Saturday, April 11, 2009

Gabriel Mascaro / "Um Lugar ao Sol"




"Acho que ainda convivemos com o eco de um Projeto de intelectuais que se imaginaram, por um momento, ter o poder e missão de ser o porta-voz das classes populares, como se os sujeitos marginalizados não pudessem engendrar sua própria idéia de representação social ou visibilidade."

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O mais novo longa metragem pernambucano teve estréia mundial no Buenos Aires Festival Internacional de Cine – Bafici, na Argentina. Um Lugar ao Sol, filme de Gabriel Mascaro, passa num dos festivais de perfil independente e autoral que mais ganham importância no circuito internacional. O documentário investiga enfoque inédito no Brasil, a parcela reduzida da sociedade que mora em coberturas, e segue, depois do Bafici, para um segundo compromisso em Nyon, na Suíça, no importante festival de documentários Visions du Réel. O filme foi um dos contemplados, mês passado, pelo Edital do Audiovisual do Governo de Pernambuco com uma verba importante para a sua difusão em festivais e salas de cinema.

Um Lugar ao Sol teve início como um projeto de curta metragem e logo ganhou corpo de longa metragem através de material registrado no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Com imagens rodadas em 16mm e em digital pelo fotógrafo Pedro Sotero, Mascaro registrou entrevistas com oito moradores de coberturas, símbolo internacional de status social, personagens localizados pela produção a partir do que o realizador chama de “um curioso livro que mapeia a elite e pessoas influentes da sociedade brasileira”.

Para Mascaro, “o filme traz um debate sobre desejo, visibilidade, insegurança, status e poder”, através das paisagens. É um filme sobre isolamento social e visão de mundo que representa mais uma peça do cinema pernambucano que, mais do que nunca, abandona o ideal rural e folclórico tradicional do passado voltando-se para a vida na cidade.

Um Lugar ao Sol discute também o atual estado de abandono no qual encontram-se as silhuetas inchadas de cidade brasileiras grandes como Recife, tomadas por uma praga arquitetônica que vende a verticalização como um modelo a ser seguido.

O tema também está sendo abordado em dois outros filmes feitos no Recife, os curtas-metragens Menino Aranha, da jornalista Mariana Lacerda, e Eiffel, do crítico de cinema Luiz Joaquim. O primeiro é uma reflexão sobre a arquitetura do medo no Recife, e o segundo um comentário discretamente demolidor sobre as duas verrugas brancas de cimento e concreto construídas no Cais de Santa Rita, as torres da construtora Moura Dubeux. Menino Aranha e Eiffel serão exibidos no próximo Cine PE, neste mês de abril.

Nessa entrevista feita por email, de Buenos Aires, onde esteve para apresentar seu filme, Gabriel Mascaro reflete sobre a representação cinematográfica das classes altas no Brasil e sobre a própria altura como forma de proteção.

O conceito de observar classes localizadas "acima" na sociedade é uma idéia que não deveria soar ousada no cinema brasileiro, mas é. De onde surgiu e como você desenvolveu o conceito desse filme?

GM - Infelizmente o filme termina por ser uma idéia ousada. O ideal era que não fosse. Temos no Brasil algumas poucas referências de filmes nessa busca, como o ‘Opinião Publica’, do Arnaldo Jabor, o ‘Retrato de Classe’, dirigido por Gregório Bacic... Mas acho impressionante a quase ausência de documentários envolvendo grupos sociais de classe média alta e elite no Brasil. Acho que ainda convivemos com o eco de um Projeto de intelectuais que se imaginaram, por um momento, ter o poder e missão de ser o porta-voz das classes populares, como se os sujeitos marginalizados não pudessem engendrar sua própria idéia de representação social ou visibilidade. Toda uma lacuna e vácuo de produção de conteúdo sobre a classe média e elite no Brasil se cristalizou. Quando tive a idéia de fazer o filme Um Lugar ao Sol, queria poder acessar excertos do imaginário deste grupo social que pouco havia conhecido, por ter crescido numa família de classe media baixa e por pouco ter visto filmes sobre. Mas resolvi fechar este dispositivo elegendo potenciais personagens que morassem em valiosas coberturas de prédio. Um filtro natural que desdobraria ainda uma reflexão que transcenderia a idéia de grupo social (evitando o olhar sociologizante), e abriria a possibilidade no filme de pensar sobre o modelo de cidades verticais que estamos construindo. Todos os meus verbos estão no futuro do pretérito porque terminou que eu não consegui acessar com expressividade o grupo social preterido. Resultou que apenas 8 personagens me cederam entrevistas e o filme termina por evidenciar a minha própria inacessibilidade. Um Lugar ao Sol pode ser ousado, mas não é pretensioso. O filme não arquiteta uma representação classista e não se propõe a tratar os personagens como um bloco de cimento homogêneo. Mas sim sobre o tipo de sedimento ideológico que estamos construindo.

Há no Brasil a idéia de altura como mecanismo de proteção? Em que níveis isso opera?

GM - É surpreendente perceber quantas variáveis influenciam na escolha desse modelo arquitetônico vertical de um segmento da classe média/alta e elite brasileira em viver em elevados prédios. Mas o que mais me interessa nessa questão é indagar sobre o momento que essa busca deixa de ser uma opção social protecionista e passa a ser o sonho, o desejo real e irrefutável, tendo a ‘ cobertura’ como utopia e plenitude. As crianças nascem imbuídas do sonho do apartamento próprio, com grande vista para o entorno, tendo todas as opções de lazer dentro do condomínio e toda experiência comunitária dentro dos muros do prédio. E esse sonho é vendido diariamente pelas construtoras e pouco paramos para pensar sobre a cidade que queremos viver.

O que se passa com a paisagem do Recife, atualmente?

G - No Recife existe um desconfortável clima de triunfo deste projeto de paradigma arquitetônico de verticalização, logo, deste paradigma de sociedade. É perturbador. Uma construtora pernambucana vende seu projeto imobiliário como contemporâneo, evoluído, que utiliza o slogam: ‘se a vida é feita de escolhas,aqui você vai poder ser o que quiser’. Um lugar ao Sol se propõe a trafegar pelo imaginário social do desejo. O que me motiva como realizador é poder entender o desejo das pessoas e saber o que elas gostariam de ser, e não que elas são.

O filme surgiu como um curta-metragem. Foi natural a passagem para o longa?

G - O projeto foi contemplado como um filme de curta-metragem para ser finalizado em 35mm num edital de pernambucano. O projeto se mostrou tão complexo para mim que terminou rendendo um longa-metragem naturalmente. Encontrei reais possibilidades de distribuir o filme em projeções digitais e isso terminou que deu uma nova vida ao filme, onde me sinto mais contemplado conceitualmente. Depois de mais de 6 anos de gestação, o filme inaugura sua trajetória no BAFICI e logo em seguida tem a premiere européia no Festival Visions Du Reel, na Suíça, um importante festival europeu englobando a cultura do documentário.

Os Delírios de Consumo de Becky Bloom



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Os Delírios de Consumo de Becky Bloom (Confessions of a Shopaholic, EUA, 2009) não é a porcaria que seu material de divulgação me levou a crer que seria. O trailer sugere uma imitação sem vergonha de O Diabo Veste Prada com uma certa sensibilidade Sex and the City. A embalagem de ‘filme de mulherzinha’ é entregue pela direção de arte que carrega no rosa choque para ajudar a definir a personagem principal, uma garota capaz de partir para unhadas e puxões de cabelo com uma outra colega de luta caso queiram o mesmo acessório em concorrida remarcação. Essa asneira colorida diverte minimamente e, longe de ser apenas uma imitação com ilusão de qualidade, o filme é honestamente fajuto nas suas intenções.

A heroína da peça é uma patricinha de QI especialmente pequeno, Rebecca Bloom (a australiana Isla Ficher), uma jornalista. Presa num estado terminal de consumismo, essa jovem da classe média trabalhadora gasta 16 mil dólares em penduricalhos comprados compulsivamente em lojas onde vitrines ganham vida com a magia de manequins que filosofam sussurrando sobre a importância de comprar algo.

Perseguida por um cobrador espetacularmente chato (perfeito casting do ator Robert Stanton, que rosto, que óculos, que cabelo...) e freqüentando o ‘consumistas anônimos’, Rebecca arranja emprego numa revista de economia cujo editor será seu príncipe encantado (Hugh Dancy). Usando como base para o novo emprego seus surtos consumistas, torna-se uma bem sucedida colunista ao assinar como “a menina da echarpe verde” textos que parecem traduzir tendências financeiras da economia para o patricês que outras da sua fauna e flora consigam entender.

O diretor australiano PJ Hogan é um gente fina, vide seus O Casamento de Muriel e O Casamento do Meu Melhor Amigo, embora demonstre ter sido aniquilado de certa forma pela estrutura. De qualquer forma, traz seu olhar claramente gay e algo de divertido para o todo, e esse seu toque ajuda muito o filme no sentido de torná-lo uma experiência levemente indolor.

Dado o atual clima de crise financeira internacional, Os Delírios de Consumo de Becky Bloom parece casar bem com os tempos através da moral fajuta da sua história. Vale saber que o filme é produzido por Jerry Bruckheimer, responsável por coisas caras como Armagedom, Piratas do Caribe e Bad Boys, filmes que, juntos, custaram quase um bilhão de dólares.

A informação é engraçada, uma vez que a moral da história é a de que supérfluo é ruim, e que aprofundar-se em algo é bom (a echarpe verde parece ilustrar isso). Essa filosofia, num mundo correto, não deveria ajudar o filme em nada, dadas as suas não-credenciais. No entanto, no nosso mundo de shopping centers, vitrines e das marcas que aparecem em todo o filme, deverá ser um sucesso.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, abril 2009

Dois em Um



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Ver filme comercial ruim de uma outra nacionalidade que não a hollywoodiana tem algo de positivo. Por ser francês, Dois em Um (La Personne aux Deux Personnes, França, 2008) indica que o mercado de lá é potente o suficiente para arremessar sub-produtos a outras terras, fazendo pequena frente aos americanos. Oferece visão variada da sua produção européia que não restringe-se ao cinema de autor que chega a lugares como o Brasil com respeito garantido. Só ano passado, o maior recordista de público da história da França, a comédia Bienvenue Chez Les Ch’Tis (inédita no Brasil), foi visto por 20 milhões de franceses, fortalecendo a auto-estima do cinema de lá e a luta contra a presença de Hollywood. O lado melancólico é que por causa dos mesmos filmes hollywoodianos e seu poderio, um produto francês como esse termina chegando ao Brasil via circuito “de arte”, gerando curiosa disfunção estética.

