Depois da experiência do Globo de Ouro, estarei amanhã, durante a cerimônia do Oscar, usando o Twitter como bloco de notas e também lendo o que os outros estão postando. Para seguir, www.twitter.com/cinemascopio.
Kathryn Bigelow, 59 anos de idade. Autora de cinema.
Trailer de 'Near Dark' (1987), para mim o melhor filme de Bigelow, e um dos grandes filmes de vampiro.
por Kleber Mendonça Filho cinemascopio@gmail.com
Alguns desavisados podem se perguntar “Quem é Kathryn Bigelow?” Ela está cotada para ganhar o primeiro Oscar da história para uma cineasta mulher, categoria Direção. São 82 anos de premiação, e isso nunca ocorreu.
Essa californiana de 59 anos (é consenso de que parece estar no início dos seus 40) tem uma trajetória muito interessante no cinema, respeitada pela crítica e cinéfilos mais sérios como verdadeira autora. Atua, em grande parte, no cinema de gênero, e que chega à real possibilidade de um reconhecimento oficial com Guerra Ao Terror, crônica de tons realistas sobre os EUA na Guerra do Iraque.
Ela nunca fez filmes edificantes, dramas sentimentais, nunca esteve à frente de produtos fáceis como forma de conquistar respeito e prestígio. O que mais chama a atenção no cinema de Bigelow é a força e a agressividade das suas imagens, e a ausência dessa coisa que atende pelo termo com som de castigo, o “olhar feminino”.
Nos filmes de Bigelow, idéias pré-concebidas de ‘feminilidade’ devem ser ejetadas imediatamente. Esqueçam romance, sensibilidades delicadas à flor da pele e todos os clichês de um possível cinema menstruado normalmente associado automaticamente ao “olhar da fêmea”, seja lá o que isso venha significar.
Os filmes de Kathryn Bigelow são normalmente descritos como violentos, musculares, dotados de uma energia impressionante e, quase sempre, masculinos. Podem ser grosseiramente colocados em escaninhos de gêneros específicos (ação, horror, ficção científica). Em grande parte, cada um deles destaca-se individualmente pela bruta força com a qual se movimentam.
Ela estreou no cinema junto com o ator Willem Dafoe em 1982, com The Loveless, que pode ser descrito como “filme de motociclista” no estilo de O Selvagem, com Marlon Brando. O aspecto masculino e duro já estava lá, sugerindo traço que pode ser um problema no seu cinema, uma aparente despreocupação com a narrativa enxuta, compensando ao sempre abrir espaço para a energia da sua câmera.
Em 1987, ela fez um dos seus melhores trabalhos (e meu filme preferido da sua obra), o incrível “filme de vampiro” Quando Chega a Escuridão (Near Dark), filmado como um western moderno perfeitamente sangrento. Das revisões modernas do gênero vampiro, Near Dark é a que vai mais longe em termos de expandir a ética desse gênero, algo só igualado, de certa forma, ano passado com o sueco Deixa Ela Entrar. De qualquer forma, o tom de bangue bangue trazido por Bigelow, na paisagem americana e a forma como o sangue é usado na tela fazem desse uma jóia real.
Nos anos 90, Bigelow dirigiu um drama policial com o único personagem central feminino da sua filmografia, em Jogo Perverso (Blue Steel, 1990), onde Jamie Lee Curtis interpreta uma policial brutalizada pela profissão e perseguida por um psicopata. A violência do filme (em partes, achatando a credibilidade da narrativa) chamou tanta atenção quanto a energia impressa em cada imagem do seu filme seguinte, o projeto de ação, feito para um grande estúdio (Fox) Caçadores de Emoção (Point Break, 1991).
Eu lembro que vi Point Break no cinema em 1991 e fiquei, clichê dos clichês, estatelado na poltrona. Me pareceu um dos primeiros filmes que mostraram reais possibilidades de se passar por cima da magrela historinha que o levou a ser feito como um trator fora de controle, fruto de um(a) cineasta que, de alguma forma, seria cria verdadeira de Sam Peckinpah.
O tom (e ponto de venda) de Point Break é o de um “esporte radical” nessa trama sobre uma gangue de surfistas liderada por Patrick Swayze (falecido recentemente) que rouba bancos, infiltrada por um agente do FBI (Keanu Reeves). É uma das principais evidências de que Bigelow sabe filmar, seu estilo superando um projeto que seria nada mais do que rotineiro em outras mãos. Ainda hoje lembro de um pé sendo desintegrado por um tiro de 12 e, ainda sobre pés, uma perseguição a pé filmada na mão, estética que só tornou-se corrente via trilogia Bourne e Paul Greengrass, há alguns anos.
Nessa época, Bigelow era a companheira de James Cameron, seu Exterminador do Futuro 2 lançado nos cinemas e concorrente direto nas bilheterias de Point Break. Os dois desenvolveram Estranhos Prazeres (Strange Days), produção da Lightstorm Entertainment, de Cameron.
Strange Days, no geral, é uma zorra, mas uma zorra composta por momentos brilhantes, o que, no final das contas, gera ainda um filmaço. Bigelow atualizou em termos técnicos o plano sequência subjetivo de Carpenter, em Halloween, para ilustrar sensações gravadas em disco rígido por um aparelho que permite ao usuário registrar sua adrenalina via ação, violência e sexo.
Brainstorm (1983), de Douglas Trumbull, havia feito algo do tipo, mas Bigelow deu sua conhecida energia ao conceito. O filme também tem uma das mixagens mais agressivas que eu já ouvi, usando as novas, na época, possibilidades do recém lançado Dolby Digital 5.1 como instrumento de experimentação, em grande estilo.
