Vencedor da Caméra d'Or em 2006 por Ao Leste de Bucareste, o realizador romeno apresenta esse ano no Un Certain Regard o excelence Police, Adjective.
Saturday, May 16, 2009
Kinatay - A Carne no Terceiro Mundo

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Saí agora da primeira experiência em descarrego de energia em Cannes 2009, fator típico desse festival. A semana ainda será longa, mas Kinatay, de Brillante Mendoza, terá lugar cativo nas discussões ao longo dos próximos dias, com os detratores de sempre acusando-o de "o mundo é uma merda e tome merda" e os defensores que terão que rebolar muito para defendê-lo. Eu já tenho um ponto de vista bem claro, já a partir do sobe créditos.
É claramente um filme de horror, não tanto da escola escancarada que a indústria hollywoodiana filma e embala para consumo geral (Hostels, Saws e outras patifarias), onde a idéia de mutilação e morte é apresentada meramente como uma imagem dissociada de humanidade, ou, talvez a humanidade do voyeurismo pura e simples. Em Kinatay, temos uma crônica passo a passo de uma morte, e essa crônica vem acompanhada de uma bússola moral forte.
A exemplo de Serbis, exibido ano passado, Kinatay tem um 'feel' terceiro mundo que me parece bem autêntico, e sendo brasileiro, essa identidade é muito facilmente identificável, especialmente na identidade sonora, aspecto que Mendoza parece adorar trabalhar. As suas cenas de rua têm aquela massa sonora terceiro mundo que conhecemos tão bem, todos os canais do Dolby carregados de ônibus e caminhões pesados, aquela sensação de ruído fora de controle que ouvimos no Largo de Pinheiros, em São Paulo, ou na Avenida Brasil, no Rio, ou na Conde da Boa Vista, no Recife.
Diferente de Serbis, um filme, de certa forma, alegre e ensolarado ao nos mostrar aquele cinema e aquela família, Kinatay é escuro, úmido e miserável. Mendoza filma cru, sombrio e malvado, mas nunca sem perder o ponto de vista moral e humano. Acrescenta na mixagem aquele ruído de mal estar comum no gênero thriller, a sonoridade que acredito existir dentro do intestino de uma baleia, a caverna do mal estar.
Nosso representante no filme é um jovem aspirante a policial, pai de um bebê e casado com uma garota delicada. As cenas de abertura nos levam a crer que veremos um filme diferente, sua relação com a família terna e ajustada.
Para completar o dinheiro da feira, ele é chamado para participar de um trabalho especial pelo seu amigo mais velho, também policial, e que trabalha para uma gangue local. Ao longo da noite, nosso personagem entende que a missão envolve dar uma lição numa prostituta que teria pisado na bola com seus patrões. Ela será espancada, estuprada de maneira particularmente degradante, assassinada com facas e facões, mutilada e seus pedaços espalhados pela cidade, material para mais uma jornada do jornalismo policial local.
No meio do açougue que ele nos apresenta, há um agente da sanidade com tentativa de ver tudo com algum reservatório de delicadeza na figura do rapaz, que prepara-se para assumir a nova geração de lei e ordem desta sociedade, comentário tão forte quanto a necessidade que os membros da gangue, açougueiros temporários, têm de, findo o job, parar para comer carne. Eles precisam acreditar que tudo aquilo não foi nada de realmente importante, embora saibam exatamente o que fizeram.
Questões de gênero me parecem bem certeiras no filme, em especial na questão do corpo da mulher, objeto (sexual) despedaçado, uma boneca de carne desmontada numa longa sequência de dor. É foda, mas tão real, e Kinatay revela-se o verdadeiro filme de gênero (horror) possível, genuinamente, no terceiro mundo.
Filme visto no Debussy, Cannes, 16 de maio 2009
Mais de 10 Minutos de Ovação Para Audiard

+ de 10 minutos de uma ovação impressionante para Le Prophète, de Jacques Audiard, agora, via transmissão ao vivo do final da sessão nos monitores da sala de imprensa. Eu não sei, o filme é bem competente, mas algo nele pega a alma francesa de maneira que não pega os estrangeiros, e Le Prophète tem encantado a platéia nacional, é o primeiro hit de Cannes.
Scorsese apresenta The Red Shoes
Martin Scorsese apresentou ontem na sala Debussy a cópia restaurada de The Red Shoes (Os Sapatinhos Vermelhos), de Michael Powell e Emeric Pressburger. “Esse é o filme que é projetado no meu coração”, disse o diretor de Táxi Driver, Palma de Ouro em 1976, notório defensor do filme. Scorsese interrompeu os trabalhos de montagem de Shutter Island, seu próximo filme com Leonardo DiCaprio, para acompanhar a exibição em Cannes ao lado de sua montadora Thelma Schoonmaker, que foi casada com Michael Powell até o seu falecimento, em 1990.
Estavam presentes na sessão varios cineastas e atores (James Gray, Ang Lee, Tilda Swinton, Rosanna Arquette...), assim como parentes dos realizadores do filme (o filho de Michael Powell, o neto de Emeric Pressburger, a filha e a neta de Moira Shearer...) apresentados por Thelma Schoonmaker.
Martin Scorsese lembrou emocionado da primeira vez que ele viu o filme no cinema, quando tinha oito anos, e dedicou a sessão a Jack Cardiff, o diretor de fotofrafia do filme, falhecido recentemente.
Estavam presentes na sessão varios cineastas e atores (James Gray, Ang Lee, Tilda Swinton, Rosanna Arquette...), assim como parentes dos realizadores do filme (o filho de Michael Powell, o neto de Emeric Pressburger, a filha e a neta de Moira Shearer...) apresentados por Thelma Schoonmaker.
Martin Scorsese lembrou emocionado da primeira vez que ele viu o filme no cinema, quando tinha oito anos, e dedicou a sessão a Jack Cardiff, o diretor de fotofrafia do filme, falhecido recentemente.
2 Flashes

Rapidinho, vou pro 5o filme do dia.
Le Prophéte (França, 2009, Competição), de Jacques Audiard (De Tanto Bater Meu Coração Parou) foi recebido com gritos de bravo e quase ovação na sessão de imprensa, hoje de manhã. Eu achei o filme uma poltrona e tanto com duas horas e meia, mas, de qualquer forma, interessante, bem feito, bem atuado, mas nada de absolutamente novo a acrescentar à vasta galeria de crônicas do crime onde um pequeno criminoso alcança o PhD do submundo dentro da prisão. Audiard não esconde sua paixão francesa pelo cinema americano clássico, e o resultado é uma competência déjá vu que faz as honras da casa.
Mother (Coréia do Sul, 2009, Un Certain Regard), de Joon-ho Bong, mais uma jóia coreana, desta vez do diretor de Memories of Murder e The Host. A mãe coragem que tenta descobrir o verdadeiro assassino de uma colegial para provar que seu filho mentalmente incapacitado é inocente parece ganhar tratamento oposto ao que qualquer interpretação mundana da sinopse nos levaria a crer que veríamos. Esses coreanos filmam grande, com detalhes maravilhosos, as dores não são sopradas e ainda terminam o filme com um desfecho lindo, aliás, o mais belo final de Cannes até agora.
Friday, May 15, 2009
Thirst (Competição)

Só os sul coreanos para nos oferecer algo do tipo
por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Com uns dez minutos de projeção do filme sul coreano Thirst, eu comecei a sentir uma alegria de saber que, com eles (os sul coreanos), você pode contar, sempre. Não há outra filmografia que ofereça filmes tão desinibidos em questões narrativas, choques de imagem e idéias loucas, a proverbial "kitchen sink" que os americanos chamam (a pia da cozinha, jogada na fogueira se preciso), flertando ainda com o 'fantastique'. Esses filmes coreanos parecem algum tipo de "evil twin", o irmão malvado do que Hollywood faz, sem amarras ou medo de ofender.
Thirst (Bak-Kwi) se passa no mundo fantástico, com o tipo de desprendimento que nós aprendemos a esperar do cinema coreano, a cinematografia que melhor transforma gêneros normalmente tidos como hollywoodianos em escritas próprias, em muitos aspectos melhorando o tipo de coisa que normalmente vemos. Nesse caso, o gênero “vampiro” ganha uma roupa nova toda bordada com detalhes impossíveis. Ela vem também toda melada de sangue.
Thirst é o segundo filme de vampiro em um ano a nos dar algo de novo nesse tipo de narrativa marcada por seres humanos que precisam se alimentar de sangue humano, que são alérgicos à luz solar sob o risco de virarem cinza e ainda donos de novos super poderes físicos.
Como no excelente filme sueco Let The Right One In (2008, ainda inédito no Brasil, ver texto no blog), Park Chan Wook parece estar em casa com uma história calculadamente provocadora. Seu personagem principal é um padre católico (coreano), interpretado por Kang-ho Song, que fez The Host. Ele doa-se para uma pesquisa científica na África como um São Francisco de Assis moderno lidando com uma nova lepra, volta de viagem com um diagnóstico bem claro de vampirismo.
Os sintomas são enorme força física e vigor sexual, a segunda aquisição incompatível com a batina, algo que deverá fazer do filme algo de controvertido nos círculos católicos. Na Coréia do Sul, onde Thirst já foi lançado, dois milhões de sul coreanos viram o filme, que foi produzido com dinheiro da Universal americana. Imaginar que uma doidera dessa é um blockbuster no seu país de origem não apenas me causa admiração, mas também me inspira algum medo.
Park Chan Wook, dono de um humor terrível, e lançando mão de todos os efeitos especiais que a sua imaginação põe para excelente uso, cria um senso constante de demência que desconcerta a platéia durante toda a projeção, alguns, inclusive, preferem bater em retirada. Ele enrola bastante os procedimentos na metade do filme, como se à procura de um roteiro, mas a parte final iguala, felizmente, a ferocidade da primeira metade, e fica uma sensação de satisfação aliada à idéia de que o que acabamos de ver não é nada normal.
Especialmente forte é a questão da carnalidade, uma vez que nosso padre encontra uma parceira à sua altura e perfil sanguíneo, oferecendo mais uma leitura animadora de Thirst, a da história de amor louco, onde amantes não apenas se beijam e fazem amor, mas se alimentam um do sangue do outro, se chupando com todos os suc-sons que somos capazes de fazer em momentos íntimos.
Também curiosa é a forma como esse padre sensato tenta dominar seus instintos chegando a poupar vidas com seu respeito ao ser humano (é um frequente consumidor de sangue de pacientes em coma via tubos intravenosos). Já a sua fêmea, instigadíssima pela energia sexual do vampirismo, sente enorme prazer em trucidar pobres coitados que encontra pela noite, uma irresponsável, lindamente terrível.
E pensar que Park Chan Wook acha espaço até mesmo para duas misteriosas baleias no seu filme apenas sugere o tipo de tratamento 100% livre de razão e restrições orçamentárias que parecem marcar esses coreanos malucos. Freak out total, com estilo.
Filme visto na Sala Bazin, Cannes, Maio 2009
'Gatos Persas': Cinema 'Nações Unidas' em Cannes