Dois em Um pertence ao revolucionário conceito humorístico onde um espírito troca de corpo com outro, idéia que vem e volta no cinema como gripe pós-carnaval. Já tivemos mãe que troca com filha, homem que troca com cachorro e marido com mulher no inacreditável sucesso brasileiro Se Eu Fosse Você, cujo segundo filme aproxima-se dos seis milhões de espectadores no país. Gripe forte essa.

Desta vez, temos um contador bem comportado (Daniel Auteuil) que, ao ser atropelado por um ex-roqueiro dos anos 80 (Alain Chabat), vê seu corpo invadido pela alma do motorista, que bateu com a cabeça. E lá estamos no terreno de Um Espírito Baixou em Mim (1984) e Viagem Insólita (1987) onde alguém ouve vozes dentro da sua cabeça, e ninguém mais ouve. O espectador terá que sofrer pelas mesmas piadas de sempre, incluindo a primeira ida ao banheiro depois da troca.

O filme é algo de formidável na forma como bóia desengonçado sem qualquer vestígio de graça. É fascinante tentar entender o que teria levado Auteuil a não apenas querer fazer o filme, mas a desejar ver-se numa tela grande andando de cueca semi-nu pra lá e pra cá. O ator como gênero animal é mesmo um bicho muito estranho.

Não seria estranho descobrir na internet que os diretores, que assinam apenas Nicolas e Bruno, vieram da publicidade. A atenção deles à arquitetura deslumbrada da moderna área parisiense de La Defense e ao apartamento estilo anos 70 do personagem de Auteuil parecem ganhar mais atenção do que o roteiro, que dá ao espectador a sensação de estarmos diante de material bruto que aguarda edição.

Filme visto no Cine Rosa e Silva 1, Recife, Abril 2009

Saturday, March 21, 2009

Radiohead



por Kleber Mendonça Filho
Rio de Janeiro


Três filmes me impressionaram até agora, esse ano:

- Peculiaridades de Uma Rapariga Loira, de Manoel de Oliveira.
- Gran Torino, de Clint Eastwood.
- o show do Radiohead no Rio, ontem.

algumas coisas sobre o ocorrido na Praça da Apoteose.

Será que as bandas brasileiras que abrem eventos desse tipo, antes de bandas estrangeiras, assinam contrato de limitação técnica resignada como forma de servir de trampolim para as atrações principais? Digo isso pois o simpático show dos Hermanos não parecia ter luz, ou a que tinha me lembrava o tipo de luz que uma bandinha de colegial tocando no encerramento do ano letivo teria, no auditório da escola. O som estava à altura da luz.

No Kraftwerk, uma coisa me chamou a atenção. Os quatro men machines alemães representam uma banda essencial na música pop, e que, nos anos 70 e 80, estiveram à frente do tempo, com um catálogo de músicas que parecia prever um futuro que hoje sabemos que estava certo, eletronicamente falando.

Dessa forma, a idéia de quatro homens expressionsitas com algo de Lang e Metropolis cuidando de máquinas minimalistas no palco deveria ser um conceito e tanto 30 anos atrás, mesmo 20.

Só que hoje, vendo os quatro ali, enfileirados, atrás de laptops, a primeira coisa é que me vem à mente é que eles talvez estejam checando email num internet lounge. Nossa relação com as máquinas e computadores é hoje excessiva e promíscua, e o conceito do Kraftwerk ao vivo me parece velho, embora as músicas (The Model, Trans Europe Express, Music Non Stop, Autobahn) não esteja. São lindas.

Acho que Kraftwerk, depois de anos à frente do seu tempo, finalmente está preso no presente, possivelmente até mesmo já um pouco no passado.

Já o Radiohead, não sei bem o que é aquilo. Melhoram, a cada disco, senso de imagem deles é belo, e a capacidade que têm de traduzir uma obra musical numa apresentação ao vivo através do som, do design de palco e de luz, e da capacidade técnica da banda em si, é assombrosa.

Voltando à coisa da luz e som dos Hermanos ontem, a discrepância entre o início da noite e a entrada do Radiohead é o equivalente a ver um filme preto e branco em DVD mono projetado em vídeo e depois entrar um outro filme em 70mm seis canais. A projeção larga de flagrantes muito bem pensados dos músicos no palco tem uma concepção perfeita, jogando fora as imagens televisivas que normalmente "mostram" bandas tocando para quem está mais longe do palco.

Eu já vi alguns shows históricos (Prince 3 vezes, The Cure, R.E.M, Chico Science & Nação Zumbi), e dá pra sentir que você está vendo um na hora, como o de ontem. Espero que quando filhos e netos estiverem descobrindo o catálogo completo do Radiohead, aos poucos, eu possa dizer, "eu vi ao vivo".

A banda parecia estar dando tratamento especial à platéia, primeira vez no Brasil, tocaram, acho que tudo do In Rainbows, mais de duas horas, 3 bis, Paranoid Android, No Surprises, até Creep, cujos primeiros acordes geraram uma saraivada de "CARALHO!" na multidão. Aquelas ameaças da guitarra em Creep, antes do refrão, ganharam luz à altura da ameaça.

É uma das grandes bandas do mundo, no auge dos seus super poderes. O show gerou um tipo especial de euforia, e o que mais se via no descampado de lixo que escoava lentamente rumo ao metrô era gente se abraçando e se perguntando, "você viu aquilo?".

Gran Torino




por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Por uma dessas coincidências, dois filmes que estréiam hoje trazem essencialmente o mesmo tema, mas em registros bem diferentes. O tema é os EUA pós-11 de setembro aos poucos abrindo-se para o elemento estrangeiro, algo que talvez soe como uma redução adequada para o já pequeno O Visitante (The Visitor), mas uma imposição limitada que nem começa a fazer justiça à demonstração de delicadeza autoral que é Gran Torino (2008), de Clint Eastwood. Nos dois filmes, homens americanos maduros se abrem para o mundo, e para si mesmos, através do contato aproximado com cidadãos de passaporte, língua e cultura estrangeiras.

O mais novo exemplar da filmoteca Eastwood chega há menos de dois meses do lançamento nos cinemas do seu último filme, o melodrama da Universal estilo anos 30, A Troca, um filme que eu já chamei aqui de obeso, mas que me agrada em muito.

Aos 78 anos de idade, Eastwood continua impressionando como um caso especial no cinema (já está filmando o próximo, The Human Factor), e Gran Torino ainda nos oferece o trabalho de um autor que não apenas narra bem e levemente, mas registra o tema do envelhecimento de forma totalmente coerente com a sua própria trajetória. Ele dá a sua cara a esse tema.

Eastwood, que abre seu filme com um enterro e um batizado, já vem abordando a passagem do tempo sobre o corpo e a aproximação da morte desde que passou dos 60, na época de Os Imperdoáveis (1992), algo desdobrado de maneira inusitada em Cowboys do Espaço (1999), para citar apenas dois.

Isso de um astro hollywoodiano que viu-se no auge da sua popularidade no final dos anos 60 e início dos 70. É fato que em 1972/1973, aos 42 anos, Eastwood atingiu o auge como astro de maior bilheteria em Hollywood via filmes como O Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971), de Don Siegel, seu mentor, alguns anos depois da sua fase spaghetti western com Sergio Leone, seu outro mentor.

É impossível não associar essa época ao ano de fabricação (1972) do Ford modelo Gran Torino estacionado na garagem de Walt Kowalski, o velho ranzinza que Eastwood interpreta de coração nesse novo filme. O Gran Torino verde de estado impecável parece uma espécie de troféu automotivo de um outro tempo, símbolo vivo de uma juventude americana que já se foi para esse velho resmungão que não agüenta a família nem os vizinhos.

Noções de correção política ainda não chegaram na casa desse viúvo, que detesta ver sua vizinhança tomada por “japas”, na verdade integrantes da comunidade Hmong, povo que os EUA herdaram depois da Guerra do Vietnã. Walt guarda ainda memórias duras da Guerra da Coréia, onde lutou muito jovem.

Ele irá se envolver com os seus vizinhos depois que Thao (Bee Vang), garoto adolescente, é levado a tentar roubar o Gran Torino pressionado por uma gangue de jovens Hmong que querem tomá-lo para o mau caminho. Com a participação da irmã mais velha de Thao, Sue (Ahney Her), há uma engraçada (e encantadora) aproximação do velho racista americano com os seus vizinhos, obstáculos que começam a ser superados não só através de uma conversa muito humana, mas também via comida e uísque de arroz.

A união inusitada de um homem de 78 anos com adolescentes inteligentes emocionalmente talvez expliquem o enorme sucesso do filme nas bilheterias (na verdade, a maior arrecadação de Eastwood em mais de 50 anos de carreira).

Gran Torino parece ter um apelo que vai de A a Z, mostrando com grande delicadeza que a união de mundos diferentes (jovens e velhos, nativos e estrangeiros) é sempre uma aventura humana sem igual. A naturalidade dessa aventura é um dos aspectos mais cativantes de Gran Torino, que mostra naturalmente a troca entre os que seriam diferentes, um espelho importante de cinema para uma cultura, a americana, que sempre trata o "estrangeiro" como algo que deve ser incompreendido.

Em outros níveis, Gran Torino é também um acréscimo maravilhoso à já citada filmoteca Eastwood. Há desdobramentos violentos no filme que não devem ser revelados, mas que reprocessam de forma consciente a imagem cinematográfica de um ator que interpretou muitas vezes a força bruta armada como reação à violência do homem.

