilheteria do primeiro final de semana de Batman – O Cavaleiro das Trevas, o grande sucesso da atual temporada. O novo Batman repete, na verdade, o sucesso do velho Batman, lançado em 1989. Lançado em 549 cinemas, o novo filme de Christopher Nolan foi visto por 775 mil espectadores, número semelhante à abertura do Batman de Tim Burton, visto por 733 mil espectadores há 19 anos, mas em 145 salas. "Tínhamos menos salas antigamente, mas elas eram maiores", explica Pinheiro.

Ele lembra que o cine São Luiz chegou a fazer 34 mil espectadores por semana, ainda nos anos 90. "Atualmente, o multiplex Recife, em Boa Viagem, tem média de 15 mil espectadores por semana, o Tacaruna dez mil e o Boa Vista cinco mil. No passado, pensava-se em termos de um cinema, agora pensa-se no complexo de salas", completa.

Segundo dados divulgados esse ano pela publicação Filme B, a principal análise jornalística do mercado de cinema no Brasil, três dos complexos instalados em Pernambuco constam no Top 30 brasileiro com as maiores freqüências de público. Em primeiro lugar está o multiplex UCI Iguatemi, em Salvador, com mais de um milhão e duzentos mil ingressos vendidos em 2007.

O UCI Ribeiro do Shopping Recife ocupa o 9o lugar no ranking, com 851,122 espectadores. O Box Cinemas do Shopping Guararapes é o segundo mais freqüentado de Pernambuco (21o no ranking nacional) com público de 696,012 ano passado, e o Tacaruna vem em terceiro lugar (33o na lista), tendo vendido 619,028 ingressos.

Complexo de Sala


Aluga-se Moças, 1982, Cine Moderno, fechado em 1997.

Não foi por acaso que a chegada do multiplex em 1998 viu o adeus aos últimos representantes do chamado "cinema de rua" no Recife. O Veneza, que nos anos 70 e 80 foi uma das salas mais luxuosas do Brasil, fechou em outubro de 98, um mês depois da inauguração do multiplex Tacaruna.

O Veneza entrou em decadência nos anos 90 com a abertura, em dezembro de 1988, dos Recifes 1, 2 e 3, salas que serviram de ponte entre os cinemas de rua e os multiplex. Eram vizinhas do Shopping Recife e localizadas na zona sul, área carente de cinemas na época. Ironicamente, os três Recifes foram fechados em setembro de 98, um mês depois da inauguração do então novo multiplex vizinho, revelando o aspecto predatório do mercado. Descarta-se o que é velho e investe-se no que é novo.

Nos anos 90, o centro da cidade perdeu quase todas as salas de rua sobreviventes (Trianon e Art-Palácio fecharam em 1992, Moderno em 1997) que reinaram imponentes desde os anos 30 e 40. Ao longo das décadas anteriores aos seus fechamentos, permaneceram ativos enquanto os cinemas de bairro fecharam, todos eles.

Na rua, e sobrevivendo já no ano 2000 com suas 1200 cadeiras (o balcão passava boa parte do ano fechado), ficou apenas o São Luiz, que terminou também fechado em 2006. Permaneceu sozinho no centro contra todos os outros cinemas comerciais instalados em shoppings. Agora, aguarda reabertura via incentivos do Governo do Estado. Obviamente que a noção de "velho" é relativa.

"O São Luiz de fato chegou a fazer 34 mil espectadores por semana, antes mesmo de fechar. Isso, claro, não significa que tínhamos sempre esse movimento. O cinema funciona em fases, como este mês de julho que é um dos melhores do mercado em anos recentes com sucessos como Kunf Fu Panda, Hancock e Batman", diz Pedro Pinheiro.

Como programador, ele lembra que era possível desenvolver, através da programação, personalidades para cada sala, ou um perfil. "Lembro que o Moderno era mais picante, ou passava filmes mais fortes de terror ou policial. O São Luiz era mais aventuresco e o Veneza filmes classe A, tanto no sentido alternativo como nos grandes lançamentos de qualidade. Hoje em dia, programa-se pelo tamanho da sala", diz. K.M.F

Do Cinema Direto Para a Promoção de Lingerie



Emmanuelle 'A Verdadeira' (com Sylvia Kristel), Art-Palácio, Recife, 1980, época em que o filme de 1974 foi finalmente liberado pela censura "sem cortes".

Conversando com alguns amigos cinéfilos, surgiram algumas dessas idéias.

Rodrigo Costa, carioca, lembra que no Rio há o exemplo do Arteplex em Botafogo, que é um "multiplex de rua", algo raro na configuração atual. Para ele, "O multiplex melhorou a qualidade de projeção e som. O que veio de ruim é você ter que entrar num shopping para ir ao cinema. Isso denota como o cinema é, cada vez mais, uma diversão que perdeu o contato com o cotidiano, com a rua. As filas dos cinemas de rua, você as via passando de ônibus em frente aos cinemas. Isso acabou".

Numa região tropical, a migração de atividades populares antes oferecidas na rua para espaços fechados e privatizados reflete o aspecto "caracol" de uma sociedade que vive com medo, trancada num mundo artificial e refrigerado. No Recife, a idéia de "rua" é cada vez mais vista como algo a ser evitado, e a noção de proteção leva a sociedade como um todo a se fechar, o que me faz lembrar da população do Axiom, em Wall-e.

"Poder ir ao cinema e depois resolver algo no shopping é muito bom, sim. Também gosto de poder dar uma volta após o filme, enquanto se decide para onde ir em seguida, com calma", me disse o estudante Bruno França, 26 anos.

Já Katarina Peixoto, 35 anos, cinéfila pernambucana que mora em Porto Alegre, ela sente o impacto da mudança pesando os dois lados. "Na década de 90, a violência do Recife foi tornando a experiência de ir aos cinemas do centro algo lamentável. Hoje, no entanto, num multiplex de shopping, é como sair de um museu e cair numa promoção de lingerie".

Para Francisco Lacerda, outro cinéfilo pernambucano, "percebo uma separação clara de públicos, pelo preço. No multiplex do Shopping Boa Vista, mais popular, preços mais acessíveis, vejo o mesmo público que freqüenta(va) o Parque, São Luiz e Veneza. Já nos multiplexes Recife, Tacaruna, Guararapes, é classe média e média alta.

Ele sente uma diferença de postura entre esses públicos. "Ambos são barulhentos, mas o popular faz barulho 'com' o filme, interage, se diverte. Já no outro, parece que está ali obrigado, entediado, fala no celular, acho que vem do ato robótico de ir ao cinema no final de semana, parece que eles não queriam realmente estar ali", pondera.

As mudanças mais óbvias ao longo dessa década foram uma noção de qualidade importada. Dos cinemas de rua equipados com projetores e sistemas de som ultrapassados made in Brazil vieram projetores e amplificadores estrangeiros, som Dolby e também poltronas largas com porta copos, desenhadas para estimular uma outra filosofia lucrativa transplantada para a cultura brasileira: o consumo de quantidades industriais de pipoca, nachos, chocolates e refrigerantes, rica fonte de faturamento para as empresas. K.M.F

PS:


Eu recebi uma cópia PiratoScope de Iron Man (que eu perdi nas salas), e com 20 segundos de filme, vi esta que deve ser a imagem síntese do cinema multiplex hoje: FILME DE SUPER HERÓI + MCLANCHE FELIZ COM COMBO DE PIPOCA. Desacelerei 40% para ficar mais style, olhem bem.

Monday, July 28, 2008

Cine São Luiz (L. do Machado, Rio, circa 1968 ?? )



Cool Hand Luke, grande filme de prisão. Newman engole ovos.

'Vá e Veja' em DVD no Brasil



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A Lume Filmes dá um belo golpe nas preocupações mecanicamente comerciais das demais distribuidoras de DVD com o próximo pacote do selo, no que mais parece uma mini-mostra de cineastas iconoclastas. De uma só vez, a Lume traz O Conformista (Il Conformista), de Bernardo Bertolucci, Seul Contre Tous (1998), de Gaspar Noé, e Vá e Veja (Idi i Smotri, URSS, 1985), de Elen Klimov.

Com isso, chega finalmente ao DVD brasileiro uma coisa bela e estranha chamada "Vá e Veja", provavelmente o filme de guerra mais expressivo já feito, e que, obviamente, anulou boa parte dos filmes de guerra que eu havia visto antes, e certamente que vi depois. O filme saiu em VHS pela Globo Video no final dos anos 80, e permanecia uma lacuna inexplicável no DVD brasileiro.

Elen Klimov, russo que cresceu na sua Terra Mãe, país onde a guerra raramente foi pop ou aventuresca, tem visão diferente da forma como os EUA venderam o conflito armado no cinema desde o final da II Guerra Mundial, playground nostálgico da "última boa guerra".

A visão de Klimov para a guerra é a da sujeira humana no seu tom bíblico e apocalíptico, e o olhar hipnotizado pelo horror do personagem principal, um garoto lidando com os resultados da campanha de extermínio da wehrmacht no fronte leste, na União Soviética, em 1942, é o fio condutor desse filme fascinante que precisa ser descoberto.

Descoberto pois Vá e Veja por questões políticas e de mercado, permanece criminosamente desconhecido, enquanto obras claramente influenciadas por ele ganharam fama e fortuna, especialmente Império do Sol (1987) e O Resgate do Soldado Ryan (1998), ambos de Spielberg.

Para quem comprar o DVD, vale saber que o formato original de tela escolhido por Klimov é o clássico 1.37:1, o que significa que a tela cheia reproduz as intenções originais do realizador. O 1.37 permaneceu formato comum até os anos 80.

Seul Contre Tous (que a Lume deverá registrar como Só Contra Todos) foi ponta de lança de uma noção anos 90 de "cinema extremo", ao lado de Aconteceu Perto de Sua Casa (C'est Arrivée Prés de Chez Vous, Bélgica, 1992), Funny Games (1997), de Michael Haneke, Os Idiotas, de Lars Von Trier, A Humanidade (L'Humanité, 1999), de Bruno Dumont, Baise Moi (2000), de Virginie Despentes, a lista é bem longa.

