Thursday, September 4, 2008

Para os Jovens Críticos (Pernambuco)


A Janela Internacional de Cinema do Recife promoverá entre 8 e 20 de novembro a Janela Crítica, iniciativa que busca incentivar o pensamento crítico de jovens universitários e cinéfilos pernambucanos.

Para participar, envie um e-mail para press@janeladecinema.com.br com os seguintes dados no corpo do texto:

Nome, idade, cidade (restrito a Pernambuco), universidade, período, línguas que domina, endereço do seu blog – caso possua um - e nomes de três filmes que considera importantes. Em anexo, nos envie uma crítica de 15 linhas sobre um curta-metragem. O prazo para inscrição vai até 30 de outubro.

Os e-mails serão lidos e analisados pelo crítico e jornalista Luiz Joaquim*, que escolherá sete jovens para integrar o Janela Crítica. Luiz, que é jornalista, critico, professor de cinema e coordenador do Cinema da Fundação, será o responsável por ministrar os encontros, introduzindo idéias e conceitos relativos ao universo da crítica cinematográfica.

Além de participar dos encontros, os escolhidos ganham passe livre nas sessões de cinema do festival para produzir críticas que serão veiculadas no site da Janela Internacional de Cinema, diariamente. Também marcarão presença nos debates com os realizadores.

A iniciativa culminará com a formação do júri especial Janela Crítica, elegendo, ao fim do festival, os melhores nas categorias de curtas nacionais e internacionais.

Entrevista Walter Salles & Daniela Thomas



Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Com a estréia de Linha de Passe, Walter Salles, 52 anos, mantém-se como o cineasta brasileiro mais influente no país. Filmes seus como Central do Brasil, Abril Despedaçado e Diários de Motocicleta são capazes de atrair uma parcela fiel do público no Brasil, e despertam o mesmo tipo de atenção no exterior, onde sua carreira é reconhecida por festivais como Veneza, Berlim e Cannes. Um dos raros cineastas brasileiros que fala com a propriedade de um cinéfilo crítico e bem informado, Salles não apenas dirige como também catalisa o cinema através da sua produtora, Videofilmes, criada com seu irmão, João Moreira Salles. Os dois devolveram ao veterano Eduardo Coutinho, mestre do doc brasileiro, a capacidade de filmar, e aposta da mesma forma em nomes jovens como o crítico carioca Eduardo Valente, que acaba de finalizar seu primeiro longa, No Meu Lugar.

Em Cannes, Salles apresentou não apenas seu próprio filme, Linha de Passe (Brasil, 2008), como também um outro título na competição que ajudou a produzir, Leonera, do argentino Pablo Trapero. "Tem um movimento de cinema no Brasil chamado Videofilmes", brincou Daniela Thomas, durante esta entrevista feita ainda em Cannes, sua amiga e colaboradora em Linha de Passe.

O filme é o mais recente esforço da parceria afetuosa entre os dois. Fizeram juntos Terra Estrangeira (1995), um dos filmes mais expressivos da retomada da produção brasileira nos anos 90, era pós-Collor (um dos sub-textos do próprio filme). Dirigiram também O Primeiro Dia (1999), longa feito originalmente para um projeto intitulado 2000 Visto Por... da rede de TV franco-alemã Arte, e ainda dois curtas: o ótimo comentário sobre identidade cultural e mercado Castanha e Cajú Contra o Encouraçado Titanic (2002), e Longe do 16ème (para o longa em episódios Paris Eu Te Amo), tocante retrato materno cujo eixo temático é a imigração na Europa.

Em Linha de Passe (ganhou o prêmio de Melhor Atriz para Sandra Corveloni), Salles e Thomas trazem um retrato da vida na periferia paulistana ao enfocar uma família formada por uma mãe forte e sozinha, à frente dos seus quatro filhos.

Kleber Mendonça Filho – Vocês tiveram acesso a todo um grupo de jovens atores na realização desse filme.

Walter Salles – Eu fiquei muito impressionado com a quantidade de jovens talentosos que ainda não tiveram uma chance. Para cada personagem, tínhamos duas ou três ótimas opções. Quando cinema repete sempre os mesmos rostos, perde-se a oportunidade de explorar a diversidade que existe hoje no Brasil. E eu quero destacar o trabalho da preparadora de elenco, Fátima Toledo, que unificou o elenco durante quatro meses e os transformou numa família. O resultado disso é que, mesmo andando na rua, aqui, eles parecem uma família. Vinícius (Oliveira), dez anos depois, me impressiona por trabalhar com dois chips, um com sotaque paulistano (para o filme) e o outro, o carioca, que é o dele. Ator é uma coisa inexplicável.

KMF – E Sandra, no papel da mãe? Como chegaram a ela?

Daniela Thomas – Ela trabalhava com o grupo Tapa e estreou uma peça há pouco como diretora, de Pirandello. Os testes foram feitos pela Fátima Toledo.

KMF – A visão que vocês passam de São Paulo impressiona, vocês acham que ela bate de maneira diferente para o realizador não-paulistano, como vocês dois cariocas?

DT – Quando nos juntamos em 2003 para trabalhar no roteiro, eu e George Moura, que é pernambucano e mora no Rio, fizemos m primeiro mapeamento de "onde essa família moraria?". Foi aí que descobrimos Cidade Líder, e deu-se uma combinação do nome com o lugar, esse eufemismo aplicado num bairro sem fim e sem horizonte chamado Cidade Líder. Foi nessa primeira ida que encontramos lugares que ficaram até o fim, como aquele conjunto habitacional onde Bianca, a namorada do Denis, o campinho de Arandicaduva. Fizemos a cidade de cabo a rabo.

WS – Conhecemos todos os estádios de futebol.

DT – Era muito importante fotografar a cidade dessa maneira. Não seria nunca um filme de favela.

WS – Também não é um filme de Avenida Paulista. Tem uma afirmação de Fernando Pessoa que diz "você só conhece uma cidade quando se perde nela", e São Paulo é uma cidade que te dá essa liberdade de se perder. Tantas vezes que falamos para as pessoas sobre onde estávamos filmando, e elas não sabiam onde fica Cidade Líder.

KMF – Aspecto muito comentado do filme é a câmera nas ruas de São Paulo, especialmente no personagem do motoboy.

WS – Nessas cenas, era importante que a câmera pudesse expressar o ponto de vista do personagem. A câmera, na verdade, está a serviço de cada personagem. Testamos várias possibilidades, uma delas Mauro Pinheiro, o fotógrafo, com a câmera na mão, tivemos outras soluções mirabolantes, inclusive um negócio que parecia um cabide. Daí que um dos maquinistas, José Gomes, um português com quem trabalhei no Central do Brasil, um gênio das soluções simples, construiu uma traquitana na traseira de uma moto, permitindo que Mauro pudesse pilotar a câmera no bagageiro, a moto sendo guiada por um motoqueiro. Isso aliada a uma câmera muito leve que é a Aaton Minima. Essa câmera foi também muito usada em cenas nas ruas que não entregasse a nossa presença, e que pudéssemos nos integrar à rua.

Kleber Mendonça Filho – Você tem trafegado livremente entre os cinemas do Brasil, América Latina como um todo e Europa. Qual sua percepção hoje dos filmes brasileiros?

Walter Salles – O cinema argentino manteve um foco que, de certa forma, nós perdemos. É uma produção que tem uma latitude relativamente grande e que vai do olhar realista de alguém como Pablo Trapero até um olhar mais impressionista, como é o caso de Lucrecia Martel. E ainda temos um Lisandro Alonso, que faz um cinema mais desdramatizado, mais seco, que captura o momento. Os roteiros de Alonso não têm mais de 20 páginas, e esse último filme dele, Liverpool, é o primeiro caso de ficionalização, primeira vez que ele trabalha com diretor de arte, etc. Esses cineastas, mesmo trabalhando de formas diferentes, eles são muito próximos, eles configuram um movimento. Não há uma quebra aí por parte de um cinema comercial predominante. Isso vem de um trabalho de base feito nas escolas e universidades, há 14 mil estudantes de cinema na Argentina, hoje em dia, e por sorte, eles tem também um grande número de psicanalistas, não dando certo, há uma carreira garantida... Nós no Brasil tínhamos uma unidade que foi perdida pouco a pouco. Esse foco veio do choque gerado pelo governo Collor no sentido do nosso próprio entendimento como nação que leva esse cinema a falar basicamente sobre um tema, que é a busca pela identidade brasileira. Quem somos nós, de onde estamos vindo, e aí temos o filme de Carla Camurati, Carlota Joaquina, o primeiro filme da retomada, entra o pernambucano Baile Perfumado, que também fala disso. Tivemos outros filmes que tentavam responder naquele exato momento a essas questões, como o Terra Estrangeira, que fizemos. Mesmo outros tipos de filmes, comedias que foram feitas, tinham uma ligação com aquilo que estava acontecendo no país, de uma maneira ou de outra. Essa especificidade foi perdida, ao longo do caminho esse cinema que tentava responder às perguntas sobre quem somos, de onde viemos e para onde estamos indo deu lugar a um cinema menos comprometido e mais comercial. Vale dizer que nada tenho contra o cinema comercial, eu mesmo já fiz filmes comerciais, mas a distancia entre esses dois cinemas tornou-se abissal e ela permanece hoje em dia, abissal. Há um numero de projetos que não respondem mais a essas perguntas, como remakes de comedias chilenas que nenhuma ligação tem com as questões urgentes do país. Dito isso, é preciso que seja lembrada uma certa vitalidade do cinema brasileiro. O Festa da Menina Morta, do Matheus Nachtergaele (ed: exibido em Cannes, esse ano), o Feliz Natal, de Selton Mello, um filme cassaveteano que eu espero ver numa série de festivais daqui para frente, com todo o perfil de um cinema autoral que faz todas as perguntas. Na própria Videofilmes, fizemos agora o primeiro longa de Eduardo Valente e vamos agora para o do Eryck Rocha. Enfim, um cinema dos que tentam gerar memória. O cinema no qual eu acredito é aquele que testemunha o nosso tempo.