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Cannes às vezes passa a sensação de ser uma espécie de Organização das Nações Unidas do Cinema (ONUC), tribuna para que artistas do mundo ponham para fora questões políticas importantes dos seus países. Isso parece estar à frente do cinema em si, como é o caso de Spring Fever (Febre de Primavera, título internacional, mas que na França chama-se Nuits d’Ivresse Printanière, ou Noites de Embriaguez Primaveril) e Kasi Az Gorbehaye Irani Khabar Nadareh (Gatos Persas). Há um breve exto abaixo sobre Spring Fever.
Os dois foram feitos com câmeras digitais, projetados em digital, e produzidos na surdina, longe dos olhares oficiais da censura que, se soubessem que estavam sendo filmados, não deixariam, tanto na China como no Irã.
Os laços dessa produção chinesa com o filme iraniano são muitos. Gatos Persas também foi feito longe da aprovação oficial e mostra um grupo de jovens rappers, guitarristas, cantores, produtores de musica pop que tentam fazer o que fazem bem baixinho para que ninguém ouça, e que isso não os leve à prisão e às chibatadas. A ironia de músicos pop que querem tocar alto em porões e no campo para que a própria musica não leve à repressão, ao mesmo tempo em que cantam a falta de liberdade e perspectivas é um tema muito interessante.
Gobadi (conhecido no Brasil por Tempo de Embebedar Cavalos) partiu para fazer um filme urbano que poderia se passar no Rio de Janeiro ou em Marseille, excento pelo peculiar clima de repressão linha dura do Irã hoje, aspecto avaliado recentemente em Persépolis, que divide com esse filme pelo menos um incidente envolvendo a morte de um jovem.
Encontrei Gobadi hoje à tarde, ele disse que a maior parte dos atores e não-atores que aparecem no filme já não estão mais no país, e que a situação deles, se lá estivessem, seria difícil. “Eu mesmo não quero mais voltar para o Irã, pois meu país me deprime. Quero me estabelecer em Berlim e criar uma produtora que estimule jovens iranianos que não tem como sed expressar no Irã, músicos, cineastas, escritores”, nos disse.
Essa vontade de mostrar essa juventude faz o filme explodir em clipes efusivos a cada cinco minutos, como se de repente estivéssemos vendo a MTV Irã, e logo suspeitamos que Gatos Persas é um filme desesperado por transmitir uma mensagem.
Blog de Dhália
Heitor Dhália está em Cannes com seu filme À Deriva (Un Certain Regard), e fomos informados que também com um blog, no http://diariodecannes.blog.terra.com.br.
Air Doll
Corneliu Porumboiu
Kang-ho Song, de 'Thirst', de Park Chan Wook
Thursday, May 14, 2009
Tetro (Quinzaine)

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Francis Ford Coppola apresentou hoje em Cannes seu filme mais recente, Tetro, atração de abertura da Quinzena dos Realizadores, que acontece no Hotel Noga Hilton. A projeção do filme foi seguida de um debate entre a platéia e o realizador, que estava acompanhado da sua esposa Eleanor, do filho e assistente Roman Coppola, do ator americano Alden Ehrenreich e da atriz espanhola Maribel Verdú.
Coppola, pode-se dizer, é membro honorário de Cannes, ganhador de duas Palmas de Ouro no festival nos anos 70 (A Conversação e Apocalypse Now). Em Tetro, fez um filme pequeno, em digital, rodado na Argentina, espécie de volta ao tipo de cinema independente de autor que sempre quis fazer. Os resultados, no entanto, não são muito animadores, exceto pelo fato de ele estar novamente livre para fazer o que quer.
“Onde está Vincent Gallo?”, foi a pergunta que o próprio Coppola fez ao microfone, ao sentir a falta do seu ator principal no palco do Noga. Gallo (ator, roteirista e também cineasta, conhecido pelo seu notório – em Cannes – The Brown Bunny) interpreta um escritor americano arredio chamado Tetro, casado com uma argentina. Querendo manter-se longe da família nos EUA, ele mora no bairro boêmio de La Boca, em Buenos Aires, e recebe a visita do irmão caçula dele, Bennie (Ehrenreich), de 17 anos, na cidade porque o navio de cruzeiro onde trabalha sofreu uma pane.
Dos quatro filmes vistos até agora por mim em Cannes, todos foram projetados digitalmente, e Tetro tem um sabor especial. Já há 26 anos, Coppola apresentou, em No Fundo do Coração (One From the Heart, 1982) um esboço de “cinema eletrônico”, idéia então revolucionária que viria trazer avanços no processo de produção de filmes. Naquela época, Coppola parecia estar à frente do seu tempo.
No caso de Tetro, a exemplo do seu último filme (inédito no Brasil comercialmente), Youth Without Youth (2007, filmado na Romênia), a produção é toda dele através da sua produtora American Zoetrope, e pretende inclusive distribuir ele mesmo o filme, sem a participação de terceiros.
Rodado em tela larga e alta definição, Tetro é quase todo em preto e branco (salvo cenas que mostram o passado, a cores), com uma imagem moderna de vídeo em alto contraste. Objetivamente, duvidamos se o filme terá um lançamento internacional nos cinemas, uma vez que a última safra de Coppola tem se mostrado distante, para dizer o mínimo, do cinema que o tornou um gigante há 30 ou 40 anos com filmes como O Poderoso Chefão. Difícil lidar com um autor no presente quando seu passado é tão impressionante.
E o peso desse tipo de cobrança parece pegá-lo com força nos nervos, a julgar pela forma como respondeu a uma indagação de um fã declarado que pegou o microfone durante o debate pós sessão. “Você quer saber qual a diferença entre Tetro e O Poderoso Chefão? Eu vou te dizer. 22 mortes a tiro, uma por garrote, um carro bomba, quatro mortes a faca, essa é a diferença”, encerrou curta e grosseiramente.
Como bem lembrou um crítico mexicano, o filme tem algo de O Selvagem da Motocicleta (Rumble Fish) na relação entre um irmão caçula e seu irmão mais velho. Essencialmente, há uma leitura mais abrangente em direção ao tema da família, e nesse sentido é impossível não lembrar mesmo de O Poderoso Chefão, ao mesmo tempo em que sabemos que as relações apresentadas no filme entre os dois filhos de uma família de artistas tem pararelos com a própria família Coppola. Seu pai, Carmine, foi músico, enquanto Francis é pai não apenas de Roman mas de Sofia Coppola, cuja carreira como cineasta autora já está firmada.
Em Tetro, o pai (interpretado por Klaus Maria Brandauer) é um grande regente, a mãe uma cantora de ópera, e a pressão nos dois filhos sempre foi enorme, levando o mais velho a escrever sem nunca ter a pretensão de dar um final aos seus escritos, muito menos publicá-los. A chegada do irmão caçula, que também tem uma visão artística de mundo no sangue, irá provocar mudanças e trazer revelações importantes.
“Creio que o tema família é recorrente nos meus filmes, nunca me desgrudei da minha mulher e dos meus filhos. Até mesmo em Apocalypse Now, moramos três anos nas Filipinas, sempre inventava sistemas para que ficássemos juntos”. Perguntado se o filme refletia algo verídico das suas relações familiares, ele respondeu “nada do que está no filme aconteceu, mas é tudo verdade”.
Coppola confirmou as notícias sobre a escolha de colocar Tetro na Quinzena dos Realizadores (mostra paralela) e não na seleção oficial. “Foi exatamente a mesma coisa que aconteceu com Apocalypse Now em 1979, o filme na época não estava pronto, daí me ofereceram passar fora de competição. Argumentei que, já que passaria com todos os filmes, porquê não colocá-lo em competição? Esse ano, sugeriram programar Tetro fora de concurso, me prometeram o tapete vermelho e uma sessão de gala, mas achei melhor aceitar o convite de Olivier Pére da Quinzena, que tem um perfil histórico de valorizar filmes de autor como este”, disse.
“Desde O Poderoso Chefão que faço questão de incluir a autoria do material, que não vejo como minha. Sem nenhuma obrigação contratual, inseri “O Poderoso Chefão, de Mario Puzo”, o mesmo com “Drácula, de Bram Stoker”. Em Tetro, que eu escrevi, não tive nenhum problema em assinar o filme como meu, “Francis Ford Coppola’s Tetro”.
Filme visto no Noga, Cannes, 14 de Maio 2009
Coppola
Chegada de Francis Ford Coppola no Palais Stéphanie para o debate depois da sessão de Tetro - 14/05/2009
Coppola responde a pergunta sobre semelhanças entre o filme Tetro e a sua própria vida.
Coppola responde a pergunta sobre diferenças entre Tetro e O Poderoso Chefão.
Coppola explica porquê Tetro acabou passando na Quinzena dos Realizadores.
Coppola fala sobre o processo de escrever o roteiro de Tetro.
Da Série Filmes Estranhos do Mercado de Cannes
Exploitation cinema! Só nas revistas de hoje, pesquei essas pérolas (adoro os slogans...). K.M.F

"Quando as luzes se apagam... a comilança começa." ahem.

