Thursday, August 21, 2008

O Procurado


Angelina, boneca.


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O Procurado (Wanted, EUA, 2008) é a estréia do cineasta russo-cazaqui Timur Bekmambetov em Hollywood. Ele chegou ao mercado americano como o responsável pelos dois maiores sucessos de público do cinema pós-soviético, Guardiões da Noite e Guardiões do Dia (Dnevnoy Dozor e Dnevnoy Dozor 2, disponíveis em DVD), filmes russos do gênero fantástico repletos de efeitos especiais que arrasaram nas bilheterias dos países da ex-URSS, deixando Hollywood comendo poeira. O que fazer com um diretor regional desses, pensou Hollywood? Aliar-se a ele para evitar mais danos.

Em O Procurado, Bekmambetov faz o serviço de chegar ao mínimo denominador comum exigido para esse tipo de filme de ação com o máximo de barulho e estupidez. Em alguns momentos, cheguei a ter lembranças de Bad Boys II, de Michael Bay, embora aquele permaneça o monumento mor à fartura e ao desperdício quando as palavras chave são "entretenimento" e "grosseria". Resta saber se a desenvoltura de Bekmambetov vem de um cinismo inteligente no sentido de dar o que Hollywood quer ou se ele tem mesmo vocação pessoal para esse tipo de coisa. As duas opções são prováveis.

O Procurado, que foi um sucesso de 120 milhões de dólares nos cinemas americanos, lançado em junho (e já uma outra vitória fenomenal na terra de Bekmambetov), é um desses filmes liquidificador que misturam pedaços de pelo menos dois títulos emblemáticos lançados em 1999: Matrix e Clube da Luta. A seqüência de abertura e inúmeras afetações que envolvem balas em câmera lenta lembram o primeiro, o perfil e a narração do personagem principal o segundo.

O herói revela a ética do filme, que parece ter sido formulada por um menino de 12 anos de idade aditivado por latas de Redbull contrabandeadas para dentro do seu quarto. Wesley Gibson (o escocês James Macavoy, de O Último Rei da Escócia) é um "perdedor" que será transformado em herói.

Perdedor num filme como esse honra o adjetivo bem americano dado a qualquer um que tem uma vida normal, emprego chato e cuja chefe é não apenas irritante e imbecil, mas ainda gorda e feia. Wesley, que está sendo traído pela namorada loira e também irritante, está tão por baixo que chega a emprestar dinheiro para o melhor amigo canalha comprar camisinhas que serão usadas na menina infiel.

Essa busca pela máxima identificação do público alvo (adolescentes 'perdedores' com vidas sexuais inexistentes) trará uma virada supostamente catártica, e essa virada de Wesley vem num supermercado, onde surge Angelina Jolie, personificação atual da sexualidade cinematográfica, irreal e, daí, inatingível.

Jolie pode ser uma mãe e ter vida normal de mulher e amiga, mas sua imagem meticulosamente filmada lembra, cada vez mais, uma boneca inflável dela mesma. Armada até os dentes e com movimentos só possíveis no cinema de ação, ela traz uma história de que Wesley é filho de um super assassino que morreu na seqüência de abertura. Começa aí um tiroteio e uma perseguição.

Mais tarde, Wesley ficará sabendo que Jolie, codinome Fox, assim como ele, faz parte de uma irmandade de assassinos com mais de mil anos de trajetória. Funcionam sob a fachada de tecelões (!...!) cuja missão no mundo é não apenas fazer colchas e suéters, mas matar gente que o destino aponta como futuros problemas para a humanidade. Wesley, sem saber, tem no sangue o talento para matar, algo esclarecido ao vermos que ele é capaz de arrancar as asas de três pobres moscas dando tiro.

Morgan Freeman é o chefe tecelão/assassino, e logo irá mostrar a Wesley que a marca registrada da irmandade é conseguir dar tiro mandando a bala numa curva, o que me lembrou os chutes de Éder na seleção de 1982, na Espanha.

A lógica adolescente pega pesado, e é marretada na cara da platéia constantemente, e isso inclui a fala final, olhando para a câmera. A auto estima do nosso herói cresce vertiginosamente ao sentir-se armado com uma pistola e ao ver que sua conta bancária conta com o surpreendente saldo de três milhões e tantos mil dólares.

Finalmente, Wesley é um homem de verdade, capaz de mandar a chefe nojenta e o amigo para aqueles cantos, e se a ação já não era clara o suficiente, Bekmambetov ainda estampa a mensagem em arrojados efeitos digitais que soletram um espetacular FUCK YOU na tela. Talvez seja essa ética, e não tanto as duas dezenas de cabeças destroçadas por balas fashion que tenham dado ao filme classificação '18' em vários países, inclusive no Brasil.

Vendo O Procurado, observa-se a identidade insana de tudo, vindo de um cineasta estrangeiro cuja origem é o cinema russo, que historicamente deu ao mundo algumas das imagens mais profundas já criadas, tanto na capacidade que têm de sugerir como intrigar. Bekmambetov, claramente fruto de uma mutação moderna do cinema globalizado, aparece como uma espécie de caricatura alienígena do cinema comercial hollywoodiano, algo que a própria indústria tem nos mostrado ao longo de sua história.

Nomes estrangeiros têm entrado na produção americana com um certo algo extra, seja a agressividade sexual e/ou brutal de um Paul Verhoeven, ou a carpintaria de um Wolfgang Petersen, ou o barroco chinês de John Woo. Recentemente, um Alexandre Aja, francês, chegou todo cruel com o tipo de violência filmada que extrapola os limites americanos do "R" (fez The Hills Have Eyes , depois de impressionar, ainda na França, com o slasher para adultos Haute Tension), mas já mostra-se devidamente adestrado.

No caso de Bekmambetov, resta observar a sua falta de vergonha ao apresentar filme tão espetacularmente débil mental, reprocessando todos os clichês do cinema comercial numa embalagem toda agitada.

Filme visto no UCI Boa Viage, Recife, agosto 2008

Corpo


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


À primeira vista, Corpo (Brasil, 2007), filme dos paulistas Rossana Foglia e Rubens Rewald, passa como uma oportunidade perdida, e em alguns pontos, talvez seja. De qualquer forma, a idéia do filme, algumas das suas imagens e seu tom geral tendem a ficar com o espectador. Pode ser pelo fato de revelar-se uma anomalia na produção brasileira atual, um filme de gênero (policial? Suspense? Noir?) que, se não chega a cruzar esses terrenos com convicção e desprendimento, pelo menos mostra sinais de vitalidade, uma ironia num filme fascinado pela matéria morta.

O fascínio vem, em grande parte, do personagem principal (Leonardo Medeiros), médico legista do Instituto Médico Legal, ele mesmo pintado como uma variação do morto-vivo. Não se sabe ao certo se esse personagem foi assim composto, ou se o mérito é de Medeiros, ator que parece trabalhar com a apatia sedada em todos os seus personagens. Seu Artur sugere trabalhar de noite no necrotério em Corpo e de dia no sistema de controle de tráfego do seu outro personagem em Não Por Acaso, de Philipe Barcinsky, ou ainda como o professor universitário brasiliense de Simples Mortais, de Mauro Giuntini.

De qualquer forma, é Artur o nosso condutor pela morbidez desse filme, traduzida em imagens cruas e precisamente desagradáveis o trabalho interno no IML, com o que me pareceu excelente trabalho de maquiagem. Essa morbidez nunca se transforma em artefato gratuito, pois Artur realmente mostra-se laconicamente tocado pela história dos mortos, deitados ali na sala. Aspectos relacionados à idéia de necrofilia não devem ser descartados.

Essa sensação cresce com o surgimento do corpo de uma bela mulher, trazido para o IML como parte de uma descoberta que irá mexer com os arquivos da ditadura. A questão é que as ossadas descobertas aparentam ter os 30 anos que as separam do presente, mas o corpo, também desenterrado no mesmo local, encontra-se em perfeito estado de conservação.

A chefe pragmática de Artur, Dra. Lara (Chris Couto, atuação tensa), decreta que o corpo é recente e que será enterrado como indigente, caso ninguém o procure. Pressionado, ele parte para pesquisar o passado nos arquivos do DOPs, e encontra a história de uma atriz e militante política que desapareceu nos anos 70.

O fascínio de Artur pelos registros, e seu desejo de que esses registros casem com a realidade física guardada no IML sugerem um misterioso toque de loucura que respinga também no espectador.Chegamos, então, à filha da mulher, a jovem Fernanda (Rejane Arruda), bela, viva e idêntica ao corpo no IML.

Me chama a atenção como o filme sai-se bem do seu ponto de partida e atinge o núcelo dessa história ainda desenvolvendo-se bem o suficiente para nos levar a desdobramentos finais que, infelizmente, não me satisfizeram. A provável loucura romântica de Artur seria o ouro narrativo dessa história de duplos com algo de assustador, e com um tom tão sóbrio quanto mórbido.

São elementos curiosos que o filme investiga sem um senso maior de organização, o que poderá passar para alguns a já citada sensação de oportunidade perdida. É o tipo de filme onde o espectador espera que tudo enlouqueça mais, se descabele mais, uma vez que o terreno para isso foi construído. Ao final, temos um curioso exercício de baixo impacto sobre morbidez, vida e morte onde a história recente do Brasil, via ditadura, ganha releitura original, mas com resultado, eu suspeito, dramaticamente subdesenvolvido.

Filme visto no Palácio 1, Festival do Rio, Setembro 2007.