Strange Days guarda semelhanças claras com idéias e climas observados em Avatar, uma curiosidade se pensarmos que o filho de Cameron e Bigelow gerou o novo filhote de Cameron, disputando com a nova cria de Bigelow, Guerra ao Terror, filme que usa com grande efeito o ponto subjetivo de uma câmera trôpega. Roteirizado e produzido por Cameron, esse filme, como os outros filmes de Bigelow, nunca chegou a ser um sucesso comercial.
Depois do pouco visto The Weight of Water (2000, eu não vi), Bigelow voltou a flertar com os grandes estúdios em 2002, com Harrison Ford no drama claustrofóbico K-9 – The Widowmaker, sobre um incidente num submarino russo, outro filme que, comercialmente não decolou, e que revela-se, para mim, seu filme mais fraco. Ford como comandante russo numa drama PG-13 ainda gera algum interesse, mas passa como um projeto feito sob contrato.
Seu sucesso com Guerra ao Terror tem o tom de uma redenção hollywoodiana. Seu filme anterior, Mission Zero, com Uma Thurman, parece ter sido enterrado comercialmente, sem um lançamento nos cinemas americanos. Sua indicação ao Oscar sugere a renovação de uma cineasta cujo nome parece rimar com energia e firmeza. Não necessariamente a energia e a firmeza de um homem, se considerarmos a forma como sua obra é preconceituosamente descrita como "masculina", mas a energia e a firmeza de uma mulher.
Vale ainda fazer uma última associação, já entrando no pantanoso terreno de tentativas de enxergar os lados pessoais de cineastas e suas obras. O cinema de Cameron nos oferece janela perfeita para entender sua associação com Bigelow, certamente profissional, talvez pessoal.
Suas heroínas - Sarah Connor, Ripley, a cientista de O Segrdo do Abismo, Jamie Lee Curtis em True Lies, a sinházinha de Titanic e a azulzinha de Avatar - são todas fortes, distantes léguas do padrão machista onde a mulher é aquela que será salva pelo homem, gritando aterrorizada para tentar espantar o terror e o medo. De alguma forma, é essa a imagem de força que tenho de Bigelow através dos seus filmes.
PS: Mission Zero é um curta de 8 mins, descobri agora, feito para a Pirelli, estilo promocional. É horrível.
O "ângulo" escolhido pela imprensa esse ano é o embate de dois ex-amantes, Cameron e Bigelow, que fizeram filmes aparentemente diferentes, mas, na verdade, muito semelhantes. Mas meu palpite doido é Oscar para esse aqui (amarrado, de macacão), Quentin Tarantino.
por Kleber Mendonça Filho cinemascopio@gmail.com
A tradicional entrega do Oscar acontece domingo, em Los Angeles, com uma mudança de maquiagem que estimula lucros maiores para toda a indústria americana de cine. A 82a edição propõe, pela primeira vez, uma expansão na lista dos indicados a Melhor Filme. Se antes eram cinco, a partir desse ano são dez títulos que se beneficiaram de enorme publicidade nas últimas semanas. Curiosamente, a imprensa destaca dois deles, cada um com nove indicações: Avatar, de James Cameron, e Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow.
Com o aumento de filmes indicados, percebe-se já um sistema de retribuições para títulos lançados durante o ano e que não têm grandes chances de efetivamente ganhar a estatueta. A academia adora o sucesso popular, o que explica a presença de Um Sonho Possível, com Sandra Bullock, na lista dos dez mais. Essa comedia sobre futebol americano foi um sucesso fenomenal nos EUA e tem no currículo essa indicação como medalha ao mérito.
Up – Altas Aventuras, animação da Pixar, representa o que há de melhor no gênero em 2009 na categoria Melhor Filme. É o real favorito na categoria específica Animação, onde também concorre.
Quatro filmes tidos como pequenos também ganham destaque no listão: A esperta ficção científica Distrito 9, de Neill Blomkamp, representa o cinema fantástico com pistolão de Peter Jackson (produtor), ganhador de duas dezenas de Oscars pela trilogia O Senhor dos Anéis. Especula-se que o gênero ficção científica só teria uma vaga nos dez mais, e que Distrito 9 teria pego a que seria de Jornada nas Estrelas, elogiado sucesso comercial da Paramount.
Amor Sem Escalas, de Jason Reitman, é aquele meio termo hollywoodiano, sugerindo alguma inteligência mas que, no final das contas, é mais do mesmo. Preciosa, de Lee Daniels, é o mensageiro do drama intimista feito por realizador e atores negros. Educação, de Lone Scherfig, marca a presença do cinema inglês, freguês anual do Oscar.
Um Homem Sério, dos Irmãos Coen, dos autores já oscarizados (Fargo, Onde os Fracos Não Têm Vez), tem forte sabor judaico. É um filme pessoal e incômodo ambientado numa comunidade classe média dos anos 60, sobre pai de família que passa por um incrível inferno astral.
O teor judaico é uma peculiaridade sempre comentada em relação aos gostos da Academia e não deve ser menosprezada no brilhante Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, clara anomalia na lista dos dez mais.
Essa revisão do filme de guerra sobre soldados judeus caçando nazistas na França ocupada foi descrita no último Festival de Cannes por Eli Roth (que é judeu), um dos seus atores, como “um filme pornô kosher”. Tarantino recebeu oito indicações ao todo, sempre criando nos seus próprios termos, e reescrevendo a história através da força narrativa do cinema. Não nos espantaria se Tarantino saísse vitorioso no que seria, para a indústria, uma surpresa, seja em filme, diretor e, especialmente, roteiro.