'Linha de Passe' e os Meninos do Brasil


Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Com Linha de Passe (Brasil, 2008), o cinema de Walter Salles fica claramente dividido em dois: o dos filmes que ele dirigiu sozinho, e os que fez em afetuosa parceria com Daniela Thomas. Todo filmado em locações numa São Paulo cidade-monstro, essa crônica sobre uma mãe e seus quatro filhos estreou no último Festival de Cannes, de onde saiu com a Palma de Melhor Atriz para Sandra Corveloni. Linha de Passe, cinema de interesses humanos e sociais, mostra respeito por um grupo de pessoas que, findo o filme, soam tristemente inviabilizadas pela corrida da vida na grande banda pobre da América Latina.

Sobre essa divisão no cinema de Salles, ao lado de Thomas os enfoques sugerem personagens do hoje, da classe média e da classe pobre, imprensados por acontecimentos maiores. A falta de perspectivas da era Collor e a busca pelo externo em Terra Estrangeira (1995), a instabilidade emocional na virada do milênio em Copacabana, de O Primeiro Dia (1999), ser imigrante e pobre num país rico no belo curta Loin du 16ème, de Paris, Eu Te Amo (2005). De alguma forma, tudo soa muito palpável e imediato.

Sozinho, Salles revela-se um explorador de formatos e temáticas, e seus filmes soam mais distantes de nós, de certa forma. Do thriller de corte americano do seu primeiro A Grande Arte (1991) ao moderno melodrama latino de Central do Brasil, ele usou dinheiro estrangeiro em projetos distintos como a investigação de um personagem e de seu continente, filme de prestígio 'world cinema' que é Diários de Motocicleta (2005), e ainda arriscou-se corajosamente num produto hollywoodiano no suspense Água Negra (Dark Water, 2005), não muito bem sucedido. Abril Despedaçado (2002) talvez traduza o tipo de impasse que surge quando se espera muito de um cineasta, artística e contratualmente.

Em Linha de Passe, há uma sensação de alívio pela visão de mundo transmitida, e o nível do filme é alto, especialmente se visto dentro da produção brasileira. Nesse âmbito atual, a visão de mundo tem como norma o fascínio que não sai de moda de os ricos filmarem os muito pobres, perversão capaz de gerar coisas abomináveis como Tropa de Elite ou Estômago. Há pouco mais de um mês, Era Uma Vez (que continua bem nos cinemas, com interesse renovado a cada semana), filme de Breno Silveira, uma obra digna, mostra que a idéia básica de tensão social nos nossos filmes é um moreno da favela apaixonar-se por uma loirinha (da beira-mar) de Ipanema.

Bem mais sóbrio e ciente, Linha de Passe nos dá cinco personagens num tom de investigação auxiliada por um certo pesar. Há um tom talvez claro de que Salles e Thomas querem cuidar dessas pessoas, uma compaixão que ameaça enfraquecer o filme, mas eles bem sabem que mostrá-los contra o ambiente paulistano já seria respeitoso e grande o suficiente.

Será que essa compaixão manifesta-se em momentos como a festa onde Dario (Vinicius de Oliveira, dez anos depois de Central do Brasil) parece estar sendo corrompido com drogas por novas amizades da classe média? Ou pela sensação de teleguia que marca o envolvimento de um dos irmãos com o crime? São aproximações breves e preocupantes de um filme normalmente tão natural, mas que ameaça resvalar para o clichê social.

Em grande parte, no entanto, Salles e Thomas conseguem manter o nível alto. A câmera fluente (Mauro Pinheiro Jr.) traduz a agressividade de São Paulo como pouca coisa vista, especialmente no trânsito e no caos arquitetônico. É muito interessante para o espectador ver a cidade tão realista uma semana antes da estréia de Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, que dá a São Paulo uma leitura próxima do cinema fantástico.

A figura materna forte (Corveloni), presente com freqüência na filmografia de Walter, tenta administrar seus pintinhos, cada um deles (bela idéia do roteiro de Bráulio Mantovani, Daniela Thomas e George Moura) com pais, biotipos e mesmo cores diferentes, são os meninos-Brasil, a imagem deles é cheia de naturalidade.

Todos procuram se dar bem no susto, seja trabalhando como motoboy, sonhando com o difícil sucesso no futebol, agarrando-se desesperadamente ao modelo nacional de protestantismo ou, no caso do menino-Brasil por excelência, o único negro da casa, querendo saber quem ele é. No processo, desenvolve fascínio por ônibus urbanos. Curioso que dos cinco, três unem-se a elementos que se movimentam constantemente (motos, bolas, ônibus), ficando a mãe atônita e o filho crente os dois praticantes da constância (nunca, aliás, plenamente conquistada).

Acompanhar cada um deles, em núcleos, resulta numa experiência ora instigante, ora problemática. São precisas as observações do filme para com a forma bem brasileira (freyreana, porquê não?) de um racismo 'carinhoso' entre os da mesma família, por exemplo. Essas brincadeiras entre or irmãos, e onde o caçula é a maior vítima, nos dizem algumas verdades sobre a cultura brasileira, e são ricas.

Por outro lado, a proposta estabelece um corta-corta entre cada núcleo, algo estabelecido já na abertura de ritmos urbanos e futebolísticos que Linha de Passe segue à risca como projeto arquitetônico durante toda a projeção. Isso torna-se previsível e mesmo manipulador, como se alguém estivesse a mudar de canal sempre. Cinema é manipulação, mas apenas algumas soam mais livres do que outras.

A conclusão, em especial, sugere um virtuosismo de montagem que, se olharmos com atenção, não parece casar com o que de fato se passa na tela, uma vez que desdobramentos de cada personagem resultam sóbrios e até mesmo discretamente pessimistas. A sensação de organização milimétrica de destinos fotogênicos (o chute que irá decidir toda uma vida, um feito e tanto nas ruas, uma imagem místico-religiosa de purificação, a redenção do arrependimento...) trai um filme que enfoca vidas que, como tantas, entre ricos e pobres, encontram-se em constante desordem. Além de Corveloni, os meninos João Baldasserini, Vinícius, José Geraldo Rodrigues e Kaique Jesus Santos (o caçula Reginaldo) são incentivados pela escola Fátima Toledo com resultados excelentes.

Filme visto no Lumiere, Cannes, Maio 2008

Hellboy II

Tem ou não tem cara de uma saudosa matinê?


Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Cineasta curioso esse mexicano Guillermo del Toro. É claramente o caso de uma criança à solta na enorme loja de doces que o cinema pode ser, e sua gula por criaturas fantasiosas é intrigante. O chamado "cinema do real" não parece lhe tocar, a constância da fantasia em filmes seus como Cronos (1993), o muito bem sucedido Labirinto do Fauno (2006) e esse Hellboy II – O Exército Dourado (Hellboy II – The Golden Army, EUA, 2008), apontam para isso.

A continuação do primeiro Hellboy, que ele também dirigiu, confirma essa intimidade com a fantasia que já aproximou Del Toro de outro lunático talentoso, o neo-zelandês Peter Jackson (de O Senhor dos Anéis). Os dois embarcam atualmente em mais uma aventura baseada nos escritos de JRR Tolkien, O Hobit (em pré-produção), que deverão dirigir juntos.

Estofado de efeitos especiais a torto e à direita, Hellboy revela-se incomum num mercado tão amostrado, já que os efeitos funcionam não para chamar a atenção, mas como uma escrita fluente. Esse faz de conta nunca realmente perde o interesse, há algo de uma matinê antiga, ou talvez uma série de TV saudosa, e isso é um elogio.

Hellboy (Ron Perlman), a estranha criatura humanóide que é demônio, tem pele vermelha, chifres cortados, e ainda uma mão-marreta, é construída com simpatia e naturalidade, e desta vez ele será até pai. Bacana também a abertura, onde o vemos como uma criança faminta por ouvir histórias fantásticas.

Trabalhando para um braço secreto do governo que lembra a sede de Homens de Preto, Hellboy tem a ajuda da sua companheira Liz (Selma Blair), que parece integrante desgarrada de O Quarteto Fantástico ou X-Men (ela pega fogo quando quer), e do colaborador homem-peixe Abe Sapien (Doug Jones), que lembra uma versão com guelras (e hetero) de C3P0, de Guerra Nas Estrelas. Há ainda um engraçado alemão afetado com uniforme químico retrô-fascista estilo anos 30 que já virou um tipo de marca registrada do design que Del Toro parece adorar, vide o primeiro Hellboy e também O Labirinto do Fauno.

Hellboy e seus amigos serão obrigados a enfrentar um derrame de criaturas fantásticas que saíram de um outro plano para chegar no nosso. Já vimos mais ou menos tudo isso antes, e essa de uma outra dimensão invadir a nossa realidade é velha, de Bandidos do Tempo (1981) a Labirinto (1986) e mesmo O Nevoeiro, lançado semana passada.

No entanto, aqui isso não importa. Del Toro faz tudo com graça e humor. Elfos, trolls e pequenas criaturas aladas não são apenas efeitos especiais, mas elementos significativos. No submundo fantástico de Nova York proposto pelo filme, há espaço para a dor de cotovelo ao som de Barry Manilow (Can't Smile Without You) e, no melhor riso do filme, um bebê gracinha é, na verdade, um tumor agigantado no corpo de um troll.

Hellboy parece ganhar menos tempo no seu próprio filme, embora o personagem seja tão divertido, um demônio simpático, vaidoso, defensor dos gatos e bebês, sem paciência para gente ruim e sempre pronto para mesclar dureza com delicadeza. O perfeito personagem infantil, ético e calculadamente assustador, para terceiros. Divertido.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, Setembro 2008

A Banda



Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O muito simpático A Banda (Bikur Ha-Tizmoret, Israel, 2007), filme de Eran Kolirin, chama a atenção por propor uma interação não-militar, ou explosiva, entre judeus e árabes, numa narrativa que demonstra a curiosidade, de ambas as partes, para elucidar não tanto questões políticas e históricas, mas aspectos humanos como "quem é você e o que estás fazendo aqui?". Se a língua que os une no filme é quase sempre o inglês, Kolirin parece utilizar os créditos finais com a equipe técnica como delicada mensagem: os créditos passam em árabe e hebreu, simultaneamente.