Bem longe de filmar mais um filme da série Dirty Harry, com o personagem perseguindo bandidos aos 80 anos e gerando constrangimento, Gran Torino nos dá um sentido agudo de realidade. Algumas vezes nesse filme, vemos Walt/Eastwood já incerto do seu corpo, dentes cerrados, apontando um revólver fantasma com o dedo indicador como cano em direção aos que mereceriam, em outros tempos, morrer. Uma das imagens do ano.

Filme visto no Plaza Casa Forte Kinoplex, Recife, Março 2009

O Visitante


"Tu me ensinas a tocar djembe que te dou um espelho"

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Mais do que nunca na sua história, os EUA se viram repelidos pela idéia de “estrangeiro” depois dos ataques do 11/9, expressão máxima do mal vindo de fora na história americana recente. Como o Brasil, os EUA têm uma postura relativamente caipira de país continente onde a idéia do “estrangeiro” é sinônimo de estranheza, não obstante essas duas culturas terem sido construídas a partir de imigrantes. Em O Visitante (The Visitor, EUA, 2008), a outra estréia de hoje a trilhar um mesmo tema (ver Gran Torino), o cineasta Tom McCarthy parte para fazer o tipo de filme “para um mundo melhor” usando noções básicas de interação entre americanos e estrangeiros.

Como em Gran Torino, temos um americano maduro, o professor universitário Walter (Richard Jenkins, que foi indicado ao Oscar de Melhor Ator por esse trabalho, esse ano, perdendo para Sean Penn em Milk). Walter é um chato de galochas, o típico intelectual deprimido, acadêmico enfadado com a academia, parte desse desânimo oriundo da perda da sua esposa pianista respeitada, assunto que sentimos aos poucos na composição doída e sedada de Jenkins.

Chegando no seu apartamento de Nova York para apresentar um paper que ele apenas assinou, e onde não ia há quase um ano, descobre um casal de imigrantes ilegais morando lá, Tarek (Haaz Sleiman), sírio, e Zainab (Danai Jekesai Gurira), senegalesa. Estavam em regime de ocupação clandestina, Tarek um percussionista e Zainab artesã de pulseiras para vender. Se fossem brasileiros, ele jogaria capoeira e ela também faria artesanato.

O lado bom da história é que o casal é muito simpático, honesto e tornam-se amigos de Walter, que irá deixar que fiquem como seus hóspedes até que encontrem um lugar para ficar na cara e apertada Manhattan.

Diferente de Gran Torino, e o lado ruim desse aqui, é que tudo isso soa como se o americano enfadado (especialista em economia, mundo rico e mundo pobre), e sua relação com o casal de estrangeiros muçulmanos fizesse parte de um programa de interação cultural financiado por uma OnG. A conversa entre as duas partes não supera o aspecto raso, indo em direção à atração superficial pelo exótico.

Walter, por exemplo, descobre um mundo de possibilidades à sua frente ao ser apresentado por Tarek aos prazeres do djembe, um instrumento de percussão. A imagem de Walter espancando o djembe seria a idéia de interesse pelo estrangeiro, bicho exótico cheio de ginga, e o espectador logo poderá lembrar de turistas bem intencionados numa roda de capoeira no Pelourinho ou no Pátio de São Pedro.

O filme desdobra-se rumo à sua terceira parte quando Tarek é preso no metrô e levado para um crudelíssimo exemplo de arquitetura brutal, uma enorme caixa de sapatos de concreto sem janelas onde seu destino será decidido por uma lei fria de imigração. Entra no filme o que faltava até então na sua estrutura previsível, um interesse amoroso para Walter, na forma da bela mãe de Tarek, Mouna (Hiam Abbass, a teimosa dona dos limoeiros de Lemon Tree).

O Visitante talvez funcione mais pela sua boa vontade para com o tema do que pela sua delicadeza mecânica, muito embora boas intenções não sejam suficientes para muita coisa.

Filme visto no Box Guararapes, Recife, Março 2009

Glauber 70

publicado no Jornal do Commercio sábado, 14 de Março 2009

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


70 anos Glauber Rocha faria hoje, e é sempre difícil traduzir uma fração crível da sua importância como lenda real da expressão artística brasileira, em grande parte através do cinema. Se a noção de filme brasileiro tivesse uma constituição oficialmente outorgada, ela teria sido escrita por Rocha via seu texto histórico A Estética da Fome. Se o cinema nacional e latino americano tivesse um guru, ele provavelmente seria Glauber Rocha, um deus iconoclasta crente de que a bateria na música seria o que a montagem é para o cinema.

Glauber é hoje uma história real e uma lenda, ambas ricas em medidas iguais, e abertas para a desconstrução, a dilapidação e a desmitificação. Como Reiner Werner Fassbinder (falecido em 1983), Glauber morreu jovem aos 40 e poucos anos (42), virando um mito amparado por sua obra e os desdobramentos que surgiram a partir dela.

Artista claro e evidente com um discurso eletrizante quando falava ou escrevia sobre o cinema e as sociedades, o fato de ele não ser exatamente adotado como esse deus, ou reconhecido oficialmente como redator da nossa constituição fílmica, apenas reflete as saudáveis discordâncias que existem entre os que separam fato de lenda, dos que têm fé religiosa e os que se vêem ateus. Mais ainda, sua rejeição por alguns faz sentido pelo simples fato de a arte ser uma entidade livre de regras e autoridades impostas.

No último Festival de Berlim, por exemplo, o cineasta José Padilha, diretor de Tropa de Elite, mostrou pela primeira vez o seu documentário Garapa, sobre a fome no Brasil e no mundo. Filmado cruamente em preto e branco, Padilha respondeu a uma indagação glauberiana colocada por mim mesmo sobre o conceito de filmar a fome, e se, por um acaso, ele teve em mente as idéias de Glauber sobre a representação da pobreza, tão discutidas no cinema brasileiro.

“Eu nunca li o manifesto de Glauber. Eu não me interesso por manifestos, não acho que faz parte do meu trabalho dizer a outros colegas cineastas como se deve filmar, estabelecer regras, não obstante o fato de eu respeitar muito Glauber”, respondeu Padilha, com base no seu próprio trabalho.

A resposta nos lembra o debate histórico sobre Cidade de Deus, em setembro de 2002, em São Paulo, onde ficou tanto claro que as idéias de Glauber ainda podem fazer muito sentido para cineastas e críticos, como causar rejeição numa outra plataforma dos que fazem o cinema.

O debate também ilustrou indiretamente o tema controvertido da já citada fé religiosa numa virtual santidade de Glauber, uma vez que reações típicas da religião eram sentidas toda vez que alguém admitia corajosa e constrangedoramente “não gostar de Glauber nem do seu cinema”.

Ainda hoje, a frase é recebida com o mesmo tipo de choque que fiéis numa igreja ou templo teriam ao ouvir de alguém que “Deus não existe”, e o tom de sacrilégio foi repetido ano passado quando o humorista Marcelo Madureira foi ouvido gritando no Cine Odeon, durante sessão da dureza inconteste que é A Idade da Terra, a frase “Glauber é Uma Merda!”. O incidente gerou discussão em jornais e internet, inclusive discussões semânticas sobre a frase em si, uma vez que “Glauber é Um Merda” seria mais grave do que “Glauber é Uma Merda”.

É muito fácil admirar a trajetória de Glauber e seu legado, assim como diminuir o seu impacto, especialmente quando ele é utilizado como o metro com o qual procedimentos são medidos num cinema brasileiro como o feito atualmente no ano 2000, onde uma comédia de papelão como Se Eu Fosse Você 2 conquista quase seis milhões de espectadores. Tudo depende do quão benéfica a influência de Glauber pode ser no campo das imagens e das idéias pela manhã, ou o quão equivocada ela pode ser interpretada à tarde.

A longevidade das suas idéias sobreviveram fortes ao quase sumiço de circulação dos seus filmes ao longo dos últimos 15 anos, que viram raras cópias velhas em 35mm exibidas de maneira bissexta em salas isoladas do Brasil, e fitas VHS em péssimo estado sumirem naturalmente de locadoras do país.

Só nesta década que um trabalho de restauração e reapresentação dos seus filmes ofereceu a oportunidade de a mais nova geração de cinéfilos ter acesso decente aos filmes. Esse projeto chamado Coleção Glauber Rocha está sendo bancado pela Petrobras, Cinemateca Brasileira e Estúdios Mega, e dirigido por Paloma Rocha, sua filha, e Joel Pizzini, realizador e pesquisador do legado de Glauber. Da filmografia, já foram restaurados e lançados em 35mm e DVD (de excelente qualidade) Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967), O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) e A Idade da Terra (1980), seu último filme.

Curiosamente, o trabalho de manutenção e expansão da memória de Glauber não existe apenas na recuperação dos filmes. Rocha e Pizzini, que são casados, têm realizado filmes que abordam de forma acurada o universo do artista, como o sólido relato factual Anabasys.

Paula Gaitan, por outro lado, viúva de Glauber, fez, há dois anos, um dos mais belos retratos impressionistas sobre a mística em torno de Glauber Rocha na profunda reflexão em imagens e sons que é Diário de Cintra, que aborda exatamente a fase final da sua vida. É um filme tão pessoal que chega a doer.

Dono de um estilo único de filmar, e impossível de citar ou imitar sob o risco de vermos um pastiche grotesco (há inúmeros, especialmente em escolas de cinema), o cinema de Glauber Rocha traz uma carga impressionante de sincretismo num Brasil colado pelas culturas européia, negra e indígena.

A riqueza dessas imagens, aliás, não funciona apenas dentro de uma compreensão distanciada e intelectualizada, mas também numa explosão de montagem e câmera que gera uma certa tristeza ao sabermos que, mesmo deflagrando um sem número de debates e conquistando admiradores naturais no país e no exterior, seu cinema nunca realmente encontrou eco no grande público. Na verdade, poucas vezes no cinema o fosso entre arte e popular foi tão grande, ainda mais num cinema repleto de signos de um Brasil popular e populista.