Monday, August 18, 2008

O Cinema, a Crítica, o Cineasta, Todos Nós


The Perry Bible Fellowship/Nicholas Gurewitch.

http://pbfcomics.com/


(clique na tira para vê-la maior)

Sunday, August 17, 2008

Gramados Prêmios


Mesa pós-premiação em restaurante de Gramado.

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A 36a edição do Festival de Gramado foi encerrada na noite de sábado em cerimônia profissional transmitida ao vivo pela TV. Nome Próprio, filme de Murilo Salles, foi o vencedor do prêmio Kikito de Melhor Filme brasileiro de Longa Metragem. O júri, formado pelos cineastas Roberto Gervitz, Ana Carolina, Lina Chamie e Carlos Gerbase, e o crítico Marcelo Janot, também honrou o prazeroso novo filme do autor carioca Domingos Oliveira, Juventude, com os prêmios de Melhor Diretor e Roteiro. Num virtual terceiro lugar, A Festa da Menina Morta, primeiro esforço do ator Matheus Nachtergaele, teve estréia nacional em Gramado depois de uma première internacional no Festival de Cannes, e ficou com o Prêmio Especial do Júri, Prêmio da Crítica e Júri Popular.

Nome Próprio, drama intimista sobre os diferentes estados emocionais de uma jovem mulher, surpreendeu como Melhor Filme não por questões de qualidade, mas pelo fato de ter estreado no Festival do Rio, em setembro do ano passado, e de já estar nos cinemas em diversas capitais do país. Na moeda corrente dos festivais, onde preza-se o ineditismo, o filme, que também passou na noite de abertura, superou todos os obstáculos, confirmando ainda o prêmio de Melhor Atriz para Leandra Leal.

“Mais do que ganhar Melhor Filme, inscrevi o filme em Gramado para que Leandra ganhasse Melhor Atriz. Missão mais do que cumprida”, me falou Salles, depois da cerimônia. Também na saída do Palácio dos Festivais, o cineasta gaúcho Gustavo Spolidoro, cujo primeiro longa metragem, Ainda Orangotangos passou no mesmo Festival do Rio que lançou Nome Próprio, disse não ter inscrito sua obra por achar que Gramado só queria inéditos, revelando a imprevisibilidade confusa de festivais.

Dos seis filmes brasileiros em competição, os Kikitos foram divididos entre Nome Próprio, Juventude (levou também o Prêmio de Qualidade Artística para a trinca de atores Paulo José, Domingos Oliveira e Aderbal Freire Filho) e A Festa da Menina Morta (ainda, Fotografia, de Lula Carvalho, e Melhor Ator para Daniel de Oliveira). Vale observar o prêmio de Lula Carvalho, jovem e expressivo profissional da câmera (fez Tropa de Elite). Numa seleção dominada pela imagem digital, o júri pinçou o único filme que usou película 35mm do lote.

Para o filme de Nachtergaele, que chegou como "o filme" de Gramado, com o carimbo de Cannes no cartaz e no CV, dono do espaço mais nobre da competição (sexta à noite), fruto de um ator admirado e respeitado que alça novos vôos, e com a aura impressa de "radical", o resultado foi visto como uma decepção, por alguns, seja pela não premiação, ou mesmo pelo filme em si.

Eu pessoalmente respeito o trabaho de todos os envolvidos, mas não consigo entrar no filme, talvez pela sensação de estarmos participando de uma intensa oficina de atores no meio da floresta Amazônica, a experiência tão intensa que qualquer dramaticidade é esvaziada para dar espaço a um senso de teatro que parece procurar no teor cultural (religiosidade, geografia, folclore) uma validação, ou mesmo um empurrão.

Os muito fracos Netto e o Domador de Cavalos, de Tabajara Ruas, e Vingança, de Paulo Poms ficaram sem nada, como também a reveladora viagem áudiovisual pela América do Sul Pachamama, de Eryk Rocha, único documentário desta seleção, claramente orfão numa seção dominada pela ficção.

Salles espera que os prêmios de Gramado para Nome Próprio dêem gás na bem sucedida carreira do filme nas salas. Lançado apenas em formato digital, Nome Próprio já fez 25 mil espectadores nos cinemas, pouca verba de divulgação e uso pesado de internet.

LATINOS – Nos filmes latinos, os jurados Jorge Duran (cineasta), Diana Kuelar (jornalista), Germano Coelho Filho (produtor), Matias Mosterín (produtor) e Ricardo Casas (produtor) preferiram o tranqüilo mexicano Cochochi (acusado de ser iraniano, por alguns), rito de passagem para duas crianças na província de Chihuahua, que ficou com Melhor Filme e Prêmio de Qualidade Artística.

O agoniado videoclipe da barbárie latina com tintas de thriller amarelo ocre Perro Come Perro, de Carlos Moreno (que a crítica em Gramado votou Melhor Filme) ganhou Melhor Diretor e Atores (Marlon Moreno e Oscar Borda). O bem intencionado, cativante, e algo de verde argentino Por Sus Próprios Ojos, de Liliana Paolinelli, ganhou Prêmio Especial do Júri, Roteiro, Atriz (Ana Carabajal).

CURTAS – Depois de passar na seleção da Semana da Crítica, em Cannes, o belo curta Areia, de Caetano Gotardo, venceu Gramado (Melhor Filme, Fotografia para Heloisa Passos e Atriz, Malu Calli). Gotardo, no melhor discurso da noite, homenageou Domingos e Manoel de Oliveira, dizendo querer ser um dia tão jovem quanto o cinema deles. Outro destaque foi o paranaense Booker Pittman, de Rodrigo Grota, que ganhou Gramado ano passado com Satori Uzo. O novo filme segue os passos do primeiro, mas com interessante desdobramento. Ganhou Prêmio Especial do Júri, Crítica e Canal Brasil.

O gaúcho Subsolo, de Jaime Lerner, levou Melhor Diretor, o ator Augusto Madeira, visto em Blackout, de Daniel Rezende, e Noite de Domingo, de Rodrigo Hinrichsen, Melhor Ator. O divertido doc de animação Dossiê Rebordosa, de César Cabral, fcou com roteiro.

O FESTIVAL – Nas palavras de um dos homenageados esse ano, o cine-autor Júlio Bressane, “Gramado havia sido levado à cova em anos recentes” (há relatos de que o prefeito da Cidade não gostou nada das palavras, e retirou-se), e volta aos poucos à vida via curadoria de José Carlos Avellar e Sérgio Sanz.

É verdade que a mística turística da cidade e sua aura artificial de Disneylândia com bons restaurantes, hotéis e excelentes serviços continua agregando o culto às celebridades, creio que independente dos caminhos tomados pelo festival em si. Carregamentos diários de jovens atores e atrizes globais nível Malhação que mal sabem o que significa cinema são trazidos para dar a grande pinta, gerando enorme gritaria no cada vez mais longo tapete vermelho.

Em relação ao cinema, o festival recupera-se, tanto nos curtas como nos longas, ora abrindo espaço obrigatório para a fraca produção gaúcha, ora prezando o cinema autoral. Sobre a seleção latina, vale perguntar se Gramado não teria poder de fogo para pescar títulos importantes do cenário atual, que poderiam ter no festival sua primeira e mais vistosa porta de entrada no país.

Friday, August 15, 2008

O novo Domingos



Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


E na noite de quinta-feira, chegou em Gramado um dos autores mais peculiares do cinema brasileiro, o carioca com afetuosa voz de uísque Domingos Oliveira. Mostrou seu novo filme, Juventude, apresentado no Festival de Gramado na mostra competitiva. Subiu ao palco com Paulo José, seu parceiro de mais de 40 anos, fizeram juntos Todas as Mulheres do Mundo (1966), e voltam a trabalhar nessa espécie de réquiem de homens maduros que olham para a vida com compreensão e bom humor. Já na apresentação, os dois deixaram claro que trata-se de uma obra pessoal que se debruça sobre a vida, feita com poucos recursos e grande afeição.

Um filme como Juventude revela-se uma curiosidade na atual produção nacional. Rodado com câmeras digitais (e projetado em digital) que exclamam a cada imagem o aspecto “VIDEO!!”, o filme tem o look mais radical dos filmes exibidos até agora em Gramado dessa safra, numa seleção marcada pela imagem digital de alta definição (Vingança, de Paulo Pons, Pachamama, de Eryk Rocha, Nome Próprio, de Murilo Salles). O filme de Oliveira contenta-se em manter um look “baixa resolução” que gerou comentários negativos de membros da platéia, finda a sessão. Esteticamente, esse visual, que é, certamente, ‘feio’, agrega algo de significativo para um autor brasileiro que não pára quieto, filmando o que quer da maneira que quer.

De qualquer forma, a câmera circula pelo filme nas mãos de Dib Lutfi, o lendário cameraman do cinema brasileiro que filmou para Glauber Rocha (Terra em Transe) e Nelson Pereira dos Santos (Como Era Gostoso o Meu Francês). A presença de Lutfi fecha os personagens num quarteto, uma vez que na frente da câmera são três os protagonistas.

Oliveira interpreta, mais uma vez, ele mesmo, o cineasta/teatrólogo bon vivant já chegando aos 70, admirador das mulheres, cardíaco, fumante e sempre com uísque ou bebidas de teor alcoólico na mão. Ele visita um grande amigo, judeu riquíssimo (Paulo José) que mora num palacete em Petrópolis, Rio de Janeiro. Chega um terceiro amigo, cardiologista (Aderbal Freire Filho) um pouco mais jovem.