Talvez não precise informar muita coisa além sobre Seul Contre Tous a não ser lembrar que esse é o primeiro longa do diretor de Irreversível, menos qualquer noção de glamour.

Noé filma a triste história de uma vida frustrada via personagem de homem comum, um açougueiro francês (Philippe Nahon). Pancadas no som e zoom violentos nas imagem deixam o espectador num estado de nervos precário, e logo nosso herói descerá lentamente a áreas ainda mais sombrias da sua vida, e isso incui uma relação incestuosa com a filha.

Sobre O Conformista, vale apenas lembrar que alunos de cinema não são os únicos beneficiários desse marco de Bertolucci, mas também os de arquitetura, design e história.

Thursday, July 24, 2008

A Atriz e a Câmera





por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O carioca Murilo Salles tem 58 anos, quase 40 de cinema. Sua obra é pontuada por projetos de excelente nível técnico como o thriller Faca de Dois Gumes (1988, adaptação de Fernando Sabino) e o documentário multi-ângulo sobre a Copa de 94, Todos os Corações do Mundo (1995). Na época da retomada da produção brasileira, experimentou com a tensão social em Como Nascem os Anjos (1996) e, em 2002, no seu filme talvez mais infeliz, Seja o Que Deus Quiser! Em Nome Próprio, parece se reinventar com a saúdavel curiosidade de um jovem pelas novas possibilidades do drama via cinema claramente experimental.

Nome Próprio, rodado com a Panasonic HVX200 e exibido apenas em digital, adapta um certo feeling do trabalho da escritora/blogueira Clarah Averbuck a partir de escritos seus - "Máquina de Pinball" e "Vida de Gato". Averbuck é do tipo que vomita sentimentos na internet em letras. Essa imagem talvez explique o cartaz do filme, que nos traz a personagem principal nua com a aparência de uma replicante das letras.

E Nome Próprio traz a exploração radical de uma personagem desagradável: o nome dela é Camila (Leandra Leal), à primeira vista uma garota irritante com ilusões de grandeza artística. Camila parece ter lido em algum manual que para ser uma verdadeira artista ela precisa fabricar todos os problemas que normalmente não teria. Uma vez criados, os problemas a maltratam, e disso, ela espera tirar experiência para escrever.

Isso inclui punir de maneira inclemente seu corpo com uma dieta de cerveja, cigarro e comprimidos estimulantes, e logo o espectador irá desconfiar horrorizado que veio passar duas horas na companhia de um poeta marginal.

Especialmente complicado no sentido de estarmos com Camila tão intensamente é a sua própria produção literária. Salles expõe as letras em interferências gráficas curiosas, habilmente sublinhadas por um campo sonoro expressivo. De qualquer forma, essas interferências apenas expõem o quão ruim é o seu texto (ou suas idéias), e se você não aprecia a esforçada sopa de letrinhas de Camila, uma leitura dos dramas internos dessa menina torna-se realmente melancólica, não muito distante daquela poesia ruim que o poeta marginal deixou na sua mesa de bar, com a promessa de que ele irá voltar.

Quando Salles passou pelo Recife para apresentar o filme, ele revelou que boa parte (ou tudo, não entendi) do que aparece no filme como escritos não foi, de fato, criado por Averbuck, mas por ele mesmo com coisas pinçadas de outras fontes. Achei estranho basear o filme na obra de Averbuck e, por fim, não usar o material dela.

De qualquer forma, a poesia (ao meu ver, ruim) de Camila no filme é apenas uma parte do seu drama pessoal, um pouco como a aridez do seu apartamento, mobiliado com uma CPU, um teclado e um monitor gordo de 15 polegadas.

Ela não apenas se alimenta mal, como também se afasta dos que gostam dela. Trai o namorado (excelente abertura!) e decepciona a melhor amiga com a mesma dose de féu, em seqüência tão emocionalmente absurda que beira um sonho erótico úmido.

Aos poucos, no entanto, a irritação vai se diluindo, talvez por dormência, talvez pelo valor do filme residir de forma bem humana num dos quesitos mais importantes da vida, na maneira que cada um tem para lidar com as pessoas ao nosso redor. Devemos julgar Camila e suas escolhas? Ou devemos apenas vê-la, observando seu modus operandi falho e algo de masoquista?

Um valor possível para Nome Próprio existe na sensação de que o que Camila/Leal quer mesmo é ter a câmera digital de Salles como parceira e amante. Quando esse tipo de sensação ocorre, desdobramentos na tela ganham interesse e vida, e a melhor coisa desse filme é que há alguns momentos realmente bons nesse sentido. É mais ou menos aí que o filme de Salles dialoga saudavelmente com Falsa Loura, de Carlos Reichenbach, outro retrato revelador de uma jovem fêmea pelo olhar de um outro realizador já maduro, e macho.

Uma diferença curiosa entre as levadas de Salles e Reichenbach, no entanto, é a idéia de "old fashioned" para Reichenbach (sem que isso julgue negativamente seu tom) e "inquieto" para Salles (sem que isso julgue positivamente o seu tom). Antes de Nome Próprio, Salles uniu-se a Lírio Ferreira para fotografar e produzir Árido Movie, uma brecha para entender os caminhos por ele procurados.

Meticulosamente enquadrado com registros (fotografia Fernanda Riscali, especial) de uma intimidade plenamente associável à realidade (ou à de pessoas que conhecemos), Salles me impressionou bastante com a imagem digital do filme.

No final das contas, talvez me agrade mais o projeto de cinema aqui apresentado, uma pequena semente observada já em Cão Sem Dono, de Beto Brant, de um cinema brasileiro pequeno que, curiosamente, ainda revela-se uma bizarrice na nossa filmografia. Acho inclusive que a experiência projetada na tela poderá estimular muita gente (jovens, especialmente) a investir num cinema viável tecnicamente e cujo eixo é o elemento humano, e não tanto questões sociais sedadas, ou essa mania irritante de filmar o que não se conhece.

Nesse sentido, Nome Próprio parece vencer pela mais pura energia que existe entre Salles, diretor, e Leal, a atriz, que atua aqui como se fosse seu último filme, o tipo de coisa que só a juventude permitiria, um pouco como as aventuras emotivas da própria Camila. E não seria estranho entender que foi essa juventude de Camila e de Leandra que instigou Murilo Salles a desvendar personagem tão viva.

Filme visto no Odeon, Festival do Rio (versão 130 mins), setembro 2007 & Cinema da Fundação, Recife, vs. 120 mins., Junho 2008

Arquivo X - Eu Quero Acreditar




por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A série Arquivo X (The X-Files), um dos símbolos pop dos anos 90, teve o mérito técnico de borrar a linha entre TV e cinema com episódios "cinematográficos" que, sempre num clima de mistério sci-fi-sobrenatural, tanto alimentava-se dele, como contribuía com o gênero. Botou para fora os medos culturais mais simplórios da sociedade americana em divertidas historinhas de trancoso. Em 1998, a série ganhou versão para o cinema em Arquivo X – O Filme, esforço para dar mais largura ao que víamos na TV. Chega agora o segundo filme, Arquivo X – Eu Quero Acreditar (The X Files – I Want to Believe, EUA, 2008), filme tranqüilo que sugere resgatar as origens e ainda dar lucro à Fox com o que mais parece um piloto da série extinta.

Dirigido pelo criador de tudo, Chris Carter, seu maior mérito é manter os pés no chão e proporcionar uma volta à série de TV, que foi ao ar entre 1993 e 2002. Chama a atenção o quanto o filme é pequeno em termos de estrutura. Num mercado exigente onde séries de TV como Lost ou Roma têm um certo look e tom de cinema, esse novo Arquivo X poderá levar pau de um público que espera ver na tela grande um filme caro com grandes explosões e coisas sendo destruídas. Nada disso aqui. Não há pipocos ou efeitos especiais espetaculares, e a única perseguição é a pé.

Olhando o orçamento divulgado (U$ 35 milhões, o filme anterior custou U$ 66 milhões, e sem correção de inflação), Arquivo X – Eu Quero Acreditar é talvez o blockbuster do verão americano mais barato em exibição, competindo a partir de hoje com Batman – O Cavaleiro das Trevas e Hancock, cada um feito com U$ 150 milhões. Dá para imaginar uma reunião em Hollywood com os executivos da Fox resmungando para Carter, "Tá bom, vai lá, faz baratinho e encerra o caso".

VIDENTE - Os dois personagens centrais, o agente "crente" do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e a médica "cética" Dana Scully (Gillian Anderson) se reúnem como num bom e descarado filme B. Há um estranho caso onde as investigações convencionais não estão dando conta, e o FBI não vê outra saída se não chamar os dois cujos poderes de interpretação continuam elásticos na lógica e afiados na desconfiança.

Depois de fazer pantim por não mais do que 60 segundos, Mulder diz sim ao chamado e lá vão eles tentar solucionar o caso de uma agente do FBI que sumiu numa noite fria. Ela não apenas sumiu, mas um padre pedófilo e fumante (o escocês Billy Connolly) diz estar recebendo visões do paradeiro da mulher.

Ao longo dos 197 episódios produzidos para a TV (boa parte deles disponíveis em DVD), Arquivo X parecia ter três escaninhos, representações claras dos medos culturais da América média: histórias com alienígenas, estranhos assassinatos em série e conspirações misteriosas via governo. Dessa vez, explora-se o escaninho numero dois, e mais uma vez russos papa-fígado, herança de antigo medo do comunismo, são os vilões, com resultados minimamente divertidos que ainda usam questões relacionadas à crença no divino.

É um filme que, a partir do próprio título, defende a fé nos elementos místicos que o próprio cinema de gênero usa para existir. Dessa forma, todos nós queremos acreditar em muita coisa, incklusive nesse tipo de cinema sintomático para toda uma cultura.

Vale lembrar que o filme é lançado uma semana depois de um novo Batman cujo enorme sucesso parece vir de um desejo de acreditar que aquele filme teria um elemento "realista", uma fantasia cheia de "seriedade". Ironicamente, a única coisa real desse tipo de cinema é o resultado nas bilheterias.