Vale esclarecer que, de fato, ao citar o binômio indissociável "judeus e árabes", o filme não estará falando sobre Israel e Palestina, mas sobre um grupo de músicos egípcios - a Banda Cerimonial da Polícia de Alexandria - convidada para tocar no interior de Israel. Com uniforme azul piscina, chapéus e cada músico carregando curiosas malas que revelam seus instrumentos, eles mostram-se um grupo difícil de não ser enxergado à distância, principalmente depois de tomarem um ônibus errado e irem parar no meio do nada.

Essa narrativa tem claramente o tom, pejorativo talvez, de um inofensivo "world movie", o equivalente cinematográfico da world music. De qualquer forma, revela-se melhor do que isso, e ergue-se com discreta naturalidade. Os conflitos, um a um, vão se aproximando da verdade em pequenos sopros de humor que o espectador deverá, sozinho, captar, sem o auxílio de música ou claque de riso.

Alguns dos músicos são delicadamente desenvolvidos com personalidades bem sugeridas (outros permanecem figurantes), com destaque para o enorme sucesso junto às mulheres, Khaled (Saleh Bakri), que se transforma num professor de naturalidade e delicadeza com o sexo oposto para um angustiado nativo.

Liderados pelo conservador Tawfiq Zacharaya (Sasson Gabai), o grupo ganha interlocução com a interessante dona de uma lanchonete, Dina (Ronit Elkabetz), questionadora, curiosa sobre esse grupo (em particular, Tawfiq), e que parte para não só dar-lhes abrigo na sua casa, mas também, e esta é a melhor coisa do filme, mostrar-lhe um pouco da vida normal num lugar distante que é o pequeno mundo onde vive. Na verdade, tem-se a sensação de que a visita inesperada desta banda foi a melhor coisa que aconteceu no lugarejo em tempos recentes.

A Banda traduz muito bem a estranhíssima sensação de estar num lugar onde você, na verdade, não deveria estar. Estadias acidentais em certas viagens, no fim das contas, podem ser experiências ricas, pois a interação vem da naturalidade instintiva. Essa crônica capta bem o clima de uma viagem, esse deslocamento físico para um outro lugar que, frequentemente, te deixa mudado ao final, ou pelo menos capaz de enxergar novas possibilidades.

Filme visto no Jean Eustache, Bordeaux, França, Janeiro 2008

Monday, September 1, 2008

Cine Paissandu, Que Fechou Ontem, no Flamengo



Foto de Toinho (Antônio Castro), circa 2001
Obrigado, adorava o Paissandu.

Sunday, August 31, 2008

"Trovão Tropical" Cortado no Recife

Kleber Mendonça Filho

Eu fui ver Trovão Tropical sexta à noite no Kinoplex Plaza Casa Forte, novo multiplex que abria naquele dia estalando de novo. Vi o filme (engraçado), mas só descobri no dia seguinte através da comunidade do CinemaScópio no Orkut que o filme passou cortado. Descobri que o filme também estava cortado na UCI Boa Viagem.

Três trailers falsos, estilo Grindhouse, foram arrancados do filme (eles passam antes da vinheta da Dreamworks) pelo operador de projeção, que deve ter achado que os trailers só aumentariam a minutagem da sessão. Algumas salas Brasil a fora fizeram o mesmo, provavelmente achndo que eram trailers de próximos lançamentos.

Depois de falar com Pedro Pinheiro, programador da UCI/Ribeiro no Recife, ele certificou-se de que os trailers estivessem de volta ainda no domingo.


Satans Alley Trailer - Watch more free videos

Saturday, August 30, 2008

CinemaScópio no ORKUT


(er... foto de celular)

A comunidade do CinemaScópio no Orkut é um sucesso. É livre, as contribuições são quase sempre divertidas, informativas e, na pior das hipóteses, os eventuais malas marcam presença despertando uma saudável curiosidade mórbida tanto no postar como no ler.

Longe de ser perfeita, é um espaço aberto, onde instaurou-se uma notável falta de medo no se expressar, e onde quase ninguém será acusado de ter perdido 80 pontos no QI por escrever algo, até mesmo pelo fato de um ou outro não ter QI suficiente para perder tanto. No geral, me impressiona, na verdade, a inteligência de muitos, a delicadeza de tantos e o interesse comum pelo cine.

No entanto, problemas técnicos do próprio Orkut (que afligem centenas de comunidades, fui informado) acabaram com o link para o fórum. E atendendo a pedidos, achei que seria interessante criar uma comunidade de emergência. E a mesma chama-se simplesmente CinemaScópio II.

ei-la: http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=67501641

Poderá dar continuidade a um fórum que, dada a média geral desse tipo de coisa, é muito bom.

(kleber)

O Nevoeiro


Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O filme de horror que me chama a atenção pela potência da sua máquina de sustos, de suspense e de aflição chama-se O Nevoeiro (The Mist, 2007), dirigido por Frank Darabont. Esse filme B, ou talvez A querendo evocar o cinema B dos monstros dos anos 50, é mais uma adaptação dos escritos de Stephen King, e funciona infernalmente bem junto à platéia. Não seria possível pedir mais de um filme do gênero, e ele ainda vem com um final à altura de todas as premissas do cinema de horror. Para passar duas horas nervoso e feliz, esse é o filme.

Darabont fez outros dois Kings antes, o misterioso campeão moral do www.imdb.com, Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994), segundo os milhões de leitores do site, o melhor filme já feito pela humanidade (é No. 1 na votação popular). Fez também outra adaptação de prisão, The Green Mile, com Tom Hanks. Darabont é aquele cineasta cheio de americana, ele consegue injetar uma sensibilidade média dos EUA tradicional, sem evitar os aspectos mais duros dos escritos de King. Não é de se espantar que seus filmes são sucessos da família americana, mas com classificação "R", tida culturalmente como 'adulta' nos EUA, pouco 'família'.

Em O Nevoeiro, Darabont me lembra aquele desenho do Pernalonga onde, revoltado com o baixo valor da recompensa oferecida por coelhos, parte para serrar a península da Flórida e mostrar o quanto pode ser perigoso. No caso do Darabont, seu valor baixou consideravelmente com seu filme anterior, The Majestic, um pudim de açúcar que parecia ter sido dirigida por um Spielberg particularmente abiscoitado. De qualquer forma, é um filme que ainda me chama a atenção, pois salas de cinema sempre me atraem.

Para O Nevoeiro, ele apresenta seu filme, até agora, mais agressivo. O personagem principal chama-se David (Thomas Jane, a simpática porta de The Punisher), ele faz cartazes de cinema. Um deles ali no canto é o de Enigma do Outro Mundo (The Thing), de John Carpenter, referência para o que veremos a seguir, uma vez que o cinema de Carpenter faz-se presente com pelo menos mais dois filmes: Assault on Precinct 13 (1976) e The Fog – A Bruma Assassina (1979), ambos lindamente claustrofóbicos.

Discretamente situado nos anos 80, O Nevoeiro abre com uma tempestade violenta que deixa toda a região, e a casa de David e sua família, danificadas. No dia seguinte, sai com o filho para comprar mantimentos no supermercado da cidade e eis que baixa na região uma estranha névoa, logo associada à tempestade. Dos que num primeiro momento enfrentam a bruma nós só ouvimos os gritos distantes, ou vemos seus pedaços ensanguentados sendo devolvidos violentamente.

O grupo preso no supermercado entende que a névoa esconde criaturas desconhecidas que mostram-se particularmente agressivas, e a cada momento surge uma nova e estranha espécie (répteis, insetos, monstros com tentáculos). O aspecto retrô dos monstros é delicioso, e Darabont equilibra esse aspecto "science fiction double feature" com o horror para adultos de cada cena, com especial atenção às reações realistas dos personagens para elementos do mundo fantastique.

A sensação de clausura é palpável ao mesmo tempo em que a angústia aumenta com a certeza de que a fachada de vidro do supermercado não deverá segurar os ataques por muito tempo. Tentativas de fugir são aflitivas, e numa sequência das boas uma corda é usada com máximo efeito nevoeiro a dentro.

Diálogos e decisões chamam a atenção pela lógica correta nesse tipo de filme, e logo cria-se um racha crível entre David e seus simpatizantes e os seguidores de uma fundamentalista cristã claramente neurótica (Márcia Gay Harden) que transforma a situação apocalíptica num cenário ainda mais infernal.

Nos seus momentos mais poderosos, o filme pega pesado no horror mais humano, usando efeitos especiais com rara felicidade nesse mercado tão saturado. Há de se parabenizar (ou temer pela carreira futura de Darabont) pelo final kamikaze do ponto de vista do mercado, muito embora esse desfecho faça do filme experiência ainda mais memorável. Se sessões duplas ainda estivessem em voga, O Nevoeiro faria um lindo par com Fim dos Tempos, do Shyamalan.

Os Desafinados


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A trajetória do cineasta Walter Lima Jr é composta por filmes que encontram facilmente espaço na memória afetiva do cinema brasileiro, e talvez seja suficiente citar apenas um deles, o muito especial A Lira do Delírio (1978). Seu marco inicial, Menino de Engenho (1965), e um mais recente, A Ostra e o Vento (1997), ilustram a coerência de uma carreira que abrange mais de 40 anos. Isso nos leva ao seu mais recente esforço, Os Desafinados (2008), uma grande decepção.

Esse bloco pesado de clichês revela-se, finda a sessão, um mistério. Problemas observados com freqüência na produção brasileira como o do cineasta que filma aquilo (ou aquele) que não conhece, resultando em notas falsas na forma de cinema e visão de mundo, não deveriam ser um problema nesse aqui.