E os três passam a noite numa deliciosa conversa de bêbado, três homens vivendo os proverbiais ‘outonos de suas vidas’ num lero que, quase sempre, corre fluente como água. A adesão ao filme pelo espectador deverá vir da capacidade de cada um de embarcar nessa noite de lembranças e revelações de homens que já foram viris, e que hoje entendem a passagem do tempo sem grandes arrependimentos ou rios de lamúrias.

Oliveira filma como se estivesse à frente de um delicioso vídeo caseiro feito com seus amigos, e o filme traz um somatório de verdades pessoais que dão ao filme um aspecto de autenticidade, mesmo que o tom geral lembre muito As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand, onde os últimos dias de um personagem tomam o rumo do humor e do sarcasmo para com a vida. Não é exatamente um filme revolucionário, mas sua coerência com a obra do autor Oliveira e com um lado desesperadamente otimista da vida revelam-se pontos fortes.

Com Juventude, Oliveira oferece um filme diferente de qualquer outro na produção brasileira. Radicalmente pessoal no fazer e também no falar, funciona tanto pelas habituais tiradas faladas por Oliveira com seu humor romântico, e ao mesmo tempo ligeiramente atônito, como pela habilidade de se comunicar com o público. Foi claramente o filme mais bem recebido pela platéia, gerando inclusive uma ovação para Oliveira e José ao final da sessão.

Wednesday, August 13, 2008

Gramado 2


Em Netto e o Domador de Cavalos, Werner como o alter ego da filmografia gaúcha. Tarcísio Meira Filho faz um índio guarani.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A noite de terça-feira foi um tanto dura na mostra competitiva de longas, com destaque para mais um exemplar de um certo cinema gaúcho muito dedicado ao resgate de folguedos e folclores dos pampas. Abrindo com o documentário de Cabo Verde, sobre Cabo Verde, Mindelo – Atrás de Horizonte, filme caleidoscópio do cineasta Alexis Tsafas, a noite trouxe na seqüência o drama de época com tinta de western sulista Neto e o Domador de Cavalos, de Tabajara Ruas. Entre um filme e outro, o ator Walmor Chagas recebeu a principal homenagem do Festival de Gramado esse ano.

No palco do Palácio dos Festivais para receber o prêmio Oscarito, Chagas, gaúcho que foi para São Paulo aos 22 anos investir na profissão de ator, é um dos rostos mais conhecidos da dramaturgia brasileira, tanto no teatro, cinema e TV. No cinema, estreou no excelente São Pulo S.A (1965), filme de Luis Sérgio Person. Esteve também em Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues, para citar dois dos seus papeis memoráveis. Num discurso conciso, Chagas disse que “é uma situação muito estranha e emocionante. A sensação de ter apostado em alguma coisa que deu certo, trabalhar em cinema”.

No primeiro filme da noite, Mindelo – Atrás de Horizonte, apresentado em vídeo, o espectador embarca numa espécie de mostruário de imagens e sons de Cabo Verde, a fascinante ilha no meio do Atlântico, terra de Cesaria Évora, e onde vemos um mundo muito familiar em tratando-se da nossa própria imagem do Brasil, acrescida ainda de toques claramente europeus (via Portugal) e também africanos.

Sem entrevistas e obedecendo apenas ao que mais parece a lógica do vento, Mindelo – Atrás de Horizonte passa à nossa frente sem ritmo ou senso de estrutura, problemas que são momentaneamente compensados pela paixão dos realizadores por aquele lugar. Isso não redime o filme de um certo tom disperso.

Mindelo – Atrás de Horizonte passa na parte dedicada a filmes latinos, e nos faz pensar na abundância de filmes mais expressivos do que esse que integram a safra atual de cinema no mundo, apresentada em festivais internacionais, Cannes vem à mente. Poderiam ter em Gramado expressiva porta de entrada no Brasil. Curiosamente, não estão tendo.

OS FILMES GAÚCHOS - Algumas questões sobre a sempre infindável discussão em torno das escolhas de um festival no sentido de uma seleção, ou curadoria, foi estimulada pela projeção de Neto e o Domador de Cavalos. A chave para entender a presença do filme na seleção 2008 é relativamente simples: o filme representa a produção gaúcha, em grande parte estimulada pelo Banco do Estado do Rio Grande do Sul – Banrisul, o principal patrocinador do Festival de Gramado, ou no liguajar de captação usado pela organização via vinhetas e microfone, o "patrocinador master", o que lembra o quarto de luxo num hotel.

No início de cada sessão, um spot publicitário presta contas de duas dezenas de filmes incentivados ao longo dos últimos 13 anos pelo banco, e Neto e o Domador de Cavalos é mais um para a lista.

Portanto, parte da função de um festival é divulgar a produção regional, muito embora isso não esteja direta ou necessariamente relacionado a questões artísticas. No caso do filme de Tabajara Ruas, que em 2002 lançou Neto Perde a Sua Alma, um filme melhor, mas outra aventura histórica pelos pampas, o novo título dá continuidade à sensação de espanto em tratando-se do cinema que é feito no Rio Grande do Sul.

A própria publicidade exibida diariamente - com exceções claras dos filmes de Jorge Furtado, o Wood & Stock de Otto Guerra e o doc O Cárcere e a Rua, de Liliana Sulzbach - passa como uma espécie de mausoléu que é o moderno cinema gaúcho, uma produção regional peculiar que chama a atenção por, de fato, existir, tanto financeiramente como pelo seu isolamento.

É composta por filmes que não acontecem artística ou comercialmente. E essa produção acontece de forma praticamente separatista no sentido geográfico e gaúcho do termo, pois é incentivada, em grande parte, por dinheiro local, como o muito divulgado em Gramado apoio do Banrisul.

Neto e o Domador de Cavalos deverá juntar-se à longa lista de filmes (Nossa Senhora de Caravaggio, de Fábio Barreto, Lua de Outubro e Concerto Campestre, de Henrique de Freitas, Noite de São João, de Sérgio Silva...) que tiveram dificuldade de encontrar espaço longe das telas gaúchas, e que integram um fenômeno que, do ponto de vista estético, do cinema, deve ser estudado com mais afinco.

No novo filme, Ruas nos apresenta uma estética que lembra Escrava Isaura sem o benefício da tela da TV. O aspecto empalhado do filme encontra eco nesse cinema gaúcho apaixonado pela história da região, um cinema capaz de convencer Tarcísio Meira Filho a interpretar um índio guarani e onde o ator local (com reconhecimento nacional) Werner Schunnemann é uma espécie de alter-ego dessa cinematografia.

Ele interpreta Netto, envolvido na história do “negrinho do pastoreio”, adolescente escravo de tintas messiânicas que representa a luta contra a crueldade opressora e escravagista da região, no século 19. Se os valores da produção são escassos, é o cinema em si que choca.

Mais uma vez, volta a noção de cinema radiofônico, num filme que poderia passar muito bem numa transmissão FM. Há uma narração para cegos realmente impressionante no seu didatismo e intromissão, com informações tipo "o enterro foi no pôr do sol...", e corta para um alaranjado ... er... pôr do sol. Um espelho é meticulosamente quebrado em câmera lenta e um segundo depois, ouvimos um personagem exclamando "sete anos de azar!".

Os atores são deixados ao relento pelos enquadramentos fechados, ou pior, abertos, onde um grupo de personagens sugere adesão total a "Xs" no chão. A montagem prova que o filme e seu senso narrativo estão em apuros quando cenas destoantes são montadas paralelamente, e o que dizer do uso assustador e enigmático de atabaques na trilha sonora, em surtos de cinco segundos? Uso da 'noite americana' também débil.

É claramente o filme modelo sobre a conquista do incentivo e da captação, e a falta de domínio da visão de cinema pelo que ele deveria ser como expressão, seja ela como arte ou mesmo comércio. Incentivos estaduais devem ser sustados? De forma alguma, o cinema precisa ser incentivado, sempre, como ato de resistência cultural. Isso, no entanto, não significa que devamos fechar os olhos para os caminhos tomados por toda uma filmografia, e pelos modelos estéticos que ela mesma toma para si.

Monday, August 11, 2008

Em Gramado / Segunda-Feira



Primata promove Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro, na entrada do Palais des Festivals na serra gaúcha. O longa estréia em 29 de agosto.
(foto: KMF)

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Dois rebentos da nova cinematografia digital passaram no primeiro dia da competição do Festival de Gramado, segunda à noite, sendo um argentino (mostra latina), outro brasileiro (competitiva brasileira). Por Sus Próprios Ojos, filme de Liliana Paolinelli, e Vingança, de Paulo Pons, enfocam, respectivamete, o universo das mulheres de presidiários na cidade de Córdoba, Argentina, e o segundo uma história de vingança situada entre o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro. Além de frutos do novo cinema digital, ambos também passam a impressão de serem filmes jovens tanto no bom, quanto no mau sentido.

Por Sus Proprios Ojos estréia na Argentina daqui a dois meses e deverá juntar-se ao muito superior Leonera, filme de Pablo Trapero que esteve no Festival de Cannes, esse ano, já lançado os cinemas argentinos com sucesso. Leonera, filme de um homem, investiga com olhar duro e também delicado a trajetória de uma presidiária que também é mãe.

Por Sus Próprios Ojos, por sua vez, investiga tema recorrente no cinema de olhar dito feminino: as mulheres (mães, esposas, companheiras) de presos. Dois filmes brasileiros vêm à mente nesse sentido, Visita Íntima, de Joana Nin (curta-metragem feito no Paraná) e O Cárcere e a Rua, de Liliana Sulzbach (longa feito no Rio Grande do Sul).