Filme visto meio fora de foco no UCI Boa Viagem, Recife, Julho 2008

Tuesday, July 22, 2008

A Tela Grande, o Foco, CinemaScope & Imax



Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Voltando agora de uma projeção problemática do novo Arquivo X (perdendo o foco teimosamente ao longo de praticamente toda a sessão de pré-estréia, sala 4 do UCI Boa Viagem), lembrei de uma conversa que tive umas duas semanas atrás com um profissional importante do setor de exibição no país, e cuja opinião sobre o formato de cinema eu não compartilho.

Na verdade, representa um pouco da morte da experiência cinematográfica que o próprio mercado vem promovendo, e que, já de um outro lado, ganha adesões nervosas no sentido de renová-la. De qualquer forma, se deixar, algumas dessas lógicas internas de comércio terminam machucando o cinema em si, num processo de autofagia.

Essa pessoa acredita que o formato ideal (inclusive já difundido pela rede Cinemark e também algumas salas da UCI - inclusive no Recife -, mas felizmente não dos Box aqui instalados) de que o que é realmente bom é ter uma tela plana "de parede a parede" onde filmes normalmente mais estreitos (1.85/1.66) ficam grandes, enquanto os filmes do formato CinemaScope, tradicionalmente os filmes GRANDES aparecem, na verdade, menores, um retângulo ocupando a parte de cima desse tipo de tela.

Ou seja, só nesse tipo de pensamento é possível ver instruções de incêndio ou uma publicidade de xampú GRANDE e, para dar exemplo atual, The Dark Knight, o filme em si (a atração principal!), menor, feito vemos em casa numa TV 16X9.

É uma lógica de home theater, onde a tela da TV widescreen 16X9, por questões atualmente incontornáveis de tecnologia, faz a mesma coisa - filmes 1.85 tomam todo o espaço, filmes grandes como, sei lá, Ben Hur ou La Dolce Vitta, mostram-se numa tira com espaços pretos em cima e embaixo. Ok para casa, inaceitável no cinema.

Bom, para os empresários da exibição que de fato espalham esse tipo de visão do cinema e da sua apresentação (por mais que a cultura multiplex tente destroçá-la, a apresentação de um filme é a coisa mais importante de uma sala de cinema), posto logo abaixo essa apaixonada defesa do cinema widescreen, comentada (em inglês sem legendas, infelizmente) por quem realmente entende da coisa: os diretores (lista rápida, para instigação: John Carpenter, Michael Mann, Paul Verhoeven, John Boorman...).





Vale acrescentar que outras facções desse mesmo mercado vão na direção oposta, à procura de novas maneiras de levar gente ao cinema nessa era onde muitos já têm em casa alta definição e telas grandes de LCD, plasma ou projetores DLP.

O maior exemplo atualmente é Christopher Nolan experimentando com Imax (seis cenas do The Dark Knight rodadas em formato 1.44 gigante, o resto do filme em 2.40:1), e esse investimento "naquele extra" tem sido bem recompensado com os números de bilheteria colhidos nas apresentações Imax do filme estourando o teto de todas as expectativas, nos EUA.

Na verdade, o sucesso do Imax via The Dark Knight (depois de uma sequência de filmes apresentados/adaptados para o formato grande ao longo dos últimos anos - de Matrix a Poseidon, 300 e Harry Potter) nada mais é do que uma remixagem do 70mm, que, entre os anos 50 e inicio dos 90 foi o formato de luxo nas grandes cidades do mundo para oferecer "aquele extra" à experiência cinematográfica (imagem cristalina, som magnético de seis canais).

É exatamente esse "aquele extra" que meu diálogo com esse estimado expert em exibição terminou revelando-se "aquele menos", e que mostra claramente que esse modelo de mercado é exatamente o que precisa ser abandonado. A experiência de exibição no Brasil deve ser uma das mais frustrantes do mundo.

A saber, Arquivo X hoje foi apresentado numa tela de formato mezzo-scope de aproximadamente 2.10:1, com alguns cortes nas laterais (o filme é scope 2.40:1), e para ser feliz. Pior ainda foi o problema de foco.

"Зеленая виниловая пластинка" Москва



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Meu filme Vinil Verde (2004) terá sessão especial no Museu de Arte Contemporânea de Moscou no próximo dia 29.

O filme foi adaptado de uma fábula russa, ou seja, tudo faz sentido.

Link do museu, http://www.ais-aica.ru/arhiv/2008/moscow/07.08/1.html, um doce para quem achar o filme em cirílico.


NA GLOBO

E para quem mora no Recife e região metropolitana, Vinil Verde passa também na Globo canal 13, no programa Agora Curta, próximo domingo, "depois do Lance Final", segundo a propaganda.

O programa é um projeto da Luni Produções e lembro que dei entrevista bem agradável para Hermila Guedes, que também deverá ir ao ar.

Mais uma vez, peço a todos que não usem luvas verdes.

"Crítico" Confirmado em Gramado, Fora de Competição



Acho que agora está oficializado, meu filme Crítico passa hors concours no próximo Festival de Gramado, que acontece de 10 a 16 de agosto. O filme terá também um debate.

E aí mais uma vez (postei na época de Cannes), o trailer do filme.

Monday, July 21, 2008

Cinema São Luiz (Recife): a Restauração



Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Num anúncio feito na última quarta-feira, durante o encerramento do I Festival de Cinema de Triunfo, o governador Eduardo Campos informou que o estado entrará para garantir a reabertura do Cine São Luiz, fechado há quase dois anos depois que o Grupo Severiano Ribeiro decidiu, depois de cinco décadas, não mais explorá-lo como cinema comercial. O anúncio trouxe o nome de um dos grandes cinéfilos do Brasil, Lula Cardoso Ayres Filho, como o responsável por um novo conceito para trazer o São Luiz de volta.

O São Luiz teve uma tentativa de resgate através da Aeso – Faculdades Integradas Barros Melo, ao longo de 2007, projeto que, infelizmente, não foi concluído. A instituição privada de ensino divulgou ter investido cerca de R$ 400 mil na recuperação da estrutura do prédio, inaugurado em 6 de setembro de 1952. A Aeso teria encontrado um cenário mais difícil de contornar financeiramente do que o originalmente previsto, o que levou à desistência.

Há também a informação, confirmada por Pedro Pinheiro, diretor regional do Grupo Severiano Ribeiro, de que uma outra instituição privada de ensino, a Faculdade Mauricio de Nassau, teria mostrado interesse no espaço depois da saída da Aeso. A sala é agora confirmada como espaço a ser administrado pela Fundarpe – Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco.

Para Pinheiro, que foi o programador do São Luiz desde a segunda metade dos anos 80, até o seu fechamento em 2006, a notícia do arrendamento via Fundarpe é das mais felizes. "Aponta para a criação de um corredor cultural na Rua da Aurora, unindo o Mispe – Museu da Imagem e do Som de Pernambuco, o cine Teatro Arraial e também o São Luiz". Pinheiro também chama a atenção para o fato de a Fundarpe ter agora a possibilidade real de dar ao Recife mais duas salas alternativas, o Arraial e o próprio São Luiz.

Integrado ao processo que está em andamento através do seu trabalho junto ao Grupo Ribeiro, Pinheiro revela que falta efetivamente assinar os contratos, "algo que poderá ocorrer já na próxima semana. Tudo dando certo, a Fundarpe poderá começar o seu projeto no São Luiz a partir de 1o de agosto". Ele informa ainda que o aluguel do espaço está fixado em $ 20 mil mensais, quantia que deverá ser reajustada anualmente pelo IGP – Índice Geral de Preços. Gastos com água, luz e condomínio também deverão ser arcados pelo governo. O contrato deverá cobrir sete anos, renováveis para mais sete.

RESTAURAÇÃO - A partir de um projeto escrito por Lula Cardoso Ayres à Fundarpe, ele acredita que com um investimento de aproximadamente R$ 600 mil o São Luiz possa estar em forma para reabrir as portas dentro de um conceito maior de fomento ao áudio-visual.

Curiosamente, a relação de Lula com o São Luiz é das mais íntimas. Ele não apenas começou a freqüentar o cinema ainda criança, em 1958, como a sala de espera da grande sala exibe um mural criado e executado pelo seu pai, o artista Lula Cardoso Ayres, falecido em 1987.

Do ponto de vista prático, seu nome é diretamente ligado à idéia de manutenção da memória cinematográfica, à frente não apenas do Instituto que leva o nome do pai, cuja obra ele guarda e divulga, mas também da sua Cinemateca pessoal, incorporada ao Instituto Cultural Lula Cardoso Ayres, criado em 1993, com mais de três mil títulos em super8, 16mm e 35mm, acervo que começou a ser formado em 1975.

Sua preocupação inicial confirma suas credenciais pessoais e profissionais: "restaurar o cinema São Luiz que eu conheci na minha infância. A sala voltará a ter 1190 lugares, platéia e balcão".

A recuperação do sistema de projeção reside especialmente na compra de novas lentes. Ele também deseja equipar o São Luiz com excelente projeção em 16mm. Defensor radical do filme película, admitiu que as projeções que tem visto em cinema digital têm lhe surpreendido, e conta também com esse tipo de equipamento no novo São Luiz, "idéia que já era defendida pela própria Fundarpe", diz.

Do projeto Estação Cinema São Luiz, Lula também destaca a criação da Cinemateca Pernambucana, passo importante para a manutenção da memória do audiovisual feito aqui, e cuja preservação (dos materiais que estão, de fato, guardados) reside, em grande parte, centralizada na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. "Isso segue uma tendência muito discutida atualmente o sentido de descentralizar as cinematecas".

O São Luiz também seria uma central de educação para o cinema, atraindo desde atividades escolares voltadas para o audiovisual, como espaço para integração com cursos de nível técnico ou superior.

Para Carla Francine, coordenadora de audiovisual da Fundarpe, um prazo realista seria o de seis meses para vermos o São Luiz de volta. Para Lula, já há até um palpite pessoal seu para o filme a ser exibido na noite de reinauguração: o clássico da chanchada brasileira de 1959, O Homem do Sputnik, de Carlos Manga, em cópia restaurada.

