Saturday, February 6, 2010

Shopping Droids

Venho recebendo emails sobre a série "Shopping Droids. I Said No", no meu http://cinemascopiocannes.blogspot.com/. Não sei de onde vem o desejo de registrar manequins, mas revendo as fotos, me lembrei desse belo episódio da Twilight Zone, feito em 1960, infelizmente apenas em inglês. Tentem ver. Dividido em 3 partes de 8 mins.

Elia Suleiman - O Que Resta do Tempo





Estreou no Brasil O Que Resta do Tempo (The Time That Remains, 2009), o filme que teria sido a minha Palma de Ouro em Cannes 2009. Tinha postado esse trecho de entrevista que fiz com ele em Cannes, vai aqui novamente. É sobre humor e opressão.

É um belíssimo panorama pessoal de uma história recente (a vida na Palestina, territórios ocupados sob o peso de Israel). O cinema feito a partir de um ponto de vista pessoal não tem como ser mais verdadeiro do que este, especialmente se juntarmos esse filme novo ao não menos essencial Intervenção Divina, que Suleiman apresentou em Cannes em 2002.

O toque de Suleiman nos lembra que o humor e a ironia são as maiores armas contra um estado de coisas que nos aflige e nos incomoda. K.M.F

Av. Brasília Formosa


Tita, Gabriel e Clara.


fotos KMF

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Avenida Brasília Formosa, de Gabriel Mascaro, estreou mundialmente no Festival de Roterdã, terça-feira. O filme passou numa tela Imax, onde uma semana antes, Avatar era exibido. A projeção foi linda. É o terceiro longa de Mascaro (KFZ-1348, Um Lugar ao Sol).

Na época do lançamento de Amarelo Manga (2002), comentei que, não obstante a força do filme, a dramaturgia de Cláudio Assis privilegiava as locações de um Recife duro, com personagens populares curiosamente habitados por atores importados do sudeste. Me chamava a atenção os personages reais do povo (que o filme supostamente abraçava) aparecendo sem fala e como figurantes, ali atrás, populando o quadro em desfoque.

Em Avenida Brasília Formosa, temos agora não-atores interpretando eles mesmos, ou, na verdade, sendo registrados nas suas rotinas, em Brasília Teimosa, bairro praieiro da zona sul do Recife. Esses personagens são apresentados a partir de ligeiros desvios ficcionais que seriam insuspeitos, caso o realizador não os apontasse informalmente.

Quase dez anos depois, Av. Brasília Teimosa talvez seja uma resposta digital e leve à dramatização CinemaScope 35mm originalmente vista no 'Manga'.

Curiosamente, o filme, que empresta sua câmera para uma idéia abrangente de "povo" (classe média baixa, iconografia difundida do 'pobre'), vem logo após Um Lugar ao Sol, onde Mascaro dedicou-se a um ataque histórico contra uma noção clássica de burguesia (classe alta, iconografia difundida de 'ricos'). No novo filme, fica clara a delicadeza de um olhar ecumênico, construtivo, de um cinema socializante.

Bem mais interessante do que esse aspecto, há os espaços da cidade, aqui documentados para o presente e para o futuro.

Filme visto no Pathé 5, Roterdã, Jan 2010

Friday, January 29, 2010




O Festival de Roterdã está com uma mostra especial chamada 'Back to The Future', com filmes que, de certa forma, mostraram caminhos para o futuro. Videodrome (1982), do Cronenberg, é um deles, mas hoje eu fui ver 'Disque M Para Matar' (Dial M For Murder, 1953), de Hitchcock, projetado em 35mm 3D! Um projecionista, que acompanha a cópia, foi trazido de Hamburgo.

A sessão põe um pouco as coisas em perspectiva. 57 anos antes de Avatar, o 3D já era uma realidade intrigante. Foi oportunidade rara de ver o filme projetado no formato, com os óculos 'roots' originais (leve tontura durante a projeção, com interrupção de 3 minutos).

'Disque M Para Matar', antes mesmo de ser lançado nos cinemas em 1954, amargou o fim da 'onda' do 3D nos anos 50, fazendo a Warner optar pela versão 2D.

Eu nunca tinha visto o nome 'Alfred Hitchcock' flutuando na minha frente, mais destacado do que o filme, ali atrás. Ele merece a deferência.

Foi muito interessante tentar entender os critérios para destacar elementos específicos de cada cena, sendo o campeão de aparições em alto relevo, um diabo de um abajour na sala/palco.

De qualquer forma, o filme me deu a mão desesperada de Grace Kelly, sendo estrangulada, estendida em nossa direção. Uma idéia tão simples. Nunca vi nada tão dramático como imagem dentro do formato. Dava vontade de pegar naquela mão, simplesmente. K.M.F

Thursday, January 28, 2010

Invictus


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Clint Eastwood, 80 anos incompletos, continua sendo o extraordinário carpinteiro. Sua madeira de lei bem trabalhada faz toda a diferença. Invictus (2009), seu novo filme, é outro exemplar de cinema americano clássico lindamente deslocado no panorama atual. Numa época em que valoriza-se tanto a imagem 3D, eis um filme tridimensional em outros níveis.

Invictus é essencialmente um “filme esportivo” - atletas desacreditados irão conquistar a vitória importante antes do fim, sob música triunfal. A julgar pelos seus últimos filmes, suspeita-se que Eastwood esteja num processo de regressão nostálgica que o leva a fazer os filmes que ele talvez tenha visto quando jovem.

É o cinema do refluxo de sensações clássicas, como sua impressionante produção recente pode ilustrar tão bem (Menina de Ouro, A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, A Troca e Gran Torino). Foram todos realizados depois do seu 70o aniversário.

Em Invictus, Eastwood faz um filme sobre visão política e liderança. Como a própria arte é inevitavelmente política, temos aqui o esporte como projeção de idéias e poder, fruto da experiência de vida, outra constante na obra de Eastwood.

O personagem central é Nelson Mandela, o pacifista sul africano que, depois de 24 anos preso sob a repressão do apartheid, foi eleito presidente. O período histórico é o da dura transição democrática na África do Sul, em 1994.

O roteiro de Anthony Peckham adapta o livro Playing the Enemy: Nelson Mandela and the Game That Made a Nation (Jogando com o Inimigo: Nelson Mandela e o Jogo que Formou uma Nação), escrito por John Carlin.

Como de costume, a narrativa clássica de Eastwood é cristalina, sem qualquer vestígio de frescura. Vejam, por exemplo, a seqüência de abertura, que apresenta o apartheid em alguns belos segundos: garotos brancos jogam rugby num gramado viçoso. Lá longe, garotos negros jogam futebol na poeira. Uma estrada separa os dois campos, e nessa via passa um comboio de veículos levando Nelson Mandela.

Na África do Sul, o rugby, esporte popular nas colônias inglesas, tem a identidade cultural do apartheid por ser “jogo de branco”, dos afrikaners. Mandela irá usar o rugby como objeto de união e cicatrização social. Obviamente, um conceito cinematográfico que não sana os problemas sociais enormes do pais, mas, sem dúvida, um belo pensamento social que pode ter feito um grande bem na vida real.

Mandela chama o capitão da seleção nacional, Pierre Pienaar (Matt Damon), branco, família racista, para uma conversa. Pienaar sai do encontro impactado. Ele energiza sua equipe rumo à Copa do Mundo de rugby de 1995, realizada na própria África do Sul, sob o olhar de Mandela, motor do processo.

Ele também nos alimenta sabiamente com informação sobre um panorama histórico-racial a partir de cenas intimistas. Uma empregada doméstica não é apenas uma figurante muda (ou sorridente) ali no fundo, mas alguém que tem opinião, que se faz ouvir, que marca sua presença.

Os seguranças de Mandela poderiam existir num filme só para eles, personagens essenciais para ilustrar diferenças, ressentimentos e revisões históricas. Misturados racialmente por imposição inteligente de Mandela, são homens (policiais truculentos de formação, dos dois lados do apartheid) cujas expressões de surpresa constante ilustram os caminhos corajosos tomados por um político ganhador do Nobel da Paz. Melhor ainda quando algumas dessas surpresas são nosssas, como espectadores, num filme que ainda arranja espaço para uma cena estranhíssima (no melhor sentido) como a que utiliza um Jumbo 747. De onde veio aquilo?

Com cenário tão bem anunciado, Eastwood nos leva ao tradicional embate final, onde a África do Sul enfrenta a Nova Zelândia. Não é um problema para o espectador não saber nada de rugby, pois é tudo muito bem registrado, em imagem larga organizada com fusões e elipses em brilhante Panavision.

É curioso observar esse cinema de coração enorme feito por Eastwood, sua beleza quase sempre comovente, sua honestidade estética um prazer constante. É a história de uma vitória triunfal que realmente ocorreu na história real, algo que normalmente seria bom demais para ter sido verdade, transformada num filme à altura dessa história.

Filme visto no Plaza Casa Forte, Recife, Janeiro 2010

Nine



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


É sempre algo de triste arranjar o que dizer, seja verbalmente ou em escrita, sobre um filme como Nine (EUA, 2009), o musical de Rob Marshall que estréia hoje. Não é exatamente ruim, mas também não é bom, nem memorável. Há todo um esmero na tela, mas fica a sensação de desperdício.

Para conhecedores da obra de Federico Fellini, especialmente um dos seus filmes mais admirados – 8 ½ (1962) -, o filme abre possibilidades não mais do que frívolas. Da curiosidade mórbida de desvendar o que um produto hollywoodiano do século 21 estaria fazendo com tamanho clássico, à tentativa de enxergar uma homenagem emotiva ao cinema do passado, Nine termina, de fato, inspirando desagradável sensação de “e daí?