"Cassie deixou de trabalhar como stripper. Agora ela vai começar a mandar bala". Yeah!

Sem comentário, mas o filme tem Pamela Anderson e um cara chamaqdo Brock.
"Quando as luzes se apagam... a comilança começa." ahem.
"Cassie deixou de trabalhar como stripper. Agora ela vai começar a mandar bala". Yeah!
Sem comentário, mas o filme tem Pamela Anderson e um cara chamaqdo Brock.
Digital
Dos quatro filmes que eu vi até agora - Up, Spring Fever, Tetro e Hotaru (Kawase), todos foram projetados digitalmente.
Wednesday, May 13, 2009
A Imagem

Menina na frente de um filme...
Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
No post sobre Let The Right One in (scroll lá embaixo), Ricardo Lessa pergunta sobre imagem Full HD e como se compara com o melhor que se oferece em Cannes. Já no ano passado, a projeção do 24 City do Jia Zhang Ke (em HD), no Palais, (e, dois anos antes, a do Climates, do Ceylan), meio que jogou para o espaço a noção de filme/vídeo. Esses dois exemplos são claramente demonstrações de que devemos nos liberar de uma vez por todas daquela relação quase que umbilical com a chamada "imagem de cinema" (no sentido película, 35mm).
Hoje, com a projeção de Up, em Digital 3D, mais uma vez vem essa certeza, a imagem "de cinema" virou uma coisa mutante, e ela pode, inclusive, ser a imagem clássica de cinema, do batimento da película. Isso, claro, é algo bem diferente do que foi visto hoje no filme da Pixar. Outra coisa: há o que reclamar de uma imagem daquela? Para mim, não, mas queixas poderão ainda ser feitas, todas elas, creio, do ponto de vista estético, mas não técnico, imagino.
A seleção de Cannes 2009 ainda vem aí com novos filmes de defensores ferrenhos e orgulhosos do filme película, Quentin Tarantino um deles, e é certo que esse festival é o melhor lugar do mundo para criar parãmetros da imagem projetada em cinema, aspecto, aliás, que, para mim e para muitos, é uma parte essencial da experiência. Isso, claro, revela a vala que há entre uma situação de qualidade perseguida como esta aqui e o que temos na vida real de um multiplex.
E é aqui que tento responder ao Ricardo. Hoje, a tecnologia chegou ao nível estarrecedor de permitir que alguém tenha em casa uma imagem cinematográfica melhor (mais limpa, mais nítida, mais focada, mais equilibrada nas cores) do que a grande maioria das salas de cinema que operam no mundo. Adoraria estabelecer uma porcentagen dessa "grande maioria", mas eu realmente não saberia especificar.
Ex: a projeção 3D do Box Cinemas, no Recife, é escura e sem cor. De fato, o vermelho lá não existe.
No Estação Botafogo 1, no Rio, a imagem digital da Rain é inaceitável, escura e sem definição.
Na sala 3 (sala grande, de prestígio), do UCI Boa Viagem, no Recife, os blockbusters parecem sempre tristes, cabisbaixos.
Para não me acusarem de negativismo, porquê as salas comerciais não têm a imagem e o som do Kinoplex UCI Ribeiro Plaza Casa Forte? Será porque o equipamento é novo?
Sobre essa imagem em casa, gostaria de diferenciar o ver um filme num monitor (LCD/Plasma) de um filme da experiência de ver o mesmo num projetor Full HD. Esse segundo permite essa coisa lúdica de um facho de luz efetivamente projetado numa superfície, ou seja, há, de fato, uma aproximação do sentido de cinema, sala escura, etc. Essa aproximação seria válida?
Em fevereiro, Berlim fez a já discutida aqui 70mm Retrospektive, e mais uma vez me peguei me policiando. Aquelas imagens, daqueles filmes, pertencem ao passado emotivo da experiência cinematográfica. Elas são incríveis e cristalinas, e talvez tenham sido ainda mais no tempo em que existiram (décadas de 50, 60, 70, 80). Hoje, diante de uma projeção Full HD em casa, ou na frente dos balões coloridos da Pixar, tenho clara e nitidamente a idéia de que nunca fomos tão mimados, e de que a tecnologia é capaz de fazer as cores e as sombras os elementos mais corriqueiros que os olhos têm. Esse é o perigo, pois elas não são.
PS: Up passou com legendas em francês, negando a grita coordenada de exibidores e distribuidores brasileiros de que filmes em 3D não podem ser legendados,,, Pelo que eu vi hoje, é possível sim, e toda essa pequena polêmica (divulgada no Filme B, recentemente) me cheira a uma manobra comercial para estimular a dublagem no Brasil.
Spring Fever (Competição)

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Spring Fever (CHUN FENG CHEN ZUI DE YE WAN), de Lou Ye, passou agora há pouco para a imprensa. Ye esteve em Cannes há alguns anos com o controvertido Summer Palace, excelente dramalhão sobre estudantes apaixonados numa China de mudanças históricas. Em Spring Fever, a vocação de Ye para a controvérsia (Summer Palace foi proibido na China, conteúdo sexual não bateu bem) continua intacta, embora fique a suspeita de que controvérsia talvez seja o forte do filme.
Lendo os créditos de abertura e vendo que fundos de apoio a cinematografias distantes como o Fonds Sud (francês) consta lá na tela fica fácil relativizar questões de interesse (francês) no grande tema que vem da China já há alguns anos: mudanças.
Spring Fever é essencialmente uma historia de amores e amantes, começando com o homem casado que tem um amante, a descoberta violenta da sua esposa traída através do trabalho de um detetive por ela contratada, o envolvimento do detetive com o amante, para o desespero da namorada do investigador.
O homossexualismo filmado não é exatamente algo que vemos todo mês no cinema chinês, e podemos apenas imaginar as implicações de um filme que o mostra sem pudor na tela poderá ter na grande nação que é a China, dona de um jeito muito específico de lidar com questões tidas como tabú.
Para olhos ocidentais, vale relativizar isso e ainda adicionar o pano de fundo de um país que continua (como todos os paises, na verdade, no mundo globalizado), talvez mais ainda do que a media, tentando entender quem é, ou o que pode ser. A ruptura com a tradição, o passado, está tudo aí, num drama que se contorce com as indecisões e as neuroses típicas de quem ama. Curioso, mas longe de ser notável.
Filme visto na Debussy, Cannes, Maio 2009
Up (filme de abertura)

O marketing da Disney/Pixar espalhou bola por toda a Coisette, hoje, antes da cerimônia de abertura. (foto KMF)