O filme de Paolinelli, apresentado na noite de segunda-feira, é claramente um filme verde, fruto de uma realizadora que ainda traz ranços universitários para o espaço da tela grande de cinema. O clichê do filme dentro do filme é mais uma vez abordado via figura de uma também jovem realizadora que tenta fazer um documentário sobre as mulheres de presos em Córdoba, cidade que fica a 800 kms de Buenos Aires.

À certa altura, a personagem pondera que talvez as verdadeiras presas sejam essas mulheres, idéia intrigante que não ganha maior investigação. Apaixonada de forma dèja vu pelo uso de uma câmera de vídeo dentro da cena, Por Sus Próprios Ojos resulta num filme de tese, do tipo “projeto experimental” de faculdade, e isso não é nada bom.

GAUCHÊS – Já Vingança aponta mais uma vez para a tendência inevitável (e rica em possibilidades) de uma digitalização do moderno cinema brasileiro, e isso muda não apenas o que emos em termos de imagem, como também a maneira que filmes são feitos. Embora sejam bem diferentes, Vingança compartilha do mesmo tipo de estrutura pequena (e câmera utilizada, a HVX-200 da Panasonic) do Nome Próprio, filme de Murilo Salles que passou domingo, também em competição.

Paulo Pons é da Pax Filmes, produtora que fez acordo de produção e distribuição com a Rio Filme. Através de verba oriunda do Prêmio Adicional de Renda da Ancine, levantaram R$ 320 mil para a realização de quatro filmes, R$ 80 mil cada, sendo Vingança o primeiro do lote. “Acredito que em três meses teremos o próximo pronto, que chama-se Espiral”, disse Pons na coletiva do filme, ontem.

Projetado em digital via Rain, o filme é tecnicamente muito bom, e as atuações de Erom Cordeiro e Branca Messina são eficazes, naturalistas. Ele é um rapaz gaúcho no Rio de Janeiro com planos de finalizar um plano de vingança para ato violento ocorrido seis meses antes, no sul.

O filme parece fadado a sofrer um racha entre a historinha de amor relativamente assistível com o personagem dele e o dela, e a obrigação de honrar o título com desdobramentos transplantados via guindaste pelo roteiro. Há também uso intrusivo de música (Dado Villa Lobos).

Pons (também roteirista) parece crer que bem mais do que um sub-produto da natureza humana, a vingança é uma exclusividade da cultura gaúcha, e dois personagens do sul elevam o nível de gauchez no sangue do filme a níveis inaceitáveis, provocando gargalhadas na platéia. José Mayer, em especial, termina incorporando para si a inexperiência do realizador no sentido de tratar um tema duro com afetações superficiais confundidas com traços inequívocos de identidade cultural.

Pons, 34 anos, mostrou-se ávido por fazer um cinema comercial de qualidade onde a reação do público poderá levar a mudar seu filme para adequar-se ao gosto médio popular, algo realmente perigoso. Finda a sessão (e também o debate), mais uma vez no cinema brasileiro tem-se a sensação de que conquista-se a técnica, mas não os conflitos humanos que são, de fato, o ouro de qualquer narrativa.

'Crítico' passa em Gramado.



Meu filme Crítico passa hors concours nesta sexta-feira, 15 de agosto, no Festival de Gramado, que acontece de 10 a 16 de agosto. A projeção do filme será seguida de um debate.

Sunday, August 10, 2008

Janela Internacional de Cinema do Recife

Inscrições abertas até 12 de Setembro.

O Cinema de Madonna? (Ela faz 50 essa semana)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Tem-se idéia do quão poderosa Madonna é como entidade pop quando entendemos naturalmente a importância de sua carreira insuperável na música, mas fazemos esforço intelectual de inclusão para lembrar seu legado no cinema. Foi em fevereiro desse ano, no Festival de Berlim, que voltou tal sensação melancólica quando o assunto é essa coisa pop formidável chamada Madonna. Ela, que, em termos práticos e objetivos, não dá ponto sem nó na esfera da música, sempre teve uma relação de amor não muito bem correspondido com os filmes. Isso se confirmou em Berlim, pois lá estava ela apresentando sua primeira obra como diretora, Filth and Wisdom.

Vê-la apresentando seu longa com a postura de uma curta metragista iniciante e ansiosa tanto encantou alguns, como fez os mais cínicos achar que aquela foi a primeira boa atuação da diva. Ela parecia estar realmente incorporando a artista humilde (H*U*M*I*L*D*E*???!!!), ciente das suas deficiências e diante de uma imprensa internacional que já conhecia seu currículo no cinema.

Curiosamente, ela não aparece em Filth and Wisdom ('lixo e sabedoria', livremente traduzido), um filme barato, feito em vídeo, e que, caso não fosse de Madonna, seria mais uma fuzarca sem nexo como as milhares que a tecnologia digital permite que sejam feitas no mundo inteiro hoje em dia por jovens cineastas sem talento, e que nunca serão vistos por mais do que 100 pessoas, amigos e familiares inclusos.

E porquê Madonna nunca foi muito bem no cinema? O tamanho da sua famosa ambição loira bate com a idéia de que os diamantes são os melhores amigos de uma garota. Mesmo assim, suas atuações passam a sensação de que estamos vendo uma asa delta de duas toneladas tentando voar. Vale lembrar que ela inverteu posições com uma das suas maiores inspirações, Marilyn Monroe, lembrada como atriz, às vezes como chanteuse. Madonna será lembrada como estrela pop, e com o já citado esforço, atriz.




Mais curioso ainda é observar uma artista que soube utilizar o videoclipe tão bem para definir sua imagem, e o formato tem uma boa dezena de clássicos por Madonna que pertencem ao imaginário da cultura pop. A homenagem a Monroe em Material Girl (1984), a citação a Metropolis, de Fritz Lang, em Express Yourself (1989), a montagem de corpos, braços e caras de Vogue (1990), o tom sadomasô de Justify My Love (1991). Mostram presença de imagem que apenas sugeriam o mesmo tipo de sucesso nos filmes. Não exatamente.

Nos anos 80, Madonna surgiu com uma coisa independente chamada A Certain Sacrifice (1984), foi vista cantando Crazy For You ali no fundo em Em Busca da Vitória (Vision Quest, 1985) e teve destaque num filme baratinho e simpático, Procura-se Susan Desesperadamente (Desperately Seeking Susan, 1985), cuja estréia nos cinemas foi segurada pelos produtores quando percebeu-se que Madonna, coadjuvante no filme (Rosana Arquette era a personagem principal), estouraria. Ela ainda teve Into the Groove, um dos seus clássicos do dancing, na trilha.


Depois de casar-se com Sean Penn em 1985, os dois embarcaram num delírio de lua de mel chamado Shanghai Surprise (1986), produção inglesa do Beatle George Harrison, um desses filmes onde tudo deu errado, um mico para o casal. Ela não desistiu. Quem é Essa Garota? (Who's That Girl?, 1987) é um filme estranho e interessante, mas não sei se entendi até hoje o que Madonna estava fazendo ali com personagem tão irritantemente peralta (usava boné ao contrário). A música tema é simpática.

Pulando Doce inocência (Bloodhounds of Broadway, 1989), chegamos ao muito divulgado Dick Tracy (1990), onde nem a atmosfera cartunesca ajudou a presença pesada de Madonna, na época namorada do diretor e ator Warren Beatty. Porquê tão pesada toda vez que está no quadro?

O peso ruim é veneno para qualquer aspirante às artes dramáticas, e foi revertido ao ser ela mesma no proto-reality show Na Cama Com Madonna (Truth or Dare, 1991), um freak show da auto-exposição numa época em que esse tipo de coisa ainda não fazia parte da programação diária na TV.

Teve participações inexpressivamente (Neblina e Sombras, de Woody Allen) simpáticas (Uma Equipe Muito Especial), mas voltou a pagar mico leão dourado com o sub-sub-sub Instinto Selvagem (lançado um ano antes), Corpo em Evidência (Body of Evidence, 1993). Esse é aquele thriller incompreensível onde Madonna queima o pobre do Willem Dafoe com pingos de vela. Comparações com a performance de Sharon Stone no filme anterior não ajudaram em nada.

Desistir, jamais, e essa perseverança a levou a Evita (1996), a adaptação de Alan Parker para a cafonália de Andrew Lloyd Webber, um musical CinemaScope à moda antiga, sem diálogos, onde ela interpreta Eva Peron, inicialmente para a fúria dos argentinos mais conservadores. "Evita no era puta, non!" É talvez o seu papel mais lembrado, junto com Susan, e ela não fez feio, mesmo que o filme seja intragável.

Evita parece ter acalmado Madonna. Desde então, tem feito pequenas participações, e isso inclui o mico-sagui de 007 Um Novo Dia Para Morrer (Die Another Day, 2002), onde ela faz uma instrutora de esgrima, se bem lembro. É verdade que ela repetiu a dose do vexame a dois com seu novo e atual companheiro, o cineasta inglês Guy Ritchie, para quem atuou no desastre Destino Insólito (Swept Away, 2002), e o destino do filme foi mesmo insólito, direto para DVD.

Ritchie, aliás, sugere a falta de olho de Madonna para o cinema. O diretor de filmes espetacularmente afetados como Snatch deve ser mesmo um bom marido e pai dedicado, mas seus talentos para el cine são, de fato, lamentáveis. Quero ver seu próximo clipe.