8 ½ é uma espécie de tempestade criativa sobre um artista (um cineasta) em crise com ele mesmo, com sua arte e seu mundo. A riqueza do filme vem exatamente das muitas camadas imprevisíveis dessa crise, representação de toda a carga que temos na cabeça quando a vida está confusa. 8 ½ é um filme essencial, sua liberdade interna inspiradora de uma centena de outros filmes desde então.

Em Nine (o número nove em inglês), temos Guido (Daniel Day Lewis, sempre com força), um artista (um cineasta) em crise com ele mesmo. Os limites do filme vêm exatamente da pobreza de espírito da proposta, pois o problema do personagem casado parece resumir-se à sua natureza namoradeira. Não é difícil puxar o cordão e ver que a ponta vai dar no conservadorismo do olhar americano.

Uma outra coisa: o fato de Guido não ter mais nada a dizer como artista permanece apenas uma afirmação vaga, uma linha solta na sinopse.

É um filme americano atual que dá-se o luxo de ter um herói adúltero que fuma muito, e logo suspeitamos que isso só é possível pelo fato de homens italianos terem licença cultural (o clichê) permanente para esse tipo de coisa, e que os cigarros em cena são coisa de europeu. O filme, aliás, foi lançado no mesmo mês de Avatar nos EUA, que gerou celeuma pelo simples fato de a personagem de Sigourney Weaver fumar em cena.

Marshall havia mostrado em Chicago (2002), seu musical anterior (também bancado pelo bom gosto berrante dos irmãos Weinstein), que seus números de dança e cantoria surgem mesmo é na sala de montagem, e não como os grandes clássicos nos mostravam: no estúdio, na frente da câmera, em ângulos abertos, generosos, capazes de deixar o espectador boquiaberto com o balé de corpos soltos.

Talvez o fato de Nine contar com uma coleção formidável de puros sangues femininos para garantir o glamour proposto explique isso. Não é fácil encontrar atrizes classe A hoje que se movimentam como Leslie Caron, Cyd Charisse ou Ginger Rogers se movimentavam no passado. Vejam como em Chicago e em Nine a montagem ajuda bastante a idéia de movimentação. Uma perna grossa levantada aqui, uma rodopiada ali, e o espectador é enganado via cortes e ângulos favoráveis. Muito frustrante para quem conhece o gênero musical.

De qualquer forma, estão lá Kate Hudson, Nicole Kidman, Penélope Cruz, Marion Cotillard e Sophia Loren, com auxílio luxuoso de Judi Dench. É quase sempre interessante anotar suas presenças glamourosas durante o filme, o que nos leva a crer que os Irmãos Weinstein representam uma das últimas centelhas de um modelo de produção que lembra o "studio system" do passado. Investem na realeza tradicional da imagem com um cinema de mercado à moda antiga. Filmaram inclusive nos míticos estúdios romanos da Cinecitta, onde Fellini filmou.

Sobre as mulheres de Nine, vale destacar que Cotillard é a esposa sofrida de Guido, e essa atriz francesa sempre ameaça roubar a atenção dos filmes onde atua. Kidman e Cruz interpretam amantes que representam culturas distintas, ou clichês físico-raciais (Kidman a estrela fria, Cruz a amante latina de sangue quente). Registram como meras caricaturas.

A personagem de Hudson, no entanto, repórter da revista americana Vogue, parece definir Nine como um todo. Linda, toda bem vestida e totalmente oca, aparece à frente de um número musical (picotado) chamado Cinema Italiano. Ela nos dá a chave para o clima geral de ensaio fotográfico de moda retrô que permeia a sessão.

Filme visto na Sala 8 UCI Boa Viagem, Recife, Janeiro 2010

À Procura de Eric


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Assim como em Invictus, de Clint Eastwood, que também estréia hoje, À Procura de Eric (Looking For Eric, Inglaterra/França, 2009), filme de Ken Loach, tenta conciliar a vida a partir da filosofia do esporte, nesse caso o futebol. A pauta de Loach, no entanto, veterano cineasta inglês que sempre voltou-se para um olhar realista e humano, sugere uma fantasia prazerosa que dá um olhar bem humorado à idéia de fanatismo. É narrada com enorme simpatia e um senso de romantismo surpreendente.

A ficha corrida de serviços prestados ao cinema inglês por Loach é longa. Seu primeiro filme foi o grande Kes (1969), lançado em DVD recentemente no país, e há quatro anos ganhou a Palma de Ouro por Ventos da Liberdade (The Wind That Shakes the Barley). Loach também adora futebol.

O esporte sempre se infiltra nos seus filmes, normalmente com muito senso de humor. É de Loach um dos melhores curtas da compilação Cada Um Com Seu Cinema (2007), organizada pelo Festival de Cannes. Ali, um pai leva o filho ao multiplex para ver um filme. Na fila, percebem que só tem porcaria passando e decidem felizes trocar o programa por uma pelada.

Em A Procura de Eric (que esteve na seleção oficial de Cannes ano passado, onde foi aplaudido em cena aberta), o personagem principal (Steve Evets, caba simpático) é um carteiro, homem doce. Seu fanatismo, do tipo mais estridente, é pelo futebol (torce pelo Manchester United). No nível mais íntimo, exerce um outro tipo de fanatismo, do tipo amoroso, com um saudosismo paralisante pelo seu primeiro grande amor, Lily (Stephanie Bishop).

Eric abandonou Lily durante uma crise existencial da juventude, relacionada ao choque de ser pai tão jovem. Flashbacks nos mostram o jovem Eric para entendermos o quarentão gente finíssima que não está nada bem com os caminhos da sua vida, refletida na sua própria casa, uma bagunça de filhos e enteados desocupados, jogando videogame.

Talvez do puro desespero, entra na história um mentor espiritual para Eric, o ídolo já aposentado do Manchester United e craque francês Eric Cantona (ele mesmo, numa atuação tranquilíssima). A aparição de Cantona é o provável fruto de uma mente masculina carente de auto estima e de um norte emocional, estimulada por referências projetadas e nuvens de maconha queimada.

A partir daí, o título À Procura de Eric ganha interpretação dúbia, uma vez que os dois Erics passam a ser necessários, especialmente o Eric carteiro, que precisa se achar. Ele passará por processo de recuperação gradual de Lily, uma mulher doce como ele, enquanto administra o trabalho e as tensões (muito engraçadas) na torcida.

Vendo Eric e seus amigos exercendo sua doença pelo Manchester, lembramos de uma passagem de Invictus, onde alguém afirma que “futebol é um jogo de cavalheiros assistido por hooligans, enquanto o rugby é um jogo de hooligans assistido por cavalheiros”.

Loach é claramente o cavalheiro nessa história. Filma Londres com sol e claridade (a exemplo de Simplesmente Feliz, de Mike Leigh, o que está acontecendo com os cinzentos ingleses?) e passa a impressão de que ele está de bem com a vida. À Procura de Eric é generoso.

Filme visto na sala Lumiere, Cannes, Maio 2010

Saturday, January 23, 2010

Joe Dante Queima Cinema





Revi Gremlins (1984) em blu-ray. Memórias afetivas dos anos 80 superadas pelo filme em si. Admiro Joe Dante e sua anarquia. O filme me pareceu ainda mais dodói do que na época, pois é um produto de encaixe difícil na prateleira do mercado.

Mas uma coisa me chamou a atenção, a sequência da destruição do cinema lotado de gremlins. Quentin Tarantino, em Bastardos Inglórios, faz, essencialmente, a mesma coisa, 25 anos depois. Não trata-se de cópia, mas de dois realizadores que querem filmar numa sala de cinema, na cabine de projeção, atrás da tela, no hall de entrada. Eles adoram isso, e querem estar lá, mesmo que para explodir a coisa toda. K.M.F

Friday, January 22, 2010

Cinema São Luiz


Vistos no São Luiz, se a memória não me falhe.

Festival Tom & Jerry (1973)
Quem Não Corre Voa (1982)
Duro de Matar 2 (1990)
Dança Com Lobos (1991)
Robocop (1987)
O Siciliano (1988)
9 1/2 Weeks (1987)
Sem Saída (No Way Out, 1988)
Knight Moves (1992)
Ricochet (1991)
La Femme Nikita (1991)
As Sete Vampiras (1987)
Os Saltimbancos Trapalhões (1982)
Orca a Baleia Assassina (1978)
Herança Nuclear (Damnation Alley, 1978)
O Dia em que o Mundo Acabou (When Time Ran Out, 1981)
Village of the Damned (1995)
Wall Street (1987)
Star Trek - First Contact (1996)
Star Wars (1980)
Star Wars - Special Edition (1997)
U2 Rattle and Rum (1989)
Um Céu de Estrelas (1997)
Beetlejuice (1988)
Betty Blue (1987)
Os Guarda-Chuvas do Amor (1998)
Casablanca (1998)
O Fugitivo (1993)
Baile Perfumado (1997)
Jurassic Park (1993)
Spaceballs (1987)
A Menina do Lado (1987)
Faca de Dois Gumes (1988)
Jesus de Narazé Parte 2 (1978)
Hulk (2003)
O Cangaceiro (1997)
A Mosca (1987)
Crocodilo Dundee (1987)
Crocodilo Dundee II (1989)
O Cinderelo Trapalhão (1979)
O Império Contra-Ataca (1997)
A Lista de Schindler (1994)
O Império do Sol (1988)
Running Scared (1987)
Ruthless People (1987)
Down and Out in Beverly Hills (1987)
Viagem Insólita (Innerspace, 1988)
Copycat (1995)
A Insustentável Leveza do Ser (1990)
A Rainha Margot (1995)
007 The Living Daylights (1987)
Biloxi Blues (1988)
Re-Animator (1988)
Goldeneye (1995)
Eu (1987)
The Jackal (1995)
Uno Sceriffo Extraterrestre - poco extra e molto terrestre (1981)
Banana Split (1987)
O Pequeno Lorde (1981)
O Trapalhão no Planalto dos Macacos (1976)
O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão (1978)
Daredevil (2003)
A Paixão de Cristo (2004)
Titanic (1998)
Pulp Fiction (1995)
O Último Boyscout (1992)

...