Curioso que antes de ser 3D na projeção, o filme é tri-dimensional no que realmente importa...
Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
“A beleza do filme em terceira dimensão (3D) está nos ingressos mais caros”, proclamou ontem a revista Variety, principal publicação da indústria hollywoodiana, em matéria de capa sobre o filme de abertura da 52a edição do Festival de Cannes, Up (EUA, 2009), que estréia no Brasil em setembro. A conversa assustadora de mercado ilustra apenas um lado do filme, que registra no que realmente interessa como o mais novo e belo exercício em soberania criativa da muito admirada Pixar, oásis artístico que mantém acordo lucrativo de distribuição com a poderosa Disney. Up é a primeira animação da história do festival a ser convidada para abrir Cannes e foi exibido ontem para a imprensa com excelente recepção. A platéia viu o filme com os indefectíveis óculos especiais para projeção 3D.
Cannes vinha mantendo uma relação amorosa com o maior concorrente da Pixar, o super produtor Jeffrey Katzemberg, ex cabeça da Disney (de onde saiu brigado nos anos 90) e à frente da sua própria Dreamworks Animation.
A relação amorosa de Cannes com Katzemberg atingiu níveis incompreensíveis com a projeção no Palais de Shrek 2 e, por último, Kung Fu Panda, precisamente o tipo de animação genérica e estridente que tem faturado horrores no mesmo mercado que Katzemberg (Monstros Vs. Alienígenas é o seu último produto) estimula rumo à transição 35mm/3D digital.
Observadores da indústria vêem o destaque dado a Up como uma derrota para o chefão da Dreamworks e um empurrão para o formato 3D, que tem em 2009 um ano decisivo de virada com o lançamento não apenas de UP (estréia nos EUA em junho), mas de Avatar, o esperado primeiro filme de James Cameron depois do sucesso planetário de Titanic, há 12 anos.
Se no Brasil, o 3D ainda engatinha (mas rapidamente) no número de salas (no Recife, há apenas uma, no Box Guararapes), espera-se que até o final do ano, os EUA tenham dois mil cinemas equipados com a tecnologia, tendência que também alastra-se pela Europa. Para se ter uma idéia, a Variety informou ontem que filmes em 3D ocupam 20% das salas, mas rendem 50% da bilheteria por causa dos ingressos mais caros.
LASSETER - Em Cannes esse ano, John Lasseter, o chefão fundador da Pixar, diretor dos dois Toy Story, Vida de Inseto e Carros, sai por cima. Lasseter é o cabeça por trás de todos os clássicos modernos da Pixar, com filmes que praticamente redefiniram a animação moderna, e seu trabalho irá receber o reconhecimento do próximo Festival de Veneza com um prêmio de reconhecimento pela sua carreira. Veneza também irá exibir as versões modificadas para 3D dos dois Toy Story (originalmente 2D). Lasseter foi o mais solicitado durante a coletiva de imprensa ontem, logo após a projeção de Up”.
“Em algum ponto de seus processos de produção, os filmes da Pixar ameaçaram resultar em alguns dos piores filmes que o cinema teria visto. Digo isso pois o processo de criação toma idas e vindas impressionantes”, disse Lasseter. A colocação não deixa de soar irônica, especialmente após a apresentação de Up, dirigido por Pete Docter e Bob Peterson, e onde Lasseter é produtor.
O filme é apresentado como o primeiro lançamento do estúdio em formato 3D (Disney Digital 3d® é a marca oficial), mas curiosamente, abusar dos conhecidos efeitos do formato (coisas sendo arremessadas na cara do espectador, amplificado pelo tal ‘efeito 3D’) é algo que Up claramente prefere não fazer. O filme, na verdade, nos lembra que bem antes de imagens “em terceira dimensão”, o mais importante é ter um filme em diferentes relevos não só em termos de imagem, mas também na construção dos seus personagens, no relevo da própria narrativa.
Lasseter defendeu o formato 3D com o toque especial Pixar: “É uma maneira de fazer o espectador entrar no filme mais rapidamente, nesse sentido, a técnica é fantástica”, disse, “mas de fato preferimos manter os chamados ‘efeitos 3D’ sob as rédeas”. Nesse sentido, essa historinha de tons fantásticos termina sendo um interessantíssimo golpe autoral, pois funciona em múltiplos níveis.
Para o mercado, é um filme 3D, com animação de qualidade que continua surpreendendo, mas que ejeta os excessos deslumbrados do formato. Espectadores atentos poderão perceber que é também um filme tristíssimo sobre a velhice que, através de pulos de imaginação e algo que só pode ser descrito como ‘mágica’, poderá matreiramente enganar milhões com enorme senso de humor e acurado domínio de cenas de ação. Up é muitas vezes engraçadíssimo, com destaque especial para o elemento cachorro.
Olhando direitinho, temos uma obra que compartilha afinidades com a outra surpresa americana vista esse ano, Gran Torino, de Clint Eastwood. Nos dois filmes, homens aposentados que enfrentam não apenas a velhice, mas processos recentes de viuvez, e que passam boa parte dos seus dias nas varandas de suas casas, vêem-se numa relação relutante de amizade com meninos orientais que tornam-se grandes amigos.
A primeira parte é muito triste, narrada em termos puramente visuais, praticamente sem diálogos, a história de vida de Carl (voz de Ed Asner na versão original) e sua relação com a esposa que não podia gerar filhos. Repentinamente, temos uma guinada muito suspeita para a fantasia rasgada quando Carl, que na juventude sonhava com uma vida de aventura, decide partir com a casa onde viveu o seu amor com a esposa rumo ao céu, a casa içada por milhares de balões coloridos, levando sem saber Russell, um escoteiro de oito anos de idade que tentava ser prestativo para o senhor resmungão.
Há algo de desconcertante na imagem poética de uma casa voando com o auxílio de balões coloridos de festinha de aniversário. Talvez a imagem funcione como divisória entre fantasia e realidade, poesia e invenção, aspectos que a máquina de marketing da Disney conseguiu traduzir com grande propriedade na Croisette, em Cannes, à beira-mar, ontem, com milhares de balões em forma de um grande balão, para marcar a passagem do filme pelo festival.
Impossível também não lembrar da história do padre brasileiro Adelir Antônio de Carli, que sumiu pelos céus como Carl, e cujo fim trágico no mar foi muito divulgado como amargo lembrete de que a poesia muitas vezes não resiste à dureza da gravidade. Dependendo do olhar.
Filme visto no Debussy, Cannes, Maio 2009
UP
Cannes 1
Monday, May 11, 2009
Låt Den Rätte Komma In (Let The Right One In)


Essa cena da piscina e o sentido de mise en scène... er... impressionam. Bravo...
Por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Depois de preparar os detalhes de viagem para Cannes, consegui finalmente ver ontem à noite Let The Right One In (Låt den rätte komma in), numa noite escura de chuva no Recife marcada pelo que chamo de “lobisomem de Setúbal”, um cão monstro desconhecido cujo uivar ganha o espaço aéreo do bairro, soando como um jumento que agoniza. Qualquer dia posto esse som louco aqui.
Sobre Let The Right One In, umas 30 pessoas tinham me falado com enorme entusiasmo do filme, e não é difícil admirá-lo. Passa como um presente de natal para quem tem particular apreço pelo ‘cinéma fantastique’, gênero que Hollywood tanto explora como destrói constantemente através de templates insuportáveis que parecem travar filmes num impasse debilóide para o consumo de um público tido como tal. (NOTA: se encontrar Eli Roth em Cannes – faz parte do entourage de Tarantino no Inglorious Basterds - lembrar de chamá-lo de otário).
Eu não diria que o aspecto a seguir independe do filme em si, pois é a partir dele que me ocorreu mais uma vez essa questão de identidade. Mesmo assim, não deixa de ser fascinante ver um filme de vampiro/horror repensado/remixado por uma outra cultura, nesse caso, a sueca.
O filme é um exemplo a ser citado num mercado internacional que, cada vez mais, investe em produtos globalizados falados em língua local, mas que nada mais são do que enlatados For Export em caixas marcadas HOLLYWOOD FUCK ME. Coisas tipo o espanhol O Orfanato ilustram esse tipo de cinema portifólio feito para flertar com os estúdios, e, creio, pouco mais do que isso.
Eu não ficaria surpreso se o diretor de Let The Right One In, Tomas Alfredson, fosse chamado para trabalhar em Hollywood, mas imagino que para se adequar ao esquema ele teria que perder um braço, ou levar eletrochoque até ficar balbuciando “money... money”. Pelo que eu vi no filme, o remake americano vai rebolar para ignorar o tom distinto do original, encaixando-se na estética moral do PG-13.
Curiosamente, o filme bate ponto em praticamente todos os procedimentos do gênero vampiro, da permissão para entrar em casa do titulo à capacidade de combustão espontânea do sangue suga em contato com a luz solar, ou mesmo sua força física sobrenatural de ser preso num limbo natural e espiritual. Esses clichês são adotados e desenvolvidos com enorme naturalidade, e logo o espectador irá acreditar que vampiros existem.
No entanto, é a coisa dos detalhes outra vez, e o filme te leva direitinho com um alcance que impressiona, tanto no horror como no ar de fábula doce sobre a beleza, a necessidade e a tristeza do amor.
No horror, Let The Right One In deixa claro que a potência de um momento vem do enquadramento inteligente de detalhes assustadores que invadem o quadro, ou que uma cena de impacto deve necessariamente ser vista em plano aberto, pois só assim nos confrontamos com o impossível.
Esse horror, ou momentos de PAVOROSO horror, não funcionaria se a história de Oskar e Eli não funcionasse como uma fábula de primeiro amor, com a lógica interna de uma fábula infantil que poderia se passar numa floresta, mas que, aqui, ganha o cenário de um bairro classe média sueco coberto de neve, no que aparenta ser os anos 80.
E há inúmeros aspectos que enriquecem e fortalecem o filme a partir de coisas que não são ditas, pois Let The Right One In suspeita que o espectador é inteligente, e que tem compaixão e que entende a mecânica da dependência no outro, e como amores antigos se desfazem e como outros novos surgem. Belo filme.
BLU-RAY – Eu vi o filme no Blu-Ray americano, numa projeção Full HD. Eu ainda estou me acostumando com o formato, o que significa que, a cada nova sessão, o queixo volta a cair. A fotografia do filme é de uma precisão que beira o maneirismo, mas logo você entende que as mudanças de foco e as cores que quebram o branco da neve são profissa. Vale deixar uma menção honrosa para o pessoal do som (DTS Máster HD 5.1, o bicho) de Let The Right One In, é uma mixagem linda. A tal cena da piscina é um momento especial nesse filme, não só pelo que você acha que está vendo, mas pelo que você acredita estar ouvindo.
Cannes 2009: Expectativa