INCENTIVO - A distribuição farta de indicações para Melhor Filme tem um pensamento comercial bruto por trás. Tudo o que o Oscar põe o dedo fica mais rico, e indicar mais cinco filmes duplica o grau de atenção e as possibilidades de identificação do grande público com os produtos.
Em termos comparativos, filmes tidos como “pequenos” dominaram a categoria principal no ano passado (Quem Quer ser um Milionário, O Leitor, O Curioso Caso de Benjamin Button, Frost/Nixon, Milk), suas arrecadações somando não mais do que 227 milhões de dólares.
Esse ano, só Avatar já passou de 700 milhões nos EUA, e ainda há outros nove filmes para incentivar não apenas as bilheterias, mas a audiência da transmissão ao vivo de hoje à noite. Se o filme é conhecido, o drama transmitido em tempo real de quem ganha ou perde o quê também fica mais atraente.
AMANTES - E dramas do Oscar são uma constante, cortesia da imprensa do cinema. Tiques típicos do jornalismo cinematográfico tentam encontrar um ângulo humano para a disputa, uma tensão emotiva.
O recorte Cameron & Bigelow vem claramente do fato de já terem sido casados. São ex-amantes na disputa pelo maior prêmio do cinema, ele com o filme mais caro da história (Avatar teria custado cerca de 450 milhões de dólares), ela com uma produção pequena, independente, feita com câmera na mão.
Já foi relatado que foi ele quem sugeriu que ela fizesse o filme. No Globo de Ouro, ao ganhar o seu, ele disse “achei que Kathryn ganharia”. Nos prêmios do Sindicato de Diretores (Director’s Guild), foi ela quem ganhou, e não Cameron. Tudo indica que Bigelow levará a estaueta para casa, marcando o primeiro Oscar da história entregue a uma cineasta.
Avatar e Guerra ao Terror são também relativamente semelhantes nas suas óbvias diferenças cosméticas. Enfocam o poderio militar americano atuando em terras estrangeiras. No filme de Cameron, ambientado no planeta fictício de Pandora, onde os nativos futuristas são azuis, há uma tentativa de politizar a presença americana em culturas distantes com o mito do bom selvagem.
Já Guerra ao Terror parece passar bem longe de qualquer traço explícito de política. Sem a camuflagem da ficção científica, o filme de Bigelow, ambientado no Iraque da presente década, está perto demais da realidade americana atual para arriscar a defesa de um ponto de vista.
Isso dá ao filme a sensação de estarmos vendo uma versão pintada de realismo (a câmera é na mão e tremida) sobre um grande herói americano (Jeremy Renner, indicado a Melhor Ator), soldado especialista em desativar bombas, à frente de um pensamento interno não muito diferente de um filme como Top Gun. Tanto Avatar quanto Guerra ao Terror são filmes com grandes e destemidos heróis americanos que fazem as coisas às suas maneiras. Os disfarces podem ser modernos, mas o conceito é o de todo sempre.
Para elavar a voltagem midiática do Oscar esta semana, a Academia decidiu punir Nicholas Chartier, um dos quatro produtores de Guerra ao Terror, que fez a besteira de enviar um email clamando por votos para seu filme, “uma produção pequena”, e que não votassem “num filme de 500 milhões de dólares”.
Chartier teve seu convite para a cerimônia de hoje cancelado, e terá que vê-la em casa, pela TV. Especula-se que tipo de dano o comportamento terá na votação final, podendo ter prejudicado o filme.
Fica também a dúvida sobre Avatar, um sucesso mundial de público (ponto positivo), mas uma aventura de fantasia (negativo) que, em termos gerais, foi criticada pela reciclagem de clichês e trama. Normalmente, é o tipo de filme que ganha prêmios técnicos, e pouca coisa mais.
Nossa aposta, em qualidade e em timing, é mesmo esse autor infernal ganhador de Palma de Ouro e já oscarizado (ambos por Pulp Fiction) que é Quentin Tarantino. Há 15 anos Tarantino é admirado pela cinefilia despreocupada com questões de mercado, mas, aos poucos, deixou de ser um “cineasta independente” para virar, talvez em 2009, um cineasta influente, do primeiro time da indústria. Bastardos Inglórios talvez marque essa transição. Vejamos.
Esse meu filme RECIFE FRIO passa pela 1a vez no Rio de Janeiro essa semana em Sessão Especial de Ficção Científica.
RECIFE FRIO (HD/35mm, Dolby, 20+ mins) de Kleber Mendonça Filho Sinopse: o Recife ficou frio.
Cachaça Cinema Clube Quarta, 10 de Março, 20h30, ODEON.
Além da estréia carioca do RECIFE FRIO, exibem na mesma sessão:
ÉTERNAU, de Gustavo Jahn e Melissa Dulius FLASH HAPPY SOCIETY, de Guto Parente PIMENTÍPOLI, de Eduardo Souza Lima (Zé José). + FRAGMENTOS da obra de Georges Méliès, em película 35mm, via Cinemateca do MAM.
Desde a época em que eu estava trabalhando na pós produção que comecei a ter ilusões de grandeza sobre o filme passando na tela do Odeon. Que bom.