Thursday, January 21, 2010

RECIFE FRIO em Tiradentes e Roterdã


Recife Frio, a curiosa ficção científica dirigida por mim, passa esta semana em dois festivais importantes. No Brasil, nas Minas Gerais, no Festival de Tiradentes. Exibe quarta, 27 de janeiro, às 21h, na Praça.

Na Holanda, o filme exibe (na sua primeira cópia legendada em inglês) no Festival de Roterdã, na seleção Spectrum. .

Recife Frio estreou em Brasília, em novembro, onde ganhou 7 prêmios (Melhor Filme do Público, Melhor Filme da Crítica, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Prêmio Canal Brasil, Prêmio Saruê de Melhor Momento do Festival, Prêmio Vagalume).

No Festival Luso Brasileiro de Santa Maria da Feira, Recife Frio ganhou Melhor Filme (júri) e Melhor Filme (público).

O filme foi feito com grana da Petrobras. Eu completei o pouco que faltou.

GRIZZLY COP ('Bad Lieutenant'), de Herzog


Eu estava achando tudo muito estranho em Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans (Vício Frenético), segundo Werner Herzog, até que me vi rastejando ao lado de um jacaré, o observador escondido de uma cena que acabara de acontecer. A partir daí, relaxei, e adorei o filme.

Vício Frenético não foi muito bem nos cinemas brasileiros, esta semana já perdeu muitas das suas salas. Ou seja, priorizem-no, tentem ver. K.M.F

Up in the Air


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Texto originalmente publicado no Jornal do Commercio

O movimento por esforço repetido de ver tanta comédia romântica do inferno, filmes de horror adolescentes e adaptações genéricas de super heróis, nos leva a admirar obras mais sensatas sobre gente, como Amor Sem Escalas (Up in the Air, EUA, 2009). O filme de Jason Reitman (Juno) não deveria ser uma raridade, mas é. Os personagens e as situações são de interesse, o tom é crítico, mas sem julgamentos.

O filme é uma das possibilidades da atual temporada de Oscar. No último domingo, ganhou o Globo de Ouro de Melhor Roteiro Adaptado. É uma obra interessante, mesmo com a já muito aguardada queda final, certeza matemática nos filmes bem intencionados de Hollywood.

O interesse do filme é exatamente contrapor noções básicas de humanidade e o sistema vigente (desumano) que faz a sociedade existir. É um grande tema, fértil desde Tempos Modernos (1936), de Chaplin, e presente também com grande força no recente filme romeno Policial Adjetivo (2009), de Corneliu Porumboiu.

O personagem central de Amor Sem Escalas chama-se Ryan (George Clooney), um executivo. Ryan é um aprofundamento do homem moderno de Clube da Luta (1999), adepto de refeições e amigos descartáveis.

Portador de todo tipo de cartão diamante da American Airlines, Hertz, Rent a Car, hotéis e VIP lounges, Ryan é um expert da viagem, sua mala de rodinha um primor de organização. O terno também cai super bem em Clooney.

O trabalho de Ryan beira o fúnebre. Viaja pelo país demitindo funcionários de grandes empresas, homens e mulheres jovens ou de meia idade, alguns quase aposentados, que ouvem da sua conversa estudada a novidade: estão na rua.

Esse quarentão não quer ter uma casa (seu ap é um cubículo estéril e branco), esposa ou filhos, e sente-se à vontade nas dezenas de aeroportos americanos. Desde Prenda-me Se For Capaz (Catch Me If You Can, 2002), de Steven Spielberg, que o fascinante (e deprimente) mundo dos aeroportos não era filmado tão intimamente.

Entra na história Natalie (Anna Kendrick), uma dessas jovens profissionais recém formadas, com tailleurzinho padrão, cabelo preso e linguagem corporal de andróide. É o tipo de funcionário gerado pelo mercado, já visível no Brasil via globalização. Natalie parece cria daquela última palavra nesse tipo de gente, a garota de Eleição (1999), de Alexander Payne.

Para a alegria do chefe dela e de Ryan (Jason Bateman), ela propõe um sistema revolucionário de teleconferência via net que irá economizar dinheiro em passagens e hotéis. É a demissão à distancia, com webcams.

Ryan ainda acredita no golpe de misericórdia ao vivo, frente à frente. É um humanista, muito embora o seu discurso ensaiado tenha pouco do que normalmente acharíamos humano. Talvez ele queira mesmo é continuar viajando.

O filme desdobra-se numa série de viagens que Ryan faz com Natalie para mostrar-lhe a realidade do trabalho. Natalie, oca, sem experiências de vida, revela-se personagem interessante o suficiente para abrir os olhos, aos poucos.

Há também um caso de Ryan na pessoa de Alex (Vera Farmiga, figura), sua alma gêmea no mundo dos aeroportos, a personagem mais intrigante do filme. Diferente de Ryan, ela parece viver pelo menos três vidas, paralelamente. Lamentavelmente, uma revelação sobre Alex é uma asneira narrativa como execução que permanece um mistério para esse espectador de como ainda está no filme.

Mesmo assim, há coisas melhores. A cena em que os três, no enfado de uma noite de semana, em algum hotel distante, entram de penetras numa festa de empresas de TI é o tipo de detalhe que dá ao filme seu diferencial. A desculpa dos dois mais velhos para a (inicialmente) horrorizada Natalie revela muito sobre a sociedade hoje: “são empresas de tecnologia, eles têm muita grana...”

Dotado de uma abertura linda, que transmite o estado de espírito do personagem (e de qualquer um que viaja muito de avião), Amor Sem Escalas dirige-se para um final dúbio que sugere manipulação e medo de desagradar o público. Antes das palavras finais fieis à tristeza de Ryan, uma montagem aparentemente sapecada de última hora ressalta (para o público médio) a importância da família e de estar casado, a maior nota errada de um filme, em grande parte, honesto.

Filme visto no Plaza Casa Forte, Recife, Janeiro 2010

Cheri


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Cheri (Inglaterra/França/Alemanha, 2009), dirigido pelo sempre afiado Stephen Frears, e com Michelle Pfeiffer, é uma diversão aparentemente passageira dotada de alguns prazeres. Vem com um ferrão emotivo ao final. Frears, mesmo assim, evita habilmente as questões mais simplistas do dramalhão.

No último Festival de Berlim, há quase um ano, Cheri passou em competição, mostrando-se um filme de apelo popular sobre os meandros da paixão e das classes sociais, na Paris da Belle Époque.

Foi, no entanto, mal tratado pela crítica, especialmente entre ingleses e franceses, revelando a histórica rivalidade entre as duas partes. A grosso modo, os franceses acharam deplorável o tom britânico em cima de história tão francesa. Os ingleses não entenderam o filme, cuja carga é inevitavelmente gaulesa. Isso, claro, é curioso, mas Cheri nos pareceu bem distante do ruim.

Cheri não é a personagem de Pfeiffer, que chama-se Lea, uma cortesã, mas o apelido do seu amante mais amado (o ator inglês Rupert Friend). Cheri é um rapaz mimado que ela pôs no colo quando criança, mas que agora a põe no colo já crescido. Ele é filho de uma outra cortesã, já aposentada, a cobra cascavel Madame Peloux (Kathy Bates, ótima).

O conceito de cortesã, e algumas das peculiaridades sociais que acompanham esse status na época, é algo que o filme encarrega-se de explicar muito bem na voz do próprio Frears, também narrador de tom alegremente sarcástico (extremamente britânico, aliás).

Já na casa dos 50, Lea quer recolher-se com dignidade, com o pé de meia conquistado ao longo de três décadas de cama. Foi a amante bem sustentada por uma série de homens importantes cujas relações com ela eram segredos que todos sabiam na alta roda de Paris.

Sem nunca ter se rendido ao amor, Lea percebe que está falhando ao ver-se cada vez mais carente sem a presença de Cheri, personagem quase sempre insuportável e de notável crueldade e insensatez. O grande desafio de Lea é lidar com o casamento de Cheri com Edmee (Felicity Jones), jovem socialite, outra cria da casta cortesã.

Aspecto importante do filme é a necessidade de esconder emoções e nunca perder a classe (o popular rebolado) nesse mundo feminino das cortesãs, onde o poder sexual associado à mulher bela é a sua arma mais eficaz. É algo que Pfeiffer já transmitiu com muita força no excelente A Época da Inocência (The Age of Innocence, 1993), um dos filmes menos festejados de Martin Scorsese. Ali, ela também interpretava uma mulher clássica, lidando com as etiquetas dos sentimentos.