Flickr uma das ferramentas esse ano

Cannes 2007. Na verdade, eles estavam à espera de Julianne Moore, no QG da Quinzena dos Realizadores, que exibiu Savage Grace...
por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Hello and welcome. Pelo 11o ano, estarei em Cannes vendo filmes e escrevendo. Como sempre, estou credenciado pelo Jornal do Commercio no Recife e pelo próprio CinemaScópio. A cobertura é feita com apoio da Aliança Francesa, do Recife.
Eu tinha prometido o N*O*V*O CinemaScópio para essa cobertura, mas o mesmo ainda encontra-se em fase de testes. O espaço, portanto, será este. Pena...
Por outro lado, do ponto de vista técnico, isso não muda em absolutamente nada, pois a cobertura esse ano tem todas as ferramentas disponíveis para texto, foto e vídeo. O que eu ensaiei ano passado espero poder fazer mais ainda esse ano, com muita coisa interessante em imagem e som que ajude a passar um pouco do que Cannes é, e de como funciona.
Portando, seguem instruções:
Cobertura CinemaScópio: Modo de Usar
Links:
http://cinemascopiocannes.blogspot.com/
O meu blog e onde eu posto sempre, às vezes ao vivo.
http://www.flickr.com/photos/cinemascopio
Projeto ainda em construção, mas que receberá as minhas melhores fotos de Cannes esse ano. E se não visitou ainda, visite, tem cerca de 150 fotos do meu arquivo pessoal (não necessariamente relacionadas a Cannes ou ao cinema).
http://www.youtube.com/cinemascopio
O canal do CinemaScópio do You Tube vai receber material em vídeo feito em Cannes e postado/linkado no blog.
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=357512
A comunidade do CinemaScópio.
A cobertura também poderá ser lida em formatos e edições diferentes nos:
http://www.jc.com.br
http://www.af.rec.com.br
No mais, chego em Cannes terça, início da noite, a correria começa quarta de manhã com a sessão de imprensa de UP, da Pixar.
Gd abraço, Kleber
Happy Go Lucky

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Não vamos aqui tentar definir o sentido de felicidade para o ser humano, mas sabe-se que é uma sensação desejada por muitos e que, na melhor das hipóteses, é ela que dá algum sentido à vida. Por ser tida como tão rara por tantos, a noção de ser feliz pode muitas vezes passar uma idéia de utopia, ou, para os mais pessimistas, prova irrefutável de ignorância perante o mundo cruel que nos cerca... Talvez seja isso que nos leva a ver com estranha e inicial suspeita aqueles que estão sempre esgravatando os dentes, caso claro da super-pra-cima heroína Poppy do novo filme do cineasta inglês Mike Leigh, Simplesmente Feliz (Happy Go Lucky, 2008).
Ecos do último filme de Leigh, Vera Drake, um drama cavernoso sobre aborto na Londres sombria do pós-guerra, não serão encontrados em Simplesmente Feliz. Na verdade, a filmografia de Leigh tem uma tendência para o pessimismo, e não são raras as análises pavorosas que ele já nos deu sobre a vida em sociedade (Naked talvez o exemplo mais extremo), muito embora ecos mais leves do passado surjam ao longo da projeção (Garotas de Futuro, Topsy Turvy).
Já na resplandecente seqüência de abertura desse filme novo (lembra algo de A Noviça Rebelde), Londres é filmada em alegre tela larga com sol e tons claros, onde vemos Poppy (Sally Hawkins, Urso de Ouro de Melhor Atriz em Berlim, ano passado) sorrindo para o mundo na sua bicicleta primaveril. Quem é essa doida?
A beleza do filme é nos mostrar, aos poucos, que doida ela não é, e que seu talento para o equilíbrio emocional e visão aberta do mundo é uma dádiva que tem efeitos positivos não só para ela, mas também para os que a cercam, incluindo boa parte dos que vêem o filme. Poppy é também chegada a ataques de riso toda vez que a situação engrossa, mesmo que isso inclua uma crise aguda de dor na coluna.
Ela é uma professora primária que gosta do que faz, e as crianças parecem gostar dela. Tem 30 anos e um pequeno grupo de boas amigas, juntas conversam muito e riem bastante. Julgar os outros não é algo que Poppy faz normalmente, mas mostra-se firme e forte quando sua irmã a julga com o tipo de parâmetro social que, na verdade, sabemos, é um gerador de infelicidade crônica para tantos, talvez, inclusive, para a referida irmã.
Obviamente que personagem tão equilibrado e em paz consigo mesma precisa, para fins narrativos, administrar outros não tão quietos, e Leigh nos fornece uma pequena galeria de neuroses que Poppy tentará administrar. Curiosamente, essa professora vê-se na posição de aluna de dois instrutores claramente carentes emocionalmente. A primeira, com excelentes resultados cômicos, dá aula de flamenco na seqüência que estreita laços entre o cinema de Leigh e o de Pedro Almodóvar.
O segundo personagem chama-se Scott (Eddie Marsan), professor de auto-escola para uma Poppy que viu o roubo da sua estimada bicicleta como uma chance de a mesma (a bicicleta) finalmente deixar o ninho e ganhar a vida. E é tentando aprender a dirigir que ela encontra esse homem pura e simplesmente infeliz, maluco beleza típico do vasto zoológico humano que Leigh e seu olhar inglês ranzinza já nos deu na sua filmografia.
Metódico, neurótico e sub-desenvolvido emocionalmente, Scott transforma seu óbvio amor por Poppy numa série de pequenas agressões típicas da 1a ou 2a série do primário, situação humana e tanto que Leigh, Hawkins e Marsan negociam com rara felicidade, uma vez que a graça anda de mãos dadas com uma certa tristeza absoluta.
Há aquela cena clássica de Noivo Neurótico Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977), onde Woody Allen pára um casal ensolarado na rua e pergunta o porquê de tanta felicidade – “Eu sou uma pessoa rasa e vazia, e ele também”, responde a mulher. Obviamente que é uma visão pessimista típica do Allen mais jovem para um mundo que vende a felicidade e a alegria como produtos que podem ser comprados.
Simplesmente Feliz, no entanto, consegue mostrar com grande naturalidade que o otimismo no cinema não precisa necessariamente ser obtido a golpes de marreta como nas imagens publicitárias de uma comédia romântica, mas através da observação generosa de certos movimentos da própria vida.
Filme visto no Berlinale Palast, Berlim, Fevereiro 2008
Monday, May 4, 2009
Wolverine

Wolverine prestes a traçar um espaguete ao pesto.
por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Para cada PAM-BUM-BAM que Wolverine as Origens (Wolverine – X-Men Origins, EUA, 2009) faz estrondar na sala de cinema, eu quase que pude ouvir na mesma hora o DIM-DIM-DIM do dinheiro caindo na conta da 20th Century Fox e dos sócios majoritários desse produto. Um deles, aliás, é o próprio Hugh Jackman, o atual apresentador do Oscar e também astro/produtor do filme. É o sub-produto perfeito para ilustrar o denominador comum de um tipo de cinema atual feito para vender pipoca, balinha, nachos e refrigerante, para um público com cera nos ouvidos e limite programado de atenção de não mais do que quatro segundos.
Watchmen isso aqui não é. A interessante adaptação de Zack Snyder para os quadrinhos de Alan Moore talvez seja um dos melhores filmes americanos do ano, mas não é o tipo de coisa que Hollywood espera de um produto comercial feito para saquear mesadas adolescentes. Na verdade, lembrar que, por ter sido o último filme HQ lançado, Watchmen nos leva precisamente a esse Wolverine que estréia com 500 cópias em todo o Brasil, com uma campanha de propaganda que não poupou nem banheiro.
A adaptação de Watchmen finalmente filmada e as marcas Batman e Superman recauchutadas com novos diretores e atores provam que não sobra mais muita coisa para Hollywood consumir vorazmente em termos de material original de HQ. Resta à indústria inventar desculpas.
Nesse filme, Wolverine (Jackman), o personagem mais popular da franquia X-Men ganha seu próprio filme solo, onde podemos vê-lo menino, jovem, na sua própria historinha. Imaginem as possibilidade$ se pensarmos nos outros super-amigos de Wolverine, cada um com um filme. Porquê não as memórias íntimas de Alfred, mordomo de Batman, num blockbuster futuro? E, quem sabe, as memórias do sobrinho secreto de Alfred, mais pra frente?
Wolverine é o cara simpático que quando fica com raiva ganha uns garfos gigantes que saem das mãos. É também um super herói que vive furando sua cama e arranhando a namorada, descaradamente. As espadas são feitas de um metal alienígena, adamantium. Ele é forte, e nesse filme vemos o porquê de ele ter sua força física redobrada. Wolverine (também conhecido como Logan) é, claro, um mutante.
Essa aventura dirigida pelo sul africano Gavin Hood, que ganhou o Oscar pela sua própria mutação genética de filme turbinado de terceiro mundo (vide Cidade de Deus e Quem Quer Ser Milionário), um filme de crime e favela chamado Tsotsi, mostra o que acontece com diretores que sempre sonharam com Hollywood. Fazem filmes hollywoodianos sem qualquer alma como esse.
Inicialmente divertido na primeira meia hora, onde entendemos que Wolverine tem um irmão malvado (Liev Schreiber, presença boa) com quem lutou praticamente todas as guerras americanas, atravessando décadas sem real envelhecimento, nosso herói logo entende que o recrutamento via governo americano (Danny Huston é o vilão da peça) não é a sua praia, especialmente pela noção avariada de humanidade dos envolvidos.
Antes mesmo de integrar o X-Men nos outros filmes da série, Wolverine teria feito parte de um grupo de mercenários mutantes cujas missões em paises de terceiro mundo não parecem nada católicas. Wolverine terá, portanto, de lidar com manipulação do poder em relação a um amor e também com o seu corpo.
É tudo meio bombástico e estridente, o dinheiro gasto não foi pouco, está na tela, mas fica a sensação de uma matinê classe B. Não é B de bizarro, é B de segunda classe mesmo. Wolverine grita aos céus com raiva, como um tiranossauro rex, coisas explodem e fazem enorme barulho. Um lembrete frequente de que barulho e estímulos de luz projetada também induzem ao sono e à total monotonia.
Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, abril 2009
Sunday, May 3, 2009
Lírio Ferreira e Desnise Dumont sobre fazer um filme pessoal de arquivo sobre o pai dela: O Homem Que Engarrafava Nuvens