Thursday, July 17, 2008

Why So Much?



(foto exclusiva obtida pelo blog do CinemaScópio de teste feito essa semana. Not)


Recebi um interessante comunicado da Warner sobre uma faxina nos céus de São Paulo, nesta sexta-feira, dia 18, estréia do The Dark Night.

BAT-SINAIS serão projetados nos céus (ver horários, locais e sessões). Curiosamente, não informaram sobre o preço de cada olhada.

Kleber

PS: é sério.

BAT-SINAIS em SP, locais e horários (Olhar Para Cima)

18:00 - 18:20 - Rua Jorge Velho esquina com Avenida Santos Dumont ( virado no sentido Zona Norte)

18:35 - 18:50 - Praça da Bandeira inicio da Rua Santo Amaro

19:05 - 19:20 - Rua Joinvile, 385, virado para Avenida 23 de Maio - sentido
Ibirapuera. Em frente ao Grand Mercure Ibirapuera

19:35 - 19:50 - Avenida Ibirapuera em frente ao Shopping Ibirapuera

20:05 – 20:20 - Avenida Santo Amaro com Bueno Brandão – sentido 9 de Julho

20:30 - 20:45 - R: Soares de Barros (entrar pela R: Atílio Inocente Antes da JK) entre a Jk com Rua Bissau Altura do n. 1002

20:55 - 21:10 - Rua Sampaio Vidal esquina com Avenida Brigadeiro Faria Lima

21:20 – 21:35 - Avenida Brigadeiro Faria Lima Com Rua Buritama

21:45 – 22:00 - Avenida Brigadeiro Faria Lima – Próximo ao número 1.500

22:10 – 22:25 - Avenida Rebouças na altura do número 1462. Entre as ruas João Moura e Estados Unidos

22:35 – 22:50 - Avenida Paulista - altura do número 726

23:00 – 23:15 - Rua Conde de São Joaquim, transversal com Avenida Brigadeiro Luiz Antonio.

23:25 – 23:40 - Avenida 9 de Julho com Rua Itu

23:50 – 00:05 - Rua Teixeira de Melo na esquina com a Rua Melo Peixoto - Sinal virado para Radial Leste

00:15 – 00:30 - Rua Iperoig, ao lado do número 74. Esquina com Avenida Sumaré

A Morte Como Performance



Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Uma das melhores peças publicitárias da blitz de marketing da Warner Bros. para The Dark Knight (EUA, 2008) traz a frase "Why So Serious?" (porquê tão sério?"). Para quem não consegue levar filmes desse tipo como representação religiosa da vida na sua leitura mais séria, a pergunta cabe graciosamente. Porquê diacho esse filme é tão retido na sua sisudez?

Com duas horas e 20 minutos, The Dark Night parece querer dizer ao mundo com a sua auto-importância que o cinema de entretenimento também pode ser profundo e sombrio. Se o primeiro adjetivo talvez não entre, o segundo sugere honrar a face trágica do ator Heath Ledger, falecido precocemente no início do ano. Há algo de fascinante na morbidez de ver Ledger por trás de uma máscara mortuária em todas as suas cenas: a máscara do Coringa.

The Dark Knight, no entanto, foi feito exatamente para quem leva filmes desse tipo a sério como representação religiosamente fiel da vida. Não parece bastar mais ver filmes ágeis, inteligentes, críticos e espetacularmente divertidos dentro de um tom de "cinema de super herói", ou de "histórias de quadrinho" - Superman The Movie, Robocop, o Batman de Burton, Os Incríveis.

O que importa na indústria cultural é a grande obra-prima da semana. The Dark Knight vem sendo embalado há mais de um ano pela máquina de marketing da própria Warner Bros. como um pré-clássico do cinema, espécie de "O Poderoso Chefão dos filmes de super herói". O cinismo brilhante desse tipo de campanha, validada sinistramente pela morte de Ledger, é ignorar que valor é uma coisa dada naturalmente pelo mundo, e não espalhada meses antes de um filme ser visto.

E é nesse mundo dominado por valores artificiais gerados pela qualidade do design e da onipresença que, temos, portanto, uma obra de valor calculável: mais ou menos 600 milhões de dólares, quantia que The Dark Knight (via DC Comics) precisa para superar financeira e moralmente a arrecadação internacional do outro super herói concorrente no trimestre, O Homem de Ferro, da Paramount Pictures (via Marvel Comics).

O efeito mitificador do trágico falecimento (em janeiro) do ator, aos 28 anos, também deve ser ponderado. Ajudou muito a máquina de vendas o fato de seu personagem no filme – o Coringa – ter uma face graficamente sintonizada com a morbidez natural da tragédia pessoal do artista em si. Olhar para o rosto deformado do Coringa ao longo dos últimos meses sugeria um cheiro de morte, sensação que perdura ao longo de todo o filme, dando-lhe peso.

Há ainda uma campanha iniciada pelo diretor Christopher Nolan (Memento, Batman Begins), e que ganhou as vozes de atores que estão no filme – Christian Bale, Michael Caine – de que Ledger deverá ganhar o Oscar 2009 por sua atuação, sendo este papel sua herança para o mundo. Me pergunto se, do ponto de vista da imagem preservada, as pessoas lembrarão de Ledger, o homem, ou do Coringa borrado, a 'máscara', ou se de Ledger, o ator, ou do seu cowboy em Brokeback Mountain, onde suas feições/rosto ali intactos?

DUPLOS – Depois de finalmente visto, o filme parece repetir o conceito de duplos, algo desenvolvido originalmente nos quadrinhos e com interessante eficácia já no filme de Tim Burton, 19 anos atrás. Gotham City (filmada ricamente em Chicago) está à beira da anarquia, a semente justiceira espalhada pelo trabalho de Batman ganhou adeptos (ou duplos) em imitadores que não são páreo para o grau de perversidade de um novo criminoso chamado Coringa, sua demência violenta apresentada numa seqüência de abertura empolgante.

Bruce Wayne/Batman (Bale) parece ter desocupado a bat-caverna, preferindo um largo estacionamento de shopping personalizado. Ele supervisiona os passos do crime organizado, liderado por Maroni (Eric Roberts, bom revê-lo), com arsenal cada vez maior de brinquedos fornecidos pelo seu escudeiro Lucius (Morgan Freeman). Alfred (Caine) continua sendo o serviçal de voz paterna para Wayne, bilionário boa pinta e enfeitado por mulheres objeto que encontra no jovem político Harvey Dent (Aaron Eckhart) um duplo oficializado seu que poderá restaurar a paz e a justiça em Gotham City (the American way).

Tudo isso é um prato cheio para a veia anarquista do Coringa, que consegue bagunçar os caminhos de Wayne e Batman, da máfia e do triângulo amoroso entre Wayne, Dent e Rachel (Maggie Gyllenhaal, que me pareceu mais expressiva com o pouco que lhe deram do que Katie Holmes com o outro pouco que ela tinha). Eu não sei se entendi muito bem as maquinações do Coringa, mas seja lá o que ele estava fazendo, ele terminou fazendo, e bem.

Finalmente, as tais maquinações levam Coringa a transformar Dent numa nova e dramática aberração, o Duas Caras, personagem com a aparência de um pesadelo que abandona a crença na justiça (the American way) e passa a enxergar a moralidade num ambiente sórdido como uma questão de mero acaso, ou sorte.

Esse último pensamento me pareceu caber bem com o clima geral das manchetes pavorosas que têm relatado um gênero bem brasileiro de violência nesse país, em atos de perversão brutal que alimentariam o Coringa com muitas idéias e imaginação. Essa comunicação (que talvez só exista na minha cabeça) com um certo estado de coisas fora do filme me agradou.

Se Jack Nicholson, roubou o Batman de 1989 com um terrorista da arte (pichava obras que defendiam o belo, adorava Francis Bacon), Ledger rouba o filme novo como personificação do terror. Não há muito o que dizer ao ouvirmos Batman com sua voz engraçada de gripado trocando palavras com um Coringa tão mais fácil (e interessante) de ouvir.

Não seria estranho imaginar que o papel do Coringa no filme canaliza um medo bem americano nesta década, o medo de um pensador do terror que habita o imaginário dos EUA via figura de Osama Bin Laden. Talvez seja o que mais próximo existe de um Coringa real.

São boas idéias sugeridas por uma aventura um tanto dura feito uma tábua, em especial na forma como se contorce para dar conta de tantas estratégias e tramóias, algumas (as cenas de ação) com a funcionalidade de um anúncio de brinquedo. Nolan, na falta de estilo pessoal próprio, vai buscar uma marca sua no orçamento astronômico, numa câmera carrossel gratuita e na trilha sonora para surdos, uma sinfonia de 140 minutos incapaz de te deixar a lembrança de uma melodia sequer.

Por obra do destino, no entanto, esse filme industrial agregou a mística de um rosto forte à ajuda poderosa da morte.

PG-13 - Por último, vale acrescentar o quanto os mecanismos do mercado impõem à imagem uma idéia de restrição, embora isso nada tenha a ver com a ação descrita ali na tela. O que importa, cegamente, à idéia de "classificação" é se vemos ou não a imagem de uma faca cortando o canto de uma boca. Para mim, o fato de alguém fazer isso com o outro, e o tratamento implícito ali aplicado (montagem, música, efeito de som) deveria dar o tom, e não o quão explícito o corte é.

"The Dark Knight", nos seus momentos mais dó-dóis, parece clamar pelos detalhes pré-formatados milimetricamente para seu público de meninos de 12 ou 13 anos, quando a ação em si mostra-se bem mais sombria e demente. Para tal, vejam Robocop.



Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, 14 de Julho 2008

"...Na Sessão da Tarde"

Eu 'tava vendo o A Ilha da Imaginação (Nim's Island) essa semana e me lembrei dessa montagem que alguns já devem ter visto. Eu não sei se é uma homenagem saudosa à Sessão da Tarde que existe dentro de todos nós, ou uma exposição clara e evidente do raquitismo criativo no chamado Padrão Globo de qualidade, ainda tão poderoso em 2008. Veja.