Importante lembrar que Pfeiffer trabalhou exatamente 20 anos antes com Frears numa outra adaptação britânica de escritos franceses, Ligações Perigosas (Les Liaisons Dangereuses, de Pierre de Choderlos de Laclos), um filme ainda melhor. Ela deleita-se com o texto rápido e ácido adaptado por Christopher Hampton (também roteirista de Ligações Perigosas), a partir dos escritos de Colette.

Vendo Pfeiffer em Cheri, não é difícil pensar como a trajetória dela, como atriz, espelha algo da cortesã que interpreta. Sob os serviços de Hollywood já há 30 anos, ela chega aos 51 num ritmo bem menor, os bons papéis já escassos.

A indústria teme a idade das suas estrelas e só investe na beleza jovem, sempre. Tudo isso foi tão bem colocado por Billy Wilder em Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1951), e, vez ou outra, vemos isso acontecendo na nossa frente, na própria tela do cinema.

Filme visto no Berlinale Palast, Berlim, Fevereiro 2009

Coco Antes de Chanel


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Texto originalmente publicado no Jornal do Commercio

Ano passado, dois projetos rivais foram lançados enfocando a figura da estilista francesa Coco Chanel. O filme de encerramento do Festival de Cannes, Coco & Stravinsky, dirigido por Jan Kounen, e o outro Coco Antes de Chanel (Coco Avant Chanel, França), de Anne Fontaine, o mais insosso dos dois. De qualquer forma, esse segundo filme tem o valor agregado de ter a estrela Audrey Tatou (Amélie Poulain), atualmente o rosto das publicidades Chanel No.5 no mundo.

O filme segue a linha de biofilmes que interessam ao mercado. Há três anos, o cinema francês fez o muito bom Piaf, sobre a cantora, Hollywood, ano passado nos deu o ótimo Milk, de Gus Van Sant, sobre o político de São Francisco Harvey Milk, e o cinema Brasileiro nos dá atualmente a novela das seis de apenas um capítulo Lula – O Filho do Brasil. Para completar, essa semana estreou na França Serge Gainsbourg, Vie Héroïque, a biografia dramatizada do astro pop francês Gainsbourg.

Coco Chanel é uma personagem que parece inspirar enorme curiosidade, material certo para esse tipo de produto. É enigmática, uma artista nata, glamourosa, feminista antes do termo existir, amante de homens importantes, inclusive, durante a guerra, de um oficial nazista, fato ignorado por esses dois filmes.

Em Coco Antes de Chanel, o enfoque vai meio que ao pé da letra, mostrando a garota que existia antes do mito criador de estilos e modas, mas já nos mostrando pistas. Curiosamente, esse filme termina mais ou menos onde Coco & Stravinsky (que aguarda lançamento no Brasil) começa, na época da I Guerra.

Tatou certamente tem a presença e os nervos para nos dar um retrato bem orgânico de Chanel. Fica linda com um cigarro no bico, cara de desdém por quase tudo, revelando paixão em pequenas atitudes e ações. E como fotografa bem essa garota.

As intenções de Fontaine, no entanto, parecem deixar o filme duro como uma tabica, monocórdio, com ar constante de um ensaio de moda filmado. Nos mostra a pequena Coco desde a infância, no caso dela num orfanato. Mais tarde, ganha uns trocados em cabarés de segunda categoria de Paris, onde sua capacidade de atrair homens poderosos é inaugurada.

Atrai um bon vivant chamado Étienne Balsan (Benoît Poelvoorde), que a adota como amiga, amante e mulher, sempre sem qualquer noção de possessão envolvida. Essa ética interessante bate com o outro lançamento da semana, Cheri, de Stephen Frears, embora Coco não seja, tecnicamente, uma cortesã.

Mesmo não sendo, Étienne a “empresta” para um amigo, Arthur 'Boy' Capel (Alessandro Nivola), o primeiro grande amor de Chanel. Esse inglês, também bon vivant, será o interesse amoroso do filme, para a discreta e civilizada dor de Étienne.

É um filme raso na sua capacidade básica de ser previsível e também assistível, apelando para um encerramento que parece trair o título em troca de uma celebração do mito da moda e da alta costura. Parece menos sobre substância, e mais sobre aparência, a acusação lógica e tradicional para todas as coisas fashion.

Filme visto no Arteplex Botafogo, Rio de Janeiro, Novembro 2009

Tuesday, January 19, 2010

Globos de Ouro


Avatar ganhou dois Globos.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Texto originalmente publicado no Jornal do Commercio

O apresentador inglês Ricky Gervais (da série The Office) chamado para animar a 67a edição do Globo de Ouro, pré-arremedo do Oscar, domingo à noite, enquadrou cerimônia tão frívola: “Tanta gente famosa para celebrar os melhores trabalhos do ano feitos... pela cirurgia plástica!”. A piada parece definir bem o grande vencedor da noite, Avatar, de James Cameron, rei do mundo em Titanic, agora o rei de Pandora.

A piada explica também os caminhos da premiação, resultado, ao que parece, do reconhecimento do tamanho da carteira dos ganhadores. Tudo isso na semana que viu o terremoto no Haiti colocar a realidade paralela do glamour em perspectiva, algo que talvez explique o porquê de imagens de George Clooney na mesa do seu filme Amor Sem Escalas o mostrarem de cabeça baixa, talvez constrangido de ali estar. Clooney prepara (nesta sexta) um especial na TV americana que irá arrecadar dinheiro para o Haiti.

E frívola é uma palavra que apenas começa a descrever a distribuição de prêmios da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, formada por jornalistas apaixonados pelo glamour do cinema, e, ao que parece já há anos, não tanto pelo cinema em si. Nos pareceu o bobo de ouro.

Avatar, que aproxima-se dos 500 milhões de dólares somente nas bilheterias americanas, levou melhor Filme e Melhor Diretor. Cameron, em formato pateta, balbuciou palavras no dialeto imaginário do seu filme e propôs salva de palmas para todos no recinto, “pois temos o melhor emprego do mundo, vamos lá!”.

O grande perdedor na categoria drama (filme e direção), nesse sentido, foi Guerra ao Terror (The Hurt Locker), de Kathryn Bigelow, por acaso, ex-esposa de Cameron. Mundo pequeno. Na categoria comedia ou musical, pegaram também o maior bolão do último ano fiscal, Se Beber Não Case, filme coqueluche nos EUA.

Isso desbancou Nine, a grande aposta dos irmãos Weinstein, ex-reis de Hollywood via Miramax, agora se levantando aos poucos de uma fase ruim. Com nove indicações para dois dos seus filmes (Nine e Bastardos Inglórios), talvez ainda não tenham saído da má fase, só converteram uma, melhor ator-coadjuvante para Christoph Waltz, por Bastardos. Waltz, uma pena, fez discurso constrangedor, uma tentativa de poesia sobre como o Globo entrou no seu universo e Tarantin... anyway.

Outra derrota chocante foi a de Quentin Tarantino, cujo roteiro para Bastardos Inglórios é claramente a melhor coisa em Hollywood nesse e em outros anos. Prêmio foi para Jason Reitman, por Amor Sem Escalas, que estréia sexta-feira. “Ainda estou esperando ouvir seu nome, Quentin...”, disse Reitman já no palco.

Merryl Streep, grande atriz que, já madura e querendo apenas se divertir, ganha prêmio até por ir ao supermercado. Levou um globo pela leve porcaria que é Julie & Julia, sem falar que competia com ela mesma em outra comédia, Simplesmente Complicado. Mencionou elegantemente o Haiti, sem falar exatamente do Haiti.

Robert Downey Jr, figura impagável, sem dúvida, ganhou ator de Comédia pelo tipo de filme de multiplex que, num mundo perfeito, não ganha prêmio de nada: Sherlock Holmes.

Sandra Bullock foi recompensada com um globo pela maior bilheteria da sua carreira por O Lado Cego e Jeff Bridges, um grande sujeito sempre sub-apreciado, foi o escolhido por Coração Louco. Tive estranha sensação de que não era Bridges que subia no palco, mas The Dude (ou El Duderino).

Paul McCartney anunciou que Up, da Pixar, foi o vencedor em animação, lembrando que o gênero não é restrito ao público infantil, “mas também é querido por adultos que se drogam”. Filme estrangeiro foi para o autor europeu Michael Haneke, ganhador da Palma de Ouro em Cannes, por A Fita Branca, cuja vitória no Oscar já é certa, anote aí.

Martin Scorsese, homenageado da noite, quebrou o clima de frivolidade falando sobre cinema da maneira que só ele sabe. Rápida, decente e profundamente. Foi apresentado por Leonardo DiCaprio e Robert de Niro, esse último, comicamente (e estranhamente) sugeriu que Scorsese ama tanto o cinema que possivelmente imagens no You Tube mostrem ele trepando com filmes 35mm. Hm...

O Homem Que Engarrafava Nuvens


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Texto originalmente publicado no Jornal do Commercio

O trailer de O Homem Que Engarrafava Nuvens (Brasil/EUA, 2009) anuncia o retrato de alguém que ficou na sombra de um outro alguém. Parece buscar uma certa identidade perdida do artista que foi Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga. É um filme sobre autoria, na tela e fora dela, mostrando-se ainda mais rico por ser fruto de um cineasta autoral como Lírio Ferreira, energizado por Denise Dumont, filha do personagem foco e produtora do filme.

Desse curioso embate, surge um exemplar diferenciado num gênero que tem se revelado vedete do atual cinema brasileiro, o « documentário musical » de pequeno porte que tem rendido resultados positivos nas bilheterias. Positivos o suficiente para que a Rio Filme, distribuidora de filmes brasileiros, tenha adotado orientação recente de buscar exatamente esse tipo de filme como prioridade. Essa, claro, é uma outra discussão.