A associação pessoal de Walter Lima Jr (também roteirista) com o material é clara. O release entregue à imprensa reforça isso, confirmando que seus anos de formação no Rio de Janeiro testemunharam o nascimento da Bossa Nova e de toda aquela geração. De fato, ele foi parte disso. O personagem de Selton Mello, um cineasta, tem o corte claro de um alter ego do próprio diretor. Mesmo assim, tudo soa tão falso, como se o filme tivesse sido dirigido à distância, por telefone.

Alternando passagens no presente e no passado (anos 60), Os Desafinados choca por fazer jus ao próprio título. O lugar comum do trocadilho apenas reflete o lugar comum do todo, que é composto por uma seqüência frustrante de situações subdesenvolvidas nas longas duas horas e dez minutos de projeção. É um filme cuja abertura nos mostra ensolaradas paisagens de cartão postal do Rio ao som da bossa nova.

Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Ângelo Paes Leme), PC (André Moraes) e Geraldo (Jair Oliveira) são o quarteto titular (todos muito risonhos, sempre) músicos brasileiros que vão tentar a sorte em Nova York. Joaquim deixa a esposa grávida (Alessandra Negrini, neutralizada pelo todo) e o grupo ganha a companhia de Dico, que quer comprar uma câmera de cinema nos EUA.

Em Nova York, Dico compra a pesada câmera 35mm, que o filme insinua ter som (câmeras de cinema são mudas). Para deixar claro que Dico é o cineasta do grupo, ele é visto com a câmera no braço em inúmeras cenas, como uma proto-handycam.

Joaquim conhece Glória (Cláudia Abreu) numa cena constrangedora no Central Park (ela toca flauta e ele vem de violão). Glória é cantora e começam um affair que, como tudo no filme, registra mais como cena filmada do que pelo sentimento de romance junto ao espectador. Poucas vezes um casal andando numa cidade à noite e se conhecendo foi tão desinteressante.

Pouca coisa vemos do grupo de fato trabalhando em Nova York, ou interagindo de forma convincente com a cidade. Há uma subtrama que não acontece envolvendo um empresário estrangeiro explorador e a falta de intimidade muito freqüente no cinema brasileiro no filmar o passado de maneira realista (claramente o objetivo aqui) ganha mais uma tentativa não muito bem sucedida, mesmo num filme classe A como este. Não ajuda o fato de personagens estrangeiros em cena serem brasileiros tentando sotaques.

Na verdade, talvez a falta de intimidade maior seja com o mundo estrangeiro, e, de maneira interessante, Os Desafinados reflete essa ausência do elemento cosmopolita que marca a cultura brasileira de uma forma geral, e Nova York retratada nesse filme é uma pista. Cenas em estúdio batem de frente com imagens de arquivo da cidade nos anos 60 que apenas reforçam o aspecto televisivo do conjunto. Na verdade, esse banco de imagens fornece as imagens mais expressivas de Os Desafinados, e uma pena que sejam sempre planos de corte rápidos, típicos de uma novela.

Sem grandes preocupações com um estado de espírito como preocupação maior, ou de ater-se a conflitos humanos de boa qualidade, Walter Lima Jr, parece querer dar conta de toda a década em pinceladas incertas. Voltamos para o Brasil (vôo rasante sobre o Corcovado, imagem assinatura do quão cansado é o senso de imagem do filme), o Golpe de 64 ganha seus cinco minutos aqui, Dico tem problemas com a censura ali, uma TV exibe o discurso histórico "I Have a Dream" de Martin Luther King e, de repente, estamos em Buenos Aires para mais uma seqüência que não parece merecer o esforço do deslocamento.

No presente, temos o grupo já envelhecido rumo ao grande final, a cereja no topo quando o assunto é mais uma nota falsa, um desdobramento teleguiado pelo roteiro. Curiosamente, Dico, ainda no cinema 40 e tantos anos depois, tenta juntar o material da época para montar um especial que honre a música e a juventude de todos os seus amigos, especialmente dos que morreram. Esse especial é, clara e melancolicamente, Os Desafinados.

Encarnação do Demônio


Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Como Walter Lima Jr., com Os Desafinados, José Mojica Marins surgiu nos anos 60 e também circula esse mês com um filme novo que marca trajetória de quase 50 anos. Diferente do seu contemporâneo carioca, esse autor paulista percorreu o caminho da marginalidade artística com algo que só pode ser considerada uma anomalia no Brasil: o gênero fantástico, o terror. Um problema num cinema nacional que, dada a inexistência desse tipo de filme na sua produção, simplesmente não sabe o que fazer quando vê um na sua frente. A questão persiste com Encarnação do Demônio (2008), não só uma anomalia de gênero, mas também autoral no nosso cenário. O filme passa esta semana em sessão à meia-noite no Festival de Veneza.

Há duas semanas, Encarnação do Demônio teve lançamento desastroso em 37 salas do país, atraindo cinco mil espectadores. Mojica, nos anos 60, chegou a ter mais de um milhão de pessoas para cada um dos seus filmes, estabelecendo comunicação com o popular e o desdém de uma crítica (em grande parte) pronta para dispensar a estranheza do seu cinema.

Gostos são discutíveis, pois é difícil, e sendo bem objetivo, encontrar na filmografia brasileira herança (disponível em ótimos DVDs) de imagens e sons tão rica quanto a de Mojica, não só um pioneiro do gênero no país mas, passados 40 anos, e isso é impressionante, seu único defensor. Num Brasil tão cruel, violento e desigual, perversão maior deveria ser o cinema de burgueses sobre a pobreza digna do sertão, ou a alegria brutal de viver em favelas.

Filmes seus como À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967) foram realizados com mínimos recursos e expressividade máxima, misturando a cultura e realidades do país com o cinema de gênero. Revendo esses dois filmes, as partes 1 e 2 da trilogia que agora se encerra com Encarnação do Demônio, entendemos que o tempo foi muito bom para os mesmos, agregando valores estéticos, temáticos e históricos. Oferecem ainda excelente contra peso para a versão oficial do cinema brasileiro na época, o Cinema Novo, e sugerem sintonia com cineastas como o americano Herschell Gordon Lewis ou o chileno Alejandro Jodorowsky.

Sobre o filme novo, Mojica passou os últimos 40 anos filmando terror e sexo nos anos 70 e 80, e, nos 90, longe do cinema, vivendo de performances na televisão e em festas de Halloween. Seu personagem Zé do Caixão tornou-se cada vez mais sua persona comercial, lenda urbana viva que veste-se de preto, usa anéis grandes e unhas impossivelmente longas. Essa persona parece tão longe (e também tão perto) do Zé do Caixão que admira o espírito das crianças, e despreza o mundo dos homens.

Seu novo filme me parece bem mais fruto da sua persona borrada por um número grande demais de festas de halloween, infelizmente. O filme representa não só sua resistência ("são 40 anos de resistência!!", grita ele com braços erguidos e aos sete ventos na abertura), como também a admiração de dois jovens fãs incondicionais, Paulo Sacramento (produtor) e Dennison Ramalho (co-roteirista e assistente de direção) que o ajudaram a viabilizar o projeto.

O empenho dos dois constitui uma segunda iniciativa inspirada por algo que só pode ser descrita como amor para com o cinema e a pessoa de Mojica, a primeira também na forma de uma dupla, André Barcinski e Ivan Finotti. Juntos, publicaram em 1998 o livro até agora definitivo sobre Mojica e sua trajetória fascinante, Maldito - A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, uma reconstrução apaixonada (e, por tabela, revoltante) de como certos talentos são tolhidos pelo cinema, seja ele brasileiro ou não. Barcinski e Finotti ainda fizeram um documentário, tristemente pouco visto, Maldito, que permaneceu no formato vídeo, sem a nobreza de circulação do 35mm. Barcinski, Finotti, Sacramento e Ramalho têm, portanto, participações essenciais no resgate de Mojica para o presente e futuro.

Sobre o novo filme, mais uma espetacular sensação de anomalia é sentida. Um olhar pragmático deverá gerar recusa instantânea, um outro olhar marcado pela anarquia, auxiliada pela admiração de toda uma trajetória, poderá fazer do filme uma sessão interessantíssima. Eu ainda me pergunto se gostei do filme, uma primeira reação me informou que não, mas entram questões que, temo, sejam extra-filme. O universo está todo lá, mas não funciona necessariamente para mim, exceto como a pura paixão de ele existir em ambiente tão árido.

Sacramento conseguiu atrair os dois produtores mais arrojados do Brasil hoje, Fabiano e Caio Gullane, que trouxeram a 20th Century Fox, cuja famosa fanfarra abre esse filme, e vê-la no início nos diz algumas coisas sobre a maneira como o cinema tenta embalar a arte para o mercado, mesmo que ela não seja necessariamente embalável. Feito a cores e em Dolby Digital, Encarnação do Demônio tem efeitos especiais que não destoam do padrão comercial, inclusive com uma moderna viagem pelas entranhas da sua obra logo na abertura.

Agregam também, numa clara leitura de resgate do passado e auto-afirmação da obra, imagens do seu catálogo que entram no filme como espectros digitais monocromáticos invadindo a nitidez moderna das sombras de Mojica.

Curiosamente, há a qualidade dúbia de ser, essencialmente, o mesmo cinema que Mojica fez nos anos 60. Por um lado, isso é bom, já que seu fascínio pela carne, a dor e a morte continuam intactos, ficando ainda clara a sensação de imposição do macho rei como centro de prazer e dor de todas as mulheres. Posso estar errado, mas Mojica mais velho me pareceu mais tímido ao assumir esse papel, que o filme claramente parace exigir desconfortavelmente.

Por outro lado, a estranheza das suas visões no contexto dos anos 60 perdem-se num filme moderno que surge na saturação de um mercado onde o horror filmado virou coisa de menino de 12 anos de idade, e onde a tortura explícita já é um clichê cansado. Arrancar um escalpo transforma-se numa cena evento vazia, assim como o destaque dado às estrelas do submundo do body piercing, na terra ou no inferno. Engraçado ver que nas dimensões paralelas, o body piercing é feito sob rígidas medidas de higiene e luvas de borracha.