Estamos Bem Mesmo Sem Você



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Alguns dos melhores filmes são os que parecem pequenos, mas escondem bem suas grandezas. Olhem de perto esse italiano Estamos Bem Mesmo Sem Você (Anche libero va bene, 2006), de Kim Rossi Stuart. Por baixo de uma estrutura que poderia ser televisiva via "drama familiar" está um belo relato sobre as pessoas e sobre o amor que une e separa uma família formada pelos eixos tradicionais, pai e mãe, irmão e irmã. Deixando-se levar por esses quatro, o espectador poderá acessar uma situação humana narrada com grande empatia e delicadeza através da visão de mundo generosa de Stuart, o diretor, co-roteirista e ator do todo.

É ele mesmo quem interpreta o pai que vive bem com o filho Tommi e a filha Viola, um pouco mais velha. Técnico de cinema, ele opera Steadicam como profissional free lance para comerciais. A ironia de ele operar um equipamento desenhado para evitar trepidação na filmagem de cenas é valiosa no filme, uma vez que ele mesmo, como pai solteiro, administra a realidade de cuidar e amar os filhos sem a presença da mulher e mãe que os deixou há algum tempo.

Esse trio finalmente atinge a fluidez da rotina e Stuart nos apresenta o mundo com os três. A chegada da mãe só ocorre bem mais tarde, depois que já nos acostumamos com a família como um triângulo equilibrado.

Seu retorno é dramaticamente violento, o marido a julga da pior maneira, os filhos a recebem sem saber se estão inteiramente felizes, e logo o filme, com seu belo título brasileiro, revela-se ainda maior do que a segurança das suas situações bem obervadas, que só podem ter saído de experiências pessoais vividas e sentidas, fruto essencial da melhor expressão artística.

Com o pai perdendo o controle em explosões de temperamento e descarregando frustrações suas no filho através de uma responsabilidade imperativa de sair-se bem num campeonato de natação, Estamos Bem Mesmo Sem Você termina revelando-se, aos poucos, um filme sobre a mãe (Barbora Bobulova).

Mulher jovem e bela, é acusada de cachorra pelo marido pela sua incapacidade de concentrar-se na família, e fraca ao embarcar em aventuras impulsivas. Lentamente, observamos que existe ali uma pessoa com uma psicologia quase infantil que não parece funcionar muito bem no corpo de uma adulta. E são detalhes valiosos (a visita dela à escola, o bilhete, a caligrafia) que vão dando ao filme o teor emotivo que honra cada lágrima do espectador.

Louis Garrel e o 'Nascimento do Amor'



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Esse trabalho de formação de público nos cinemas do Parque e Apolo, no Recife, via trabalho de Ernesto Barros, apresentou O Nascimento do Amor (La Naissance de L'amour, França, 1993), filme de um dos nomes mais discutidos do atual cinema francês, Philippe Garrel. O filme passa numa cópia (muito boa) da Cinemateca da Embaixada da França, com entrada franca, na tela do Apolo. O título não existe em DVD no Brasil.

Garrel recuperou recentemente um reconhecimento que há muito lhe fugia com Os Amantes Constantes (Les Amants Réguliers, 2005), prêmio de Melhor Diretor em Veneza, embora a sua trajetória tenha começado ainda nos anos 60. No Festival de Cannes desse ano, esteve pela primeira vez na competição com seu filme mais recente, La Frontière de L'aube, cujo ator é seu filho, Louis Garrel, também em Os Amantes Constantes.

Aos 60 anos de idade, Garrel é certamente um artista curioso. Seu cinema tem o tom de uma visita a um museu, mas um museu vivo de memórias afetivas de uma época, do cinema de uma época. Vendo seus filmes, percebe-se um sério caso de obsessão com os anos formadores da sua pessoa artística, na década de 60.

Todos os clichês que curtas metragens estudantis usam para transformar o cinema da Nouvelle Vague em fetiche (o preto e branco, a fumaça do tabaco, som mono, as presenças espirituais de Godard e Truffaut), Garrel usa na mais expressiva seriedade romântica. Se visto com cinismo, seu cinema pode ser encarado como um móvel pesado e antigo, o que talvez explique o achincalhe que foi a sessão de imprensa de La Frontière de L'aube em Cannes, em maio, filme que, mesmo assim, foi muito defendido por parcela expressiva da crítica, em grande parte, francesa.

O cinismo de platéias pós-modernas não perdoaram as elipses muito em voga em 1962, a fotografia de tom e composição típicas da mesma época e um romantismo literário mais comum no final do século 19. E para não discordar totalmente de quem riu, talvez seja realmente gracioso ver autor tão radical no seu saudosismo por uma imagem do passado. Quem viu Os Amantes Constantes deve lembrar que o filme parecia ter sido feito em maio de 1968, a começar pelo uso impressionante do preto e branco. Na verdade, o preto e branco de Garrel aparenta ser mais preto e mais branco do que o dos outros cineastas.

Por outro lado, o cinema de Garrel é orgânico, tem sentimento, não consiste apenas de tiques. Seria, na verdade, improvável que um cineasta insistisse tanto em volta tão curiosa ao passado se não perseguisse verdade pessoal própria.

Sabe-se que já muito jovem, Garrel definiu-se "afilhado" de Jean Luc Godard, e seus primeiros filmes tinham perfil radical e experimental. Nos anos 70, chamados de "os anos Nico", associou-se artística e amorosamente à ex-chanteuse alemã do Velvet Underground, chegando cada vez mais perto de um cinema narrativo. No entanto, sua versão de "cinema narrativo" talvez seja ainda bem difícil face à noção muito divulgada de narração via cinema comercial.

O Nascimento do Amor não é diferente. Para começar, o filme tem Jean Pierre Léaud, já cinquentão, o ator que associamos naturalmente à obra de Truffaut via personagem Antoine Doinel (Os Incompreendidos, Beijos Proibidos), e também a alguns Godards (A Chinesa). O fotógrafo responsável pelas belas imagens é Raoul Coutard, colaborador de Truffaut e Godard. O eixo dramático: o amor, através de dois homens maduros, um é escritor (Léaud), o outro diretor (Lou Castel).

O filme vai nos levando aos poucos em pequenos momentos de intimidade entre esses homens e as mulheres que eles amam. De companheiras fixas a amantes, da vida em família ao surgimento de um novo amor na imagem de uma belíssima garota jovem, síntese da imagem romântica que associamos com facilidade ao cinema francês e ao seu legado, e o plano final desse aqui uma prova disso.

Acompanhando a obra de Garrel, é possível lembrar da discussão sem fim sobre o peso de estéticas passadas em algumas cinematografias. Na França, a Nouvelle Vague, também evocada por cineastas jovens como Christophe Honoré em filmes como Em Paris (também com Louis Garrel incorporando o que mais parece um jovem Léaud, de Truffaut). No Brasil, todo o legado/peso de Glauber sobre o moderno cinema brasileiro, quase sempre medido com a régua do Cinema Novo.

No caso de Garrel, ele talvez mostre que seus filmes são modernos na sua nostalgia sem fim.

Filme visto no Cine Apolo, Recife, agosto 2008

O Grande Dave


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A indústria fabrica muita porcaria ao longo do ano, mas poucas como O Grande Dave (Meet Dave, EUA, 2008), uma tentativa triste de comédia com Eddie Murphy. O maior mérito do filme é estar sendo lançado nos cinemas, feito e tanto para lixo com cara de lançamento direto em DVD. O único fator que explica essa estréia, que ainda pede que alguém pague para vê-la, é a presença de Murphy, astro que já viu dias melhores.

Eddie Murphy já chegou a ser uma das grandes faces da comédia americana, nos palcos e nas telas, considerado sucessor de Richard Pryor a partir dos anos 80 com filmes, pelo menos na época, muito engraçados, como 48 Horas (1983) e Um Tira da Pesada (1985). Ao longo dos últimos 10 anos, salvo uma indicação ao Oscar por Dreamgirls (2006), tem investido em comédias para famílias esquisitas, interpretando múltiplos personagens que lutam contra seus próprios corpos obesos e emissores dos mais variados gases.

Essa fascinação desordenada de Murphy pelo corpo deve explicar sua participação em O Grande Dave. Murphy interpreta uma espaçonave que tem a forma do próprio Murphy, operada por uma tripulação interna capitaneada por, mais uma vez, Murphy. Ou seja, dentro da cabeça do Murphy grande tem pequenos humanóides.

À solta em Nova York, Dave acostuma-se a lidar com o corpo humano (piadas com a dificuldade de andar e sorrir) e procura um meteorito que foi parar no quarto de um garoto de cabelo esquisito (péssimo ator o guri, só faz rir). A aventura envolve também sua mãe (Elizabeth Banks, disfarçando o constrangimento).

Sem vilões à vista, o filme espera que achemos engraçadas cenas como um atropelamento brutal, ou um exame de ressonância magnética, numa demonstração rara de algo filmado com dinheiro hollywoodiano que não tem qualquer vestígio de roteiro. Murphy fica a mercê de um filme especialmente mal fotografado, e onde ele não parece estar sabendo o que faz.

Essa idéia do corpo grande controlado por um pequenino foi vista em Homens de Preto (1997), embora a imagem de uma tripulação ativando órgãos internos do ser humano (para garantir o humor aqui almejado, o intestino e o reto estão incluídos) lembra um filme realmente engraçado, Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo..., de Woody Allen. Ali, um pobre espermatozóide desenvolve tensão pré-ejaculação. Em O Grande Dave, a cena mais significativa apresenta Eddie Murphy, de pernas abertas, defecando dólares.

OS: Para acrescentar insultos ao machucão, a coisa ainda é dublada, dando ao todo um aspecto nefasto de DVD pirata.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, Agosto 2008

Monday, August 4, 2008

Janela Internacional de Cinema do Recife

Queremos ver seu(s) filme(s). O CinemaScópio está organizando um festival no Recife, de perfil internacional. A idéia é apresentar retrato projetado fiel do cinema hoje, não importa o formato, do Brasil ou de fora. Foco será o curta metragem, mas não descartamos a possibilidade de exibir alguns longas.