Num dos textos abaixo, sobre 'Pale Rider', de Eastwood, fui lembrar do Odeon, em Colchester, e dando um search nele descobri que, depois de mais de 60 anos, foi fechado em 2002, por causa de um multiplex que abriu perto. Oh, well. K.M.F
Eu vi Putty Hill no domingo, em Berlim, último dia do festival. O filme americano de Matt Porterfield é muito bom, passou na Forum. A título de informação e para economizar letras, me lembrou Pedro Costa e Van Sant. Porterfield dirige sem mãos no guidão uma ficção-ensaio cuja ignição é o documentário (ou uma encenação de registro direto) sobre família e amigos que reúnem-se no enterro de um homem de 24 anos. Há uma verdade sobre a ambientação e os personagens, americanos de classe baixa, e uma tristeza bem expressa por todos. Uma das sequências mais lindas de Berlim esse ano nos mostra a visita a uma casa vazia e escura, algo que continua me acompanhando, durante a semana. Capta a idéia de perda como pouca coisa. É um filme muito pequeno que, com alguma sorte, será visto. Estreou mundialmente em Berlim, e ficou pronto (digital) dias antes do festival. K.M.F
Em outubro de 1985, eu fui ver Pale Rider (O Cavaleiro Solitário), de Clint Eastwood, no cinema, na época do seu lançamento, na Inglaterra. Foi no Odeon 1, em Colchester. Foi a primeira vez que eu, tão impressionado que estava, me vi diante da fotografia num filme. Eu talvez já soubesse o que fotografia significava, mas foi Pale Rider que me mostrou ao vivo, não sei bem porquê, um trabalho de imagens feito para ser mostrado numa tela grande. O fotógrafo é Bruce Surtees.
O que eu mais lembrava do filme eram os interiores, escuros. Me lembrava também de uma imagem com caubóis ao redor de uma fogueira, seus rostos brilhando com a luz do fogo.
Revi hoje o filme em bluray, como parte de uma admiração revisada constante (já há pelo menos dez anos) pelo trabalho de Eastwood como cineasta, algo que, um pouco como a idéia de fotografia, tornou-se admiração ponderada e consciente, pois Eastwood é um artista que eu vinha acompanhando filme a filme desde mais ou menos a mesma época que vi esse filme, no cinema. Ou seja, antes, Eastwood era alguém que eu gostava, mas sem a distância de usufruir do seu real valor.
Não sei bem se o cinema americano terá alguém como ele depois que morrer, cuja direção e visão clássica de cinema inspira a sensação de estarmos diante de uma cápsula do tempo reaberta no presente, ponte entre a câmera clássica do passado e a contemporaneidade.
Em Pale Rider, Eastwood remixa aspectos clássicos de Shane - Os Brutos Também Amam com o próprio Eastwood dos anos 70 (High Plains Drifter e The Outlaw Josey Wales) com, obviamente, Leone e Siegel de patronos. É um filme moderno, filmado como um clássico, sem nunca passar a pretensão de assim ser, um pouco como os melhores filmes que temos visto desse autor na década de 2000. Que sorte nossa ainda tê-lo fazendo filmes.
PS: sobre o bluray, é muito bom ver filmes mais antigos nesse formato de alta definição. Diferente dos filmes novos, que já foram criados e tratados dentro da tecnologia digital, filmes mais antigos como Pale Rider, originalmente feitos a partir de química e ótica (foi rodado em Panavision, com lentes anamórficas), está lá o grão original e as imperfeições naturais de um processo que, se comparado ao que se faz hoje, pode ser chamado de 'artesanal'. Nesses filmes antigos, planos são desiguais, nitidez e granulação convivem juntos e a imagem digital de repente parece uma cópia fiel do celulóide. Nunca se chegou tão perto (ou igualou) em casa o que sempre tivemos na tela do cinema. E se considerarmos que as oportunidades de se ver um filme antigo projetado em 35mm são raras (festivais, viagens ao exterior, salas especiais), o serviço prestado pelo bluray não deve ser menosprezado. É muito bom.
Uma maneira de pesar obras de expressão artística é procurar o ponto de vista do realizador. Um exemplo atual é um dos favoritos ao Oscar 2010, Guerra ao Terror (The Hurt Locker), que mostra a rotina de um grupo de soldados na Guerra do Iraque sem tomar claro partido. Talvez seja um plano de negócios, evitar perder espectadores patrióticos nos EUA. É possível argumentar que o tom do filme é “contra”, dada a dureza exposta, mas há uma clara postura “não me comprometa” ausente, por exemplo, do cinema americano de esquerda dos anos 70. Já no documentário Um Lugar ao Sol (2009), do pernambucano Gabriel Mascaro, o ponto de vista não poderia ser mais claro.
O filme estréia no Recife depois de uma carreira notável em festivais no Brasil e no exterior. Um Lugar ao Sol, antes de tudo, é uma anomalia. Parece ganhar por W.O. em termos de produção brasileira de cinema, fruto de uma cultura que evita atritos, tanto no cinema de ficção, como, em especial, no de documentário, onde os personagens são reais, em contextos verdadeiros.
Mascaro, cineasta jovem, partiu para apontar sua câmera como um objeto pontiagudo para a pouco registrada camada mais alta da sociedade, ou seja, os ricos. É um cinema jovem aparentemente marxista, armado com sua câmera petulante. Põe em ação uma espécie de juventude em marcha para abordar o que lhe faz mal, um ressentimento de classe onipresente na sociedade brasileira, mas, repetimos, pouco registrado pelo cinema do Brasil.
Pouco registrado se não pensarmos nos retratos de classe fornecidos por revistas como Caras, ou via paixões culturais do país como telenovelas onde a classe alta é algo a ser almejado socialmente, da decoração estridente dos interiores Projac ao amarelo irreal do suco de laranja servido em cena.
Nesse sentido, Um Lugar ao Sol chega numa cultura de imagens que sempre usou a câmera para escanear as camadas mais pobres nos nossos “favela movies” (ou “pinto no lixo movies”), da ficção ou do documentário, sempre feitos por realizadores brancos, da classe média-alta, algo de encantados com universo social tão distante deles, como elementos exóticos.
Mascaro entrevista moradores de coberturas no Recife, Rio e São Paulo para ouvir idéias verbalizadas sobre privilégio, riqueza e estatura social, poeticamente traduzidas pelo fato de todos eles estarem, literalmente, por cima, nas áreas mais nobres dos seus arranha céus. Usam a altura como proteção para o que está lá embaixo.