Boa parte do que Mojica nos mostra como imagem de identidade "terror" me parece terrivelmente datada no contexto atual, nos passando a sensação deprimente de estarmos numa das salas rôxas de uma festa de Halloween de boate. Essa sensação de inadequação certamente casa com o universo recente de Mojica, e casa com Zé do Caixão voltando às ruas de São Paulo depois de 40 anos na prisão e sentindo-se um peixe fora d'água, resvalando para o filme em si mostrando-se sensacionalmente fora do seu tempo.

Zé do Caixão continua querendo gerar seu filho perfeito, odisséia que não parece guiada exatamente por uma narrativa, mas por cenas desconexas de forte elemento caricatural, e Milem Cortaz, com roupa e capuz marrom de monge, é o rosto demo de tudo isso. Um momento de fato espetacular (a união de um corpo com um porco) apenas sugere a estranheza do Mojica clássico tão pouco vista nesse novo trabalho. Vale observar a farta presença de lindas mulheres nuas banhadas em espesso sangue, aspecto que definitivamente separa o filme do horror anglo-saxão defendido por Hollywood.

Encarnação do Demônio é claramente uma obra de autoralidade excêntrica embalada como produto de mercado que ele termina não sendo, o que resulta numa curiosidade da produção brasileira como nenhuma outra. Entre o riso triste e o estarrecimento por WO, Mojica terminou por gerar o seu filho na forma de um filme, aos 72 anos de idade.

Eu adoraria ver um próximo filme seu feito em digital, em condições de produção dignas, mas saudavelmente restritivas, onde a sensação de gerar o filho perfeito não fosse exatamente uma obrigação para com o inferno, mas apenas um desejo mórbido de expressão.

Filme visto no Espaço Unibanco 5, São Paulo, Agosto 2008

Thursday, August 21, 2008

O Procurado


Angelina, boneca.


por Kleber Mendonça Filho
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O Procurado (Wanted, EUA, 2008) é a estréia do cineasta russo-cazaqui Timur Bekmambetov em Hollywood. Ele chegou ao mercado americano como o responsável pelos dois maiores sucessos de público do cinema pós-soviético, Guardiões da Noite e Guardiões do Dia (Dnevnoy Dozor e Dnevnoy Dozor 2, disponíveis em DVD), filmes russos do gênero fantástico repletos de efeitos especiais que arrasaram nas bilheterias dos países da ex-URSS, deixando Hollywood comendo poeira. O que fazer com um diretor regional desses, pensou Hollywood? Aliar-se a ele para evitar mais danos.

Em O Procurado, Bekmambetov faz o serviço de chegar ao mínimo denominador comum exigido para esse tipo de filme de ação com o máximo de barulho e estupidez. Em alguns momentos, cheguei a ter lembranças de Bad Boys II, de Michael Bay, embora aquele permaneça o monumento mor à fartura e ao desperdício quando as palavras chave são "entretenimento" e "grosseria". Resta saber se a desenvoltura de Bekmambetov vem de um cinismo inteligente no sentido de dar o que Hollywood quer ou se ele tem mesmo vocação pessoal para esse tipo de coisa. As duas opções são prováveis.

O Procurado, que foi um sucesso de 120 milhões de dólares nos cinemas americanos, lançado em junho (e já uma outra vitória fenomenal na terra de Bekmambetov), é um desses filmes liquidificador que misturam pedaços de pelo menos dois títulos emblemáticos lançados em 1999: Matrix e Clube da Luta. A seqüência de abertura e inúmeras afetações que envolvem balas em câmera lenta lembram o primeiro, o perfil e a narração do personagem principal o segundo.

O herói revela a ética do filme, que parece ter sido formulada por um menino de 12 anos de idade aditivado por latas de Redbull contrabandeadas para dentro do seu quarto. Wesley Gibson (o escocês James Macavoy, de O Último Rei da Escócia) é um "perdedor" que será transformado em herói.

Perdedor num filme como esse honra o adjetivo bem americano dado a qualquer um que tem uma vida normal, emprego chato e cuja chefe é não apenas irritante e imbecil, mas ainda gorda e feia. Wesley, que está sendo traído pela namorada loira e também irritante, está tão por baixo que chega a emprestar dinheiro para o melhor amigo canalha comprar camisinhas que serão usadas na menina infiel.

Essa busca pela máxima identificação do público alvo (adolescentes 'perdedores' com vidas sexuais inexistentes) trará uma virada supostamente catártica, e essa virada de Wesley vem num supermercado, onde surge Angelina Jolie, personificação atual da sexualidade cinematográfica, irreal e, daí, inatingível.

Jolie pode ser uma mãe e ter vida normal de mulher e amiga, mas sua imagem meticulosamente filmada lembra, cada vez mais, uma boneca inflável dela mesma. Armada até os dentes e com movimentos só possíveis no cinema de ação, ela traz uma história de que Wesley é filho de um super assassino que morreu na seqüência de abertura. Começa aí um tiroteio e uma perseguição.

Mais tarde, Wesley ficará sabendo que Jolie, codinome Fox, assim como ele, faz parte de uma irmandade de assassinos com mais de mil anos de trajetória. Funcionam sob a fachada de tecelões (!...!) cuja missão no mundo é não apenas fazer colchas e suéters, mas matar gente que o destino aponta como futuros problemas para a humanidade. Wesley, sem saber, tem no sangue o talento para matar, algo esclarecido ao vermos que ele é capaz de arrancar as asas de três pobres moscas dando tiro.

Morgan Freeman é o chefe tecelão/assassino, e logo irá mostrar a Wesley que a marca registrada da irmandade é conseguir dar tiro mandando a bala numa curva, o que me lembrou os chutes de Éder na seleção de 1982, na Espanha.

A lógica adolescente pega pesado, e é marretada na cara da platéia constantemente, e isso inclui a fala final, olhando para a câmera. A auto estima do nosso herói cresce vertiginosamente ao sentir-se armado com uma pistola e ao ver que sua conta bancária conta com o surpreendente saldo de três milhões e tantos mil dólares.

Finalmente, Wesley é um homem de verdade, capaz de mandar a chefe nojenta e o amigo para aqueles cantos, e se a ação já não era clara o suficiente, Bekmambetov ainda estampa a mensagem em arrojados efeitos digitais que soletram um espetacular FUCK YOU na tela. Talvez seja essa ética, e não tanto as duas dezenas de cabeças destroçadas por balas fashion que tenham dado ao filme classificação '18' em vários países, inclusive no Brasil.

Vendo O Procurado, observa-se a identidade insana de tudo, vindo de um cineasta estrangeiro cuja origem é o cinema russo, que historicamente deu ao mundo algumas das imagens mais profundas já criadas, tanto na capacidade que têm de sugerir como intrigar. Bekmambetov, claramente fruto de uma mutação moderna do cinema globalizado, aparece como uma espécie de caricatura alienígena do cinema comercial hollywoodiano, algo que a própria indústria tem nos mostrado ao longo de sua história.

Nomes estrangeiros têm entrado na produção americana com um certo algo extra, seja a agressividade sexual e/ou brutal de um Paul Verhoeven, ou a carpintaria de um Wolfgang Petersen, ou o barroco chinês de John Woo. Recentemente, um Alexandre Aja, francês, chegou todo cruel com o tipo de violência filmada que extrapola os limites americanos do "R" (fez The Hills Have Eyes , depois de impressionar, ainda na França, com o slasher para adultos Haute Tension), mas já mostra-se devidamente adestrado.

No caso de Bekmambetov, resta observar a sua falta de vergonha ao apresentar filme tão espetacularmente débil mental, reprocessando todos os clichês do cinema comercial numa embalagem toda agitada.

Filme visto no UCI Boa Viage, Recife, agosto 2008

Corpo


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


À primeira vista, Corpo (Brasil, 2007), filme dos paulistas Rossana Foglia e Rubens Rewald, passa como uma oportunidade perdida, e em alguns pontos, talvez seja. De qualquer forma, a idéia do filme, algumas das suas imagens e seu tom geral tendem a ficar com o espectador. Pode ser pelo fato de revelar-se uma anomalia na produção brasileira atual, um filme de gênero (policial? Suspense? Noir?) que, se não chega a cruzar esses terrenos com convicção e desprendimento, pelo menos mostra sinais de vitalidade, uma ironia num filme fascinado pela matéria morta.

O fascínio vem, em grande parte, do personagem principal (Leonardo Medeiros), médico legista do Instituto Médico Legal, ele mesmo pintado como uma variação do morto-vivo. Não se sabe ao certo se esse personagem foi assim composto, ou se o mérito é de Medeiros, ator que parece trabalhar com a apatia sedada em todos os seus personagens. Seu Artur sugere trabalhar de noite no necrotério em Corpo e de dia no sistema de controle de tráfego do seu outro personagem em Não Por Acaso, de Philipe Barcinsky, ou ainda como o professor universitário brasiliense de Simples Mortais, de Mauro Giuntini.

De qualquer forma, é Artur o nosso condutor pela morbidez desse filme, traduzida em imagens cruas e precisamente desagradáveis o trabalho interno no IML, com o que me pareceu excelente trabalho de maquiagem. Essa morbidez nunca se transforma em artefato gratuito, pois Artur realmente mostra-se laconicamente tocado pela história dos mortos, deitados ali na sala. Aspectos relacionados à idéia de necrofilia não devem ser descartados.

Essa sensação cresce com o surgimento do corpo de uma bela mulher, trazido para o IML como parte de uma descoberta que irá mexer com os arquivos da ditadura. A questão é que as ossadas descobertas aparentam ter os 30 anos que as separam do presente, mas o corpo, também desenterrado no mesmo local, encontra-se em perfeito estado de conservação.