Nim' Island (A Ilha da Imaginação)

Kleber Mendonça Filho
A Ilha da Imaginação (Nim's Island, EUA/Austrália, 2008) é uma geringonça de férias para entreter crianças incautas. Pode funcionar bem junto aos pequenos que não conseguirem ingressos para o novo Batman, ou os que não tiverem faixa etária suficiente para entrar nas salas que exibem o morcego. Cheio de bichinhos simpáticos, eco-mensagens e uma heroína mirim com expressão de boneca, o filme vem dublado por atores brasileiros que crêem que estão num filme ainda pior.

A idéia lembra Tudo Por Uma Esmeralda (Romancing the Stone), aventura dos anos 80 de Robert Zemeckis (De Volta Para o Futuro) sobre uma escritora de romances aventurescos que encontra seu personagem principal na vida real. Desta vez, a escritora é Jodie Foster, aqui numa atuação claramente equivocada, talvez uma tentativa desesperada de ser interessante para as crianças. Na verdade, o que se passa com Jodie, no seu último filme, The Brave One (Valente, no Brasil), ela dava uma outra atuação equivocada, só que para adultos.

Foster é a escritora Alexandra Rover, moradora reclusa de São Francisco que parece sofrer de um tipo especialmente histérico de síndrome do pânico. Passa a se comunicar pela internet com uma grande fã dos seus livros, a garotinha Nim (Breslin, de Pequena Miss Sunshine). Nim mora numa ilha secreta do Oceano Pacífico com o pai, especialista em plânctons.

Quando o pai desaparece numa tempestade, a pequena Nim e seus bichinhos (foca, pelicano, cipó, vulcão) se metem em grandes apuros e caberá à ofegante escritora ir salvá-la de uma tremenda confusão.

O roteiro é claramente uma lástima. Esbaforido, cansativo e artificial, deixa o pobre do pai (Gerard Butler, visto por último com seios em 300) boiando o filme inteiro enquanto esta versão irritante de Jodie Foster chega na ilha, viagem improvável até para a lógica infantil não muito exigente.

A pequena Breslin corre o risco que atrizes prematuras geralmente correm (a esquisita Dakota Fanning o último exemplo). Depois de uma estréia super fofinha, vira atriz objeto não muito diferente em presença e expressão dos bichinhos digitais com os quais contracena.
Filme visto no UCI Recife, Julho 2008

Thursday, July 10, 2008

Falsa Loura


Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Carlos Reichenbach me disse uma vez que foi através de um crítico, João Carlos Rodrigues, que percebeu uma alternância curiosa na abordagem de homens e mulheres em cada filme seu. Isso marcou sua fase nos anos 70 e 80, com obras como Corrida em Busca do Amor (macho, 1972), Lilian M. (fêmea, 1974), Filme Demência (macho, 1986), Anjos do Arrabalde (fêmea, 1987). Curioso que, dos anos 90 para cá, depois de um último retrato masculino (Alma Corsária, 1993), Reichenbach tenha se interessado apenas por mulheres. E esse é o caso de Falsa Loura (2007), seu último filme de uma seqüência de três outras obras recentes de enfoque feminino – Dois Córregos (1999), Garotas do ABC (2003) e Bens Confiscados (2005).

Aqui de longe, e num arroubo analítico de psicologia vulgar, me parece que esse autor, já na sua fase madura, busca nas mulheres um abrigo compreensível para o seu cinema, talvez para a sua vida. Isso remete a uma carinhosa acusação que teria sido feita à sua pessoa no Festival de Roterdã '87, onde apresentou Anjos do Arrabalde, afiado drama da periferia de São Paulo sobre professoras primárias: "Reichenbach é um heterossexual de alma feminina".

Em Falsa Loura, o universo da periferia ganha mais peças importantes dentro de uma obra muito pessoal e generosa para com essa geografia social. Sua personagem chama-se Silmara (Rosanne Mulholland), uma de muitas operárias numa fábrica de plásticos, extensão das Garotas do ABC e mais uma vez filmadas em elegantes movimentos laterais de câmera.

Sem cinismo algum, há algo de puramente cinematográfico na movimentação de Mulholland no filme, provavelmente associada à sua presença feminina que emite sinais constantes de sexualidade confiante.

Dotado do que me pareceu uma respeitosa tara pela sua Silmara, Reichenbach filma Mulholland como uma heroína do cinema clássico italiano, onde os sentimentos dela aos poucos revelam-se o ouro do filme, e não tanto alguma verdade social do ambiente realista ali representado.

Mostrada inicialmente como algo de predadora e líder de um pequeno secto de seguidoras na fábrica (que inclui até a chefe), elas a vêem como um dínamo capaz de dar estilo a quem não tem e pegar qualquer homem que as outras adorariam deglutir.

Falsa Loura, no entanto, vai desenvolvendo o título em si, a revelação do que existe por trás de uma imagem feminina projetada, e essa imagem, inevitavelmente, passará pela interpretação vulgar do papel sexual que alguém como Silmara supostamente deveria representar. De menina linda à idéia de prostituição, ou de virar um sonho erótico real, Mulholland entrega-se totalmente à corrida de obstáculos melodramáticos e masculinos que Reichenbach cria para ela em direção ao final.

O estilo totalmente realista de Mulholland parece triturar boa parte dos seus coadjuvantes, que passam a sensação de estarem tentando atuar num outro filme inferior (as cenas com o pai, via ator João Bourbonnais são as mais tensas, no mau sentido).

Ela também sai ilesa de um segmento curioso pelo tratamento dado de revista barata (e particularmente triste, no bom sentido) com Mauricio Mattar, rumo a um final que poderá ficar com o espectador como o belo ponto final para um retrato feminino que tira grande delicadeza da grosseria que compõe a existência da mulher.

Filme finalmente visto no Cine Rosa e Silva, Recife, Junho 2008

'My Blueberry' Bombom

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

É simbólico que Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights, Hong Kong/China/França, 2007), o mais recente exemplar da obra do cineasta Wong Kar Wai, esteja sendo lançado em multiplex no Recife, exibido diariamente em diferentes sessões, como um filme de gente normal. Toda a obra anterior de Kar Wai, composta por filmes como Felizes Juntos, Amor à Flor da Pele e 2046 era falada em cantonês com atores chineses, filmada em Hong Kong, e encontrava espaço invariavelmente nos estranhos cinemas alternativos, ou nas esquisitas "sessões de arte". Esse último é falado em inglês, tem atores hollywoodianos e foi filmado nos EUA. Para quem acompanha o cineasta, esse cine-bombom passa como uma remixagem dele mesmo para ser visto por mais gente, um projeto comercial bem sucedido.

Um Beijo Roubado foi o filme de abertura de Cannes 2007, e para o festival que recebeu seus filmes anteriores acima citados, esse aqui foi visto com frieza. Isso sugere duas possíveis maneiras de olhar essa história de amor narrada em cores cuidadosamente coordenadas, lideradas pelo azul dor de cotovelo.

Uma, para quem já o conhecia, é a de que Kar Wai virou uma imitação dele mesmo, sem saber diferenciar uma publicidade de TV de alta definição (ele fez para a Sony) de uma vitrine chic de shopping, ou de um filme novo. A outra, para os novatos, é descobrir com prazer esse cineasta que filma elegantemente gente bonita num tipo de cinema romântico que vem sendo tão vulgarizado por mãos menos capazes.

Em Um Beijo Roubado, a heroína chama-se Elizabeth (a cantora Norah Jones, capaz), que acaba de ter seu coração partido. Ela vai buscar consolo na central universal dos que têm os corações partidos: um bar. Ajuda o fato de o barman ser Jude Law, que também, aliás, teve seu coração recentemente partido, por uma russa. Um detalhe tipicamente Kar Wai é o simbólico estacionamento de chaves de casa que ele mantém no balcão, um cemitério de amores desfeitos.

Elizabeth decide partir numa viagem por dentro dela mesma através dos EUA, e suspeitamos que o verdadeiro beneficiário dessa viagem é o próprio Kar Wai, aqui na sua primeira produção "americana". Segue o roteiro básico do cine-turista estrangeiro pelas paisagens U.S.A, de Nova York a Memphis, de Las Vegas a Los Angeles.

No caminho, Elizabeth encontra duas histórias de amor, para as quais ela age como anjo da guarda, agregando experiência emocional para si mesma. Na primeira, um policial (David Strathairn, roubando o filme com discreta intensidade) enche a cara num bar para tentar superar a dor de ser deixado pela esposa (Rachel Weisz). Na segunda, ela conhece uma jogadora compulsiva (Natalie Portman) que também terá de lidar com outra perda, em Las Vegas.

É tudo muito chic, às vezes parece um suntuoso teste de daltonia, às vezes um entretenimento comercial realmente incomum, feito por um olhar estrangeiro. Onde mais você verá personagens adultos bebendo e fumando em bares da vida no cinema comercial do século 21, se não numa produção franco-chinesa filmada nos Estados Unidos?

Kar Wai, que construiu esse filme a partir de um maravilhoso curta que ele fez intitulado In the Mood For Love 2001 (corações partidos e beijos com tortas e chantilly já estão todos lá) desdobra-se usando seu toque autoral num produto claramente feito para exportação. Mas, funciona.

Filme visto na Sala Debussy, Cannes, Maio 2007

Kung Fu Panda (um PC)



Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Semana passada estreou Wall-e, a animação da Pixar que é uma feliz experimentação sobre um robozinho solitário. Hoje, de olho no mercado das férias brasileiras de inverno, a estréia nacional (mundial, aliás) é Kung Fu Panda (EUA, 2008), animação digital com ênfase na 'ação' sobre urso sedentário que sonha em tornar-se herói das artes marciais. Se fossem computadores, Wall-e seria um Mac e Kung Fu Panda um PC, mas pelo menos um que faz o serviço bem e sem travar.

Com Wall-e, havia alguma dúvida se o estilo tranqüilo e visual do filme manteria a atenção das crianças. Como criança não é boba, há relatos de conhecidos de que Wall-e tem encantado os pequenos, e essa dúvida inexiste em relação a Kung Fu Panda, uma super movimentada sessão de videogame com personagens engraçados e ação visualmente estapafúrdia. É para ver, divertir-se e esquecer.