É uma sessão desconfortável para boa parte da platéia, pois os depoimentos, marcados na quase totalidade por um orgulho evidente dos personagens de estarem ali (nas coberturas e no filme), juntando uma espécie de show de horrores oral e social. O recorte percebido em Um Lugar ao Sol sugere o registro de tensões evidentes num país tão desigual, e a capacidade que o filme tem (mesmo pregando para platéias já convertidas) de gerar debate é notável.
No entanto, esse documentário desdobra-se ainda em direção à própria idéia de viver em cidades grandes. Há um diálogo perfeito com uma cidade como o Recife, que está sendo demolida a olhos vistos para dar lugar a noções de lucro instantâneo, correndo solto por causa de um urbanismo que parece ter a ética generosa de uma prostituta. O resultado disso, é o aumento dos abismos entre as classes, cada vez mais segregadas pela própria cidade.
Nem tudo, vale lembrar, é sombrio. A mera existência de Um Lugar ao Sol parece apontar para o início de uma mudança no olhar critico do próprio cinema brasileiro para com o país. Seria isso resultado pratico do governo Lula, que veio da esquerda e que, por linhas tortas, ainda exerce movimentos cada vez mais subreptícios de esquerda?
Semana passada, no Festival de Berlim, o filme de ficção Bróder, de Jéferson D, cineasta de pele negra que filmou sua comunidade de periferia com aparente verdade, ousou, ele mesmo, ao registrar, em uma única cena, o mundo dos ricos. Interessantíssima a cena pela questão do ponto de vista ali aplicado, pois é a única nota falsa de todo o filme.
Filme visto no Cinema da Fundação, Recife, Outubro 2009
O relançamento de Toy Story (EUA, 1995) em formato 3D (nas salas do país equipadas para o processo) marca o início de uma temporada de relançamentos previstos para o futuro próximo de filmes importantes comercialmente, feitos originalmente em 2D, agora reconfigurados para as três dimensões. A lista de promessas inclui Uma Cilada Para Roger Rabbit, Titanic e a trilogia O Senhor dos Anéis. Mostra a força desse formato, introduzido originalmente nos anos 50, mas que encontra nas novas tecnologias digitais atuais uma bonança de dinheiro.
Toy Story será seguido de Toy Story 2, semana que vem, antecipando o lançamento esse ano de Toy Story 3D. Eu não vi esta versão 3D do primeiro filme, pois não foi feita cabine de imprensa no Recife. Sabe-se que o processo de conversão levou quase dois anos, trabalho feito quadro a quadro.
De qualquer forma, não deixa de ser interessante poder rever essa que é a primeira obra em longa metragem da Pixar Animation, estúdio que, desde então, estabeleceu o mais alto padrão da indústria no gênero "animação”, eclipsando até mesmo os filmes da Disney, sua parceira de distribuição e, há alguns anos, sua proprietária, resultado de um negocio que garante, até hoje, liberdade criativa ilimitada para a Pixar, e lucros gordos para a Disney corporation.
O estúdio de animação digital surgiu de jovens como o próprio fundador da Pixar, John Lasseter (diretor de Toy Story) e Steve Jobs, o todo poderoso da Apple Computer. Crias da escola Spielberg/Lucas de cinema americano do entretenimento de marca autoral, e fruto de uma das regiões mais ricas do mundo (o Vale do Silício, na Califórnia), têm dado ao cinema, no ritmo de um filme por ano, obras diferenciadas que refletem em grande estilo um ponto de vista americano para a cultura e para a sociedade.
Toy Story é não apenas um grande filme, mas espécie de planta baixa desse cinema, que tem marcado presença anualmente com filmes excelentes como Monstros S/A, Os Incríveis, Procurando Nemo e, por último, Up – Altas Aventuras. Está aqui o fascínio por um mundo feito de plástico, provável reflexo da sociedade americana como um todo, sem nunca deixar de lado o aspecto humano de suas histórias.
Nessa trama espetacularmente divertida sobre uma sociedade secreta de brinquedos, todos pertencentes a um menino que pouco aparece, há lutas de poder entre dois possíveis lideres da gangue, um cowboy e um astronauta (Buzz Lightyear). O primeiro, mais cético, sabe da sua condição de brinquedo. O segundo, cheio de si, crê ser mesmo um astronauta. Ambos terão que enfrentar um menino vizinho, destruidor de brinquedos, vilão realista para com situação tão imaginada.
A capacidade que os filmes da Pixar tem de manter a atenção com uma infinidade de informações visuais eficazes está toda aqui nesse primeiro filme, assim como a habilidade que têm de se comunicar com o grande público. É uma das poucas instancias onde o cinema industrial oferece produtos artísticos orgânicos, mesmo que parte do que a Pixar anime tenha no plástico sua matéria prima.
Eu fiquei bem impressionado com a realização (imagem + câmera) do filme russo "Kak Ya Provel Etim Letom" (How I Inded This Summer). Foi o único filme que me estimulou a correr atrás de uma entrevista com o diretor, Alexei Popogrebskym (no todo, 20 minutos, a ser publicada no futuro). O júri de Werner Herzog também, deu inclusive 2 ursos de prata, um deles para "outstanding technical achievement". Perguntei a Popogrebskym sobre o uso da câmera RED no filme. K.M.F
Das quatro edições do Festival de Berlim que eu acompanhei, esta teve a melhor seleção de filmes na competição. Para combinar, uma premiação lúcida que, para conhecedores do universo do autor alemão Werner Herzog, é coerente. Escolheram a delicadeza do filme turco Bal (Mel), de Semih Kaplanoglu, e valorizaram novos talentos. Herzog e seus jurados ainda apoiaram Roman Polanski com Melhor Diretor não só por um bom novo filme, The Ghost Writer, mas, entende-se, pelo drama pessoal e controvertido pelo qual o mestre franco-polonês passa atualmente.