Um caso em questão, e que ilustra algo dessa incompreensão: a simples menção à morte de Glauber Rocha em 22 de agosto de 1981, aos 42 anos, nos lembra um dos seus mais belos e grandes filmes, um curta-metragem, Di. Aqui, ele filmou uma celebração à alegria de viver em toda a sua energia no enterro do seu amigo, o artista plástico Di Cavalcanti, cujo velório aconteceu no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

"Ninguém Assistiu ao Formidável Enterro de sua Última Quimera, Somente a Ingratidão, Essa Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável", fala Glauber ao abrir seu filme que muito incomodou a família Cavalcanti, decretando-o banido de exibições públicas. Eles não entenderam que Glauber e sua câmera indiscreta, filmando detalhes do caixão e do falecido em closes fúnebres era, na verdade, uma atitude artística de respeito para com o amigo morto e de uma crueza agressiva para com as formalidades da morte.

O filme está disponível no You Tube, e ver Di hoje, dia em que Glauber faria 70 anos, seria uma lembrança viva da sua energia única.


Thursday, March 12, 2009

Entre os Muros da Escola


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Interessante como filmes se renovam, mesmo atendendo a uma série de convenções já tão conhecidas. Entre os Muros da Escola (Entre Les Murs, 2008), filme de Laurent Cantet, seria mais um signatário do micro-gênero “alunos e professores”, responsável por entretenimentos tidos como nobres do passado, Ao Mestre Com Carinho (1966), de James Clavell, e Sociedade dos Poetas Mortos (1989), de Peter Weir, para citar dois. A questão é que o filme de Cantet pertence à mais fina escola francesa de um cinema entregue à observação da sociedade, resultando numa demonstração delicada de crueza que chega intacta ao espectador. Também chegou intacta ao júri presidido pelo ator Sean Penn, no Festival de Cannes, ano passado, onde o filme ganhou a Palma de Ouro.

Para entender um pouco Entre os Muros da Escola, é bom saber algo sobre o seu diretor. O cinema dele acontece no nível da classe média trabalhadora, onde pequenos conflitos ganham um tratamento dedicado. Em Recursos Humanos (Ressources humaines, 1999), que não passou nos cinemas brasileiros, Cantet promove o choque entre um filho, recém formado em administração, que assume cargo no departamento titular de uma fábrica onde seu pai trabalha há 30 anos.

Seu filme seguinte levou muitos a crer que Cantet seria “o cineasta do trabalho”, uma vez que em A Agenda (L’Emploi du Temps, 2001), temos um pai de família paralisado psicológica e socialmente pela perda do emprego, saindo todo dia de manhã com terno, gravata e pasta sem ter a coragem de contar para ninguém que está desempregado. No seu filme seguinte, Em Direção ao Sul (Vers Lê Sud, 2005), Cantet abordou o abismo entre ricos e pobres ao mostrar um grupo de mulheres francesas, inglesas e americanas, indo ao Haiti para um turismo sexual sem grandes culpas, nos anos 70.

Chegando a Entre os Muros da Escola, Cantet dedica-se a nos mostrar os confrontos entre um professor de ginásio e sua turma de francês que ele também orienta, numa instituição pública de ensino nos subúrbios de Paris. O filme não poderia ser mais direto ao ponto, sem música, sem sair da escola e focando exclusivamente nas trocas verbais e nos olhares entre as partes. Muito se fala do quão falado o filme é, mas prestem atenção nos olhares, nas aprovações e desaprovações, na incapacidade que alguns alunos têm de levantar os olhos, e na facilidade de outros de destruir com os olhos.

Se não tivesse claramente se assumido um filme de ficção com atores (e não-atores), poderia passar como um documentário de cinema direto, do estilo “mosca na parede” que tudo ouve e tudo vê. Em duas horas, registra-se um processo que dura, no filme, o ano letivo, começando com a volta às aulas, terminando com o início das férias.

Ainda sobre uma idéia de ‘realismo’, importante destacar que o ator e roteirista François Bégaudeau escreveu o livro homônimo sobre o qual Cantet fez o filme. Bégaudeau interpreta ele mesmo (ou uma versão bem próxima dele mesmo), também François, um professor diante de uma turma que traduz a mistura racial e étnica que forma a paisagem humana na França, hoje.

Temos meninos e meninas facilmente descritos como franceses, e outros, como Suleymane (Franck Keïta), que luta para se considerar francês via suas origens nas Antilhas. Há os que não querem ser franceses, como Khoumba (Rachel Régulier) e Esmeralda (Esmeralda Ouertani), irritados demais para assumirem identidades que julgam impostas. O garoto chinês Wey (Wei Huang) observa tudo com misto de generosidade e perplexidade, fator auxiliado pelo seu domínio limitado do próprio francês, e talvez um talento nato para a matemática.

Vendo essa turma tão cultural e racialmente diferente, podemos começar a pensar na realidade da educação no Brasil, onde noções básicas de cidadania inexistem em escolas particulares caras que segregam natural e cruelmente cor e poder aquisitivo, formando novas gerações de preconceito e isolamento culturais, uma vez que a noção de escola pública permanece frágil o suficiente para atender unicamente as demandas das classes menos favorecidas. Triste.

Filmado como uma série de confrontos no ringue que é a sala de aula, Cantet nos dá intervalos narrativos ao acrescentar ainda mais tensão com os bastidores da escola. Comissões disciplinares onde punições inúteis precisam ser decididas e onde o preço exorbitante da máquina de cafezinho também é discutida dão abrangência ao filme, assim como o contato com alguns pais. Cantet, no entanto, não nos priva de um humanismo do mais puro bom gosto, como num brinde delicadíssimo de champanhe proposto na sala de professores a duas crianças.

É tudo muito preciso, e esse humanismo ganha a mais perfeita tradução na sensação que temos de não estarmos diante de mais um filme sobre professores e alunos onde o mestre é aquele monumento de bronze e sabedoria inspiradora e irretocável. No caso de François, eis um professor que está ensinando, errando e aprendendo diariamente, exatamente como seus alunos. Nos lembra que educação é uma troca, e não uma ordem. Linda imagem final.

Filme revisto no Cinema da Fundação, Recife, março 2009.

Sex Drive


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Um doce para quem não abrir alguns sorrisos acima do amarelo com a comédia primitiva sobre adolescentes americanos com ganas de perder a virgindade que é Rumo ao Sexo (Sex Drive, EUA, 2008), estréia de hoje. A coisa é mesmo rudimentar e indefensável, mas há um contexto amável no filme sobre amizades e companheirismo que o colocam em alguma sub-categoria do gênero atualmente dominado pelos filmes de Judd Apatow, que fez os muito interessantes (eu juro que são) O Virgem de 40 Anos e Superbad, filmes, aliás, bem melhores do que esse.

Ian Lafferty (Josh Zuckerman) é um garoto de 18 anos com dupla personalidade, uma no chat on line, onde seria um jogador de futebol americano musculoso (a montagem da cabeça de Ian no corpo inchado é perfetamente horrorosa), outra na realidade, onde é um garoto normal, tímido, que se veste de rosquinha para divulgar a lanchonete onde trabalha, num shopping, e que observa preocupado todos se dando bem, menos ele.

Tímido demais para conseguir conquistar a menina que ele gosta, sua amiga Felicia (Amanda Crew), já experiente, ele monta um esquema com uma garota que mora numa outra cidade, via chat, a promessa de uma primeira vez com o tipo de menina boneca-inflável que aparenta ser a norma de beleza e atitude nos EUA.

Ian convida Felicia e Lance (Clark Duke), seu outro bom amigo, para irem de carro em direção ao encontro que irá resolver seu atraso. A viagem fica a umas 12 horas de carro e tudo vira um road movie depois que Ian rouba o Dodge anos 70 do irmão mais velho, troglodita que espera sair do armário.

Ian, Lance, um tipo intelectual cínico com sucesso entre as meninas, e Felicia se metem nas proverbiais ‘maiores confusões’, com direito a uma parada numa comunidade Amish que revela-se competente em festas e bebedeira, além de problemas no carro do possesso irmão, que os persegue.

É tudo meio cru e grosso, mas não sem alguma graça, como se os responsáveis estivessem a serviço de uma lezêra mas conseguissem incluir algumas verdades que presenciaram em algum lugar. Numa cena, por exemplo, Ian leva um fora de uma garota, numa festa, sua cara no chão observada por um outro convidado que sorri e diz “dureza, né?”.

Aspecto ainda mais positivo do que nos filmes de Apatow é a idéia de que o sexo existe e pode ser praticado pelos personagens principais, sem culpas ou moralismos, especialmente se as pessoas forem do bem. Para completar, a equação obrigatória nesse tipo de coisa – sexo = constrangimento – relativamente baixa, desta vez.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, Março 2009

Sunday, March 8, 2009

"Com Licença, 'Tá Faltando Vermelho..."


Durante mais de 100 anos, cinéfilos se levantaram da cadeira para ir reclamar os mesmos problemas clássicos de projeção. Continuaremos nos levantando, mesmo que para reclamar de um outro conjunto de falhas, algumas inéditas.

Passamos atualmente por uma fase revolucionária repleta de ceticismo, onde a indústria se reequipa, aos poucos abandonando o 35mm e adotando novas, teimosas e novatas tecnologias digitais de imagem e som. O 3D é o atual queridinho, fonte de riquezas para exibidores que nele investem, diferencial de exploração comercial de um novo mundo de filmes projetados para uma nova geração que reage com interesse.

No Recife, a sala 3D do Box já mostra uma nova geração não apenas de imagem e som, mas também de problemas técnicos que antes não tínhamos. A imagem não está fora de foco ou desenquadrada, problemas tradicionais, mas é o vermelho que desapareceu da tela.

Algum desajuste numérico está privando o público já há seis meses (desde a abertura da sala com U2-3D) da cor escarlate. Obviamente, isso gerou uma cena surreal protagonizada por mim, que, ao final da sessão de Coraline, fui avisar a um lanterninha (e tentando não rir) que "vocês estão sem vermelho na sala 3D".