Lírio Ferreira apresentando o filme no Festival do Rio, ano passado
por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Para quem conhece a pessoa do cineasta pernambucano Lírio Ferreira, uma primeira impressão é a de que ele é claramente um realizador da raiz ficção, sua capacidade de se expressar e de juntar idéias aparentemente distantes numa conversa chama a atenção e instiga. Analisa, por exemplo, que não seria uma coincidência o fato de uma primeira possível imagem para o que seria “o moderno cinema pernambucano” ser a de um homem cego numa paisagem árida, cena do seu próprio curta metragem O Crime da Imagem, lançado nos primeiros momentos dos anos 90. Esse seu olhar, que alguns fãs ousam chamar de ‘delírio’, gerou dois filmes notáveis, filhos não da ficção, mas do documentário, ambos sobre a música brasileira. O mais novo chama-se O Homem Que Engarrafava Nuvens, sobre Humberto Teixeira, que encerra hoje à noite o Cine PE.
O filme confirma algo que já havia sido percebido em Cartola (2006), co-dirigido por Hilton Lacerda, um filme não linear, um pouco como as lembranças que temos da vida, algo que Lírio repete de forma nova e orgânica no seu novo relato sobre uma outra personalidade brasileira que deixou marcas na cultura do país. Curiosamente, esse é um projeto interessante não apenas para o espectador comum, mas também pelo que existe por trás do filme.
Lírio Ferreira, na verdade, conduziu com tom autoral o projeto emotivo que pertence à produtora do filme, a atriz Denise Dumont, que vem a ser a filha do personagem principal, Humberto Teixeira. O pai dela ficou conhecido popularmente como parceiro de Luiz Gonzaga e autor de Asa Branca, clássico da MPB. O filme tem claramente o tom de uma confissão, ou de uma descoberta, e há indícios de que diretor e produtora descobriram juntos coisas diferentes.
« Exatamente pelo traço marcante do Lírio e pelo seu talento, foi que o convidei para dirigir o filme. A sua doçura e delicadeza como ser humano tornou possível essa relação tão complicada, de ter a filha do personagem principal no cangote 24 horas por dia durante 7 anos, cheia de opiniões, perfeccionista e ainda por cima com o poder de produtora... É sem dúvida um filme extremamente pessoal e por isso mesmo eu tinha que entregá-lo em boas mãos. Lírio realizou o meu sonho e o fato de continuarmos amigos e nos amarmos de paixão depois de tantos anos, é prova de que funcionou e bem », disse Dumont à reportagem do JC, de Paris, antes de vira o Recife para a sessão de hoje.
Perguntamos a Lírio como é administrar o personagem principal que é pai da produtora. Ele respondeu, “não foi fácil. Afinal, o filme aborda a trajetória do pai dela e todo o processo acabou sendo uma descoberta de um pai que Denise não conhecia muito bem. A trilha sonora da juventude de Denise não era o baião, mas o rock brasil dos anos 80. Ela também perdeu a mãe antes da finalização do filme. Contudo, Denise é uma pessoa muito meiga e afetiva e nós, apesar de sermos piscianos e cabeças duras, nos entendemos muito bem”.
Lírio Ferreira volta a demonstrar intimidade com o trabalho de arquivo que fez de Cartola um filme tão rico, e que parece mover Baile Perfumado com as imagens de Benjamim Abraão. “Material de arquivo sempre exerceu um certo magnetismo sobre mim. O registro de um instante único. A possibilidade de poder recriar estes instantes, através da montagem, um cenário propício para um personagem marcante cruzar este tempo, foi a energia criativa e motora que impulsionou tanto Cartola, quanto O Homem Que Engarrafava Nuvens”, nos falou Lírio há alguns dias.
Nesse aspecto do filme, Denise Dumont destaca o trabalho de Antônio Venâncio, “O melhor e mais tenaz pesquisador de imagens do mundo! Esse anjo está no projeto desde o primeiro momento e a pesquisa que ele fez enriqueceu e contextualizou o filme de forma magnífica”.
Dumont levantou o dinheiro no Brasil (governo do Ceará entrou forte, Teixeira nasceu no Cariri) e EUA (investidores privados). É ela quem apresenta o filme na frente da câmera e é vista pontualmente costurando informações e pesquisando o seu próprio passado. Seu pai faleceu em 1979, na época Dumont fazia a novela Marrom Glacê, na Globo. Ela casou e mora nos EUA já há 22 anos. A reportagem do JC tentou comunicação com Dumont, que estava essa semana em Paris, antes de vir ao Recife, mas sem sucesso.
Num filme sobre um pai, é o depoimento da mãe que deixa algumas impressões fortes e define o tom pessoal do filme para Dumont. Com cerca de uma hora de projeção, uma entrevista tão doce quanto dura com a ex-esposa de Teixeira coloca, de forma muito pessoal, as coisas em perspectiva. Esse momento foi muito comentado quando da estréia do filme no último Festival do Rio.
Sobre essa sequência do filme, Dumont nos falou que « foi difícil em termos pessoais. Por outro lado foi um resgate/exorcismo tremendo na nossa relação. Havia muito ressentimento e culpa e foi maravilhoso termos tipo a oportunidade de examinar aquilo tudo. No final daquela entrevista, me senti livre para amar a minha mãe de novo e compreendê-la. E na verdade, ao meu pai também. Tornou ele humano pra mim. Quanto a colocar aquilo tudo no filme, foi a minha vez de ter a delicadeza de sair do caminho e deixar o diretor trabalhar em paz. Esse filme é do Lírio Ferreira ».
Com entrevistas filmadas em película por Walter Carvalho, Lirinha, Otto, Nelson Motta, Gal Costa, Chico Buarque analisam o legado de Teixeira, ou simplesmente cantam-no, caso mais claro de convenção cedida pelo filme. Ouvir versões diferentes de Asa branca nas vozes de Maria Bethânia, David Byrne e Caetano Veloso resulta em audições particulares que realmente ilustram o alcance de uma peça musical que faz parte do DNA cultural do Brasil.
Teixeira, que também foi deputado federal e autor de mais de 400 músicas, deixou marcas indeléveis na cultura brasileira através de, especialmente, a música e o baião. O filme, enquanto validação de um artista que talvez não tenha os créditos que merece, também se mostra um desejo claro. O fato de ser o compositor mais discreto e Gonzaga o astro pop de gibão e sanfona sempre exposto também explicam isso.
Com a carreira do filme em festivais internacionais (Amsterdã, Miami, Toulouse, Cartagena) perguntamos como esse personagem tão brasileiro, e sua música, tem sido percebido no exterior. “Por onde passou, o filme tem tido uma recepção muito calorosa. Pessoas que conhecem a história se emocionam e as que não conhecem ficam compenetradas com a descoberta. Não é raro ver gringo agradecendo pela sessão ou fazendo um depoimento pessoal.”
Coletiva Gavras