O Homem Que Engarrafava Nuvens, no entanto, parece superar algumas vezes o simples rótulo de mercado « documentário musical », um pouco como Lírio Ferreira fizera (ao lado de Hilton Lacerda) com o ensaio de imagem e som que foi Cartola (2005), sucesso notável no gênero.

Em primeiro lugar, temos um realizador totalmente apaixonado pela imagem de arquivo, aqui usada como prova de vida, e não apenas como documento ilustrativo. Essa vida encontrada no passado nos apresenta uma montagem moderna que reforça não apenas o personagem, mas o filme em si. Esse aspecto da montagem do arquivo já era percebido em Baile Perfumado (1996), que Ferreira dirigiu ao lado de Paulo Caldas, e, principalmente, em Cartola.

Esse efeito duradouro do passado é percebido não só na construção de um histórico vivo no filme, mas, claro, na obra de Teixeira em si, cantada por muitos, dentro e fora do Brasil, numa exportação natural de melodias que passam por Carmen Miranda em filmes da Fox dos anos 40 a David Byrne, na Nova York pós-11 de Setembro.

Temos ainda um outro lado muito rico para esse filme, com a mão e os pés da produtora e filha. A investigação pessoal de Dumont, na frente da câmera, às vezes. O que poderia passar como uma jornada em torno do seu próprio umbigo, revela-se uma busca pelo cordão umbilical cortado entre ela e o próprio pai.

Suas descobertas, com destaque para um depoimento duro da sua mãe, dão ao filme aspecto pessoal extra, marcado por aquele tipo de obsessão que é tão importante em obras verdadeiras.

No cinema, cada um escolhe o seu, mas da obra sempre verdadeira oferecida por Lírio Ferreira até agora, O Homem Que Engarrafava Nuvens talvez seja o seu melhor filme. Tem energia, amor pelas imagens e sons, do passado e do hoje, e nos apresenta o retrato de um personagem perfeito para abordagem. Alguém que lhe surpreende, como o filme em si.

Filme visto no Palácio 1, Festival do Rio, setembro 2008

Cinema São Luiz (Recife) Reabre




por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Texto originalmente publicado no Jornal do Commercio

O Cinema São Luiz reabre suas portas a partir de hoje. Nos próximos dias, o palácio de filmes da Rua da Aurora, inaugurado em 1952 e fechado pelo Grupo Severiano Ribeiro para a programação comercial em 2006, estará passando por testes numa espécie de 'soft opening'. De hoje a sexta, exibe dois filmes pernambucanos por dia, em regime especial de entrada franca. Fica também definido, a partir de agora, que o programador do São Luiz, na sua nova fase, é Geraldo Pinho, integrante do quadro da Fundarpe e que tem vasta e feliz experiência como programador do Cinema do Parque nos anos 90.

Isso significa que Lula Cardoso Ayres Filho, força essencial no trabalho de restauração da sala, mas que passou a discordar de alguns dos caminhos tomados pela Fundarpe - Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco em relação ao perfil de programação, não terá mais a função de programador. Uma fonte de dentro da Fundarpe comentou ontem que, "de fato, não há mais clima, embora o contrato de Lula vá até fevereiro".

Pode-se dizer que a recíproca também é verdadeira em relação à própria Fundarpe. Nas últimas semanas que viram a reabertura oficial do cinema, dia 29 de dezembro, palavras duras foram trocadas entre as duas partes.

A reportagem falou ontem com Geraldo Pinho. Curiosamente, ele nos informou que ainda não teve nenhuma comunicação oficial de que a programação estará sob sua responsabilidade. Ele disse ter atendido pedido de Luciana Azevedo, presidente da Fundarpe, que acompanhasse a rotina do cinema nessa fase pré-abertura, sua estrutura e aspectos técnicos.

Por ter estado fora do Recife em dezembro, Pinho ainda não viu a nova projeção e som funcionando. Informou que o problema elétrico que ameaçou a noite oficial de reabertura (solucionado com geradores) foi resolvido. Sobre o trabalho de restauração creditado a Lula Cardoso Ayres, Pinho afirmou que "o São Luiz precisava de alguém que tivesse relação de amor com o cinema, como ele".

Pinho também adiantou que, depois de uma reunião recente, a Fundarpe já não trabalhará mais com a possibilidade de ter uma comissão curatorial para programar o novo São Luiz, ficando esse conselho responsável por uma troca de idéias produtiva que irá sugerir caminhos a serem tomados pelo espaço. Rodrigo Coutinho, assessor de imprensa da Fundarpe, por outro lado, confirma que a programação estará sob a responsabilidade de Pinho, mas com o auxílio da comissão.

O Governo de Pernambuco vem fazendo trabalho inédito e já histórico de apoio ao áudiovisual no estado em quase todas as frentes (a última fronteira a ser conquistada é a preservação do cinema pernambucano como arquivo). A restauração e reabertura do São Luiz é um projeto belíssimo, mas que, a partir de agora, precisa de um trabalho orgânico e de sintonia fina.

Pinho nos disse que, "caso seu nome seja confirmado, ele entende bem o tamanho do desafio que é programar o São Luiz, e que irá assumir o desafio de frente, mas sem ilusões".

Além disso, Recife precisa de mais uma sala competitiva, aberta para o mundo, que ajude o circuito a ser menos limitado na oferta de filmes. Com 44 salas comerciais exibindo Hollywood (Avatar estreou em 19) e apenas quatro cinemas (Rosa e Silva, Fundação, Parque e Apolo) tentando dar conta de filmes que não seriam lançados na cidade de outra forma, a tela do São Luiz é essencial para estimular a diversidade e mostrar que o cinema é mais amplo do que o pobre circuito pernambucano nos leva a crer.

Gigante


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Texto originalmente publicado no Jornal do Commercio

Com o mundo do cinema dividido entre os produtos do mercado internacional, via Hollywood, e os filmes menores, feitos fora desse esquema, percebe-se algo de curioso nas trincheiras dessa produção independente internacional, na qual os filmes brasileiros fazem cada vez mais parte. O simpático filme uruguaio Gigante (2009), filme de Adrián Biniez, talvez seja um exemplo.

Logo nos créditos de abertura, assusta o número de fundos internacionais de apoio e oficinas de roteiro de consultores estrangeiros pelas quais o filme passou na sua construção. Teme-se que o que veremos levou tanta tapa, pitaco e sacolejo que, quem sabe, o resultado final mostre isso negativamente. De certa forma, é mais ou menos o que se confirma ao longo da projeção.

Gigante se passa numa periferia de Montevidéu. Os dois personagens são Jara (Horacio Camandule) e Julia (Leonor Svarcas). Ele é um tipo alto e forte (gordo), o segurança do supermercado onde Julia trabalha como faxineira. Ela é uma mulher atraente, aparentemente solteira e solitária. É o clássico mito de bela e fera.

Jara é construído como um ogro de coração de mel, metaleiro pacifista que, se a coisa apertar, quebrará a cara de alguém. Ele sente-se atraído por Julia, mas é tímido demais para chegar perto, especialmente quando tem ao seu dispor o sistema de vigilância eletrônica do supermercado, que passa a utilizar como mecanismo de sua paixão platônica.

Dando um passo alem, passa a seguir Julia fora do trabalho, e logo alguns poderão lembrar de Não Amarás (1988), de Krzysztof Kieslowski, embora as ambigüidades do filme polonês nunca realmente se concretizem nesse aqui.

Na verdade, chama a atenção que Gigante seja um filme que segue uma linha reta simpática totalmente pré-programada, sem surpresas, desvios ou picos de interesse. Há um humor robótico à vista que, com enorme boa vontade, poderia lembrar Buster Keaton, mas sem qualquer traço de sarcasmo ou acidez em relação às relações humanas ou a vida numa sociedade vigiada e globalizada (o supermercado, por exemplo).

Especialmente rumo ao final, o filme revela que sua intenção era ser, desde o início, um relato lacônico de tom fofinho, e que deixa muito pouco para o espectador no sentido de uma lembrança. Suspeita-se que intenções originais tomaram o rumo do agrado superficial, algo que pode levar o filme a ser desfrutado por alguns.

Gigante esteve na competição do Festival de Berlim, ano passado, onde ganhou o Urso de Prata e Melhor Filme de estreante.

Filme visto no Berlinale Palast, Berlim, Fevereiro 2009

Sherlock Holmes


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Texto originalmente publicado no Jornal do Commercio

Logo no início de Sherlock Holmes (EUA/Ing, 2009), nos lembramos do termo ‘superstar’, atualmente ilustrado por gente como Johnnie Depp e Robert Downey Jr. Não são atores que preparam-se para fazer filmes, mas são os filmes que encaixam-se neles. Downey Jr, por exemplo, nos oferece um novo Sherlock para esta reinterpretação dos escritos de Arthur Conan Doyle. Os resultados, ligeiramente divertidos, mas esbaforidos, deixam Downey intacto.

Ele empresta ao filme seu estilo cínico, que sugere um alegre bafo de álcool, como já fizera no divertido Homem de Ferro (o II será lançado em alguns meses). Sua presença nesse Sherlock Holmes certamente explica as bilheterias nas alturas que o filme vem tendo nos cinemas do mundo.

O filme é dirigido por Guy Ritchie, cineasta surgido nos anos 90 com uma série irritante de filmes ingleses sobre gangsteres - Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998), Snatch (2000) e, recentemente, Rock’n’rolla (2008).