Na cerimônia de encerramento, sábado à noite, o diretor artístico da Berlinale, Dieter Koslick, anunciou feliz que, no ano em que comemorou seu aniversário de 60 anos, o Festival Internacional de Berlim superou-se em público.
Mais de 300 mil espectadores confirmam um festival que atende ao mercado, a mídia e, principalmente, o público, que lota dezenas de salas de grande porte, ao redor de Berlim, durante 12 dias. Aqui, brinca-se que as proporções gigantes da bilheteria na Berlinale são sempre estimuladas pelo inverno, o desse ano um dos mais fortes dos últimos anos. Com oito graus negativos na rua, a melhor coisa é ir ao cinema.
JÚRI - No início do festival, Werner Herzog mostrou-se curioso para descobrir se “esta seria uma safra vintage”, o cinema tratado como vinho. Não há exatamente uma resposta para isso, apenas os resultados do júri comandado por um dos grandes realizadores do cinema, cujos filmes, ao longo dos últimos 40 anos, têm provocado e estimulado a maneira como as imagens registram o elemento humano e o próprio mundo.
Ao final do festival, Herzog disse, “nenhum momento de amargura durante os trabalhos do júri”. Não era difícil suspeitar que ele talvez pudesse admirar o radicalismo de Caterpillar, de Koji Wakamatsu, vencedor do prêmio de Melhor Atriz (Shinobu Terajima). Ou enxergar algo do seu próprio cinema no filme russo Kak Ya Provel Etim Letom (Como Terminei o Verão), de Alexei Popogrebsky, sobre o isolamento radical de dois homens no círculo polar ártico.
No palco, o diretor Popogrebsky disse ter dado de presente para seu fotografo, Pavel Kostomarov, uma copia de O Homem Urso, do próprio Herzog, para que ele abrisse os olhos para a sua paixão (adquirida na filmagem) por ursos populares. Kostomarov ganhou prêmio técnico especial em reconhecimento ao extraordinário trabalho de câmera no filme, assim como os atores Gregory Dobrygin e Sergei Puskepalis dividiram o Urso de Prata na atuação masculina.
O mesmo tratamento de prêmio duplo foi dado ao romeno Eu Cand Vreau Sa Fluier, Fluier (Se Eu Quiser Assoviar, Eu Assovio), de Florian Serban, que ficou com o prêmio Alfred Bauer, que estimula novas perspectivas para o cinema, e o Grande Prêmio do Júri, na prática o segundo lugar.
É o primeiro filme de Serban e conta a história de um delinqüente que tenta lidar com o reformatório, dias antes de ser solto. Não tem o brilho de outros romenos recentes, mas tem precisão e a qualidade está lá.
Os dois ursos de prata continuam confirmando a máquina de ganhar prêmios dessa produção romena muito apreciada, onde a escrita é cheia de personalidade. Na competição de curtas metragens, a Romênia ainda ganhou Melhor Filme com Colivia (Gaiola), de Adrian Sitaru, outra observação afiada da vida.
O bom drama chinês Tuan Yuan (Separados Juntos), de Wang Quan’an, filme de abertura da Berlinale esse ano, ficou com melhor roteiro, escrito por Na Jim e Quan’an. O filme utiliza o passado recente da China para reiniciar uma antiga história de amor.
Os produtores de Polanski foram receber o troféu, um deles relatando que o cineasta teria dito que, mesmo se estivesse já livre, não teria ido à Berlinale. “Da última vez que fui receber um prêmio num festival de cinema, fui preso”, referência à sua captura na Suíça, em setembro, onde seria homenageado.
Polanski aguarda a solução de um processo iniciado nos EUA em 1977, de onde fugiu na época, que o acusa de manter relações sexuais com menor de idade. Nos perguntamos como será recebido pelo grande público The Ghost Writer, um empolgante thriller sem cenas de ação ou explosões... A vitória do filme de Polanski também foi lembrada como resultado dos investimentos na produção de cinema na própria Berlim, onde Polanski rodou seu filme.
No final das contas, Berlim 2010 deu uma levantada no nível. Nada de valorizar a tortura pré-desenhada de personagens, como no dinamarquês Submarino, de Thomas Vinterberg, um favorito dos colegas da critica. Nada de simpáticas dramédias de cara dura da Noruega (A Somewhat Gentle Man, de Hans Peter Moland), ou o cinema feminino que usa o bottom vistoso na lapela de “eu sou mulher” (o argentino Quebra Cabeças, de Natalia Smirnoffo bósnio Na Putu, de Jasmila Zbanic).
ENCERRAMENTO – Berlim foi feliz até para fechar, pois o ano dificilmente encontrará filme tão doce como o último trabalho do japonês Yoji Yamada, Otôto, título internacional About Her Brother (Sobre o Irmão Dela), escolhido como filme de encerramento. Fez dobradinha perfeita com o outro asiático que abriu o festival, o chinês premiado Tuan Yuan (Separados Juntos).
Exibido fora de competição, Otôto é um melodrama totalmente do bem sobre laços familiares testados pelo tempo e convenções sociais. Como pano de fundo, a forma muito particular (para nós estrangeiros) de como a vida na sociedade japonesa se desenrola.
O filme conta a história de mãe e filha, marido/pai já falecido, que convidam para o casamento da garota um tio que normalmente causa constrangimento pelo seu comportamento estridente. É um homem solitário e bom, que nunca teve muita sorte na vida.