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Costa Gavras recebeu a imprensa nacional, presente no Cine PE, durante concorrida coletiva ontem, num hotel em Boa Viagem. Falando espanhol fluente, Gavras, que é grego com cidadania francesa, respondeu perguntas durante aproximadamente uma hora. Informou que seu espanhol é chileno, e lembrou do período de Salvador Allende, antes do golpe sangrento de Augusto Pinochet, época em que filmou Estado de Sítio. Gavras falou da sua formação política em Paris, sobre a tecnologia que muda no cinema (é o diretor da Cinemateca Francesa, em Paris) e sobre sua relação com a América Latina, que inclui, ao longo da sua trajetória, uma relação de amizade com Miguel Arraes.
“A formação política percebida nos meus filmes talvez venha da vida, por ter vivido num país (a Grécia) ocupado pelos nazistas, depois vitimado por uma guerra civil que ainda passou pela Guerra Fria. Já na França, tive muita sorte de encontrar pessoas como Yves Montand e Simone Signoret, sem radicalismos ou preconceitos e muito pragmáticas na forma como vêem a sociedade”.
Perguntado se seus filmes deixaram de ser políticos ao longo dos anos para tomar o rumo do comentário social, Gavras, 76 anos, disse não ver a diferença entre filmes políticos e de cunho social. Às vezes é mais importante termos um filme de aspecto social, e aí sermos inevitavelmente políticos”.
Sobre Eden a L’Ouest, seu filme mais recente e que abriu o Cine PE na segunda à noite, alguns colegas reagiram à rapidez narrativa do filme. Gavras respondeu, “nos últimos 20 anos, tanto para os espectadores como para nós, realizadores, a linguagem do videoclipe mudou completamente a capacidade de entender o cinema. Impossível não pensar nesse tipo de mudança ao fazer um filme. Quis fazer um filme que tivesse essa pressa, mas sem apelar para a gag. Jacques Tati dizia que não é necessário fazer gags para ser engraçado, basta olhar para a sociedade”.
Com a América Latina presente em dois filmes memoráveis da trajetória de Gavras (Estado de Sítio, ambientado no Uruguai e filmado no Chile, e Desaparecido – Um Grande Mistério, filmado no México e ambientado no Chile), Gavras relatou que “a América Latina é um laboratório social e político para o observador. Essa sua impressão teve início quando buscava a história de um embaixador americano que foi da Grécia para a Guatemala. Investigando esse personagem, encontrou também um tema recorrente nos seus filmes, a intervenção dos EUA na política do sub-continente. “Perdi grandes amigos para a repressão política nesse período”.
A reportagem do JC perguntou se procedia a informação de que Gavras teria tido uma relação de amizade com Miguel Arraes. “Fui muito próximo de Arraes durante o exílio. Já nos anos 90, creio que no último governo dele, viajei com uma delegação francesa ao Chile e passamos algumas horas no Recife. Arraes falou muito mais comigo do que com o primeiro ministro francês...”
Anteriormente, Gavras conheceu Arraes na época em que pesquisava um personagem de Estado de Sitio, um americano que dava consultoria de tortura e métodos de repressão, personagem que, no filme, cita nominalmente Pernambuco como foco de violência numa cena em que o mapa e bandeira do Brasil são usados usado como pano de fundo. A cena em questão foi o principal motivo apontado pela censura federal do governo Médici para proibir o filme no pais, na época.
Nossos Ursos Camaradas
por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Fernando Spencer, 82 anos, escreveu por mais de 30 anos para o Diario de Pernambuco, equilibrando ainda, ao longo dos anos, uma prolífica realização em cinema, suficiente para lhe reservar lugar de respeito na trajetória do cinema pernambucano. Spencer mostrou Nossos Ursos Camaradas fora de competição no Cine PE.
Nossos Ursos Camaradas é a nova obra de uma filmografia que já está na casa das 30 produções, marcando 40 anos de carreira para o cinema de Fernando Spencer, esse ano.
Seu novo filme é uma crônica bem humorada com aspecto de filme documentário antropológico misturado com uma graciosa narrativa popular. Investiga o papel que os ursos têm no imaginário pernambucano a partir de debochadas subversões que o lero peculiar das ruas é capaz de nos permitir, e esse urso é muitas vezes o amante da esposa, aquele que põe um belo par de chifres no marido inocente.
O filme surgiu de um pedido que Spencer fez ao amigo, escritor e folclorista Mario Souto Maior (falecido em 2001), um dos maiores pesquisadores da cultura em Pernambuco. “Pedi que me desse não mais do que uma lauda sobre os ursos, da La Ursa do carnaval ao urso que sai pela janela quando o marido o flagra na cama com a mulher”. Com 12 minutos de duração, o filme é narrado por Renato Phaelante, colaborador de Spencer já há algum tempo, e seu colega de Fundação Joaquim Nabuco (Spencer esteve à frente da Cinemateca da instituição entre 1980 e 2000).
Nossos Ursos Camaradas custou R$ 140 mil, um curta caro e, para a filmografia de Spencer, sua super produção. R$ 80 mil vieram pela Petrobras como uma incomum carta branca de realização para Spencer, honra que o levou a associar-se à empresa Página 21, que já administrara o importante projeto de lançar boa parte da filmografia de Spencer em DVD, há dois anos. Os produtores levantaram mais R$ 60 mil para o curta.
Conhecido como o cineasta das três bitolas (super 8, 16 e 35mm), Spencer deveria acrescentar uma quarta, o digital. Semana passada, ao reunir-se com a imprensa, reclamava do tempo que levou para que o filme ficasse pronto. “Minha escola é o super8, bitola que me oferecia um verdadeiro laboratório dentro da câmera”. Perguntado se gosta de poder ver o que filma no monitor digital das filmagens modernas, o cineasta afirma que “não, prefiro ter meu vistor analógico para ver o que eu quero”.
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Fernando Spencer, 82 anos, escreveu por mais de 30 anos para o Diario de Pernambuco, equilibrando ainda, ao longo dos anos, uma prolífica realização em cinema, suficiente para lhe reservar lugar de respeito na trajetória do cinema pernambucano. Spencer mostrou Nossos Ursos Camaradas fora de competição no Cine PE.
Nossos Ursos Camaradas é a nova obra de uma filmografia que já está na casa das 30 produções, marcando 40 anos de carreira para o cinema de Fernando Spencer, esse ano.
Seu novo filme é uma crônica bem humorada com aspecto de filme documentário antropológico misturado com uma graciosa narrativa popular. Investiga o papel que os ursos têm no imaginário pernambucano a partir de debochadas subversões que o lero peculiar das ruas é capaz de nos permitir, e esse urso é muitas vezes o amante da esposa, aquele que põe um belo par de chifres no marido inocente.
O filme surgiu de um pedido que Spencer fez ao amigo, escritor e folclorista Mario Souto Maior (falecido em 2001), um dos maiores pesquisadores da cultura em Pernambuco. “Pedi que me desse não mais do que uma lauda sobre os ursos, da La Ursa do carnaval ao urso que sai pela janela quando o marido o flagra na cama com a mulher”. Com 12 minutos de duração, o filme é narrado por Renato Phaelante, colaborador de Spencer já há algum tempo, e seu colega de Fundação Joaquim Nabuco (Spencer esteve à frente da Cinemateca da instituição entre 1980 e 2000).
Nossos Ursos Camaradas custou R$ 140 mil, um curta caro e, para a filmografia de Spencer, sua super produção. R$ 80 mil vieram pela Petrobras como uma incomum carta branca de realização para Spencer, honra que o levou a associar-se à empresa Página 21, que já administrara o importante projeto de lançar boa parte da filmografia de Spencer em DVD, há dois anos. Os produtores levantaram mais R$ 60 mil para o curta.
Conhecido como o cineasta das três bitolas (super 8, 16 e 35mm), Spencer deveria acrescentar uma quarta, o digital. Semana passada, ao reunir-se com a imprensa, reclamava do tempo que levou para que o filme ficasse pronto. “Minha escola é o super8, bitola que me oferecia um verdadeiro laboratório dentro da câmera”. Perguntado se gosta de poder ver o que filma no monitor digital das filmagens modernas, o cineasta afirma que “não, prefiro ter meu vistor analógico para ver o que eu quero”.
Superbarroco
por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
O filme Superbarroco, imaginado por Renata Pinheiro, é um desses objetos filmados não identificados que Pernambuco tem produzido com certa constância, e sem maiores explicações. Não há piadinhas, não há exatamente um início, meio ou fim, mas há algo que parece faltar a boa parte dos filmes que vemos no mundo, a imagem. O filme de Renata Pinheiro exibe hoje à noite na mostra competitiva de curtas do Cine PE, três semanas antes da sua exibição em Cannes, onde foi selecionado para a prestigiosa Quinzena dos Realizadores.
Pinheiro, que tem uma carreira reconhecida como diretora de arte (Baixio das Bestas, A Festa da Menina Morta), função que tem participação importante no visual de um filme, é também artista plástica. Em alguns casos, no cinema, esse tipo de credencial explica a total falta de interesse numa narrativa linear e uma viagem de maionese sem volta e sem fim. Não nesse caso.
Superbarroco de fato ejeta uma narrativa comum para nos apresentar um homem (Everaldo Pontes, ator na cara e no corpo) e, talvez, o que se passa pela sua cabeça, ou um pouco dos seus sentimentos. Não é exatamente simples expressar esse tipo de coisa em cinema, investir em sensações e não tanto em ações, e eis que Pinheiro, Pontes e o fotógrafo Pedro Urano aos poucos, e de maneira potente, nos levam lá.
Alguns poderão achar estranha a afirmação acima de que falta imagem na maior parte de filmes hoje no mundo. Falta pelo fato de a imagem em cinema ser tão ampla no que ela nos traz, podendo sair da obviedade do “isso é isso”. Em Superbarroco, temos muitas vezes a superposição de imagens diferentes de uma vez só, nos lembrando que a água, a comida ou a arquitetura de uma casa podem ser uma extensão de nós mesmos, dos nossos sentimentos e das nossas lembranças. Exatamente como o cinema.
Saturday, May 2, 2009
Eiffel (curta)