A chefe pragmática de Artur, Dra. Lara (Chris Couto, atuação tensa), decreta que o corpo é recente e que será enterrado como indigente, caso ninguém o procure. Pressionado, ele parte para pesquisar o passado nos arquivos do DOPs, e encontra a história de uma atriz e militante política que desapareceu nos anos 70.

O fascínio de Artur pelos registros, e seu desejo de que esses registros casem com a realidade física guardada no IML sugerem um misterioso toque de loucura que respinga também no espectador.Chegamos, então, à filha da mulher, a jovem Fernanda (Rejane Arruda), bela, viva e idêntica ao corpo no IML.

Me chama a atenção como o filme sai-se bem do seu ponto de partida e atinge o núcelo dessa história ainda desenvolvendo-se bem o suficiente para nos levar a desdobramentos finais que, infelizmente, não me satisfizeram. A provável loucura romântica de Artur seria o ouro narrativo dessa história de duplos com algo de assustador, e com um tom tão sóbrio quanto mórbido.

São elementos curiosos que o filme investiga sem um senso maior de organização, o que poderá passar para alguns a já citada sensação de oportunidade perdida. É o tipo de filme onde o espectador espera que tudo enlouqueça mais, se descabele mais, uma vez que o terreno para isso foi construído. Ao final, temos um curioso exercício de baixo impacto sobre morbidez, vida e morte onde a história recente do Brasil, via ditadura, ganha releitura original, mas com resultado, eu suspeito, dramaticamente subdesenvolvido.

Filme visto no Palácio 1, Festival do Rio, Setembro 2007.

Monday, August 18, 2008

O Cinema, a Crítica, o Cineasta, Todos Nós


The Perry Bible Fellowship/Nicholas Gurewitch.

http://pbfcomics.com/


(clique na tira para vê-la maior)

Sunday, August 17, 2008

Gramados Prêmios


Mesa pós-premiação em restaurante de Gramado.

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A 36a edição do Festival de Gramado foi encerrada na noite de sábado em cerimônia profissional transmitida ao vivo pela TV. Nome Próprio, filme de Murilo Salles, foi o vencedor do prêmio Kikito de Melhor Filme brasileiro de Longa Metragem. O júri, formado pelos cineastas Roberto Gervitz, Ana Carolina, Lina Chamie e Carlos Gerbase, e o crítico Marcelo Janot, também honrou o prazeroso novo filme do autor carioca Domingos Oliveira, Juventude, com os prêmios de Melhor Diretor e Roteiro. Num virtual terceiro lugar, A Festa da Menina Morta, primeiro esforço do ator Matheus Nachtergaele, teve estréia nacional em Gramado depois de uma première internacional no Festival de Cannes, e ficou com o Prêmio Especial do Júri, Prêmio da Crítica e Júri Popular.

Nome Próprio, drama intimista sobre os diferentes estados emocionais de uma jovem mulher, surpreendeu como Melhor Filme não por questões de qualidade, mas pelo fato de ter estreado no Festival do Rio, em setembro do ano passado, e de já estar nos cinemas em diversas capitais do país. Na moeda corrente dos festivais, onde preza-se o ineditismo, o filme, que também passou na noite de abertura, superou todos os obstáculos, confirmando ainda o prêmio de Melhor Atriz para Leandra Leal.

“Mais do que ganhar Melhor Filme, inscrevi o filme em Gramado para que Leandra ganhasse Melhor Atriz. Missão mais do que cumprida”, me falou Salles, depois da cerimônia. Também na saída do Palácio dos Festivais, o cineasta gaúcho Gustavo Spolidoro, cujo primeiro longa metragem, Ainda Orangotangos passou no mesmo Festival do Rio que lançou Nome Próprio, disse não ter inscrito sua obra por achar que Gramado só queria inéditos, revelando a imprevisibilidade confusa de festivais.

Dos seis filmes brasileiros em competição, os Kikitos foram divididos entre Nome Próprio, Juventude (levou também o Prêmio de Qualidade Artística para a trinca de atores Paulo José, Domingos Oliveira e Aderbal Freire Filho) e A Festa da Menina Morta (ainda, Fotografia, de Lula Carvalho, e Melhor Ator para Daniel de Oliveira). Vale observar o prêmio de Lula Carvalho, jovem e expressivo profissional da câmera (fez Tropa de Elite). Numa seleção dominada pela imagem digital, o júri pinçou o único filme que usou película 35mm do lote.

Para o filme de Nachtergaele, que chegou como "o filme" de Gramado, com o carimbo de Cannes no cartaz e no CV, dono do espaço mais nobre da competição (sexta à noite), fruto de um ator admirado e respeitado que alça novos vôos, e com a aura impressa de "radical", o resultado foi visto como uma decepção, por alguns, seja pela não premiação, ou mesmo pelo filme em si.

Eu pessoalmente respeito o trabaho de todos os envolvidos, mas não consigo entrar no filme, talvez pela sensação de estarmos participando de uma intensa oficina de atores no meio da floresta Amazônica, a experiência tão intensa que qualquer dramaticidade é esvaziada para dar espaço a um senso de teatro que parece procurar no teor cultural (religiosidade, geografia, folclore) uma validação, ou mesmo um empurrão.

Os muito fracos Netto e o Domador de Cavalos, de Tabajara Ruas, e Vingança, de Paulo Poms ficaram sem nada, como também a reveladora viagem áudiovisual pela América do Sul Pachamama, de Eryk Rocha, único documentário desta seleção, claramente orfão numa seção dominada pela ficção.

Salles espera que os prêmios de Gramado para Nome Próprio dêem gás na bem sucedida carreira do filme nas salas. Lançado apenas em formato digital, Nome Próprio já fez 25 mil espectadores nos cinemas, pouca verba de divulgação e uso pesado de internet.

LATINOS – Nos filmes latinos, os jurados Jorge Duran (cineasta), Diana Kuelar (jornalista), Germano Coelho Filho (produtor), Matias Mosterín (produtor) e Ricardo Casas (produtor) preferiram o tranqüilo mexicano Cochochi (acusado de ser iraniano, por alguns), rito de passagem para duas crianças na província de Chihuahua, que ficou com Melhor Filme e Prêmio de Qualidade Artística.

O agoniado videoclipe da barbárie latina com tintas de thriller amarelo ocre Perro Come Perro, de Carlos Moreno (que a crítica em Gramado votou Melhor Filme) ganhou Melhor Diretor e Atores (Marlon Moreno e Oscar Borda). O bem intencionado, cativante, e algo de verde argentino Por Sus Próprios Ojos, de Liliana Paolinelli, ganhou Prêmio Especial do Júri, Roteiro, Atriz (Ana Carabajal).

CURTAS – Depois de passar na seleção da Semana da Crítica, em Cannes, o belo curta Areia, de Caetano Gotardo, venceu Gramado (Melhor Filme, Fotografia para Heloisa Passos e Atriz, Malu Calli). Gotardo, no melhor discurso da noite, homenageou Domingos e Manoel de Oliveira, dizendo querer ser um dia tão jovem quanto o cinema deles. Outro destaque foi o paranaense Booker Pittman, de Rodrigo Grota, que ganhou Gramado ano passado com Satori Uzo. O novo filme segue os passos do primeiro, mas com interessante desdobramento. Ganhou Prêmio Especial do Júri, Crítica e Canal Brasil.

O gaúcho Subsolo, de Jaime Lerner, levou Melhor Diretor, o ator Augusto Madeira, visto em Blackout, de Daniel Rezende, e Noite de Domingo, de Rodrigo Hinrichsen, Melhor Ator. O divertido doc de animação Dossiê Rebordosa, de César Cabral, fcou com roteiro.

O FESTIVAL – Nas palavras de um dos homenageados esse ano, o cine-autor Júlio Bressane, “Gramado havia sido levado à cova em anos recentes” (há relatos de que o prefeito da Cidade não gostou nada das palavras, e retirou-se), e volta aos poucos à vida via curadoria de José Carlos Avellar e Sérgio Sanz.

É verdade que a mística turística da cidade e sua aura artificial de Disneylândia com bons restaurantes, hotéis e excelentes serviços continua agregando o culto às celebridades, creio que independente dos caminhos tomados pelo festival em si. Carregamentos diários de jovens atores e atrizes globais nível Malhação que mal sabem o que significa cinema são trazidos para dar a grande pinta, gerando enorme gritaria no cada vez mais longo tapete vermelho.

Em relação ao cinema, o festival recupera-se, tanto nos curtas como nos longas, ora abrindo espaço obrigatório para a fraca produção gaúcha, ora prezando o cinema autoral. Sobre a seleção latina, vale perguntar se Gramado não teria poder de fogo para pescar títulos importantes do cenário atual, que poderiam ter no festival sua primeira e mais vistosa porta de entrada no país.

Friday, August 15, 2008

O novo Domingos



Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


E na noite de quinta-feira, chegou em Gramado um dos autores mais peculiares do cinema brasileiro, o carioca com afetuosa voz de uísque Domingos Oliveira. Mostrou seu novo filme, Juventude, apresentado no Festival de Gramado na mostra competitiva. Subiu ao palco com Paulo José, seu parceiro de mais de 40 anos, fizeram juntos Todas as Mulheres do Mundo (1966), e voltam a trabalhar nessa espécie de réquiem de homens maduros que olham para a vida com compreensão e bom humor. Já na apresentação, os dois deixaram claro que trata-se de uma obra pessoal que se debruça sobre a vida, feita com poucos recursos e grande afeição.

Um filme como Juventude revela-se uma curiosidade na atual produção nacional. Rodado com câmeras digitais (e projetado em digital) que exclamam a cada imagem o aspecto “VIDEO!!”, o filme tem o look mais radical dos filmes exibidos até agora em Gramado dessa safra, numa seleção marcada pela imagem digital de alta definição (Vingança, de Paulo Pons, Pachamama, de Eryk Rocha, Nome Próprio, de Murilo Salles). O filme de Oliveira contenta-se em manter um look “baixa resolução” que gerou comentários negativos de membros da platéia, finda a sessão. Esteticamente, esse visual, que é, certamente, ‘feio’, agrega algo de significativo para um autor brasileiro que não pára quieto, filmando o que quer da maneira que quer.