O filme da Dreamworks Animation, vice já há dez anos no mundo da animação digital, sempre atrás criativamente da Pixar, é aquela coisa de programa perfeito para as crianças, que, em grande parte, não vão dormir. Teve o tratamento tapete vermelho no último Festival de Cannes, onde passou fora de competição com a presença dos atores que dão suas vozes aos personagens, Jack Black, Angelina Jolie e Dustin Hoffman. No Brasil, por causa das cópias dubladas, eles não estão no filme, e os distribuidores tentam destacar os trabalhos de dois astros televisivos nacionais, de longe sem o mesmo efeito: Difícil imaginar alguém pulando de alegria para ouvir Lúcio Mauro Filho e não ver (categoricamente) Juliana Paes, embora sua dublê animada seja gatosa.

Kung Fu Panda explora o universo oriental cinematográfico das artes marciais com personagem titular fofinho de grande identificação. Esse panda chama-se Po, construído como aquele cara legal um pouco obeso que ainda mora com a família, dona de um restaurante de macarrão chinês. Ele é fã de cultura pop (da antiga China), e lá estão referências à comida, fogos de artifício, Bruce Lee, num universo re-popularizado recentemente no ocidente por O Tigre e o Dragão, de Ang Lee, e Kill Bill, de Quentin Tarantino.

Investindo no conceito de "o escolhido", Po é apontado por uma antiga profecia como sendo predestinado a ser um mestre das artes marciais, escolha que choca toda a comunidade. Como pode um urso sem fôlego virar lenda e salvador do Vale da Paz? A escolha inesperada de Po também decepciona os lendários 5 Furiosos, talvez a mais engraçada criação do filme.

São cinco animais, alguns claramente raquíticos geneticamente, todos treinados por Shifu, clássico mestre no estilo Pei-Mei, do filme de Tarantino. Foi ele quem preparou uma tigresa bem 'gata' (Paes), um macaco, uma víbora, uma cegonha e um louva-Deus bem macho. A escolha dessas espécies reflete a própria escolha incomum de Po, e cada um deles revela-se uma máquina de sopapos quando o negócio aperta.

O vilão da história é um outro discípulo de Shifu, um tigre da neve chamado Tai Lung, um cabra tão mal humorado pelo seu treinamento inclemente que virou uma ameaça à sociedade, isolado numa prisão de segurança máxima só para ele, e que quer voltar para vingar-se da comunidade de Po.

Esse tipo de produto é feito por gente profissional que não dá ponto sem nó, explorando o universo infantil contemporâneo como quem segue os resultados de uma pesquisa de mercado. A movimentação dos 5 Furiosos tem muito de Matrix e de videogames como Tekken. A fuga de Tai Lung da prisão é uma partida de videogame já pronta para ser comercializada, e que também demonstra o grau de dificuldade que Po terá no sentido de defender sua comunidade.

A mensagem final de Kung Fu Panda também chega como um alívio para crianças e adultos sedentários. Parece que a conclusão é "basta você ser seu próprio herói com a ajuda dos seus amigos, e tudo dará certo". Que bom.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, Julho 2008

Thursday, June 26, 2008

Wall-e (um Mac)


Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Esta semana, na cabine de imprensa de Wall-e (EUA, 2008), o novo produto da incrível fábrica Pixar, pediram aos jornalistas que entregassem seus celulares à representante da Disney, ordens expressas da grande corporação do castelo encantado para que os telemóveis não fossem usados como máquinas de pirataria. Os três colegas que atenderam ao pedido (declinei polidamente, dentro das possibilidades) viram seus aparelhos embrulhados em sacos plásticos de investigação forense. Ironicamente, protegiam um filme industrial que apresenta bela reflexão sobre um mundo feio de marcas e máquinas. A saber, meu modelo é esse, equipado com duas câmeras e, pelo menos uma delas, capaz de captar imagens decentes durante alguns minutos. Permaneceu comigo. Juro que não gravei nada.

O cinema é normalmente tido como um grande equipamento, uma máquina amparada por tecnologia industrial de produção e distribuição. Raramente, no entanto, filmes são vistos como máquinas em si, e Wall-e resulta numa criação e tanto, uma geringonça admirável. O filme é não apenas uma aventura fascinante para todos, mas pode também oferecer uma visão artística espantosa da sociedade moderna que o produziu, retrato borrado fiel.

Já há algum tempo que tornou-se repetitivo escrever anualmente sobre a excelência da Pixar, a produtora de Toy Story (1995), Os Incríveis (2004) e Ratatouille (2008), todos nota dez. Se fosse um time de futebol, a Pixar seria o campeão invicto há 13 anos, sempre de goleada. Seus vices (Shreks, Abelhas e Pandas, geralmente da Dreamworks Animation) fazem sucesso lutando pelos vitoriosos segundos lugares com piadas televisivas e animações esforçadas.

A Pixar, que foi comprada pela Walt Disney Company por sete bilhões de dólares depois de abafar os filmes da própria Disney em repercussão e arrecadação, conseguiu, sob contrato firmado a ferro e fogo, manter-se livre artisticamente da mãe controladora, sua distribuidora. É um ninho californiano de jovens criadores que continua avançando rumo ao infinito e além com obras cheias de imaginação.

Em Wall-e, o personagem principal é um robô com a sigla titular ainda legível na velha lataria (Wall-e: "waste allocation load lifter – class Earth", ou "empilhadeira de carga para distribuição de lixo – classe Terra"). O conceito é lindo. Essa maquininha é a imagem radical da solidão, o último 'habitante' da Terra, ou talvez dos EUA, que virou um grande lixão. Ele vive numa paisagem de sucata entre montanhas de dejetos das grandes corporações que só industrializavam em larga escala, talvez como a própria Disney.

Como em Blade Runner, a raça humana foi literalmente para o espaço, vivendo em colônias "off-mundo". É retratada como uma nação em órbita formada por americanos obesos cujo sedentarismo - assistido por todo tipo de tecnologia consumista - aboliu o simples contato olho no olho. Nessa sátira a toda uma civilização, o ser humano virou um mamífero inerte com a graça de leões marinhos, inchado pelo seu próprio conforto tecnológico adquirido.

Sozinho na Terra, Wall-e empilha o lixo deixado por essa cultura. No fim do dia, tem uma casinha para onde recolhe-se, sua única amizade a de uma simpática baratinha, a imagem poética da sobrevivência. Um VHS do musical da Fox Hello Dolly (1969) traz algum alento para rotina tão insalubre.

A recorrência do elemento industrial chama a atenção na Pixar. A humanização de brinquedos em Toy Story, ou automóveis, em Carros (2006), é levada a um outro nível, visual e sonoro. O diretor Andrew Stanton, que levou o Oscar de animação por outra demonstração de excelência via Pixar, Procurando Nemo (2003), investe na narrativa puramente visual com leveza marcante, sem diálogos durante boa parte da projeção.

O trabalho de som do gênio na área, Ben Burtt, além de algo especial, revela o conceito que talvez explique o sucesso de Wall-e como exemplar de uma expressão artística pura na sua contaminação como forma de expressão. Foi Burtt quem revolucionou a noção de áudio em Guerra Nas Estrelas e E.T. Não por acaso, Wall-e, visto de perto ou de longe, emitindo sons ou calado, parece mesmo o filho de R2-D2 de George Lucas com o alienígena de Steven Spielberg, filmes emblemáticos para as últimas três gerações, e os que fazem a Pixar pertencem a esse grupo. É de se imaginar o apelo que esse filme terá junto às crianças.

Andrew Stanton, 43 anos, fez do seu filme-máquina um dos mais artísticos mosaicos de peças avulsas do grande lixão que é a cultura pop pós-moderna, hoje, num cenário que mostra-se virtualmente impossível não adotar a estética liquidificador, sensação semelhante à tida numa outra obra autoral lançada há pouco, Fim dos Tempos (The Happening), de M Night Shyamalan.

Estão lá parte do design e da idéia de descontrole via tecnologia de 2001, de Stanley Kubrick, referencias visuais a construções marcantes de Alien e Aliens, em especial no tom industrial de um futuro velho, feito pelos restos da civilização, também de Mad Max. Jacques Tati e seu Playtime não deve estar longe, sem falar que Wall-e, sua amada sonda branca Eva e o filme em si tem a resistência, arrojo de design e confiabilidade de um Mac.

Não é apenas uma questão de admirar a riqueza do conceito, e de como ele é explorado, mas também de levar em conta o cheque branco que a Pixar teve ao nos mostrar um novo filme tão silencioso, por uma vez desprovido da idéia muito comercial de família e que ainda mostra um mundo em grande parte destruído pelas simpáticas multidões de gordos que, na verdade, somos nós, a raça humana.

Em Fim dos Tempos, tivemos um outro colapso da vida na Terra, talvez uma revolta da flora contra a raça humana. Em Wall-e, mais uma vez as preocupações com os destinos do planeta ganham imagens poderosas que só o cinema americano, na sua melhor expressão, é capaz de nos dar. É uma justificativa eco-temática num filme que mimetiza aquilo que ele mesmo é: máquina, indústria e lixo.

Filme visto no UCI Tacaruna, Recife, Junho 2008


Jogo de Amor em Las Vegas (da série "FILME QUE MULHER NÃO GOSTA NÃO DÁ BILHETERIA")

Kleber Mendonça Filho 
cinemascopio@gmail.com

O gênero por excelência do multiplex deve ser mesmo a comédia romântica. É a atração fatal de casais que saem à noite para "pegar um cineminha", o que casa com mantra machista largamente difundido entre distribuidores cinematográficos: "filme que mulher não gosta não dá bilheteria". Na última terça-feira, tudo foi confirmado outra vez. Numa das pré-estréias de Jogo de Amor em Las Vegas (What Happens in Vegas, EUA, 2008), sala quase cheia, gargalhadas em todas as direções para Cameron Diaz e Ashton Kutcher, dois representantes legais da feminilidade e masculinidade cinematográficas de Hollywood hoje, colírios para todas as orientações sexuais atualmente disponíveis.