por Kleber Mendonça Filho
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Para alguns, as duas torres residenciais gêmeas com dezenas de andares, construídas no Cais de Santa Rita e na frente do bairro de São José, são duas verrugas desproporcionais no seio da cidade. Para outros, os dois prédios são mais uma prova de progresso, sinalizando um Recife que cresce para cima, na vertical e de cima para baixo. Vendo o curta-metragem Eiffel, do jornalista e crítico de cinema pernambucano Luiz Joaquim, é fácil identificar que seu ponto de vista reside nos que integram o primeiro grupo. O filme passa hoje à noite na programação do Cine PE, na sessão dedicada aos curtas digitais.
O filme surgiu para Luiz Joaquim de uma vontade de se expressar sobre o Recife. “A idéia veio ano passado, quando revia Os Incompreendidos” (Les 400 Coups), o primeiro filme do cineasta francês François Truffaut, feito em 1959. Na abertura do filme, a câmera percorre Paris com o ponto de vista de alguém que sempre observa ao longe a Torre Eiffel.
“Me peguei deliciado com as imagens de abertura do filme de Truffaut, uma dedicatória de amor a Paris. Pensei que no Recife não poderia fazer algo assim, em torno de um único monumento, para homenageá-la, exceto por uma construção que emprestava uma imagem oposta do orgulho que tenho pela minha cidade, um monumento polêmico, mas gerador de uma polêmica velada, que pouco se discute nas mídias tradicionais locais”, disse à reportagem do JC, semana passada.
Admirador do cinema de Truffaut, Joaquim acredita que criando um vínculo entre a Torre Eiffel de Os Incompreendidos e as duas torres recifenses do seu próprio filme, ele apostaria numa simetria entre beleza e feiúra, “uma crônica audiovisual que, se fosse exibida em algum lugar, poderia chamar a atenção para isso que me incomoda como cidadão. Quando olho para aquilo, me vem sempre a idéia de que moro numa província. E me deparar com isso todo dia é ruim. Creio que esse filme não é apenas contra uma opção tomada por uma construtora, mas sobre uma combinação de fatores que permitiram que que algo do tipo pudesse acontecer”.
Sobre sua primeira realização cinematográfica, Luiz Joaquim, que é crítico de cinema da Folha de Pernambuco, diz que é um jornalista, “habituado a fazer tudo sozinho, e vi uma tranquilidade na realização e montagem, por isso segui em frente. Mas vejo que, na verdade, a simplicidade da realização e edição não diminui em nada o trabalho”. Eiffel foi produzido pela Símio Filmes com montagem do cineasta Daniel Bandeira (Amigos de Risco).
Essa sessão no Cine PE poderá ser importante no sentido de oferecer um raro retrato crítico do Recife hoje, como espaço urbano, diante de uma platéia de duas mil pessoas ou mais que poderá se ver na tela através de imagens cuidadosamente escolhidas da própria cidade.
Eiffel integra o que já se configura uma onda notável de filmes pernambucanos que questionam diretamente o traçado urbano de cidades brasileiras, e que tem no Recife um dos exemplos mais notáveis pela completa falta de planejamento e critério quando o tema é o espaço urbano. Menino Aranha (exibido ontem), de Mariana Lacerda, sobre a arquitetura do medo através da altura como dispositivo de segurança também está na seleção 2009 do Cine PE, e ainda veremos em breve o longa metragem inédito Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, também sobre um conceito social de construção, arquitetura e engenharia.
Costa Gavras

Costa Gavras socializa com fã na praia de Boa Viagem, Recife (foto KMF)
por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Aos 76 anos, Costa Gavras tem uma Palma de Ouro em Cannes por Desaparecido – Um Grande Mistério (Missing, 1982), sua primeira experiência com dinheiro de Hollywood, além de ter recebido o Urso de Ouro no Festival de Berlim com outra experiência nos EUA, o thriller Muito Mais Que um Crime (The Music Box, 1989). Seu filme síntese talvez seja Z (1969), que deu-lhe o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1970, obra que completa agora 40 anos e que terá uma sessão especial apresentada pelo próprio Gavras dentro da programação do Cine PE.
Sua trajetória parece dar-lhe amplas credenciais para estar à frente, atualmente, da Cinemateca Francesa, em Paris, uma das instituições mais respeitadas do mundo dentro do seu perfil. Inicialmente exilado na França nos anos 60, sua carreira foi iniciada na Grécia, naquela década, e é repleta de vitórias alcançadas com um cinema facilmente descrito como político, construído em cima de uma estética direta e voraz.
Na verdade, seus filmes tiveram uma grande relevância na época em que foram feitos, captando uma revolta contra um estado de coisas num período revolucionário em inúmeros aspectos, focando muitas vezes a repressão de regimes políticos contra o cidadão comum, que lutava sob a violência pelo direito de expressão e democracia.
Por ser tão atrelado a essa época, os principais filmes de Gavras, da sua fase 60/70, parecem ter assumido o valor de cartas históricas, atreladas ao momento por eles descritos. Tanto Z como Estado de Sítio (État de Siège, 1972) e Sessão Especial de Justiça (Section spéciale, 1975), foram queridinhos da censura no Brasil durante o período militar, todos cortados ou simplesmente proibidos para a exibição, aspecto, claro, que apenas aumentou a voltagem dos mesmos. Marcaram época em seus respectivos lançamentos tardios já na chamada abertura.
Uma cena de Desaparecido – Um Grande Mistério, lançado no Brasil pela Universal Pictures já dentro do período pré-democrático (1982), ilustra o toque Gavras. Ambientado no Chile, durante o golpe sangrento de Pinochet no governo de Salvador Allende, temos a história de um pai (Jack Lemmon), empresário americano de direita, que aos poucos acorda para Jesus no sentido de entender a participação do seu governo na política estrangeira. A cena em questão nos mostra centenas de homens reunidos e despidos nos túneis de um estádio de futebol. Um dos responsáveis engravatados à frente do esquema de tortura e morte fala com sotaque brasileiro, sutil colocação de como regimes fortes compartilhavam especialistas em repressão. Esse é o toque Costa Gavras.
Z será exibido esta semana dentro de uma curta série de quatro filmes pinçados da filmografia Gavras (são 17 longas ao todo), e que incluem seu mais recente Eden a L’Ouest, estréia recente nos cinemas franceses.
Os outros dois filmes programados esta semana são Amém (2002), sobre o oficial nazista Kurt Gerstein, engenheiro químico por trás do gás Zyklon-B, usado nas câmaras de extermínio dos campos de concentração sem que ele soubesse, inicialmente. Por último, passa O Corte (Le Couperet, 2005), sátira social sobre um desempregado que, para vencer a concorrência, decide, literalmente, eliminá-la.
1969 - Z, que deu a Gavras o Oscar de Filme Estrangeiro em 1970, parecia traduzir com precisão o clima de questionamentos políticos daquele tempo, da mesma forma que A Batalha de Argel (La Battaglia di Algeri, 1966), de Gillo Pontecorvo, o fizera três anos antes, ou Medium Cool, de Haskell Wexler, fez também em 69, nos EUA.
O filme de Gavras investiga desdobramentos que afetaram o cenário político na Grécia em 1963, quando o líder da oposição - Gregorios Lambrakis – foi morto num acidente de automóvel. A investigação desse acidente nos leva à revelação de um assassinato político e aos dilemas entre justiça e poder. A imagem final de uma Irene Papas reagindo a um desfecho que, num filme americano seria triunfal, talvez ajude a entender a ressonância do filme até hoje
O efeito moral e político de Z gerou discussões inflamadas não apenas sobre o poder que o cinema pode ter ao questionar um estado de coisas, mas também na forma como o filme foi capaz de servir de reflexo para os problemas políticos de cada sociedade, num mesmo tempo. Na Grécia, Papas e o próprio Gavras foram banidos do país, junto com o filme. Nos EUA, Z foi tido como anti-americano e, no Brasil, censurado.
Não deixa de ser curioso que, com a chegada dos anos 80, os filmes de Gavras tenham se voltado para dramas internos e individuais em personagens que entram em choque com erros do passado e, mais recentemente, com a sociedade aberta como um todo. Foi também nessa época que passou a firmar parcerias com Hollywood, selando as observações de detratores de que seu cinema sempre foi hollywoodiano, provável preconceito com um autor europeu que preza a montagem rápida, a câmera móvel e, ao seu modo, e sob a sua ética, personagens que poderiam ser descritos como heróis.
ÉDEM - No último Festival de Berlim, onde Gavras apresentou Eden a L’Ouest, ele conversou comigo sobre o filme, cronometrado como uma fábula veloz sobre a Europa hoje. Um interessante subtexto do filme é a forma como o personagem principal, Elias, vê-se explorado sexualmente por homens e mulheres.
Gavras comentou: “O imigrante ilegal é extremamente frágil, na França são cerca de 350 mil trabalhadores ilegais, para você ter uma idéia. Com o temor constante de ser deportado para uma realidade que ele ou ela não deseja mais, há uma facilidade de se sujeitar a tudo. Isso está no filme em momentos que exploram precisamente essas situações relacionadas ao sexo, como o homem do resort que o apalpa, ou a mulher alemã que o utiliza sexualmente. São idéias muito específicas escritas por mim e pelo co-roteirista Jean-Claude Grumberg em cenas que teriam como eixo questões que nos afligem como seres humanos.”
Sobre a idéia de manter a nacionalidade do personagem desconhecida, Gavras comenta, “me parece correta da seguinte forma: ao atrelar um fundo político e social a Elias, identificando a sua origem, você automaticamente traz o peso histórico, o drama dessa sua pátria mãe. Eu não queria isso, pois Elias deveria ser visto pelo que ele é, um homem, e não pela sua origem”.
A primeira parte do filme, toda ambientada num clube fechado, sugere uma versão artificial da própria Europa e, em alguns momentos, o espectador talvez acredite que Elias está preso lá.
“É verdade que existia essa idéia de ‘dublar’ uma idéia sonhada de Europa, do ocidente, através do clube fechado durante todo o filme. De qualquer forma, evoluímos no sentido de deixar o resort depois da primeira parte e levar Elias na sua viagem até Paris. A idéia foi abandonada porque, de qualquer forma, esse é um paraíso falso até mesmo para os europeus, pois no resort é possível passar alguns dias, ou uma semana, e onde tudo é caríssimo. É um lugar falso, mesmo se queiramos vê-lo como uma representação da Europa, que é um espaço real.”
Sobre o aspecto passivo do personagem central, Gavras o descreve como uma versão do Cândido, de Voltaire, “um pouco como uma criança que descobre tudo, e é através dessas descobertas que eu mostro as contradições de nossa sociedade”.
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