De qualquer forma, a câmera circula pelo filme nas mãos de Dib Lutfi, o lendário cameraman do cinema brasileiro que filmou para Glauber Rocha (Terra em Transe) e Nelson Pereira dos Santos (Como Era Gostoso o Meu Francês). A presença de Lutfi fecha os personagens num quarteto, uma vez que na frente da câmera são três os protagonistas.

Oliveira interpreta, mais uma vez, ele mesmo, o cineasta/teatrólogo bon vivant já chegando aos 70, admirador das mulheres, cardíaco, fumante e sempre com uísque ou bebidas de teor alcoólico na mão. Ele visita um grande amigo, judeu riquíssimo (Paulo José) que mora num palacete em Petrópolis, Rio de Janeiro. Chega um terceiro amigo, cardiologista (Aderbal Freire Filho) um pouco mais jovem.

E os três passam a noite numa deliciosa conversa de bêbado, três homens vivendo os proverbiais ‘outonos de suas vidas’ num lero que, quase sempre, corre fluente como água. A adesão ao filme pelo espectador deverá vir da capacidade de cada um de embarcar nessa noite de lembranças e revelações de homens que já foram viris, e que hoje entendem a passagem do tempo sem grandes arrependimentos ou rios de lamúrias.

Oliveira filma como se estivesse à frente de um delicioso vídeo caseiro feito com seus amigos, e o filme traz um somatório de verdades pessoais que dão ao filme um aspecto de autenticidade, mesmo que o tom geral lembre muito As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand, onde os últimos dias de um personagem tomam o rumo do humor e do sarcasmo para com a vida. Não é exatamente um filme revolucionário, mas sua coerência com a obra do autor Oliveira e com um lado desesperadamente otimista da vida revelam-se pontos fortes.

Com Juventude, Oliveira oferece um filme diferente de qualquer outro na produção brasileira. Radicalmente pessoal no fazer e também no falar, funciona tanto pelas habituais tiradas faladas por Oliveira com seu humor romântico, e ao mesmo tempo ligeiramente atônito, como pela habilidade de se comunicar com o público. Foi claramente o filme mais bem recebido pela platéia, gerando inclusive uma ovação para Oliveira e José ao final da sessão.

Wednesday, August 13, 2008

Gramado 2


Em Netto e o Domador de Cavalos, Werner como o alter ego da filmografia gaúcha. Tarcísio Meira Filho faz um índio guarani.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A noite de terça-feira foi um tanto dura na mostra competitiva de longas, com destaque para mais um exemplar de um certo cinema gaúcho muito dedicado ao resgate de folguedos e folclores dos pampas. Abrindo com o documentário de Cabo Verde, sobre Cabo Verde, Mindelo – Atrás de Horizonte, filme caleidoscópio do cineasta Alexis Tsafas, a noite trouxe na seqüência o drama de época com tinta de western sulista Neto e o Domador de Cavalos, de Tabajara Ruas. Entre um filme e outro, o ator Walmor Chagas recebeu a principal homenagem do Festival de Gramado esse ano.

No palco do Palácio dos Festivais para receber o prêmio Oscarito, Chagas, gaúcho que foi para São Paulo aos 22 anos investir na profissão de ator, é um dos rostos mais conhecidos da dramaturgia brasileira, tanto no teatro, cinema e TV. No cinema, estreou no excelente São Pulo S.A (1965), filme de Luis Sérgio Person. Esteve também em Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues, para citar dois dos seus papeis memoráveis. Num discurso conciso, Chagas disse que “é uma situação muito estranha e emocionante. A sensação de ter apostado em alguma coisa que deu certo, trabalhar em cinema”.

No primeiro filme da noite, Mindelo – Atrás de Horizonte, apresentado em vídeo, o espectador embarca numa espécie de mostruário de imagens e sons de Cabo Verde, a fascinante ilha no meio do Atlântico, terra de Cesaria Évora, e onde vemos um mundo muito familiar em tratando-se da nossa própria imagem do Brasil, acrescida ainda de toques claramente europeus (via Portugal) e também africanos.

Sem entrevistas e obedecendo apenas ao que mais parece a lógica do vento, Mindelo – Atrás de Horizonte passa à nossa frente sem ritmo ou senso de estrutura, problemas que são momentaneamente compensados pela paixão dos realizadores por aquele lugar. Isso não redime o filme de um certo tom disperso.

Mindelo – Atrás de Horizonte passa na parte dedicada a filmes latinos, e nos faz pensar na abundância de filmes mais expressivos do que esse que integram a safra atual de cinema no mundo, apresentada em festivais internacionais, Cannes vem à mente. Poderiam ter em Gramado expressiva porta de entrada no Brasil. Curiosamente, não estão tendo.

OS FILMES GAÚCHOS - Algumas questões sobre a sempre infindável discussão em torno das escolhas de um festival no sentido de uma seleção, ou curadoria, foi estimulada pela projeção de Neto e o Domador de Cavalos. A chave para entender a presença do filme na seleção 2008 é relativamente simples: o filme representa a produção gaúcha, em grande parte estimulada pelo Banco do Estado do Rio Grande do Sul – Banrisul, o principal patrocinador do Festival de Gramado, ou no liguajar de captação usado pela organização via vinhetas e microfone, o "patrocinador master", o que lembra o quarto de luxo num hotel.

No início de cada sessão, um spot publicitário presta contas de duas dezenas de filmes incentivados ao longo dos últimos 13 anos pelo banco, e Neto e o Domador de Cavalos é mais um para a lista.

Portanto, parte da função de um festival é divulgar a produção regional, muito embora isso não esteja direta ou necessariamente relacionado a questões artísticas. No caso do filme de Tabajara Ruas, que em 2002 lançou Neto Perde a Sua Alma, um filme melhor, mas outra aventura histórica pelos pampas, o novo título dá continuidade à sensação de espanto em tratando-se do cinema que é feito no Rio Grande do Sul.

A própria publicidade exibida diariamente - com exceções claras dos filmes de Jorge Furtado, o Wood & Stock de Otto Guerra e o doc O Cárcere e a Rua, de Liliana Sulzbach - passa como uma espécie de mausoléu que é o moderno cinema gaúcho, uma produção regional peculiar que chama a atenção por, de fato, existir, tanto financeiramente como pelo seu isolamento.

É composta por filmes que não acontecem artística ou comercialmente. E essa produção acontece de forma praticamente separatista no sentido geográfico e gaúcho do termo, pois é incentivada, em grande parte, por dinheiro local, como o muito divulgado em Gramado apoio do Banrisul.

Neto e o Domador de Cavalos deverá juntar-se à longa lista de filmes (Nossa Senhora de Caravaggio, de Fábio Barreto, Lua de Outubro e Concerto Campestre, de Henrique de Freitas, Noite de São João, de Sérgio Silva...) que tiveram dificuldade de encontrar espaço longe das telas gaúchas, e que integram um fenômeno que, do ponto de vista estético, do cinema, deve ser estudado com mais afinco.

No novo filme, Ruas nos apresenta uma estética que lembra Escrava Isaura sem o benefício da tela da TV. O aspecto empalhado do filme encontra eco nesse cinema gaúcho apaixonado pela história da região, um cinema capaz de convencer Tarcísio Meira Filho a interpretar um índio guarani e onde o ator local (com reconhecimento nacional) Werner Schunnemann é uma espécie de alter-ego dessa cinematografia.

Ele interpreta Netto, envolvido na história do “negrinho do pastoreio”, adolescente escravo de tintas messiânicas que representa a luta contra a crueldade opressora e escravagista da região, no século 19. Se os valores da produção são escassos, é o cinema em si que choca.

Mais uma vez, volta a noção de cinema radiofônico, num filme que poderia passar muito bem numa transmissão FM. Há uma narração para cegos realmente impressionante no seu didatismo e intromissão, com informações tipo "o enterro foi no pôr do sol...", e corta para um alaranjado ... er... pôr do sol. Um espelho é meticulosamente quebrado em câmera lenta e um segundo depois, ouvimos um personagem exclamando "sete anos de azar!".

Os atores são deixados ao relento pelos enquadramentos fechados, ou pior, abertos, onde um grupo de personagens sugere adesão total a "Xs" no chão. A montagem prova que o filme e seu senso narrativo estão em apuros quando cenas destoantes são montadas paralelamente, e o que dizer do uso assustador e enigmático de atabaques na trilha sonora, em surtos de cinco segundos? Uso da 'noite americana' também débil.

É claramente o filme modelo sobre a conquista do incentivo e da captação, e a falta de domínio da visão de cinema pelo que ele deveria ser como expressão, seja ela como arte ou mesmo comércio. Incentivos estaduais devem ser sustados? De forma alguma, o cinema precisa ser incentivado, sempre, como ato de resistência cultural. Isso, no entanto, não significa que devamos fechar os olhos para os caminhos tomados por toda uma filmografia, e pelos modelos estéticos que ela mesma toma para si.

Monday, August 11, 2008

Em Gramado / Segunda-Feira



Primata promove Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro, na entrada do Palais des Festivals na serra gaúcha. O longa estréia em 29 de agosto.
(foto: KMF)

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Dois rebentos da nova cinematografia digital passaram no primeiro dia da competição do Festival de Gramado, segunda à noite, sendo um argentino (mostra latina), outro brasileiro (competitiva brasileira). Por Sus Próprios Ojos, filme de Liliana Paolinelli, e Vingança, de Paulo Pons, enfocam, respectivamete, o universo das mulheres de presidiários na cidade de Córdoba, Argentina, e o segundo uma história de vingança situada entre o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro. Além de frutos do novo cinema digital, ambos também passam a impressão de serem filmes jovens tanto no bom, quanto no mau sentido.