Sua presença no casamento irá gerar tensão, mas são as descobertas posteriores desse tio/irmão que dão ao filme toda a sua beleza. Yamada saiu da cerimônia de encerramento com um troféu especial, a Berlinale Kamera. Um dos últimos planos do filme é um brinde proposto com vinho. Perfeito encerramento. Essa cobertura foi feita através de parceria com o Jornal do Commercio e o Centro Cultural Brasil-Alemanha, no Recife
"Roman, by the way, thank you" Esse filme é merecedor.
por Kleber Mendonça Filho cinemascopio@gmail.com
Ao anunciar o Urso de Ouro de Melhor Filme na 60a edição do Festival Internacional de Berlim, ontem à noite, no palco do Berlinale Palast, o cineasta alemão Werner Herzog disse “não temos nenhuma amargura nesse júri, as decisões foram todas muito rápidas”. O troféu foi para o filme turco Bal (mel), de Semih Kaplanoglu, com dois outros filmes saindo destacados, o romeno Eu Cand Vreau Sa Fluier, Fluier (Se Eu Quiser Assoviar, Eu Assovio) e o russo Kak Ya Provel Etim Letom (Como Terminei o Verão), cada um com dois ursos de prata.
Os resultados do júri comandado por Herzog, um dos maiores nomes do cinema autoral no mundo, podem ser considerados felizes, marcados pela lucidez. O filme turco é uma dessas obras delicadas, que conseguem transmitir em imagens de cinema o que seria o olhar de uma criança que perde o pai muito cedo, e que vê o mundo como pedaços de sonhos. É esperar que esse filme pequeno, muito bem composto, chegue aos cinemas do Brasil.
Escolha interessante, que tanto reconhece o talento, como também sugere uma defesa pública de Roman Polanski, foi o Urso de Prata de Melhor Diretor para o franco-polonês pelo seu trabalho no thriller The Ghost Writer. Aos 76 anos, Polanski está atualmente em prisão domiciliar na Suíça, esperando possível extradição para os EUA onde poderá cumprir sentença pendente para crime de sexo com menor de idade, em 1977.
Outra escolha com sabor ousado foi para a atriz japonesa Shinobu Yoshizawa, atuação corajosa no filme Caterpillar. Yoshizawa interpreta a esposa de um herói que volta da guerra sem braços e pernas, surdo e mudo.
O júri decidiu destacar dois filmes de jovens talentos do leste europeu. O prêmio Alfred Bauer, que estimula novas perspectivas para o cinema, foi dado ao romeno Eu Cand Vreau Sa Fluier, Fluier, de Florin Serban, que ainda levou o Grande Prêmio do Júri, urso de prata que agrega enorme prestígio. É o primeiro filme de Serban e conta a história de um delinqüente que tenta se comportar no reformatório, dias antes de ser solto.
Outro favorito dos jurados foi a impressionante aventura sobre isolamento Kak Ya Provel Etim Letom, de Alexei Popogrebsky. O Urso de Prata de Melhor Atuação Masculina foi dividido entre os dois atores Gregory Dobrygin e Sergei Puskepalis, que seguram sozinhos o filme, ambientado no círculo polar ártico. O filme levou ainda menção especial pela “conquista técnica extraordinária” pela fotografia (Pavel Kostomarov).
O prêmio da Critica, anunciado na noite de sexta-feira, foi para o drama dinamarquês En Familie (Uma Família), de Pernille Fischer Christensen, penúltimo filme exibido na competição. O Teddy Bear (o ursinho de pelúcia), prêmio anual dado ao filme mais destacado de temática gay, foi para o americano The Kids Are Alright, de Lisa Cholodenko.
A produção Brasil/Inglaterra Lixo Extraordinário (Waste Land), de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, exibido na mostra paralela Panorama, ganhou dois prêmios: Público e Anestia Internacional, esse último dividido com Son Of Babylon, de Mohamed Al-Daradji.
Grande Prêmio do Júri If I Want to Whistle, I Whistle (Romênia)
Roman Polanski levou Melhor Diretor por The Ghost Writer.
Atriz foi dado a Shinobu Yoshizawa, atuação corajosa no filme japonês pancada Caterpillar.
O PRÊMIO Alfred Bauer, que estimula novas perspectivas para o cinema, foi dado ao romeno If I Want to Whistle I Whistle (Se eu Quiser Assoviar, eu Assovio), de Florin Serban.
O bom drama chinês Tuan Yuan (Separados Juntos) ficou com melhor roteiro.
Prêmio Especial por Conquista Técnica, Pavel Kostomarov, por How I Ended My Summer.
Melhor Primeiro Filme, ganhou o sueco Sebbe, de (exibido na paralela Generation 14+, dedicado a filmes com temática jovem).
Long Live the New Flesh é o novo filme do belga Nicolas Provost. É um dos realizadores que eu mais espero ver fazendo um longa. O filme passou em competição em Berlim. Provost usa o arquivo mais potente de imagens do horror no cinema para interferir nessas mesmas imagens. Parece sugerir que a própria essência da imagem moderna é orgânica através dos pixels defeituosos, como tumores digitais que afetam a carne e o sangue expostos pelo cinema.
Ele não poupou seu arquivo que, na verdade, é o nosso próprio arquivo de visões indeléveis cinematografadas. Das citações aqui apresentadas, não é de se estranhar que o realizador mais presente seja exatamente David Cronenberg, cujo Videodrome (1982) fornece não apenas carne e sangue retrabalhados por Provost, mas também o título 'Long Live the New Flesh'.