Para maiores informações, visite o site www.janeladecinema.com.br.

Inscrições abertas até 12 de setembro, para o Brasil e mundo.

Top 10 Multiplex no Brasil 2007


1) Iguatemi Salvador – BA - (UCI/Orient) – 1.286.391
2) New York City Center – RJ (UCI) – 1.212.435
3) Santa Cruz – SP (Cinemark) – 1.091.351
4) Iguatemi Fortaleza (CE) – 1.045.175
5) Kinoplex D. Pedro Campinas (Ribeiro) – SP – 946.733
6) Hoyts Guarulhos (Hoyts) – SP – 938.827
7) Pier 21 Brasília (Cinemark) - DF – 915.697
8) Central Plaza (Cinemark) – SP – 857.058
9) Recife (UCI-Ribeiro) – PE – 851.122
10) Eldorado (Cinemark) – SP – 849.768

Fonte: Filme B / em número de espectadores

Em 10 Anos, o Cinema Saiu da Rua e Foi ao Shopping


Alien no São Luiz do Recife, em 1979. Vida na rua.


Cinemark em Aracaju, Sergipe, Abril 2008

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Esse mês de agosto marca os dez anos da chegada do sistema multiplex no Recife, uma reconfiguração de costumes para o hábito do ir ao cinema, não só localmente, mas em todo o país, seguindo revolução mundial. Em 19 de agosto de 1998, a empresa inglesa UCI, em parceria com a brasileira Luiz Severiano Ribeiro, abriu o UCI Ribeiro Boa Viagem no Shopping Recife, com dez salas. Um mês depois, a mesma UCI Ribeiro inaugurou mais oito, no Shopping Tacaruna. O surgimento de 18 salas em um mês sugeria uma recuperação contra a perda de cerca de 30 cinemas espalhados por toda a cidade, inclusive nos subúrbios, ao longo de 30 anos. Revela também a rapidez das mudanças na própria experiência social da sala de cinema.

As principais alterações nesses dez anos incluem o cinema 100% anexado a centros de compra e o fim da idéia de salas de projeção nas ruas, modelo que dominou todo o século 20. Houve também renovação técnica de equipamentos com a chegada de um padrão internacional de exibição via globalização, muito embora a excelência ainda seja elemento raro num sistema que comporta-se como uma máquina gigante que chama a atenção pela mecanicidade, e não tanto pelo esmero.

Palácios do passado deram lugar à praticidade lisa de uma dezena de salas menores que, muitas vezes, oferecem (em conjunto) número semelhante de poltronas de um desses grandes cinemas do passado que sumiram. O complexo do Tacaruna, por exemplo, com 1362 poltronas nas poito salas oferece praticamente a mesma quantidade de assentos do extinto Cine Art-Palácio, no centro da cidade.

Essa sub-divisão observada do espaço para o cinema parece traduzir o fracionamento da atenção que a experiência cinematográfica vem sofrendo ao longo das últimas décadas. Do seu reino absoluto como templo da imagem em movimento até os anos 50/60, o cinema encontrou na televisão concorrência séria, o que já levou ao fim de algumas salas e à divisão arquitetônica de outras.

Dos anos 80 para cá, o vídeo-cassete, a TV a cabo, o DVD, videogames, uma internet cada vez mais multi-mídia e também a pirataria têm roubado a atenção de filmes, o que talvez explique a fragmentação do ir ao cinema percebida no multiplex.

45 SALAS - Os 18 cinemas inaugurados em 1998 foram os primeiros de um total de 39 cinemas comerciais abertos ao longo da última década na região metropolitana. Contando os dois UCIs, surgiram ainda as seis salas do Shopping Boa Vista, as três do Cine Rosa e Silva e as 12 do Box Guararapes. Com previsão para o início de setembro, a cidade terá mais seis cinemas no novo complexo que o Grupo Severiano Ribeiro abre (também com a UCI) no Shopping Plaza, em Casa Forte, trazendo o número para 45 novas telas, em dez anos.

Para Pedro Pinheiro, programador do Grupo Severiano Ribeiro desde os anos 80, e que trabalhou com o sistema antigo dos cinemas de rua e com o multiplex, "o público pode estar mais dividido entre os afazeres e lazeres da modernidade, mas os números são parecidos, mesmo que sejam produzidos de maneira diferente".

Prova disso foi refletida por dados divulgados há duas semanas relacionados à bilheteria do primeiro final de semana de Batman – O Cavaleiro das Trevas, o grande sucesso da atual temporada. O novo Batman repete, na verdade, o sucesso do velho Batman, lançado em 1989. Lançado em 549 cinemas, o novo filme de Christopher Nolan foi visto por 775 mil espectadores, número semelhante à abertura do Batman de Tim Burton, visto por 733 mil espectadores há 19 anos, mas em 145 salas. "Tínhamos menos salas antigamente, mas elas eram maiores", explica Pinheiro.

Ele lembra que o cine São Luiz chegou a fazer 34 mil espectadores por semana, ainda nos anos 90. "Atualmente, o multiplex Recife, em Boa Viagem, tem média de 15 mil espectadores por semana, o Tacaruna dez mil e o Boa Vista cinco mil. No passado, pensava-se em termos de um cinema, agora pensa-se no complexo de salas", completa.

Segundo dados divulgados esse ano pela publicação Filme B, a principal análise jornalística do mercado de cinema no Brasil, três dos complexos instalados em Pernambuco constam no Top 30 brasileiro com as maiores freqüências de público. Em primeiro lugar está o multiplex UCI Iguatemi, em Salvador, com mais de um milhão e duzentos mil ingressos vendidos em 2007.

O UCI Ribeiro do Shopping Recife ocupa o 9o lugar no ranking, com 851,122 espectadores. O Box Cinemas do Shopping Guararapes é o segundo mais freqüentado de Pernambuco (21o no ranking nacional) com público de 696,012 ano passado, e o Tacaruna vem em terceiro lugar (33o na lista), tendo vendido 619,028 ingressos.

Complexo de Sala


Aluga-se Moças, 1982, Cine Moderno, fechado em 1997.

Não foi por acaso que a chegada do multiplex em 1998 viu o adeus aos últimos representantes do chamado "cinema de rua" no Recife. O Veneza, que nos anos 70 e 80 foi uma das salas mais luxuosas do Brasil, fechou em outubro de 98, um mês depois da inauguração do multiplex Tacaruna.

O Veneza entrou em decadência nos anos 90 com a abertura, em dezembro de 1988, dos Recifes 1, 2 e 3, salas que serviram de ponte entre os cinemas de rua e os multiplex. Eram vizinhas do Shopping Recife e localizadas na zona sul, área carente de cinemas na época. Ironicamente, os três Recifes foram fechados em setembro de 98, um mês depois da inauguração do então novo multiplex vizinho, revelando o aspecto predatório do mercado. Descarta-se o que é velho e investe-se no que é novo.

Nos anos 90, o centro da cidade perdeu quase todas as salas de rua sobreviventes (Trianon e Art-Palácio fecharam em 1992, Moderno em 1997) que reinaram imponentes desde os anos 30 e 40. Ao longo das décadas anteriores aos seus fechamentos, permaneceram ativos enquanto os cinemas de bairro fecharam, todos eles.

Na rua, e sobrevivendo já no ano 2000 com suas 1200 cadeiras (o balcão passava boa parte do ano fechado), ficou apenas o São Luiz, que terminou também fechado em 2006. Permaneceu sozinho no centro contra todos os outros cinemas comerciais instalados em shoppings. Agora, aguarda reabertura via incentivos do Governo do Estado. Obviamente que a noção de "velho" é relativa.

"O São Luiz de fato chegou a fazer 34 mil espectadores por semana, antes mesmo de fechar. Isso, claro, não significa que tínhamos sempre esse movimento. O cinema funciona em fases, como este mês de julho que é um dos melhores do mercado em anos recentes com sucessos como Kunf Fu Panda, Hancock e Batman", diz Pedro Pinheiro.

Como programador, ele lembra que era possível desenvolver, através da programação, personalidades para cada sala, ou um perfil. "Lembro que o Moderno era mais picante, ou passava filmes mais fortes de terror ou policial. O São Luiz era mais aventuresco e o Veneza filmes classe A, tanto no sentido alternativo como nos grandes lançamentos de qualidade. Hoje em dia, programa-se pelo tamanho da sala", diz. K.M.F

Do Cinema Direto Para a Promoção de Lingerie



Emmanuelle 'A Verdadeira' (com Sylvia Kristel), Art-Palácio, Recife, 1980, época em que o filme de 1974 foi finalmente liberado pela censura "sem cortes".

Conversando com alguns amigos cinéfilos, surgiram algumas dessas idéias.

Rodrigo Costa, carioca, lembra que no Rio há o exemplo do Arteplex em Botafogo, que é um "multiplex de rua", algo raro na configuração atual. Para ele, "O multiplex melhorou a qualidade de projeção e som. O que veio de ruim é você ter que entrar num shopping para ir ao cinema. Isso denota como o cinema é, cada vez mais, uma diversão que perdeu o contato com o cotidiano, com a rua. As filas dos cinemas de rua, você as via passando de ônibus em frente aos cinemas. Isso acabou".

Numa região tropical, a migração de atividades populares antes oferecidas na rua para espaços fechados e privatizados reflete o aspecto "caracol" de uma sociedade que vive com medo, trancada num mundo artificial e refrigerado. No Recife, a idéia de "rua" é cada vez mais vista como algo a ser evitado, e a noção de proteção leva a sociedade como um todo a se fechar, o que me faz lembrar da população do Axiom, em Wall-e.