Me pergunto como ficará na tela, essa semana, e caso o problema persista, o My Bloody Valentine, slasher filme com (imagino), sangue. K.M.F

'Watchmen' e as Imagens Americanas



Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Durante Watchmen (EUA, 2009), filme de Zack Snyder, eu me vi cada vez mais imerso nesse sofisticado super-camp, e foi batendo uma preocupação prazerosa em relação às expectativas de custo e benefício para com a Warner e a Paramount, que bancaram a coisa por 125 milhões de dólares. Caríssimo, incomum e provavelmente autoral, suspeito que seja uma das cine-interpretações mais interessantes do mundo dos quadrinhos e dos super-heróis, num mercado que parece sustentar-se já há alguns anos de produtos do gênero. Observador distanciado desse tipo de universo (minha formação em HQs é praticamente nula), o filme me pegou de uma maneira insuspeita.

Me atrai muito em Watchmen os procedimentos diferentes tomados, num filme de mercado que normalmente opera em outros registros. Talvez tenha sido isso que me fez vê-lo como uma sessão e tanto, e rara demonstração de compactação de idéias e informações específicas. O filme não parece ter a preocupação de avançar rapidamente em direção à próxima cena de ação, e ação talvez seja o elemento mais medíocre do todo.

Mesmo apostando num tom explicitamente violento, Snyder trata sua decupagem e uso de sangue e ferimentos profundos como uma versão extra forte do tipo de estética que Hollywood já nos deu tantas vezes, com a diferença notável que esse teor tão surrado é quase sempre a diretriz comercial (e, finalmente, estética) PG-13. Em geral, há uma sensação de já termos visto mais e melhor em Paul Verhoeven (Robocop, Total Recall), ou mesmo no trio de Matrixes.

Embora a ação filmada de Snyder nunca deixe de roubar o seu olhar, lhe deixando com uma careta de agonia e prazer, creio que as energias desse realizador foram investidas em outras áreas, e o efeito geral é superior às partes isoladas. Poucas vezes um filme consegue estabelecer um projeto paralelo de mundo tão rico e cheio de portas, janelas e saídas de emergência como esse, trazendo o universo originalmente apresentado para uma tradução coerente.

Os 20 e poucos anos que separam a publicação de Watchmen (1986-87), livro de Dave Gibbons e Alan Moore, e sua versão filmada viram praticamente tudo o que foi possível mostrar, filmar e adaptar dentro do conceito de histórias em quadrinho. O filme corria, inclusive, o risco de soar datado ou redundante, a adaptação morgada para o cinema de um livro essencial de um passado distante.

A questão primordial aqui é que o cinema de entretenimento preferiu evitar precisamente o estilo e abrangência do tipo de material que Watchmen, livro e filme, abordam. Fica a sensação de que Snyder parece ter conseguido fechar um ciclo que o livro abriu nos dando uma visão completa desse universo. Dentro desse círculo, toda uma cultura pop e comercial de dezenas de personagens de HQs que ganham indiretamente agora uma expansão formidável.

O valor do filme é grande o suficiente para que sejamos lembrados que Watchmen, o livro, foi a obra seminal no gênero capaz de sacudir conceitos que vinham sendo repetidos com alegria desde os anos 30 nos quadrinhos, cinema e TV, dentro de uma idéia de ‘super-herói’.

O que mais poderá chamar a atenção de alguns, no entanto, é a capacidade cada vez mais sofisticada que temos hoje de produzir e consumir cópias, e digo isso ao me sentir estimulado a elogiar o filme e saber, que na verdade, algumas das suas principais qualidades vêm da obra original, pensada por Moore e desenhada por Gibbons. Obviamente por estarmos falando de cinema, há uma enorme carga de energia no filme em si, e vai aqui uma admiração por Snyder e sua aparente falta de medo de dar esse tipo de vida às suas imagens projetadas.

‘Camp’ é tanto um termo pejorativo como uma possível fuga estética, e acertar a mistura não é fácil. A linha que divide o camp do mau gosto vazio (Batman Eternamente, Batman e Robin, para citar dois), de um outro camp melhor cujo apelo revela valores enraizados na ironia da própria cultura é das mais tênues. Ao que parece, Snyder fez uma curiosa anomalia que praticamente põe em revista os últimos 30 anos de "superhero movies" ou "comic book movies", e o faz com a seriedade relaxada de quem filma com misto de respeito com uma pitada de sal.

Snyder, cineasta jovem, parece preencher os pré-requisitos de um menino da indústria moderna, remixando fiel e energicamente obras originais. Esse diretor de 43 anos realizou o bom Madrugada dos Mortos (2004), a partir de um filme original de George Romero (Dawn of the Dead, 1978), e o carnaval histérico que eu não consegui entrar 300 (2007), a partir da graphic novel de Frank Miller.

Ele aparenta ser adepto de uma postura claramente lunática como tradutor de algo que já existia, da primeira à última cena, ciente de que o mundo que propõe existe por si só nas possibilidades infinitas dos grafismos originais e do próprio cinema. Esse desprendimento é um fator positivo e já existia no livro original, que sempre funcionou como uma espécie de última palavra dentro desse tipo de universo.

Esse desprendimento sozinho não seria suficiente, creio, pois se assim fosse minha reação a 300 seria tão positiva quanto. A união de uma visão de cinema (que 300 tem, aliás, mas que me deixa dormente e vazio) a uma base forte de identidade cultural (que eu não percebi em 300) parece funcionar muito bem em Watchmen. É a capacidade que a arte tem de nos apresentar caricaturas precisas de uma cultura, e nesse sentido os Estados Unidos e a sua cultura e história recentes surgem como o eixo desse filme, e do livro original.

Nesse sentido, algo aqui me lembrou (para citar um), o muito divertido Homem de Ferro, com as ligações belicistas do nosso herói Tony Stark. De qualquer forma, Iron Man não parece ultrapassar os limites de uma premissa inteligente, mais preocupado em simplesmente oferecer diversão e ação num filme perfeitamente leve (nada contra).

Em Watchmen, a coisa é mais radical. Essa idéia da caricatura de uma cultura é anunciada já na sequência de créditos ao som de Bob Dylan (The Times Are A-Changin'), um panorama incrível de imagens americanas que parece bater bem com as sensibilidades já existentes no próprio Snyder, vide o início (opening criedits) de Madrugada dos Mortos ao som de Johnny Cash (The Man Comes Around).



As montagens de Snyder com Cash e Dylan, em filmes tão díspares, trabalham com o arquivo vivo de um imaginário, signos cheios de história e sugestões para o presente (o nosso e o proposto). Contextualizam cenas de uma história recente como instantâneos expostos numa galeria de arte, que aqui ganha a forma de uma tela larga de cinema.

A imagem de um bombardeiro americano B-29 em pleno vôo, uma revisão fantasma da morte de Kennedy, em Dallas, uma incursão no Vietnã que reprocessa a confusão de imagens reais e/ou fabricadas pelo cinema daquela guerra, uma nova versão para os primeiros passos do homem na lua onde o momento chave é o ponto de vista de uma câmera refletido no visor do capacete de Neil Armstrong. Andy Warhol apresentando mais uma imagem, uma nova obra sua na Factory dos anos 60, todos eventos que ilustram a relação entre real e imaginário através das imagens.

É também esse panorama americano de política e violência em atos que trazem o realismo congelado de uma fotografia de Weegee, mais uma das inúmeras referências para a construção desses quadros que compõem Watchmen, e cujo conceito principal é o de anexar a desconstrução da idéia de superheróis e anexá-los à política interna e externa do governo americano.

Dr, Manhattan (Billy Crudup), Nite Owl II (Patrick Wilson), Ms. Júpiter, (Malin Akerman) Rorschach (Jackie Earle Haley) fazem trabalhos sujos, ajudam a conquistar vitórias militares e confirmar o poderio U.S.A sobre o mundo numa realidade alternativa de 1985, filmado em tons que parecem sugerir um cheio constante de esgoto. Lá ao fundo, mais um signo americano mudo, as Torres do World Trade Center.

Ao juntar essa base perfeitamente distorcida com uma imaginação sem medo de escancarar o absurdo de uma cultura, Watchmen vai se revelando um exercício bem mais abrangente do que o que temos visto no gênero, e onde Os Incríveis (2006), de Brad Bird, seria um possível parceiro distante nesse tipo de visão artística da idéia do super-herói, versão borrada e exagerada do ser humano. Hancock (2008), de Peter Berg, pede para ser citado, mas o filme me interessa mais como tentativa do que resultado.

É engraçado ver Watchmen e lembrar de algo como a adaptação para o cinema de Heavy Metal (1981), colagem perfeitamente absurda cujo espírito parece rondar Snyder em alguns momentos. Aquele panorama de imagens pop, repleto de sonhos eróticos e super space-bitches sugere presença no tom de alguns dos melhores momentos de Watchmen, dos quais eu incluo a já ridicularizada cena de sexo entre Júpiter e Nite Owl II, sem falar na reação de alguns na sala com a nudez frontal do semi-Deus azul Manhattan.

Isso tudo é engraçado pelo fato de o filme ter vindo render, sem dúvida alguma, The Dark Knight, de Chris Nolan, nas expectativas do público e da indústria. O embate entre os dois é natural e, nesse sentido, minhas afeições ficam claramente com o filme de Snyder, que parece tomar um conjunto completamente oposto de procedimentos para filmar um universo fantástico muito específico.

Se em The Dark Night, Nolan aplicou uma crença podre-de-séria "no real", não apenas via narrativa e personagens, mas principalmente no tom daquele tipo de cinema (fotografia, montagem, música e som), em Watchmen estamos claramente dentro de uma bolha de imagens pré-fabricadas, alavancadas por uma inteligência narrativa que mantém o interesse constante, crença consciente no absurdo de uma realidade paralela.

É tão mais difícil investir em algo berrante como Flash Gordon (1980), de Mike Hodges, do que apostar na higiene CDF de um filme de ação com tons e tempos comuns, como os da franquia X-Men, ou mesmo os recentes Batmans, The Dark Knight incluso. Vale ressaltar que os procedimentos de The Dark Knight renderam um bilhão de dólares nas bilheterias, e os de Watchmen, pelo menos na sessão de meia-noite onde o vi, levaram ao abandono da sala de pelo menos dez espectadores, pelo jeito entediados.