A personagem dela (loira, magra, bronzeado de micro-ondas) acaba de levar um fora do noivo, o dele (alto, forte, contratualmente sem camisa) acaba de perder o emprego. Suas trajetórias paralelas os levam a Las Vegas, espécie de shangri-lá da cultura americana, "cidade do pecado" onde tudo é permitido em finais de semana regados a dinheiro, bebida e sexo, válvula de escape moral. E os dois lá se encontram para afogar mágoas e, trêbados, casam-se numa cerimônia a jato, horas antes de acordarem com a obrigatória ressaca física e moral.

O roteiro arremessa toda essa informação em cusparadas de imagens maníaco-obsessivas, aparentemente com a intenção de transmitir a loucura que é estar na manguaça em Las Vegas. Vamos Nessa (Go!) havia captado esse clima de farra de maneira bem mais eficaz, e aqui o recado é apenas levemente dado.

Um desdobramento engraçado traz para o casal (que já discute um rápido divórcio) um jackpot de três milhões de dólares, saído de uma máquina onde ela pôs a moeda e ele acionou a alavanca. E o casamento fugaz entre esses dois vira, claro, 'big business', e todos nós (desde o trailer) passamos a desconfiar para onde o filme estará indo.

Em alguns dos melhores momentos (até mais ou menos a audiência com o juiz), eu estava gostando razoavelmente. Há um estilo claramente 'screwball comedy' americana no ar, e o jackpot me pareceu uma idéia cínica sobre a idéia que os americanos têm de um casamento, tema tratado por último no filme do Sex and the City.

Sob ordem judicial, os dois são obrigados a viver seis meses sob o regime de casamento, e entram as piadas sobre tampa de sanitário para cima, cuecas espalhadas pela casa e as horas que ela passa no banheiro mexendo no cabelo. Comentários sobre o mundo corporativo onde ela trabalha marcam presença, e os dois amigos dela e dele ameaçam roubar a graça.

Em alguns momentos, Jogo de Amor em Las Vegas anima bastante a patifaria à mostra na tela com um estilo hiperativo anabolizado que é engraçado por si só. Contra o filme vai a clara higienização de uma história sobre adultos, sexo, bebida, farras e relacionamentos, o que nos sugere um filme melhor que poderia ter sido. Esse filme, aliás, já foi feito e chama-se A Guerra dos Roses (1990), aquela vitamina reforçada de fel que Danny de Vito dirigiu para adultos, com Kathleen Turner ("Woof! Woof!) e Michael Douglas.

Sobre o filme que foi feito, um dos preceitos da comédia romântica é o de que todos os caminhos levam ao casório, mesmo que ao final molenga você sinta uma estranha saudade dos personagens no início da projeção. O ponto de partida num produto como esse sempre soa mais livre do que o final de novela ruim.

Filme visto no UCI Recife, Junho 2008

Monday, June 23, 2008

Recife, Noite de São João

Recife, 23 de Junho, São João.

Cine São Luiz (Largo do Machado, Rio, circa 1976)

Reprodução feita por mim de foto pendurada no Restaurante Lamas, Largo do Machado, Rio.

Cine Olympia (Bairro do Arruda, Recife, circa 1955)

do acervo de Josias Saraiva.

Saturday, June 21, 2008

10 Anos do Cinema da Fundação: Programação


Como co-responsável pela programação cinéfila do Cinema da Fundação, no Recife, posto aqui a programação especial de comemoração dos 10 anos da sala (Bent foi meu primeiro palpite, em maio de 1998). Essa programação começa na próxima quinta, 26, e creio que está divertida, com mistura de clássicos em 35mm e coisas mais novas em digital.

Espero vê-los por lá. Além de exibir filmes e promover diálogos depois de alguns deles, deveremos fazer uma feira de cartazes, abrindo os arquivos dos últimos 10 anos para que o público compre seus favoritos! Yeah.


Quinta-Feira, 26 de Junho

16h – Estamos Bem Mesmo Sem Você
(Anche Libero Va Bene, Itália, 2006) Com Alessandro Morace, Kim Rossi Stuart, Barbara Bobulov. Abandonado pela mãe e pela esposa Stefania (Barbora Bobulova), Renato (Kim Rossi Stuart) e seu casal de filhos formam uma família unida. Tommy (Alessandro Morace), de 11 anos, vive sua rotina, apesar das eventuais brigas com sua irmã Viola (Marta Nobili) e do temperamento duro e disciplinador do pai. Um dia, porém, Stefania volta para casa e sua presença desequilibra aquela união. Seleção Quinzena dos Realizadores Festival de Cannes.
Tela Plana / Dolby Digital / 108 mins / 12 anos / em Digital

18h10 – Casablanca
(EUA, 1941) De Michael Curtis. Com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Claude Rains e Peter Lorre. Dispensa apresentação esse clássico do cinema industrial hollywoodiano onde tudo parece ter dado certo, do roteiro de Julius Espstein, Philip Epstein e Howard Koch às presenças de Bergman e Bogart, Rains e Lorre. Chance rara de (re)ver no cinema o reencontro de Rick e Ilsa, um amor mal resolvido na perigosa Casablanca, portão de saída para o mundo em guerra.
Tela Plana / 102 mins / mono / Livre / em 35mm

20h10 – Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto
(Before The Devil Knows You’re Dead, EUA, 2007), de Sidney Lumet. Com Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei. Crônica violenta sobre dois irmãos que arriscam tudo num golpe criminoso contra a própria joalheria da família. O plano sai tragicamente errado e as conseqüências são duras. Aos 81 anos, Sidney Lumet surpreende com um filme vigoroso, defendido por elenco excelente.
Tela Plana / 117 mins / Dolby Digital / 16 anos / em Digital.

Sexta-Feira, 27 de Junho

17h – Os Vivos e os Mortos
(The Dead, EUA, 1987). De John Houston. Com Anjelica Houston, Donald McCann. Filme testamento de John Houston (O Tesouro de Sierra Madre, Uma Aventura na África), uma herança e tanto sobre a diferença entre a mera existência e viver. Honra o conto de James Joyce, Os Mortos (de Os Dublinenses), de onde foi adaptado, com rara felicidade.
Tela Plana / 84 mins / Livre / Mono / em 35mm.

18h50 - O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro
(Brasil, 1969) De Glauber Rocha. Mauricio do Valle, Odete Lara, Othon Bastos, Hugo Carvana, Emmanuel Cavalcanti. Cópia restaurada (a partir de uma cópia francesa, o negativo original perdeu-se num incêndio num laboratório de Paris) do filme que deu a Glauber Rocha o prêmio do júri no Festival de Cannes. Depois de quase 30 anos, o matador de cangaceiro Antônio das Mortes (visto em Deus e o Diabo na Terra do Sol) é chamado por um latifundiário para matar um novo bandido. No entanto, esse novo cangaceiro é libertário e logo o matador irá rever seu papel naquele mundo.
Tela Plana / 100 mins. / 12 anos / Mono / em 35mm

21h - Do Outro Lado
(Auf der anderen Seite, Alemanha, 2007), de Fatih Akin. Com Nurgül Yesilçay, Baki Davrak e Hanna Schygulla. O diretor alemão de origem turca Fatih Akin (Contra a Parede) une suas duas culturas neste drama sobre pais e filhos e as muitas fronteiras que precisam ser negociadas. O viúvo Ali apaixona-se por Yeter, uma prostituta. Ela conquista o respeito do filho dele ao revelar que sustenta os estudos de uma filha, na Turquia. A estudante, uma ativista política, virá para a Alemanha, onde apaixona-se pela também estudante Lotte, de família alemã conservadora. Melhor Roteiro Cannes 2007.
Tela Plana / Dolby Digital / 14 anos / 122 mins / em Digital.


Sábado, 28 de Junho

16h30 Um Convidado Bem Trapalhão
(The Party, EUA, 1968) De Blake Edwards. Com Peter Sellers. Comédia clássica sobre um ator indiano em Hollywood (Sellers, num dos seus melhores momentos) com talento especial para o desastre. Convidado por engano para uma festa da alta roda em Beverly Hills, ele irá transformar a noite numa insuperável sequência de catástrofes cômicas, filmadas com grande elegância por Edwards, parceiro de Sellers na série A Pantera Cor de Rosa. Tela Larga / 99 mins. / Mono / Livre / em 35mm.

18h30 Ondas do Destino
(Breaking The Waves, Dinamarca/França/Alemanha, 1996). de Lars Von Trier. Com Emily Watson, Stelan Skarsgard, Jean Marc Barr. Antes de Os Idiotas (1998), Dançando no Escuro (2000) e Dogville (2003), todos exibidos no Cinema da Fundação, Lars Von Trier fez essa obra prima ambientada numa comunidade conservadora da Escócia, na década de 70. Narrado com o estilo hipnótico do diretor, o efeito emocional sobre o espectador é frequentemente devastador. Bess é a esposa de Jan, operário de uma plataforma no Mar do Norte. Depois que ele sofre um acidente, ela leva a fé religiosa às últimas conseqüências para que Jan fique bom. Chance rara de ver na tela grande esse filme que lembra que o amor pode ser uma força sagrada da natureza. Grand Prix no Festival de Cannes.
Tela Larga / Dolby SR / 160 mins / 14 anos / em 35mm

21h40 O Escafandro e a Borboleta
Le Scaphandre et le Papillon (França/EUA, 2007), de Julian Schnabel. Com Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze. Tocante adaptação para o cinema do livro escrito por Jean Dominique Bauby, editor da revista Elle, que, aos 42 anos, viu-se preso dentro do próprio corpo através de uma condição médica incomum. Seu único contato com o mundo, seu olho esquerdo, com o qual foi capaz de comunicar-se e dedicar-se à escrita. O diretor Schnabel (Basquiat, Antes do Anoitecer) evita boa parte do teor melodramático que o tema poderia sugerir. Prêmio de Diretor Festival de Cannes.
Tela Plana / 112 mins / 12 anos / Dolby Digital / em Digital