"Poder ir ao cinema e depois resolver algo no shopping é muito bom, sim. Também gosto de poder dar uma volta após o filme, enquanto se decide para onde ir em seguida, com calma", me disse o estudante Bruno França, 26 anos.

Já Katarina Peixoto, 35 anos, cinéfila pernambucana que mora em Porto Alegre, ela sente o impacto da mudança pesando os dois lados. "Na década de 90, a violência do Recife foi tornando a experiência de ir aos cinemas do centro algo lamentável. Hoje, no entanto, num multiplex de shopping, é como sair de um museu e cair numa promoção de lingerie".

Para Francisco Lacerda, outro cinéfilo pernambucano, "percebo uma separação clara de públicos, pelo preço. No multiplex do Shopping Boa Vista, mais popular, preços mais acessíveis, vejo o mesmo público que freqüenta(va) o Parque, São Luiz e Veneza. Já nos multiplexes Recife, Tacaruna, Guararapes, é classe média e média alta.

Ele sente uma diferença de postura entre esses públicos. "Ambos são barulhentos, mas o popular faz barulho 'com' o filme, interage, se diverte. Já no outro, parece que está ali obrigado, entediado, fala no celular, acho que vem do ato robótico de ir ao cinema no final de semana, parece que eles não queriam realmente estar ali", pondera.

As mudanças mais óbvias ao longo dessa década foram uma noção de qualidade importada. Dos cinemas de rua equipados com projetores e sistemas de som ultrapassados made in Brazil vieram projetores e amplificadores estrangeiros, som Dolby e também poltronas largas com porta copos, desenhadas para estimular uma outra filosofia lucrativa transplantada para a cultura brasileira: o consumo de quantidades industriais de pipoca, nachos, chocolates e refrigerantes, rica fonte de faturamento para as empresas. K.M.F

PS:


Eu recebi uma cópia PiratoScope de Iron Man (que eu perdi nas salas), e com 20 segundos de filme, vi esta que deve ser a imagem síntese do cinema multiplex hoje: FILME DE SUPER HERÓI + MCLANCHE FELIZ COM COMBO DE PIPOCA. Desacelerei 40% para ficar mais style, olhem bem.

Monday, July 28, 2008

Cine São Luiz (L. do Machado, Rio, circa 1968 ?? )



Cool Hand Luke, grande filme de prisão. Newman engole ovos.

'Vá e Veja' em DVD no Brasil



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A Lume Filmes dá um belo golpe nas preocupações mecanicamente comerciais das demais distribuidoras de DVD com o próximo pacote do selo, no que mais parece uma mini-mostra de cineastas iconoclastas. De uma só vez, a Lume traz O Conformista (Il Conformista), de Bernardo Bertolucci, Seul Contre Tous (1998), de Gaspar Noé, e Vá e Veja (Idi i Smotri, URSS, 1985), de Elen Klimov.

Com isso, chega finalmente ao DVD brasileiro uma coisa bela e estranha chamada "Vá e Veja", provavelmente o filme de guerra mais expressivo já feito, e que, obviamente, anulou boa parte dos filmes de guerra que eu havia visto antes, e certamente que vi depois. O filme saiu em VHS pela Globo Video no final dos anos 80, e permanecia uma lacuna inexplicável no DVD brasileiro.

Elen Klimov, russo que cresceu na sua Terra Mãe, país onde a guerra raramente foi pop ou aventuresca, tem visão diferente da forma como os EUA venderam o conflito armado no cinema desde o final da II Guerra Mundial, playground nostálgico da "última boa guerra".

A visão de Klimov para a guerra é a da sujeira humana no seu tom bíblico e apocalíptico, e o olhar hipnotizado pelo horror do personagem principal, um garoto lidando com os resultados da campanha de extermínio da wehrmacht no fronte leste, na União Soviética, em 1942, é o fio condutor desse filme fascinante que precisa ser descoberto.

Descoberto pois Vá e Veja por questões políticas e de mercado, permanece criminosamente desconhecido, enquanto obras claramente influenciadas por ele ganharam fama e fortuna, especialmente Império do Sol (1987) e O Resgate do Soldado Ryan (1998), ambos de Spielberg.

Para quem comprar o DVD, vale saber que o formato original de tela escolhido por Klimov é o clássico 1.37:1, o que significa que a tela cheia reproduz as intenções originais do realizador. O 1.37 permaneceu formato comum até os anos 80.

Seul Contre Tous (que a Lume deverá registrar como Só Contra Todos) foi ponta de lança de uma noção anos 90 de "cinema extremo", ao lado de Aconteceu Perto de Sua Casa (C'est Arrivée Prés de Chez Vous, Bélgica, 1992), Funny Games (1997), de Michael Haneke, Os Idiotas, de Lars Von Trier, A Humanidade (L'Humanité, 1999), de Bruno Dumont, Baise Moi (2000), de Virginie Despentes, a lista é bem longa.

Talvez não precise informar muita coisa além sobre Seul Contre Tous a não ser lembrar que esse é o primeiro longa do diretor de Irreversível, menos qualquer noção de glamour.

Noé filma a triste história de uma vida frustrada via personagem de homem comum, um açougueiro francês (Philippe Nahon). Pancadas no som e zoom violentos nas imagem deixam o espectador num estado de nervos precário, e logo nosso herói descerá lentamente a áreas ainda mais sombrias da sua vida, e isso incui uma relação incestuosa com a filha.

Sobre O Conformista, vale apenas lembrar que alunos de cinema não são os únicos beneficiários desse marco de Bertolucci, mas também os de arquitetura, design e história.

Thursday, July 24, 2008

A Atriz e a Câmera





por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O carioca Murilo Salles tem 58 anos, quase 40 de cinema. Sua obra é pontuada por projetos de excelente nível técnico como o thriller Faca de Dois Gumes (1988, adaptação de Fernando Sabino) e o documentário multi-ângulo sobre a Copa de 94, Todos os Corações do Mundo (1995). Na época da retomada da produção brasileira, experimentou com a tensão social em Como Nascem os Anjos (1996) e, em 2002, no seu filme talvez mais infeliz, Seja o Que Deus Quiser! Em Nome Próprio, parece se reinventar com a saúdavel curiosidade de um jovem pelas novas possibilidades do drama via cinema claramente experimental.

Nome Próprio, rodado com a Panasonic HVX200 e exibido apenas em digital, adapta um certo feeling do trabalho da escritora/blogueira Clarah Averbuck a partir de escritos seus - "Máquina de Pinball" e "Vida de Gato". Averbuck é do tipo que vomita sentimentos na internet em letras. Essa imagem talvez explique o cartaz do filme, que nos traz a personagem principal nua com a aparência de uma replicante das letras.

E Nome Próprio traz a exploração radical de uma personagem desagradável: o nome dela é Camila (Leandra Leal), à primeira vista uma garota irritante com ilusões de grandeza artística. Camila parece ter lido em algum manual que para ser uma verdadeira artista ela precisa fabricar todos os problemas que normalmente não teria. Uma vez criados, os problemas a maltratam, e disso, ela espera tirar experiência para escrever.

Isso inclui punir de maneira inclemente seu corpo com uma dieta de cerveja, cigarro e comprimidos estimulantes, e logo o espectador irá desconfiar horrorizado que veio passar duas horas na companhia de um poeta marginal.

Especialmente complicado no sentido de estarmos com Camila tão intensamente é a sua própria produção literária. Salles expõe as letras em interferências gráficas curiosas, habilmente sublinhadas por um campo sonoro expressivo. De qualquer forma, essas interferências apenas expõem o quão ruim é o seu texto (ou suas idéias), e se você não aprecia a esforçada sopa de letrinhas de Camila, uma leitura dos dramas internos dessa menina torna-se realmente melancólica, não muito distante daquela poesia ruim que o poeta marginal deixou na sua mesa de bar, com a promessa de que ele irá voltar.

Quando Salles passou pelo Recife para apresentar o filme, ele revelou que boa parte (ou tudo, não entendi) do que aparece no filme como escritos não foi, de fato, criado por Averbuck, mas por ele mesmo com coisas pinçadas de outras fontes. Achei estranho basear o filme na obra de Averbuck e, por fim, não usar o material dela.

De qualquer forma, a poesia (ao meu ver, ruim) de Camila no filme é apenas uma parte do seu drama pessoal, um pouco como a aridez do seu apartamento, mobiliado com uma CPU, um teclado e um monitor gordo de 15 polegadas.

Ela não apenas se alimenta mal, como também se afasta dos que gostam dela. Trai o namorado (excelente abertura!) e decepciona a melhor amiga com a mesma dose de féu, em seqüência tão emocionalmente absurda que beira um sonho erótico úmido.

Aos poucos, no entanto, a irritação vai se diluindo, talvez por dormência, talvez pelo valor do filme residir de forma bem humana num dos quesitos mais importantes da vida, na maneira que cada um tem para lidar com as pessoas ao nosso redor. Devemos julgar Camila e suas escolhas? Ou devemos apenas vê-la, observando seu modus operandi falho e algo de masoquista?

Um valor possível para Nome Próprio existe na sensação de que o que Camila/Leal quer mesmo é ter a câmera digital de Salles como parceira e amante. Quando esse tipo de sensação ocorre, desdobramentos na tela ganham interesse e vida, e a melhor coisa desse filme é que há alguns momentos realmente bons nesse sentido. É mais ou menos aí que o filme de Salles dialoga saudavelmente com Falsa Loura, de Carlos Reichenbach, outro retrato revelador de uma jovem fêmea pelo olhar de um outro realizador já maduro, e macho.