Ao olhar para um casal retirando-se com misto de irritação e resignação após a seqüência onde Rorschach já encontra-se na prisão, já era possível afirmar (e, outra vez, achando alguma graça) que o público não foi ver Watchmen, mas foi Watchmen quem os viu. Super.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, Março 2009.

Friday, March 6, 2009

Programação do Cinema da Fundação - Recife

semana 9 | programação de 6 a 12 mar 2009

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Pré-Estréia, Terça-Feira, Dia 10, às 21h30

Antes do filme, será exibida apresentação do diretor.

PALMA DE OURO FESTIVAL DE CANNES 2008

Entre os Muros da Escola

(Entre Les Murs, França, 2008). De Laurent Cantet. O vencedor da Palma de Ouro em Cannes, ano passado, é um registro dramatizado de um ano letivo numa escola do subúrbio de Paris. Um filme sobre alunos e professores, o ponto de vista é, mesmo assim, do jovem professor François Bégaudeau que precisa repensar fórmulas e regras para se adequar aos desafios diários do ensino numa França (e numa Europa) cada vez mais mista, social e culturalmente. Cantet, diretor de A Agenda e Em Direção ao Sul, ambos exibidos no Cinema da Fundação, consegue captar os conflitos internos com naturalidade impressionante. Indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro / Palma de Ouro Cannes.

128 min. / Exibição em Digital / Som 5.1 Dolby Digital / 12 anos. / Inédito

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Estréia

Café dos Maestros
(Cafe de los Maestros, Arg., Bra., EUA, Ing., 2008). Um filme de Miguel Kohan. Com Ubaldo Aquiles De Lio, Aníbal Arias, Ernesto Baffa, Emilio Balcarce, Oscar Berlingieri, Gabriel Chula Clausi, Juan D'Arienzo, Jorge 'El Portugués' da Silva, Emilio De La Peña, Carlos Di Sarli, Virginia Luque, Lagrima Rios.

O tango é um estilo de vida. O Tango pertence à Argentina - e em especial às cidades de Buenos Aires e Rosário, onde a dança é muito mais que um simples eco nostálgico. Muitos dos idosos continuam a praticar - alguns deles o fazem há oitenta anos. Neste documentário, temos o retrato de alguns destes músicos excepcionais, incluindo criadores de repertório clássicos do tango e fundadores de uma variedade de estilos e escolas, bem como os membros das bandas e orquestras que alcançaram a fama nos anos 1940 e 1950, na era dourada do ritmo. Vários protagonistas se tornaram grandes nomes no exterior, enquanto outros restringiram sua atuação ao interior da Argentina. Tela Plana / 90 minutos / som Dolby Digital / Exibição em Digital / Videofilmes / Livre / Inédito



Horários: Sexta : 16h30

Sábado, Quinta: 20h40

Domingo: 16h40, 18h30

Terça : 15h50, 19h40

Quarta : 16h40, 18h30

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PREÇO ÚNICO ESPECIAL – R$ 3,00

sessão especial – Sábado (7 de -março) – 18h50

Um clássico de KING VIDOR

O CAMPEÃO

(The Champ, EUA, 1931),

Com Wallace Beery, Irene Rich, Edward Brophy, Jackie Cooper.
Além da nova obra de Darren Aronofsky, com Mickey Rourke como um lutador aposentado, o Cinema da Fundação oferece a oportunidade de conhecer/rever este filme de King Vidor, seminal no quesito dramático na vida de boxeadores. Apresenta Billy, um ex-campeão de boxe alcoólatra e viciado em jogo, que vive uma relação especial com seu filho. Linda, a mãe do menino, que o abandonou ainda pequeno, reaparece casada com um milionário para tenta reconquistar o garoto. Em 1932, Beery levou o Oscar de Melhor Ator, e Frances Marion, o de melhor roteiro. “O Campeão” ainda concorreu como melhor filme e Vidor foi indicado pela direção. O filme ganhou uma refilmagem de sucesso em 1979, com a direção de Franco Zeffirelli e Jon Voight no papel que foi de Wallace Beery. 87 min. / P7B / 35mm / Plano (1: 1,37) / Mono / Cinemateca do MAM / Livre

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3ª semana e última semana

O Lutador

(The Wrestler), de Darren Aronofsky. Com Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis. No ano de 2000, o Cinema da Fundação disponibilizou pela primeira vez numa sala de cinema do Recife um filme do diretor Darren Aronofsky. Era “Requiem para Um Sonho”, que se tornou um cult imediato, criando fãs do até então jovem diretor norte-americano desconhecido. Nove anos depois, “O Lutador” é o terceiro longa que ele dirige, com o qual vem ganhando atenção da mídia internacional a partir de sua premiere mundial, ocorrida no Festival de Veneza, em agosto de 2008, quando foi eleito o melhor filme daquela mostra. O ator Mickey Rourke, lembrando por vários filmes nos anos 1980, também ganhou as graças da imprensa com seu lutador Robinson. Depois de ter um infarto em uma luta, ele fica sabendo que pode morrer se voltar ao ringue. A partir daí, tenta arrumar um emprego em uma loja de comida e se enturmar com o filho da stripper com quem está morando. Mas surge, então, a proposta para uma luta com o seu maior rival. Indicado a Melhor Ator (Rourke) e Atriz Coadjuvante (Tomei) OSCAR 2008 / Melhor Filme FESTIVAL DE VENEZA 2008 – Tela Larga / Digital / 14 anos / 109 min. / Paris Filmes



Horários: Sexta, domingo, quarta : 20h20

Sábado: 16h40

Ter : 17h30

qui : 16h30



7a. SEMANA e última semana !! 2 mil Espectadores já viram na Fundação
O vencedora do OSCAR 2009 de melhor atriz coadjuvante
PENELOPE CRUZ

UM FILME DE WOODY ALLEN

VICKY CRISTINA BARCELONA

(Espanha/EUA, 2008) De Woody Allen. Com Javier Bardem, Scarlett Johansson, Penélope Cruz, Patricia Clarkson. O Cinema da Fundação apresenta um dos filmes mais bem sucedidos da carreira de Woody Allen. As norte-americanas Vicky e Cristina são grandes amigas em férias em Barcelona, Espanha. Vicky procura ser sensata em relação ao amor e está noiva, enquanto Cristina sempre busca uma nova paixão que possa virar sua cabeça. Ao conhecer o charmoso pintor Juan Antonio, o horizonte amoroso das duas ganha novas dimensões. GLOBO DE OURO Melhor filme (Comédia). Imagem / 12 anos / 98 min / Dolby SR / 35mm

Horários:

sexta-feira: 18h20

quinta-feira : 18h40

O Menino da Porteira




por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Estamos numa semana que viu o recorde de público do período da Retomada ser quebrado com o enorme sucesso de Se Eu Fosse Você 2 (cinco milhões e trezentos mil espectadores, e subindo), de Daniel Filho, posição que pertencia a 2 Filhos de Francisco, de Breno Silveira (2005). É nesse clima festivo que vemos hoje o lançamento de mais um produto nacional de grandes pretensõe$ nas bilheterias, O Menino da Porteira (2009). Dirigido por Jeremias Moreira com realização industrial sã como veículo para o cantor Daniel, suspeita-se que o filme fique entre o Brasil litorâneo/urbano e o Brasil do interior/rural, podendo surpreender num mercado aquecido.

É uma refilmagem de O Menino da Porteira, dirigido pelo mesmo Moreira, lançado em 1976, com Sérgio Reis no papel que é agora de Daniel, um dos produtores. Os responsáveis têm falado que foi exatamente o sucesso de 2 Filhos de Francisco (também lançado pela Sony) que inspirou otimismo no novo projeto.

Ligando os pontinhos, o filme pode sair-se bem com a cama mais do que aquecida para o cinema brasileiro por Se Eu Fosse Você 2 e a presença do cantor Daniel na igualmente brejeira próxima novela das seis, Paraíso, na Globo. Além disso, o filme deverá se tornar uma opção para quem não quiser ver Watchmen nesse final de semana. Se isso vai neutralizar as sensibilidades rurais do filme, exibido para platéias urbanas de multiplex, resta esperar para ver, embora saibamos que essa estética gado é uma realidade no sul e sudeste do país.

Daniel interpreta o herói, Diogo, xerox clássico do caubói Shane, de Os Brutos Também Amam, boiadeiro com berrante, também não muito distante do vaqueiro visto em Austrália, há algumas semanas. Chegando numa região não especificada do interior do Brasil (anos 50) para entregar gado (a locação é o fotogênico interior de São Paulo, terra do astro), o estóico rapaz descobre uma comunidade oprimida por um fazendeiro (José de Abreu, divertindo-se à beça), o vilão, que administra seu monopólio. Bom saber que o principal capanga do latifundiário, primo muito distante de Lee Van Cleef, se veste todo de preto.

Diogo faz várias amizades, uma delas com Rodrigo (João Pedro Carvalho), um garoto que, fascinado pelo mundo dos vaqueiros, passa a abrir a porteira para a boiada, sempre sorridente. Ele é filho de Otacílio (Eucir de Souza), um dos muitos que têm problemas com o fazendeiro. A amizade entre nosso herói e o menino consiste de uma enorme boa vontade do garoto para com a cantoria de Daniel, numa relação que nunca ultrapassa o mero fator fofinho.

Daniel marca a sua presença com dignidade e algum desconforto em frente à câmera. Calado, engana como estóico. Na dúvida, abre um estudado sorriso ou esconde-se atrás do berrante. Até que a oscilação entre silêncio perdido e sorriso estranho o entrega. Sua principal fuga é começar a cantar, viola em punho.

Receitas de bolo para esse tipo de cinema autenticamente simplório também guiam o xamêgo entre ele e a filha do fazendeiro (Vanessa Giácomo), a cena em que vêem-se pela primeira vez mancharia a reputação de uma novela das seis, que já é o folhetim mais sem reputação da televisão.