Espertinhos, ansiosos na montagem e na câmera, sempre misturando atos pretensamente humorísticos de violência, o cinema de Ritchie encaixa-se na melancólica estante dedicada aos sub-Tarantinos. Foi também casado com Madonna.

Esse Sherlock Holmes, pelo menos, livra Ritchie da triste sina de ser sub-QT para transformar-se em apenas mais um administrador contratado de cenas de ação do moderno cinema de mercado. Seu trabalho, ao que parece, poderia ter sido feito por um software desenvolvido para cuspir filmes de multiplex. Sorte dele ter Downey Jr. na frente da câmera.

Ação, aliás, é o que chama a atenção. Até agora, Sherlock Holmes era um homem de meia idade, nos livros e adaptações para o cinema, um adepto do raciocínio. Na talvez melhor encarnação de Holmes no cinema – The Seven Percent Solution (1976), de Herbert Ross – o amigo Watson ajudava Holmes a superar seu vício por cocaína com a ajuda de Sigmund Freud. O filme parecia interessado no personagem, que é e sempre foi ótimo.

Nos escritos de Arthur Conan Doyle, há menção de que Holmes seria bom de briga e hábil na esgrima, mas há pouca ação nesse sentido. Não nessa versão moderna, que pega pela palavra o aspecto ‘bom de briga’ de Sherlock.

O produtor aqui é o Mr-pipoco por excelência, Joel Silver. Produziu Comando Para Matar (1985), Duro de Matar (1988), Máquinas Mortíferas e os Matrix. Com Guy Ritchie na direção, a Londres do final do século 19 vira cenário para um pouco de trama pontuada a cada 10 minutos por uma briga/perseguição/explosão. Inicialmente o filme promete, mas depois percebemos que a diversão se dilui no cansaço geral, um pouco como num filme pornográfico com historinha.

A trama lembra a última grande adaptação de Holmes para o cinema, o muito simpático O Enigma da Pirâmide (Young Sherlock Holmes, 1985), de Barry Levinson, que adolescentes dos anos 80 devem lembrar com certo carinho.

Esse novo Sherlock Holmes também tem na maçonaria londrina o seu antro de vilania, e um mistério que finalmente intriga o detetive. Lord Blackwood (Mark Strong) é um louco pelo poder que dribla a forca depois de ser julgado culpado pela morte de mulheres num ritual de bruxaria. Declarado morto pelo médico John Watson (Jude Law), o caso vira questão de honra para Sherlock e seu amigo, ridicularizado por um defunto que não morreu.

O inglês Law faz a versão irritada de Watson, e tem presença forte no filme. Está sempre questionando Holmes, que humilhou a noiva de Watson com seus poderes de observação que, embora corretos, não captam histórias completas.

Vibrações homo entre os dois continuam possíveis para espectadores interessados, mas não parece ser o desejo desse filme. Rachel Macadams é trazida para apimentar a vida amorosa do detetive com missão misteriosa.

De qualquer forma, é curioso perceber que, no cinema contemporâneo, uma nova interpretação de Sherlock Holmes usa o seu raciocínio clássico para, principalmente, quebrar a cara dos outros, a imagem assinatura do filme, várias vezes.

Nu da cintura pra cima e de punhos cerrados, o nosso detetive reflete sobre quantas costelas irá fraturar no inimigo, como irá deslocar sua mandíbula e sobre as chances de o fígado doer mais, ou menos. Se fosse uma piada, seria engraçado, mas é o verdadeiro estado de espírito dos produtos de mercado hoje. Esperemos agora um Hercule Poirot super bombadão.

Filme visto com projeção escura na sala 1 do UCI Boa Viagem, Recife, Janeiro 2010.

Avatar


"Bom esse seu render!"

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Texto originalmente publicado no Jornal do Commercio.

Quando eu saí de Avatar (EUA, 2009), ficou sensação estranha de que a maior revolução do cinema é, na verdade, o equivalente a pinturas infantis borradas a dedo, feitas com uma nova eTinta que todos querem comprar. James Cameron levou mais de dez anos desenvolvendo novas tecnologias para fazê-lo e, ao que parece, menos tempo no roteiro. A aventura eco-3D enche os olhos com coisas brilhando para disfarçar uma surpreendente mentalidade "Me-Tarzan-you-Jane". E estréia na semana em que a Conferencia do Clima, em Copenhague, clama para que o Brasil limite o desmatamento na Amazônia.

Avatar se passa num planeta arborizado chamado Pandora, onde os nativos são esguias criaturas azuis que andam e pulam em 3D, os Na’vi. Não seria absurdo pensar que os designers de Cameron usaram super models humanos de passarela (o padrão atual de beleza midiatizada) como planta baixa para esses seres puros, criaturas benignas que respeitam a natureza e têm na floresta sua fonte de energia vital e espiritual. São pós-gnomos, longos, esotéricos e azuis, e em alguns momentos, exalam uma sensibilidade Xuxa realmente notável.

O filme se passa no ano 2154, e, pelo jeito, só os EUA sobreviveram como cultura, pois são os americanos (sem qualquer sinal de estrangeiros) que colonizam Pandora. Os americanos continuam fazendo filmes como este, e colonizando outras culturas. Nada contra, apenas uma constatação.

Munidos de força militar e de cientistas que pesquisam Pandora, temos aí a divisão clara de gente muito muito ruim e gente boa boa boa: os milicos querem passar o trator, os cientistas respeitar e entender os nativos azuis.

Temos nosso herói, um ex-soldado, numa cadeira de rodas depois de incidente violento relatado. Jake (Sam Worthington) irá entrar no programa de avatars dirigido pela cientista Grace (Sigourney Weaver). Como em Tron ou em Matrix, ele projeta-se para um duplo, aqui criado a partir de DNA humano e Na’vi.

Dominando a língua nativa, Jake, na sua versão gnomo-Na’vi, irá infiltrar-se na floresta e descobrir o valor de uma nova civilização toda verde e bio-degradável. Encontrará também a sua Pocahontas/Jane, garota azul e também esguia como ele, espécie de mega-gata-azul.

Eles voltam-se contra as forças do mal armadas até os dentes com máquinas descomunais, loucas para pôr as mãos num rico minério, o McGuffin da história, até pelo fato de chamar-se Unobtainium. Ao final, teremos o longo embate entre arco e flecha com chumbo grosso e foguetes. Onde estão os Ewoks para ajudar?

Li uma crítica elogiosa da Variety onde comenta-se que Cameron não seguiu as normas atuais de Hollywood, que é adaptar para o cinema livros, videogames, brinquedos, sapatos e chaveiros, optando por um universo totalmente original.

Talvez para os espectadores de 12 anos de idade que não conhecem Flash Gordon Contra o Imperador Ming no Planeta Mongo, Tarzan, Pocahontas, O Retorno do Jedi, Dança Com Lobos, Xuxa e os Duendes ou Beto Guedes, Avatar pode passar como uma grande e apetitosa novidade.

Na verdade, esta parece ter sido a principal contrapartida de Cameron, seu plano de negócios. Sem propriedade intelectual já estabelecida como marca no mercado, ele parece ter feito um decalque digital do que é mais pedestre e surrado na grande aventura do descobrimento e da colonização, mas iluminando isso com uma técnica realmente interessante de união de elementos captados separadamente, unidos no produto final de forma capaz.

Ocorre que técnica por técnica não gera muita sustentação para este observador. Fica a sensação de que fui ver a apresentação de uma revolucionária obra musical, dando conta de que nada mais era do que "parabéns pra você" tocada em 3D.

James Cameron, um diretor empolgante no sentido de ação e visualização, tem o sério problema de apoiar-se demais na tecnologia. Filmes excelentes do seu passado como os dois Exterminador do Futuro e Aliens continuam fortes, mas curiosamente datados.

True Lies, filme fascinante na comunhão de gêneros (história de amor sobre o casamento com espionagem), parece sair-se melhor como documento. Em Avatar, vende-se a tecnologia acima de tudo, uma suposta “revolução” que parte importante da crítica tem apoiado com bizarro fervor. Deve envelhecer terrivelmente rápido.

Felizmente, para Cameron, Jon Landau, a Fox e os exibidores equipados atualmente com projetores 3D, Avatar está acontecendo hoje. A técnica do filme, realmente destacada, parece estar induzindo a grande multidão internacional do cinema a um transe coletivo, a primeira vez que nessa nova fase digital uma técnica pega de jeito o público.

Eu citei acima Tron e Matrix, aventuras técnicas em 2D que trouxeram a proposta de imersão narrativa e áudio-visual para o espectador, que via-se projetado como os próprios personagens, como um duplo (ou um avatar) dentro dos filmes.

O sucesso de Avatar reside, muito provavelmente, na sua capacidade de, mais do que nunca antes, propor uma catapulta sensorial incomum do espectador para dentro de um filme. E no mundo de 2010, nossas imersões virtuais em games, sites, perfis reais e desejados nunca foi tão grande. Avatar apenas chega para completá-las.

Filme visto no Box Cinemas, em 3D e som perfeito. Recife, Dezembro 2009.

Lula - O Filho do Brasil


Milhares de figurantes.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Lula – O Filho do Brasil (2009) é o nosso filme evento, nossa produção mais cara, pelo menos por vontade própria. Como geralmente ocorre nesse tipo de promoção, o filme não precisa nem prestar, pois o negócio é vê-lo. Muito já foi dito nos últimos meses sobre esse produto, da ruidosa pré-estréia no Festival de Brasília, à controvérsia sobre o caráter eleitoreiro de um filme que seria bajulador, feito para um presidente que ainda está no poder. É notável, no entanto, que pouca coisa tenha sido articulada sobre a qualidade do filme em si.