Domingo, 29 de Junho

16h Casablanca 2a. Exibição
(EUA, 1941) De Michael Curtis. Com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Claude Rains e Peter Lorre.
Tela Plana / 102 mins / mono / Livre / em 35mm


18h O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro
2a. Exibição
(Brasil, 1969) De Glauber Rocha. Mauricio do Valle, Odete Lara, Othon Bastos, Hugo Carvana, Emmanuel Cavalcanti.
Tela Plana / 100 mins. / 12 anos / Mono / em 35mm

20h Luz Silenciosa
(Stellet Licht, México/França, 2007) de Carlos Reygadas. Com Elizabeth Ferr e Jacobo Klassen. No México, um pai de família numa comunidade menonita conservadora e fechada para o mundo externo tenta lidar com a paixão por uma outra mulher. Este é o primeiro filme a ser distribuído no Brasil do premiado realizador mexicano Carlos Reygadas (Japón, Batalla en el Cielo). Prêmio do Júri Festival de Cannes.
Tela Larga / Dolby / 14 anos / 130 mins / em 35mm

Segunda, 30 de Junho

17h FACES
De John Cassavetes
Com Gena Rowlands. Homem casado já maduro deixa a esposa para ficar com mulher mais jovem. Pouco tempo depois, a esposa também encontra uma outra relação. Sobre o filme, o crítico Roger Ebert escreveu: “Faces, de John Cassavetes, é o tipo de filme que te faz querer pegar pessoas pelo pescoço arrastando-as para dentro do cinema e gritando “Aqui, veja!”.
Tela Plana / 130 mins. / Mono / 12 anos / em 35mm.


19h30 Sessão seguida de debate com o realizador
N o m e P r ó p r i o
De Murilo Salles. Com Leandra Leal. A história de uma jovem que dedica a vida à escrita, enquanto vive apaixonadamente.. Para ela, o que interessa é construir uma trajetória como ato de afirmação. Sua vida é sua narrativa. Adaptação dos livros "Máquina de Pinball" e "Vida de Gato", da escritora gaúcha Clarah Averbuck. O filme também recorre a textos de sua autoria publicados na internet e em seu blog. Fotografado em digital (câmera HVX-200 da Panasonic) com resultado estético marcante, terá carreira nos cinemas apenas no formato digital.
Tela Plana / 120 mins / Dolby Digital / 14 anos / em Digital

Terça, 1 de Julho

16h30 Os Vivos e os Mortos 2a. Exibição
(The Dead, EUA, 1987). De John Houston. Com Anjelica Houston, Donald McCann.
Tela Plana / 84 mins / Livre / Mono / em 35mm.


18h20 – SESSÃO DUPLA
Curta-metragem Eisenstein
De Leonardo Lacca, Raul Luna e Tião. Ivan se apaixona por Alessandra, a neta de Eisenstein. O premiado curta pernambucano abre a sessão do clássico do cinema soviético dirigido por Sergei Eisenstein.
Tela Plana / Dolby / 20 mins / em 35mm
+
O Encouraçado Potemkin
(Bronenosets Potyomkin, URSS, 1925) De Sergei Eisenstein. Ausente dos cinemas pernambucanos há mais de 25 anos, esta é uma oportunidade imperdível de (re)ver em 35mm este clássico absoluto do cinema mundial. Norte para diversas gerações sobre a personalidade da montagem na narrativa cinematográfica. Filme foi encomendado, 20 anos depois, pelo governo soviético para lembrar o motim do encouraçado Príncipe Potemkin, em 1905, que desencadeou uma repressão sangrenta do poder do Czar, servindo como um dos estopins da Revolução Russa. A cena da escadaria de Odessa nunca será esquecida como exemplo revelador do poder da edição.
Tela Plana / 80 mins. / em 35mm / ATENÇÃO: filme mudo com intertítulos.

20h20 - Première do Curta Metragem
MURO
Sessão seguida de debate com o realizador

(2008), de Tião.
Alma no vazio, deserto em expansão. Prêmio “Novo Olhar” na Quinzena dos Realizadores – Festival de Cannes 2008.
Tela Larga / 18 mins / Dolby / em 35mm

Quarta, 2 de Julho

16h Um Convidado Bem Trapalhão 2a. Exibição
(The Party, EUA, 1968) De Blake Edwards. Com Peter Sellers. Tela Larga / 99 mins. / Mono / Livre / em 35mm.



18h Estamos Todos Bem Mesmo Sem Você 2a. Exibição
(Anche Libero Va Bene, Itália, 2006) Com Alessandro Morace, Kim Rossi Stuart, Barbara Bobulov.
Tela Plana / Dolby Digital / 108 mins / 12 anos / em Digital

20h10 - Amigos de Risco
Sessão seguida de debate com o realizador

(2008) De Daniel Bandeira. Com Irandhir Santos, Rodrigo Rizla e Paulo Dias. Dois amigos encontram um terceiro que volta do Rio de Janeiro ao Recife com uma proposta arriscada. Pela madrugada hostil da cidade, o trio irá descobrir revelações que porá em jogo o tenso relacionamento entre eles. Seleção Oficial do Festival de Brasília 2007.
Tela Plana / 88 mins / Dolby / em 35mm


Quinta, 3 de Julho
18h Longe Dela
(Away From Her, Canadá, 2007) De Sarah Polley. Com Julie Christie, Esse filme forte pode correr o risco de ser confundido com o tipo “doença da semana”, mas fica longe disso com tratamento nada sentimental. A atriz Sarah Polley (O Doce Amanhã) estréia na direção contando a história de um homem que observa sua esposa(Julie Christie), que sofre de Alzheimer, apaixonar-se por outro homem, num ensaio sobre a vida e seus detalhes que somem aos poucos. Tela Plana / 110 mins / 14 anos / em Digital

20h20 Sessão seguida de debate com os realizadores

P i n d o r a m a - A Verdadeira História dos Sete Anões
De Leo Crivelare, Lula Queiroga & Roberto Berliner. Registro de uma família que mora, vive e trabalha num circo. Assim é a vida de Charles, Zuleide, Gilberto, Cleide, Rogério, Claudio e Lobão, sete anões irmãos, descendentes do mítico e também diminuto palhaço Pindoba. Juntos formam o circo Pindorama, uma trupe que circula pelo sertão nordestino. Prêmio do Público Mostra Internacional de Cinema de São Paulo / Seleção Festival Internacional de Documentários de Amsterdã.
Tela Plana / 76 mins / Dolby Digital / Livre / em Digital


Sexta, 4 de Julho


16h30 - O Escafandro e a Borboleta 2a. Exibição
Lê Scaphandre et le Papillon (França/EUA, 2007), de Julian Schnabel. Com Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze. Tela Plana / 112 mins / 12 anos / Dolby Digital / em Digital

18h40 - FACES 2a. Exibição
De John Cassavetes
Com Gena Rowlands.
Tela Plana / 130 mins. / Mono / 12 anos / em 35mm.

21h10 - Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto 2a. Exibição
(EUA, 2007), de Sidney Lumet. Com Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei.
Tela Plana / Dolby Digital / 16 anos / em Digital.


Sábado, 5 de Julho
16h – O Encouraçado Potemkin 2a. Exibição
(Bronenosets Potyomkin, URSS, 1925) De Sergei Eisenstein. Tela Plana / 80 mins. / em 35mm / ATENÇÃO: filme mudo com intertítulos.

17h40 Do Outro Lado
2a. Exibição
(Auf der anderen Seite, Alemanha, 2007), de Fatih Akin. Com Nurgül Yesilçay, Baki Davrak e Hanna Schygulla.
Tela Plana / Dolby Digital / 14 anos / 122 mins / em Digital.

20h10 A Banda
(Bikur Ha-Tizmoret, Israel/França, 2007). De Eran Kolirin. Com Sazón Gabai, Ronit Elkabetz e Saleh Bakri. Diferenças culturais entre judeus e árabes rende um enfoque sem brutalidades na história de um grupo de músicos egípcios que vão tocar em Israel, mas desembarcam na cidade errada, no meio do nada. A interação desses homens com os moradores é delicada e às vezes muito engraçada. Prêmio Coup de Coeur mostra Um Certain Regard – Festival de Cannes 2007.
Tela Plana / 87 minutos / Livre / Dolby Digital / em Digital.

22h - CORAÇÃO S E L V A G E M
(Wild at Heart, EUA, 1990) De David Lynch. Com Nicolas Cage, Laura Dern, Willem Dafoe. David Lynch ganhou sua Palma de Ouro em Cannes com essa viagem romântica e ultra-violenta pelas estradas americanas, sempre seguindo a faixa amarela no chão rumo ao fim do arco-íris. Repleto de excessos surreais que quase nunca parecem gratuitos, Cage e Dern são dois apaixonados que fogem dos capangas enviados pela mãe dela, e sorte deles que há uma fadinha para iluminar o caminho.
Tela Larga / 120 mins / Dolby / 16 anos / em 35mm.

SESSÃO MEIA-NOITE
Diário dos Mortos
(Diary of the Dead, EUA, 2008), de George Romero. Com Joshua Close, Michelle Morgan. Enquanto produzem um filme de zumbi com orçamento zero, grupo de estudantes será obrigado a enfrentar mortos vivos de verdade em situações de vida e morte. Do mestre do gênero horror, George Romero, que desde A Noite dos Mortos Vivos (1968) comenta a sociedade americana usando o tema com grande efeito.
Tela Plana / Dolby Digital / 95 mins. / 16 anos / em Digital

Domingo, 6 de Julho

17h A Banda 2a. Exibição
(Bikur Ha-Tizmoret, Israel/França, 2007). De Eran Kolirin. Com Sazón Gabai, Ronit Elkabetz e Saleh Bakri.
Tela Plana / 87 minutos / Livre / Dolby Digital / em Digital.

19h Ondas do Destino 2a. Exibição
(Breaking The Waves, Dinamarca/França/Alemanha, 1996). de Lars Von Trier. Com Emily Watson, Stelan Skarsgard, Jean Marc Bar.
Tela Larga / Dolby SR / 160 mins / 14 anos / em 35mm