Desdobramentos nos levam ao bangue bangue geral e total rumo ao final, com uma seqüência de estouro da boiada relativamente bem feita, e a uma virada curiosa na história que estabelece o melodrama que poderá dar respeito narrativo ao filme junto às platéias. Lágrimas são sempre benvindas, por mais mecânicas que sejam.

Me impressiona no cine brasileiro de pretensões populares (vide Daniel Filho e seu sucesso) que o produto final deva ser acima de tudo essa coisa cada vez mais genérica que é o conceito de algo "bem produzido", ou "bem acabado". O Menino da Porteira, de fato, tem imagem segura (Pedro Farkas, fotógrafo), reconstituição de época correta (Adrian Cooper) e decupagem que não sugere falta de planos.

De qualquer forma, não deixa de sugerir que essa busca por um padrão brasileiro alto não se mostra nada além do básico mínimo para o padrão internacional. Como filme e narrativa, continua almejando muito embaixo, mantendo-se rasteiro o suficiente para que qualquer vestígio de inteligência ou marca pessoal inexista no todo. Suspeita-se que se alguém, durante o processo, de produção, trouxe algum lampejo que faria a diferença, o mesmo teria sido sumariamente demitido aos gritos, sob o medo de as idéias levarem a uma perda dos milhões que exigem o simples, e só são alimentados de broa simplória. Até quando esse modelo será a norma?

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, Março 2009

O Café dos Maestros


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O cinema parece ter uma fixação natural com aqueles que já foram, que hoje parecem descartados através da velhice, mas que voltam pelo menos mais uma vez para mostrar o que são. O último Rambo, com um Sylvester Stallone aos 62 anos, mostrou isso, ano passado, O Lutador, com um Mickey Rourke voltando à tona em pessoa - e via personagem - fez o mesmo tipo de coisa, e agora temos um desdobramento do tema no documentário sobre o tango, Café dos Maestros (Café de los Maestros, Argentina, 2008), filme de Miguel Kohan.

Esse registro, na verdade, não oferece nada de novo no cenário de documentários do tipo, e é muito fácil e tecnicamente correto afirmar que temos aqui mais uma mutação da fórmula bem executada em Buena Vista Social Club, de Wim Wenders, onde um grupo de músicos cubanos se reunia para um grande show com ares de ‘último’ para mostrar o que eles foram na juventude. O sucesso do filme de Wenders, na verdade, marcou o rejuvenescimento das carreiras desses músicos, na época nos seus 70 e 80 anos, e depois do filme correram o mundo, vendendo milhões de Cds e tocando ao vivo para milhares.

Essa fórmula repete-se aqui, da mesma forma que repetiu-se em O Mistério do Samba, de Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor, onde uma Marisa Monte pesquisadora reunia a velha guarda da Portela para uma orgia final de música multi-geracional. Durante a sessão desse filme argentino, bate um certo dissabor ao acompanharmos procedimentos tão demarcados.

A narrativa fragmentada nos apresenta senhores e senhoras que fatalmente irão lembrar com nostalgia do passado – “aquele tempo era tão bom”, “Buenos Aires não é mais a mesma” -, seus passados resgatados rapidamente em imagens e gravações de arquivo, os homens particularmente saudosos das mulheres que tiveram “naquela época”.

De qualquer forma, a imagem de rostos maduros sempre me chama a atenção e me enche de interesse. Mais do que adequado que na parede de um café, destaque-se a frase “Alguns Fazem Aniversário, Outros Acumulam Juventude”. Talvez por isso que o filme frustre tanto na sua incapacidade de contextualizar o tango historicamente, de nos ensinar, mesmo que superficialmente, sobre suas diferentes raízes e estilos, sem falar na tensão social e sexual que ele sempre desperou 70 ou 80 anos atrás.

O que importa é a estrutura de "reunião", e todos irão ensaiar e trabalhar juntos rumo a uma grande apresentação no Teatro Colon, função forçosamente emocionante onde um grupo de artistas outonais irão mostrar o quanto valem. Produzido por Walter Salles e Gustavo Santaolalla (que ganhou Oscar por Diários de Motocicleta, de Salles), Café dos Maestros poderia ser bem melhor, especialmente na sua recusa de efetivamente mostrar não apenas o tango musica, mas o tango em seus movimentos.

De qualquer forma, o lado sempre positivo desse tipo de projeto, por mais comercial que possa parecer, é que há sempre a oportunidade para o espectador de relaxar na poltrona e ouvir a música com todos os benefícios que o bem calibrado som digital de cinema é capaz de proporcionar, o que geralmente leva a um interessante transe.

Filme visto no Cinema da Fundação, Recife, Março 2009

Saturday, February 28, 2009

Pride and Glory (Força Policial)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O cinema americano é pródigo em filmar castas masculinas, irmandades que operam juntas dentro dos seus códigos internos e regras sociais conhecidas. De fuzileiros a bombeiros, de esquadrões de elite a policiais, Hollywood adora filmá-los dando ênfase na retidão moral heróica que sobrepõe-se a eventuais desvios de conduta. Esse é o caso de Força Policial (2009), filme de Gavin O’Connor, thriller levemente acima da média com Edward Norton e Colin Farrell.

O título original – Pride and Glory (Orgulho e Glória) – é pinçado diretamente do distintivo da polícia de Nova York, da mesma maneira que “We Own the Night” também consta no uniforme de uma outra casta policial nova-iorquina em Os Donos da Noite (2007), filme de James Gray que teve a sorte de vir antes desse aqui, e de ser melhor.

As semelhanças entre os dois filmes existem no elemento “família”. Temos duas gerações de policiais, aqui pai, filhos, primos e cunhadas. Jon Voight é o patriarca, Edward Norton é o filho dele, um investigador que recupera-se de um trauma, saindo aos poucos de um serviço burocrático auto-imposto, e também do seu casamento.

O policial de Farrell, casado e com filho, é um primo que está metido num esquema sem futuro que envolve a extorsão brutal dos piores traficantes da área e uso generalizado de violência para obter respostas (ele ameaça queimar um bebê com um ferro de passar roupa, à certa altura).

Ele trabalha na divisão chefiada pelo irmão do personagem de Norton (Noah Emmerich), tipo do bem que tenta administrar as frutas podres da sua cesta e ainda lidar com a doença terminal da sua esposa. É aquele tipo de filme que tenta investir no elemento humano, escola Michael Mann ou o já citado James Gray, dando ao tom geral de thriller de ação algo mais substancial. Curiosamente, são os dois irmãos de Norton e Emmerich que mais se destacam, deixando boas impressões.

Para o espectador brasileiro, esse tipo de ação policial tem a credibilidade (vide Tropa de Elite) que, para alguns, pode soar um tanto extrema em relação à polícia de Nova York, em tempos atuais. Numa cena, em especial, quatro policiais da banda podre põem fogo numa vítima do esquema dentro de um carro a plena vista de toda a cidade e ponte do Brooklyn ao fundo, e de alguma forma, a execução a pneu queimado em Tropa de Elite (em plena vista da cidade do Rio de Janeiro) soa bem ais crível.

Mesmo assim, O’Connor filma ao nível da rua e com uma urgência que sempre prende a atenção, em especial pelo fato de o personagem de Norton estar à frente da investigação que revela, pouco a pouco, o mau cheio da corrupção não só na polícia, mas dentro da sua própria família.

Sabe-se que Força Policial teve sua produção adiada no início da década depois dos ataques do 11 de setembro, uma vez que o clima geral de gratidão da cidade de Nova York para com a sua força policial não combinaria com a trama sombria do filme. O filme ainda teve o azar de ficar quase três anos nas prateleiras da New Line em momento de transição (foi comprada pelo grupo Time Warner), pois foi rodado em 2006, provavelmente simultâneo ao filme de Gray. Tem qualidades.

PS: porquê os filmes atuais são sempre tão escuros?

Filme visto no UCI Ribeiro Boa Viagem, Recife, Fevereiro 2009

Monday, February 23, 2009

Oscar Sarau



Sarau em casa vendo mais uma cerimônia de entrega do Oscar. "Isso é Joacquin Phoenix?"

Por Kleber Mendonça Filho
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A cerimônia do Oscar é sempre uma proposta interessante, com inevitáveis barrigas no meio que afundam o todo, levantando o interesse no final com os prêmios principais.

Esse ano, tentaram transformar a coisa num esquema sarau na grande sala de estar de Hollywood, apresentadores e ganhadores numa relação de proximidade semelhante à de um show de banquinho e violão, diferente da distância tradicional entre púlpito e platéia. Um plano de câmera de trás e de cima achatava tudo e mostrava bem essa proximidade.

A valorização do ator (ou do astro, não sei) foi sublinhada esse ano com as quatro categorias ganhando quatro ou cinco vencedores respeitados do passado aparecendo como juízes do Planeta Krypton para julgar cada novo indicado com pequenas e certeiras criticas sobre o trabalho de cada um. Eu senti um clima meio American Idol nas falas, que oscilavam entre o paternal/maternal (Anne Hathaway sendo elogiada por Shirley MacLaine soou como uma adorável netinha sob os olhos experiente sda sua severa avó). De qualquer forma, coisas bonitas saíram daí, no geral.

A presença de Milk no páreo rendeu alguns momentos que, imagino, devem ter batido forte entre telespectadores conservadores em toda a área continental dos EUA. Duas vezes a cena de beijo entre Sean Penn e James Franco foi mostrada, e os discursos carregados de “liberte-se” e tolerância também foram bons e fortes, mensagem dada.

Hugh Jackman, super competente, sumiu durante um tempo, voltando rumo ao final. Estranhamente, sua competência passa agora como a competência de um bem calibrado puppet, sem nenhuma personalidade em especial, certamente sem a aura de comentarista de Jon Stewart. Mas, Jackman foi tranqüilo e parecia estar gostando.

Vão aqui umas anotações feitas durante, pequenos momentos, algumas piadas ditas, observações de caderno.