Uma diferença curiosa entre as levadas de Salles e Reichenbach, no entanto, é a idéia de "old fashioned" para Reichenbach (sem que isso julgue negativamente seu tom) e "inquieto" para Salles (sem que isso julgue positivamente o seu tom). Antes de Nome Próprio, Salles uniu-se a Lírio Ferreira para fotografar e produzir Árido Movie, uma brecha para entender os caminhos por ele procurados.

Meticulosamente enquadrado com registros (fotografia Fernanda Riscali, especial) de uma intimidade plenamente associável à realidade (ou à de pessoas que conhecemos), Salles me impressionou bastante com a imagem digital do filme.

No final das contas, talvez me agrade mais o projeto de cinema aqui apresentado, uma pequena semente observada já em Cão Sem Dono, de Beto Brant, de um cinema brasileiro pequeno que, curiosamente, ainda revela-se uma bizarrice na nossa filmografia. Acho inclusive que a experiência projetada na tela poderá estimular muita gente (jovens, especialmente) a investir num cinema viável tecnicamente e cujo eixo é o elemento humano, e não tanto questões sociais sedadas, ou essa mania irritante de filmar o que não se conhece.

Nesse sentido, Nome Próprio parece vencer pela mais pura energia que existe entre Salles, diretor, e Leal, a atriz, que atua aqui como se fosse seu último filme, o tipo de coisa que só a juventude permitiria, um pouco como as aventuras emotivas da própria Camila. E não seria estranho entender que foi essa juventude de Camila e de Leandra que instigou Murilo Salles a desvendar personagem tão viva.

Filme visto no Odeon, Festival do Rio (versão 130 mins), setembro 2007 & Cinema da Fundação, Recife, vs. 120 mins., Junho 2008

Arquivo X - Eu Quero Acreditar




por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A série Arquivo X (The X-Files), um dos símbolos pop dos anos 90, teve o mérito técnico de borrar a linha entre TV e cinema com episódios "cinematográficos" que, sempre num clima de mistério sci-fi-sobrenatural, tanto alimentava-se dele, como contribuía com o gênero. Botou para fora os medos culturais mais simplórios da sociedade americana em divertidas historinhas de trancoso. Em 1998, a série ganhou versão para o cinema em Arquivo X – O Filme, esforço para dar mais largura ao que víamos na TV. Chega agora o segundo filme, Arquivo X – Eu Quero Acreditar (The X Files – I Want to Believe, EUA, 2008), filme tranqüilo que sugere resgatar as origens e ainda dar lucro à Fox com o que mais parece um piloto da série extinta.

Dirigido pelo criador de tudo, Chris Carter, seu maior mérito é manter os pés no chão e proporcionar uma volta à série de TV, que foi ao ar entre 1993 e 2002. Chama a atenção o quanto o filme é pequeno em termos de estrutura. Num mercado exigente onde séries de TV como Lost ou Roma têm um certo look e tom de cinema, esse novo Arquivo X poderá levar pau de um público que espera ver na tela grande um filme caro com grandes explosões e coisas sendo destruídas. Nada disso aqui. Não há pipocos ou efeitos especiais espetaculares, e a única perseguição é a pé.

Olhando o orçamento divulgado (U$ 35 milhões, o filme anterior custou U$ 66 milhões, e sem correção de inflação), Arquivo X – Eu Quero Acreditar é talvez o blockbuster do verão americano mais barato em exibição, competindo a partir de hoje com Batman – O Cavaleiro das Trevas e Hancock, cada um feito com U$ 150 milhões. Dá para imaginar uma reunião em Hollywood com os executivos da Fox resmungando para Carter, "Tá bom, vai lá, faz baratinho e encerra o caso".

VIDENTE - Os dois personagens centrais, o agente "crente" do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e a médica "cética" Dana Scully (Gillian Anderson) se reúnem como num bom e descarado filme B. Há um estranho caso onde as investigações convencionais não estão dando conta, e o FBI não vê outra saída se não chamar os dois cujos poderes de interpretação continuam elásticos na lógica e afiados na desconfiança.

Depois de fazer pantim por não mais do que 60 segundos, Mulder diz sim ao chamado e lá vão eles tentar solucionar o caso de uma agente do FBI que sumiu numa noite fria. Ela não apenas sumiu, mas um padre pedófilo e fumante (o escocês Billy Connolly) diz estar recebendo visões do paradeiro da mulher.

Ao longo dos 197 episódios produzidos para a TV (boa parte deles disponíveis em DVD), Arquivo X parecia ter três escaninhos, representações claras dos medos culturais da América média: histórias com alienígenas, estranhos assassinatos em série e conspirações misteriosas via governo. Dessa vez, explora-se o escaninho numero dois, e mais uma vez russos papa-fígado, herança de antigo medo do comunismo, são os vilões, com resultados minimamente divertidos que ainda usam questões relacionadas à crença no divino.

É um filme que, a partir do próprio título, defende a fé nos elementos místicos que o próprio cinema de gênero usa para existir. Dessa forma, todos nós queremos acreditar em muita coisa, incklusive nesse tipo de cinema sintomático para toda uma cultura.

Vale lembrar que o filme é lançado uma semana depois de um novo Batman cujo enorme sucesso parece vir de um desejo de acreditar que aquele filme teria um elemento "realista", uma fantasia cheia de "seriedade". Ironicamente, a única coisa real desse tipo de cinema é o resultado nas bilheterias.

Filme visto meio fora de foco no UCI Boa Viagem, Recife, Julho 2008

Tuesday, July 22, 2008

A Tela Grande, o Foco, CinemaScope & Imax



Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Voltando agora de uma projeção problemática do novo Arquivo X (perdendo o foco teimosamente ao longo de praticamente toda a sessão de pré-estréia, sala 4 do UCI Boa Viagem), lembrei de uma conversa que tive umas duas semanas atrás com um profissional importante do setor de exibição no país, e cuja opinião sobre o formato de cinema eu não compartilho.

Na verdade, representa um pouco da morte da experiência cinematográfica que o próprio mercado vem promovendo, e que, já de um outro lado, ganha adesões nervosas no sentido de renová-la. De qualquer forma, se deixar, algumas dessas lógicas internas de comércio terminam machucando o cinema em si, num processo de autofagia.

Essa pessoa acredita que o formato ideal (inclusive já difundido pela rede Cinemark e também algumas salas da UCI - inclusive no Recife -, mas felizmente não dos Box aqui instalados) de que o que é realmente bom é ter uma tela plana "de parede a parede" onde filmes normalmente mais estreitos (1.85/1.66) ficam grandes, enquanto os filmes do formato CinemaScope, tradicionalmente os filmes GRANDES aparecem, na verdade, menores, um retângulo ocupando a parte de cima desse tipo de tela.

Ou seja, só nesse tipo de pensamento é possível ver instruções de incêndio ou uma publicidade de xampú GRANDE e, para dar exemplo atual, The Dark Knight, o filme em si (a atração principal!), menor, feito vemos em casa numa TV 16X9.

É uma lógica de home theater, onde a tela da TV widescreen 16X9, por questões atualmente incontornáveis de tecnologia, faz a mesma coisa - filmes 1.85 tomam todo o espaço, filmes grandes como, sei lá, Ben Hur ou La Dolce Vitta, mostram-se numa tira com espaços pretos em cima e embaixo. Ok para casa, inaceitável no cinema.

Bom, para os empresários da exibição que de fato espalham esse tipo de visão do cinema e da sua apresentação (por mais que a cultura multiplex tente destroçá-la, a apresentação de um filme é a coisa mais importante de uma sala de cinema), posto logo abaixo essa apaixonada defesa do cinema widescreen, comentada (em inglês sem legendas, infelizmente) por quem realmente entende da coisa: os diretores (lista rápida, para instigação: John Carpenter, Michael Mann, Paul Verhoeven, John Boorman...).





Vale acrescentar que outras facções desse mesmo mercado vão na direção oposta, à procura de novas maneiras de levar gente ao cinema nessa era onde muitos já têm em casa alta definição e telas grandes de LCD, plasma ou projetores DLP.

O maior exemplo atualmente é Christopher Nolan experimentando com Imax (seis cenas do The Dark Knight rodadas em formato 1.44 gigante, o resto do filme em 2.40:1), e esse investimento "naquele extra" tem sido bem recompensado com os números de bilheteria colhidos nas apresentações Imax do filme estourando o teto de todas as expectativas, nos EUA.

Na verdade, o sucesso do Imax via The Dark Knight (depois de uma sequência de filmes apresentados/adaptados para o formato grande ao longo dos últimos anos - de Matrix a Poseidon, 300 e Harry Potter) nada mais é do que uma remixagem do 70mm, que, entre os anos 50 e inicio dos 90 foi o formato de luxo nas grandes cidades do mundo para oferecer "aquele extra" à experiência cinematográfica (imagem cristalina, som magnético de seis canais).

É exatamente esse "aquele extra" que meu diálogo com esse estimado expert em exibição terminou revelando-se "aquele menos", e que mostra claramente que esse modelo de mercado é exatamente o que precisa ser abandonado. A experiência de exibição no Brasil deve ser uma das mais frustrantes do mundo.

A saber, Arquivo X hoje foi apresentado numa tela de formato mezzo-scope de aproximadamente 2.10:1, com alguns cortes nas laterais (o filme é scope 2.40:1), e para ser feliz. Pior ainda foi o problema de foco.