Por Sus Proprios Ojos estréia na Argentina daqui a dois meses e deverá juntar-se ao muito superior Leonera, filme de Pablo Trapero que esteve no Festival de Cannes, esse ano, já lançado os cinemas argentinos com sucesso. Leonera, filme de um homem, investiga com olhar duro e também delicado a trajetória de uma presidiária que também é mãe.

Por Sus Próprios Ojos, por sua vez, investiga tema recorrente no cinema de olhar dito feminino: as mulheres (mães, esposas, companheiras) de presos. Dois filmes brasileiros vêm à mente nesse sentido, Visita Íntima, de Joana Nin (curta-metragem feito no Paraná) e O Cárcere e a Rua, de Liliana Sulzbach (longa feito no Rio Grande do Sul).

O filme de Paolinelli, apresentado na noite de segunda-feira, é claramente um filme verde, fruto de uma realizadora que ainda traz ranços universitários para o espaço da tela grande de cinema. O clichê do filme dentro do filme é mais uma vez abordado via figura de uma também jovem realizadora que tenta fazer um documentário sobre as mulheres de presos em Córdoba, cidade que fica a 800 kms de Buenos Aires.

À certa altura, a personagem pondera que talvez as verdadeiras presas sejam essas mulheres, idéia intrigante que não ganha maior investigação. Apaixonada de forma dèja vu pelo uso de uma câmera de vídeo dentro da cena, Por Sus Próprios Ojos resulta num filme de tese, do tipo “projeto experimental” de faculdade, e isso não é nada bom.

GAUCHÊS – Já Vingança aponta mais uma vez para a tendência inevitável (e rica em possibilidades) de uma digitalização do moderno cinema brasileiro, e isso muda não apenas o que emos em termos de imagem, como também a maneira que filmes são feitos. Embora sejam bem diferentes, Vingança compartilha do mesmo tipo de estrutura pequena (e câmera utilizada, a HVX-200 da Panasonic) do Nome Próprio, filme de Murilo Salles que passou domingo, também em competição.

Paulo Pons é da Pax Filmes, produtora que fez acordo de produção e distribuição com a Rio Filme. Através de verba oriunda do Prêmio Adicional de Renda da Ancine, levantaram R$ 320 mil para a realização de quatro filmes, R$ 80 mil cada, sendo Vingança o primeiro do lote. “Acredito que em três meses teremos o próximo pronto, que chama-se Espiral”, disse Pons na coletiva do filme, ontem.

Projetado em digital via Rain, o filme é tecnicamente muito bom, e as atuações de Erom Cordeiro e Branca Messina são eficazes, naturalistas. Ele é um rapaz gaúcho no Rio de Janeiro com planos de finalizar um plano de vingança para ato violento ocorrido seis meses antes, no sul.

O filme parece fadado a sofrer um racha entre a historinha de amor relativamente assistível com o personagem dele e o dela, e a obrigação de honrar o título com desdobramentos transplantados via guindaste pelo roteiro. Há também uso intrusivo de música (Dado Villa Lobos).

Pons (também roteirista) parece crer que bem mais do que um sub-produto da natureza humana, a vingança é uma exclusividade da cultura gaúcha, e dois personagens do sul elevam o nível de gauchez no sangue do filme a níveis inaceitáveis, provocando gargalhadas na platéia. José Mayer, em especial, termina incorporando para si a inexperiência do realizador no sentido de tratar um tema duro com afetações superficiais confundidas com traços inequívocos de identidade cultural.

Pons, 34 anos, mostrou-se ávido por fazer um cinema comercial de qualidade onde a reação do público poderá levar a mudar seu filme para adequar-se ao gosto médio popular, algo realmente perigoso. Finda a sessão (e também o debate), mais uma vez no cinema brasileiro tem-se a sensação de que conquista-se a técnica, mas não os conflitos humanos que são, de fato, o ouro de qualquer narrativa.

'Crítico' passa em Gramado.



Meu filme Crítico passa hors concours nesta sexta-feira, 15 de agosto, no Festival de Gramado, que acontece de 10 a 16 de agosto. A projeção do filme será seguida de um debate.

Sunday, August 10, 2008

Janela Internacional de Cinema do Recife

Inscrições abertas até 12 de Setembro.

O Cinema de Madonna? (Ela faz 50 essa semana)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Tem-se idéia do quão poderosa Madonna é como entidade pop quando entendemos naturalmente a importância de sua carreira insuperável na música, mas fazemos esforço intelectual de inclusão para lembrar seu legado no cinema. Foi em fevereiro desse ano, no Festival de Berlim, que voltou tal sensação melancólica quando o assunto é essa coisa pop formidável chamada Madonna. Ela, que, em termos práticos e objetivos, não dá ponto sem nó na esfera da música, sempre teve uma relação de amor não muito bem correspondido com os filmes. Isso se confirmou em Berlim, pois lá estava ela apresentando sua primeira obra como diretora, Filth and Wisdom.

Vê-la apresentando seu longa com a postura de uma curta metragista iniciante e ansiosa tanto encantou alguns, como fez os mais cínicos achar que aquela foi a primeira boa atuação da diva. Ela parecia estar realmente incorporando a artista humilde (H*U*M*I*L*D*E*???!!!), ciente das suas deficiências e diante de uma imprensa internacional que já conhecia seu currículo no cinema.

Curiosamente, ela não aparece em Filth and Wisdom ('lixo e sabedoria', livremente traduzido), um filme barato, feito em vídeo, e que, caso não fosse de Madonna, seria mais uma fuzarca sem nexo como as milhares que a tecnologia digital permite que sejam feitas no mundo inteiro hoje em dia por jovens cineastas sem talento, e que nunca serão vistos por mais do que 100 pessoas, amigos e familiares inclusos.

E porquê Madonna nunca foi muito bem no cinema? O tamanho da sua famosa ambição loira bate com a idéia de que os diamantes são os melhores amigos de uma garota. Mesmo assim, suas atuações passam a sensação de que estamos vendo uma asa delta de duas toneladas tentando voar. Vale lembrar que ela inverteu posições com uma das suas maiores inspirações, Marilyn Monroe, lembrada como atriz, às vezes como chanteuse. Madonna será lembrada como estrela pop, e com o já citado esforço, atriz.




Mais curioso ainda é observar uma artista que soube utilizar o videoclipe tão bem para definir sua imagem, e o formato tem uma boa dezena de clássicos por Madonna que pertencem ao imaginário da cultura pop. A homenagem a Monroe em Material Girl (1984), a citação a Metropolis, de Fritz Lang, em Express Yourself (1989), a montagem de corpos, braços e caras de Vogue (1990), o tom sadomasô de Justify My Love (1991). Mostram presença de imagem que apenas sugeriam o mesmo tipo de sucesso nos filmes. Não exatamente.

Nos anos 80, Madonna surgiu com uma coisa independente chamada A Certain Sacrifice (1984), foi vista cantando Crazy For You ali no fundo em Em Busca da Vitória (Vision Quest, 1985) e teve destaque num filme baratinho e simpático, Procura-se Susan Desesperadamente (Desperately Seeking Susan, 1985), cuja estréia nos cinemas foi segurada pelos produtores quando percebeu-se que Madonna, coadjuvante no filme (Rosana Arquette era a personagem principal), estouraria. Ela ainda teve Into the Groove, um dos seus clássicos do dancing, na trilha.


Depois de casar-se com Sean Penn em 1985, os dois embarcaram num delírio de lua de mel chamado Shanghai Surprise (1986), produção inglesa do Beatle George Harrison, um desses filmes onde tudo deu errado, um mico para o casal. Ela não desistiu. Quem é Essa Garota? (Who's That Girl?, 1987) é um filme estranho e interessante, mas não sei se entendi até hoje o que Madonna estava fazendo ali com personagem tão irritantemente peralta (usava boné ao contrário). A música tema é simpática.

Pulando Doce inocência (Bloodhounds of Broadway, 1989), chegamos ao muito divulgado Dick Tracy (1990), onde nem a atmosfera cartunesca ajudou a presença pesada de Madonna, na época namorada do diretor e ator Warren Beatty. Porquê tão pesada toda vez que está no quadro?

O peso ruim é veneno para qualquer aspirante às artes dramáticas, e foi revertido ao ser ela mesma no proto-reality show Na Cama Com Madonna (Truth or Dare, 1991), um freak show da auto-exposição numa época em que esse tipo de coisa ainda não fazia parte da programação diária na TV.

Teve participações inexpressivamente (Neblina e Sombras, de Woody Allen) simpáticas (Uma Equipe Muito Especial), mas voltou a pagar mico leão dourado com o sub-sub-sub Instinto Selvagem (lançado um ano antes), Corpo em Evidência (Body of Evidence, 1993). Esse é aquele thriller incompreensível onde Madonna queima o pobre do Willem Dafoe com pingos de vela. Comparações com a performance de Sharon Stone no filme anterior não ajudaram em nada.

Desistir, jamais, e essa perseverança a levou a Evita (1996), a adaptação de Alan Parker para a cafonália de Andrew Lloyd Webber, um musical CinemaScope à moda antiga, sem diálogos, onde ela interpreta Eva Peron, inicialmente para a fúria dos argentinos mais conservadores. "Evita no era puta, non!" É talvez o seu papel mais lembrado, junto com Susan, e ela não fez feio, mesmo que o filme seja intragável.

Evita parece ter acalmado Madonna. Desde então, tem feito pequenas participações, e isso inclui o mico-sagui de 007 Um Novo Dia Para Morrer (Die Another Day, 2002), onde ela faz uma instrutora de esgrima, se bem lembro. É verdade que ela repetiu a dose do vexame a dois com seu novo e atual companheiro, o cineasta inglês Guy Ritchie, para quem atuou no desastre Destino Insólito (Swept Away, 2002), e o destino do filme foi mesmo insólito, direto para DVD.

Ritchie, aliás, sugere a falta de olho de Madonna para o cinema. O diretor de filmes espetacularmente afetados como Snatch deve ser mesmo um bom marido e pai dedicado, mas seus talentos para el cine são, de fato, lamentáveis. Quero ver seu próximo clipe.