Hugh Jackman vai fazer NOVA ZELÂNDIA por causa da crise.
O caba até que é bom.
I haven’t seen The Reader. (eu também).
“I am a slumdog, I am a wrestler, I am Wolverine”. O caba dança, olha só.
Jackman engraçado, homenagem a Streep (15 indicações).
Homenagens bonitas a cada atriz e performance. Eva Marie Saint, Oscar de Coadjuvante por ON THE WATER FRONT, e alluminus de Hitchcock, uma das quatro no palco (Anjelica Houston, Tilda Switon, Goldie Hawn as outras). Homenagem à performance de Penélope Cruz simpática. Bonito texto sobre papel de Tarah GB Henson em O Curioso Caso de Benjamin Button.

PENELOPE CRUZ por Vicky Cristina Barcelona
Melhor Atriz Coadjuvante

Ela lembrou de coração Almodóvar, Bigas Luna e Fernando Trueba. Bacana.
5 minutos só para Atriz Coadjuvante, duração recorde?

Sketch de roteiro engraçada, Tina Fey e Steve Martin, “escrever é viver para sempre”, “o homem que escreveu isso já morreu”.

MILK Dustin Lance Black, discurso emocionado sobre a possibilidade de ser gay livremente. Uau, TVs sendo desligadas em Biloxi, Mississipi.

SLUMDOG MILLIONAIRE, Simon Beaufoy, Roteiro Adaptado. Hmm.

Jefrey Katzemberg (chefão da Dreamworks Animation, câmera claramente escrota) tentando rir com a piada de Jack Black sobre ganhar grana com animação. “Eu faturo com a Dreamworks (Black fez Kung Fu Panda) e aposto nos Oscars da Pixar (Wall-e)”.

Melhor animação, WALL-e.
Andrew Stanton agradece a Steve Jobs (Apple) e John Lasseter por criar um oásis criativo, a Pixar.

La MAISON EN PETITS CUBES (achei que seria Presto)
O japonês sabia pronunciar SÂNKIÚ.

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON Direção de Arte. Ok e tal.

A DUQUESA, Figurinos. Hm.

Maquiagem. O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON. Amigo meu diz que Button começa como Zagalo. Hm, ok.

Menina de Mamma Mia e caba de Twilight lendo de cartolinas. Thunderbirds are Go!

Natalie Portman com problemas ao lado de Joacquin Phoenix (eu acho que é ele), que considera fotografia como nova carreira. “Soube que Slumdog foi feito com uma câmera de celular”. Acho que ele confundiu, foi feito para ver em celular!

Anthony Dod Mantle, fotografia SLUMDOG MILLIONAIRE. O filme não é todo em digital, mas muita coisa foi feita em digital. Perfeito prêmio de transição, em 2008, para fotografo que sempre trabalhou com o digital (Dogville, Manderlay).

CURTA (eu previ. O curta de Holocausto!) TOYLAND (Spielzeugland).

Jackman outra vez com numero musical, “Mamma Mia vendeu mais ingressos do que Titanic na Inglaterra”, menina simpática de vermelho. West Side Story, Grease, Noviça Rebelde, Moulin Rouge, Evita, Mamma Mia. Er... a simpática era Beyonce Knowles.

Christopher Walken, caba bom. Cuba Gooding Jr, Alan Arkin, Kevin Kline.
Heath Ledger.

ATOR COADJUVANTE Heath Ledeger.
Família de Ledger foi pegar o prêmio, “em nome da linda Mathilda”.

Imagem bizarra do Oscar, Werner Herzog refletindo sobre a verdade da imagem na cerimônia do Oscar no ano de 2009. Valeu Werner. (que estava no recinto, ansioso como um curta metragista).

MAN ON WIRE Documentário. Philipe Petit me confirmando que ele simplesmente não existe.

Smile Pinki, DOCUMENTÁRIO CURTA

EFEITOS VISUAIS, Benjamin Button Curioso (antecedido por montagem enxaquêca de filmes de ação).

MONTAGEM DE SOM The Dark Knight

MIXAGEM DE SOM Slumdog Millionaire.

MONTAGEM Slumdog Millionaire

Prêmio para Jerry Lewis foi transformado num prêmio humanitário, o Jerry Lewis que conhecemos estranhamente omitido. Se a idéia do prémio é essa, vergonha, então. O quê agora? Brian de Palma reconhecido pelo seu trabalho com cerâmica de barro reciclável?

Hugh Jackman curiosamente sumido da cerimônia.
Ok. Jackman voltou pra apresentar Trilhas.

TRILHA ORIGINAL Slumdog Millionaire A.R. Rahman
Rahman acaba de ganhar e já está no palco interpretando as músicas às quais concorre.

MÚSICA ORIGINAL “Jay Ho” A.R. Rahman. “Minha vida inteira tive a chance de escolher entre amor e ódio, escolhi sempre o amor, e estou aqui”, bom letrista populista.

FILME ESTRANGEIRO -- ???? --- Departures, do Japão. Os velhinhos da Academia devem ter jogado os DVDs pro alto e o japonês caiu no círculo de giz no chão. Nada de Entre Les Murs ou Waltz With Bashir. O diretor japonês parece ser fã de Terminator, de James Cameron. Por algum motivo oriental estranho, ele finalizou com “I’ll Be Back”.

DIRETOR Danny Boyle, Slumdog Millionaire. Boyle agradeceu Winnie the Poo e ao povo de Mumbai.

Sophia Loren, Marillon Cotillard, Nicole Kidman, Hale Berry, Shirley MacLaine. As cinco chegam e falam para as indicadas como se fossem do júri do American Idol (ou America’s Next Top Model), dando um texto sobre o que fizeram, como fizeram, onde acertaram e sempre terminando com um “obrigado”. O mais simpático foi o ofegante sotaque francês de Cotillard, “thank you”, que gracinha.

MELHOR ATRIZ Kate Winslet (ofegante novamente), melhorando com humor inglês a performance do Globo de Ouro. Pediu para o pai assoviar onde estava (simpático).

Robert de Niro, Michael Douglas, Sir Ben Kingsley, Adrien Brody, Anthony Hopkins.

De Niro sobre Penn: “como ele conseguiu fazer heterossexuais durante tanto tempo?”

MELHOR ATOR – Sean Penn – MILK
“Lei igualitária para todos”. Dedicou prêmio a Rourke.

Montagem de FILME mesclaram MILK com Mel Gibson gritando palavras de ordem em Braveheart, clara cutucada em Gibson homofóbico. Essas coisas que valem a pena ver o Oscar.

FILME Slumdog Millionaire. Essas coisas que fazem a gente não levar o Oscar a sério. Hehehe.

Sunday, February 22, 2009

Man on Wire (O Equilibrista)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Oscars e Razzies têm essa capacidade de te fazer lembrar momentaneamente de imagens vistas ao longo do ano passado, mais até (no meu caso) que numa tentativa de fazer listas em dezembro. Acho que pelo fato de os filmes já chegarem em listas, você olha o título e lembra do mesmo. Um dos que mais me impressionou ao longo do ano foi o Man on Wire, de James Marsh, cotado para ganhar Documentário (a Califórnia Filmes mandou email informando que o filme será lançado em abril no Brasil).

O que mais me impressiona no filme não é o exercícico de cinema em si, mas algo totalmente inerente ao mesmo, seu personagem principal, Philippe Petit. Esse francês me fez repensar totalmente a figura do artista.

Há essa dimensão filosófica para o artista, criador e 'performer', e na maneira que nós observadores nos relacionamos com ele/ela. Normalmente, a recepção da criação é muito associada à decodificação de signos e de toda uma bagagem cultural, emocional e intelectual que nos leva à valorização da arte.

No entanto, há pouquíssimos casos onde a criação específica de um determinado artista é tão espetacular em termos de conceito, realização, provocação e acabamento que o efeito da sua arte parece fazer ligação direta entre o olhar e o estômago, deixando que o cérebro e a alma se dêem conta da riqueza do todo tempos depois, ainda assim gerando enorme prazer intelectual.

Petit é um desses raros criadores.

Saturday, February 21, 2009

Saíram os Razzies


(Brosnan)"I don't know how to fucking sing and I look stupid"



Todo ano é essa lezêra bacana, checar o que os razzies escolheram para detonar. Em geral, se atém religiosamente ao que acreditam ser a escória artística de Hollywood, e isso significa muitas vezes espancar cachorro morto.

Mas vez por outra, acertam em cheio, e os resultados são sóbrios, com um fator "zero bulshit" marcante. Esse ano, dois prêmios me interessaram, e batem com aquele frio na espinha que você sentiu na poltrona do cinema num determinado momento de um filme, meses antes:

Pierce Brosnam em Mamma Mia, nossa senhora.

Indiana Jones e o Reino do... n lembro o nome. Talvez existam, cientificamente falando, coisas piores na categoria, mas a provocação cai bem em Spielberg e Lucas, que nos deram essa coisa pré-moldada brilhantemente ilustrada por eles mesmos na primeira cena, onde a (antigamente) majestosa montanha da Paramount vira um montinho de areia. K.M.F

PS: alguém viu LOVE GURU? Eu não.

http://www.razzies.com/

Pior Filme

The Love Guru

(A Paramount Release)

Pior Ator

Mike Myers

The Love Guru

Pior Atriz

Paris Hilton

THE HOTTIE AND THE NOTTIE

Pior Atriz Coadjuvante

Paris Hilton

REPO: THE GENETIC OPERA

Pior Ator Coadjuvante

Pierce Brosnan

MAMMA MIA!

Pior Casal

Paris Hilton

e também

Christine Lakin

ou

Joel David Moore

THE HOTTIE AND THE NOTTIE

Pior Prequel,Remake, Franquia ou Sequel

Indiana Jones and The Kingdom of The Crystal Skull

Pior Diretor

Uwe Boll

1968: Tunnel Rats,
In The Name of The King: A Dungeon Siege Tale,
e Postal

Pior Roteiro

The Love Guru

por Mike Myers & Graham Gordy

Pior Avanço de Carreira

Uwe Boll

(a resposta alemã a Ed Wood)