É um desafio abordar em resenha o filme de um cineasta que passa por um drama pessoal no momento do lançamento nacional do seu mais novo trabalho. O diretor carioca Fábio Barreto, em coma desde o último dia 19 de dezembro, vítima de um acidente grave no Rio, recupera-se enquanto seu filme chega aos cinemas.

O desafio vem da sensação de separarmos o homem, Fábio, que sai de uma situação difícil de saúde, e, por outro lado, termos o acompanhamento do cineasta e sua obra.

Seu cinema não sugere uma tentativa de esconder sua natureza mascate. Aos 52 anos, Fábio Barreto tem já 13 filmes no currículo, alguns muito precários, como Bela Donna e A Paixão de Jacobina. Seu melhor momento como realizador talvez tenha sido O Quatrilho (1996), recompensado com uma indicação ao Oscar.

Seus pais, Luiz Carlos e Lucy, produtores de enorme prestígio e poder, são responsáveis por momentos essenciais do cinema brasileiro, como Terra em Transe e Memórias do Cárcere. Hoje, fazem filmes populares, ou populistas, de estilos mais simples. Vez ou outra, me pergunto se entendem de cinema, entender no sentido de bater o olho e reconhecer o valor de uma imagem, de um filme.

Porque decidiram mostrar Lula – o Filho do Brasil em Brasília, 2 meses antes da estréia? Sendo o filme tão ruim, não teria sido mais importante para o produto lançá-lo em cima do público sob um véu de mistério e sem que ninguém externasse nenhuma das opiniões negativas já tão divulgadas na imprensa e internet?

O filme parece feito a partir de um molde genérico do padrão bio-filme, ou especial de TV. Ao final de cada sessão, ouvem-se muito referências a 2 Filhos de Francisco, o sucesso de cinco milhões de espectadores de cinco anos atrás. Talvez seja o molde a partir do qual o filme foi montado, como se aquele outro filme fosse algum tipo de descoberta. E foi, financeira. Money talks, bulshit walks.

De bebê sertanejo a líder sindicalista no ABC paulista, seguimos com muita paciência momentos da vida de Lula, dramatizados sem muita força, exceto num momento.

Em 1980, Lula, discursando para uma multidão num estádio, sem microfone, pede que o que diz seja passado para os metalúrgicos que estão atrás, e o discurso segue em ondas de gritos. É uma seqüência que se destaca do todo, e ver o jornal Le Monde elegendo Lula Homem do Ano há uma semana apenas reforça a idéia de que as ondas emitidas por Lula persistem.

O tom folhetinesco domina o filme, no entanto. O pai (Milhem Cortaz, caracterização infeliz) parece um robô nordestino, com defeito. A mãe, Dona Lindu (Glória Pires), é mais uma mãe coragem, muleta popular e freqüente desse cinema comercial brasileiro (Cazuza, Zuzu Angel, Salve Geral). Ela não decola como personagem, pois registra mais como uma figurante com falas.

Se Dona Lindu é uma santa de um jeito só, Lula (Rui Ricardo Dias) é só dignidade e mito, nosso Evito. Cada imagem de Dias, que tem momentos eficazes de caracterização, nos leva à grande questão:

Captar somas gigantescas de dinheiro (orçamento divulgado está em torno de 16 milhões de reais) via patrocínio direto, para enaltecer a trajetória de um presidente ainda no poder é estranho. Nos EUA, W., de Oliver Stone, relato irônico, mas respeitoso, sobre George W. Bush, foi lançado no último mês do mandato.

Um olhar técnico de cinema aumenta o estranhamento sobre o filme, nossa produção mais cara até hoje. Não aparenta o dinheiro que custou, como numa cena dos anos 50, onde o Recife de 2009 é usado como fundo.

A cobrança de ver o que dizem ter gastado na tela é muito mais do que justa. Os Barretos jogam o jogo do cinema industrial, dos filmes que são capazes de conquistar 2o milhões de espectadores. Nesse tipo de cinema, o orçamento vira notícia, e o público vai ver o filme esperando ver o tipo de imagem popular que o dinheiro compra.

Avatar, por exemplo, gostando ou não, está tudo lá, para quem quiser cobrar, cada milhão escorrendo da tela. Na nossa maior produção, temos a mesma articulação indigente de planos de sempre, e uma sensação estranha de "onde está a grana?"

Filme visto no Teatro Guararapes, Olinda, Novembro 2009

Deixa Ela Entrar


Plano aberto.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Deixa Ela Entrar (Låt Den Räte Komma in, Suécia, 2008), de Tomas Alfredson, parece respeitar cada traço do gênero ao qual pertence (o filme de horror, com vampiro), ao mesmo tempo em que compensa eventuais choques no espectador com beleza e lirismo. É uma história de amor entre um garoto de 13 anos e uma garota que tem 12. A questão é que (frase já conhecida do filme) "ela tem 12 há muitos e muitos anos".

O filme não é facilmente esquecido pelos que o vêem, e oferece um outro ponto de vista para a atual Twilight-mania, que também lida com elementos vampirescos num universo jovem. A diferença é que os americanos são bate-entopes enlatados, e Deixa Ela Entrar parece ter sido feito a mão. Esse aspecto manual do filme me chama muito a atenção.

Conta a história urbana, discretamente situada nos anos 80, de Oskar, menino que se sente muito só, e ainda tem que lidar com a perseguição de outros garotos na escola e na vizinhança onde mora.

Neva muito no filme, algo que, desde o início, passa a sensação de estarmos numa fábula escandinava, especialmente o plano de abertura, algo de literário no impacto hipnótico da sua imagem. Durante esse plano dá para imaginar alguma voz maternal lendo uma história com gosto, e talvez um pouco de sono.

É numa noite de neve que chega um táxi com uma garotinha, Eli, e um homem que talvez seja o seu pai... Aos poucos, Oskar e Eli farão amizade, e logo irão desenvolver uma relação de amor ligeiramente sensual e cúmplice. O segredo, que faz parte da sinopse oficial de Deixa Ela Entrar, é que Eli é uma vampira. Sem sangue, ela definha.

Alfredson, munido de fotografia não menos do que linda, respeita as convenções ancestrais de histórias de vampiro, dando ao seu filme um aspecto clássico interessantíssimo, a base perfeita sobre a qual ele trará seus toques pessoais. Eli dorme, por exemplo, de dia e só sai à noite. Ela só pode entrar na casa de alguém se for convidada pela pessoa.

Aos poucos, a presença de Eli na vizinhança vai sendo transformada em sangue, numa série de incidentes pequenos e grandes, todos muito bem filmados.

Curioso como em Hollywood, onde corre mais dinheiro, balança-se muito a câmera na escuridão, e não vemos muita coisa no meio da barulheira. Num filme europeu como esse, as imagens mais aterradoras, compostas por discretos efeitos digitais, são filmadas abertas e 100% nítidas. Não há nada a esconder.

O filme é um exemplo a ser citado num mercado internacional que, cada vez mais, investe em produtos globalizados falados em língua local, mas que nada mais são do que enlatados "Para Exportação" (O Orfanato?). No caso de Deixa Ela Entrar, já existe o projeto para a versão americana. Dá enorme aflição imaginar os cortes que serão impostos, especialmente na relação doce entre os dois, aqui sublinhada por detalhes de sexualidade precoce que deixam o filme sair ileso, e ainda com o moral alto.

Há inúmeros aspectos que enriquecem o filme a partir de coisas que não são ditas. Deixa Ela Entrar suspeita que o espectador é inteligente, que tem compaixão e que entende a mecânica da dependência no outro, e como amores antigos se desfazem e como outros novos surgem. Belo filme.

Filme visto em Blu-Ray, Recife, 2009

Encontro de Casais


Bocó Island

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

texto publicado originalmente no Jornal do Commercio

O gosto bom deixado pela colaboração de Vince Vaughn e Jon Favreau em Swingers (1996), jóia de filme, é tão forte que, 15 anos depois, ainda há boa vontade de ver alguma coisa com os dois atores. A decepção, aliás, é uma quase constante, como nesse Encontro de Casais (Couples Retreat, EUA, 2009).

Vaughn, um tipo alto e com cadência peculiar na maneira como interpreta suas falas, virou astro de Hollywood em filmes populares mais ou menos ruins como Penetras Bons de Bico, Separados Pelo Casamento e Surpresas do Amor. Favreau, tipo tenso, meio inchado, além de atuar com Vaughn nos dois últimos, fez um trabalho excelente como cineasta no muito divertido Homem de Ferro (2007).

Desta vez, eles são homens casados que, com suas esposas, juntam-se a dois outros casais para uns dias num paraíso tropical especializado em dar uma levantada em casamentos caídos. O filme foi rodado na Polinésia, num desses resorts gringos onde até o mar parece esterilizado.

O casamento de Dave (Vaughn) é, na verdade, o melhor e mais estável, o de Joey (Favreau) o segundo pior casamento, já que a idéia de viajar foi de Jason (Jason Bateman), cujas tentativas fracassadas de engravidar a esposa estão acabando com a união. O quarto casal é Shane (Faizon Love), recém divorciado que leva a namorada de 20 anos só para ver no que dá.

Material para graça existe, mesmo que o filme tivesse cortado o excesso de casais e ficado com apenas um. Casais casados podem ser engraçados, belos, enfurecedores e frustrantes, dependendo do estado de espírito. De qualquer forma, com quatro casais e oito personagens (nenhum deles realmente com cara de gente real), os produtores têm mais chances de atingir demografias maiores (Shane, por exemplo, é negro).

Tudo é tratado com aquela leve grosseria dos projetos comerciais que, na falta de uma verdadeira inspiração, passam a almejar o chamado “grande público” com denominadores cada vez mais baixos.

Para ilustrar as tentações dos casados, as esposas (Malin Akerman, Kristen Bell, Kali Hawk e Kristin Davis, sempre tão interessante na série Sex and the City, aqui desperdiçada) vêem num instrutor de ioga (Carlos Ponce) a figura mais grotesca possível do amante latino, cheio de duplos sentidos canhestros.

Há uma idéia boa que talvez os realizadores nem tenham se dado conta, e que parece definir o filme. Todas as soluções para problemas específicos são encontradas na artificialidade. Do próprio resort aos talentos musicais de Dave na guitarra (Rock Band), do anfitrião francês de Jean Reno às soluções infantis para os problemas adultos de uma comedia talvez promissora, mas feita, ao que parece, por uma equipe de gente mutcho oca.

O resultado é quase nada. A crença de que Vaughn e Favreau são caras legais, no entanto, continua.

O Homem Que Virou Suco (DVD)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Texto originalmente publicado na Folha de S. Paulo.

Uma sessão dupla provocadora juntaria O Homem Que Virou Suco, filmado há 30 anos por João Batista de Andrade, com o recente Estômago (2006), dirigido por Marcos Jorge. Os dois têm material rico para questão essencial no cinema, a representação. Unidos pelo elemento “personagem nordestino”, os filmes oferecem leituras distintas sobre as relações de classe e cultura no Brasil. Não é difícil sentir algo de um retrocesso no jeito de olhar.

Ambos lidam com “paraibas” num ambiente sudestino hostil. No filme de Andrade, há uma energia política que fortalece o personagem, Heraldo (José Dumont, talvez no seu melhor momento). Esse poeta popular paraibano é dotado de um afiado senso crítico que testa São Paulo tanto quanto São Paulo o testa.

Sua dignidade vem com uma raiva espontânea que manda às favas hierarquias estabelecidas de classe e poder. Em Estômago, suspeita-se que o ponto de vista é o de um patrão pouco razoável para com o seu personagem serviçal.

Obviamente, são filmes de eras distintas. Filmado na São Paulo do final dos anos 70, O Homem Que Virou Suco talvez passaria melhor com São Paulo S/A (1965), de Luiz Sérgio Person, outro registro da cidade como estado de espírito.

As imagens cruas são cheias de uma revolta peculiar à esquerda da época. Detratores poderão acusar um envelhecimento do material, mas valor histórico contextualizado talvez caia melhor.

Floreios dogmáticos como a representação raivosa de um personagem americano, chefe de multinacional, podem ser facilmente associados à premiação de O Homem Que Virou Suco no Festival de Moscou, em 1980, um dos inúmeros reconhecimentos que o filme teve na sua carreira.

De qualquer forma, 30 anos depois, as linhas gerais do choque entre mundo pobre e mundo rico dentro do Brasil continuam atuais. Sugere indiretamente que o cinema feito no país hoje mostra-se, em grande parte, ausente do assunto, sem o tipo de atrito aqui gerado por Heraldo e pelo filme como um todo.

João Batista de Andrade prova o quanto estava afiado numa seqüência essencial, onde o poeta trabalhador assiste a um “audiovisual” de tom empresarial-fascista, parte dos esforços de contratação para a construção do Metrô de São Paulo.

É um filme dentro do filme que discute não só o preconceito, mas a tentativa de o ambiente dobrar o indivíduo, além da força mítica de São Paulo em relação ao brasileiro.

O Homem Que Virou Suco volta numa versão restaurada pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro. Há uma série de cartelas na abertura que informam sobre o estado geral dos elementos originais, perda de negativo da câmera e de som. Esse tipo de cartela é muito útil, e passa uma idéia do estado geral do nosso acervo brasileiro, num filme que não tem mais do que 30 anos. De qualquer forma, do ponto de vista de um admirador do filme, que gostaria de tê-lo em casa dentro de um padrão reconhecido de restauração, me chamou a atenção o resultado ruim visto no DVD original que recebi, o que é uma pena. O filme inteiro encontra-se riscado, as cores e contrastes inexistem e o som é precário.

Filme revisto em DVD, Recife, Outubro 2009

Alvins e os Esquilos 2


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Para quem acostumou-se com o nível artístico e criativo de proporções irreais dos filmes da Pixar (Toy Story, Os Incríveis, Up), é bom ser lembrado, vez ou outra, que filmes feitos para o mercado infantil são, na realidade do batente, bem mais modestos. Esse Alvin e os Esquilos 2 (Alvin and the Chipmunks: The Squeakquel, EUA, 2009) é aquela coisa gasguita, com criaturas assustadas que riem, berrando sem parar. Pode servir de depósito para crianças durante pouco mais de uma hora, no shopping, mas, ao mesmo tempo, vem a pergunta: porque alguém faria isso com as crianças? Não é melhor deixá-las trancadas no carro, no estacionamento?

Esta é a segunda parte das aventuras de um trio de esquilos que cantam. Falantes, afinados e dotados de voz esganiçada (como uma fita de gravador em rotação rápida) que requer paciência depois de cinco minutos, a existência deles no mundo real dos humanos nunca é questionada, o que não deixa de ser engraçado.

O filme, que parece ter sido cuspido por alguma máquina de fazer produtos infantis, é assinado por alguém que se chama Betty Thomas. Esse produto parece almejar o mercado infantil e pré-adolescente com uma série de signos chamativos para essa demografia no mundo de hoje, vide os bonecos de carne e osso Hannah Montana e Jonas Brothers.

Talvez hoje os grandes heróis americanos estejam sempre sempre tentando lidar com a fama, com o desejo de ser famoso, e essas criaturas irritantes engordamo caldo.

Alvin e os esquilos são um trio de música pop (celebridade) que começam a ir à escola (ambiente social) e são obrigados a enfrentar hostilidades (bullying, de leve) e a concorrência de um outro trio. Esse trio é formado por esquilinhas (primeiras paqueras), na verdade cheer leaders disfarçadas de roedoras. São compostas como ilustrações de cadernos de meninas do primário. Elas se chamam As Esquiletes.

Como quase tudo relacionado à cultura americana do competir e do vencer, teremos uma disputa musical no final. Me resta bater ponto e afirmar o pior: passa tempo para os pequenos. Isso é ruim, pois para as crianças nada menos do que o melhor é sempre o ideal.

Filme visto no UCI Ribeiro, Recife, Dezembro 2009.

O Nome Dela é Sabine


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O Nome Dela é Sabine (Elle S’Appelle Sabine, França, 2007) é um desses filmes pequeninos que ocupam espaço grande no espectador. É um esforço pessoal, fruto de alguém que teve a necessidade de compartilhar com o mundo algo que lhe afligia e lhe comovia, no caso a atriz francesa Sandrine Bonnaire. Ela filma a sua irmã Sabine, um ano mais velha, e sua trajetória de vida sob a condição bastante genérica conhecida como autismo.

Sandrine, nome respeitado no cinema e teatro franceses, partiu para fazer um filme doméstico, com imagens do arquivo da sua família, e com ela mesma empunhando câmeras de vídeo analógico e, mais tarde, digital. O fez ao longo de muitos anos, narrando em curtas descrições e confissões a vida e a forma como os mais íntimos administraram, ou tentaram lidar, com Sabine.

O filme parece juntar-se a relatos de realizadores que debruçam-se sobre imagens íntimas do seu passado para falar deles mesmos como o americano Tarnation (2004), de Jonathan Caouette, e o brasileiro Santiago, de João Moreira Salles.

O Nome Dela é Sabine vai se alojando no espectador pela sobriedade que normalmente associamos às narrativas mais importantes do cinema francês, que, em geral, evita o sentimentalismo como o diabo corre da cruz. Fatos, sensações, impasses, a beleza e a tristeza são apresentados pelo que são, sem condimentos.

Sandrine, depois de anos tentando junto à mãe e os irmãos cuidar de Sabine, enfrenta a verdade crua de que houve um cansaço geral de todos após 20 e tantos anos. Isso levou Sabine a um hospital psiquiátrico, onde passou cinco anos, e de onde saiu um ser humano devastado física (remédios) e psicologicamente (sensação forte de abandono).

Sem culpar ninguém, nem ela mesma que tinha já seus próprios filhos, a narradora nos mostra os resultados da internação em contraste com imagens radiantes do momento mais feliz da sua irmã, uma viagem de férias aos EUA com a própria Sandrine, viagem feita no hoje aposentado Concorde. Essas imagens de alegria ganham ar mítico não só pela passagem do tempo, mas também com esse detalhe factual de que elas foram de Concorde. É especial, e já muito distante.

As intenções de Sandrine com seu filme parecem claras na forma como são sugeridas. Os estímulos do amor e da aventura simbolizada pela viagem aos EUA são o que constroem. O abandono e a entrega à ciência pura e simples destroem. Mesmo assim, nada é realmente tão simples na prática.

O filme é uma abertura e tanto para que possamos entender melhor os poderes e os limites não só do corpo humano, mas dos poderes e limites do próprio amor.

Filme visto no Cine Rosa e Silva, Recife, Novembro 2010.