Eu lembro que no surgimento do digital, e ainda hoje, a tecnologia de captação e reprodução de imagens foi/é acusada de uma constância irritante, diferente do celulóide, repleto, por natureza, de pequenas imperfeições e instabilidades. Provost parece ilustrar de maneira espetacular (as imagens corrompidas do grotesco, montagem e som desse filme são extraordinárias) que há um mundo em polvorosa na certeza numérica das novas formas de ver e captar.
Jud Süß - Film ohne Gewissen. Alemão mal recebido. Metroplis no Portão de Brandemburgo. O Urso assaltado.
por Kleber Mendonça Filho cinemascopio@gmail.com
A Berlinale esse ano completou seus 60 anos, algumas sessões exibindo interessantíssimo material de arquivo dessa história, deixando claro que o festival foi instrumento importante nas décadas da guerra fria. Em algumas dessas imagens de arquivo, Oliver Stone espreita o lado comunista por um buraco no Muro de Berlim e Kirk Douglas lembra de ter passado pelo Check Point Charlie, a ligação oficial entre leste e oeste, entre 1962 e 1989.
Talvez seja esse histórico que ainda dê ao Festival Internacional de Cinema de Berlim um certo sabor de democracia (diferente de Cannes, é um festival de público e grandes salas lotadas pelos cinéfilos) e uma tentativa de programar filmes de teor social e político, com a habitual demonstração de respeito por autores do mundo.
Essas quase duas semanas de cinema, espalhadas em dezenas de salas grandes de Berlim, de certa forma refletem a sensação geral que essa cidade inspira. Se o mundo é repleto de cidades ricas em cultura e arte, poucas têm a capacidade de inspirar o pensamento livre para as artes (inclua aí o cinema) como Berlim, que durante tanto tempo viu-se dividida, e que agora parece agregar tudo.
É um festival de cinema encravado no meio de sítios históricos que nos lembram não apenas o que aconteceu aqui, mas que parece ainda guiar, através do passado, os caminhos para o futuro.
Com as principais salas localizadas entre o monumento em memória ao Holocausto e a antiga sede da Gestapo, a área é ainda cortada pelo fantasma desenhado no chão (em singelos paralelepípedos) do que uma vez foi o Muro, a Berlinale oferece certamente um grande dialogo entre as imagens do cinema e as imagens deixadas pelo passado.
Uma das imagens mais fortes da Berlinale esse ano, aliás, foi a do clássico Metropolis, de Fritz Lang, sendo projetado numa tela montada no Portão de Brandemburgo, outro marco da cidade. O filme foi restaurado a partir de uma copia que, acreditava-se perdida, achada na Cinemateca de Buenos Aires em 2008.
Nas suas sete mostras distintas – Competição, Berlinale Special, Panorama, Forum, Berlinale Shorts, Generation, Retrospektive e Perspektive Deutsches Kino (Perspectivas do Cinema Alemão), críticos, gente de mercado e público tentam dar algum sentido ao excesso de filmes de todos os lugares e estilos.
Curiosamente, vale observar que a produção alemã continua tímida como resultados na tela, embora a participação da Alemanha como espaço para produção esteja aumentando. O maior sucesso desse estímulo recente foi a fatia alemã em Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, atualmente indicado a oito Oscars.
Co-financiado pelo fundo de incentivo ao cinema da cidade de Berlim (Berlin-Brandenburg GmbH), e filmado nos estúdios Babelsberg, nos arredores de Berlim, o sucesso mundial do filme, e o carisma de Tarantino, foram transformados em marketing para Berlim, com camisas, suéters, bonés e cartazes do filme vendidos no comercio da cidade.
Na quarta-feira passada, foi anunciado um acordo entre os estúdios Pinewood, em Londres, e os estúdios Hamburg e Adlershof numa joint venture chamada Pinewood Studios Berlin Film Services. A revista Variety de quinta-feira descreveu os fundos alemães para co-produções estrangeiras como “generosos”, nas esferas regional e federal, resultando “na mais dinâmica região da Europa para a produção de cinema”.
GOEBBELS - E os filmes alemães? Embora a questão dos fundos de incentivo e co-produções garanta nacionalidade alemã a pelo menos três outros filmes em competição, são três os filmes que puderam ser considerados alemães na competição esse ano. E foi uma mostra bem fraca de uma filmografia que já nos deu Fassbinder, Wenders e Herzog (esse ano, presidente do júri).
Não deixa de ser curioso para o observador externo ver que a única vaia ouvida nas sessões da Berlinale por esse observador foram para um drama histórico sobre o nazismo: Jud Suss – Film Ohne Gewissen (Judeu Suss – Ascensão e Queda), de Oskar Roehler, narra, como num assistível especial para a TV, a história real e terrível de Ferdinand Marian, ator ariano que foi obrigado por Joseph Goebbels, à frente do cinema no 3o Reich, a aceitar o papel do mais abominável estereotipo do judeu, numa super produção de propaganda nazista.
Ironicamente, Jud Suss – Film Ohne Gewissen tem inúmeros pontos de convergência com Bastardos Inglórios. De Goebbels à máquina nazista de imagens sendo revista, mas sem o reprocessamento interessantíssimo de Tarantino, ou uma idéia ousada de cinema. De qualquer forma, fica a dúvida: o público vaiou o filme ou o tema?
Se um segundo filme, Der Rauber (O Ladrão), de Benjamin Heisenberg, conquistou o respeito do público e da crítica, um terceiro foi um dos poucos vexames da seleção esse ano. Shahada, de Burhan Qurbani, crônica étnica sobre muçulmanos na Berlim contemporânea, lidando com um manual de problemas modernos, como aborto, homossexualismo e adultério. Esse sub-Crash berlinense é um projeto de jovem realizador, e ninguém sabe ao certo o que estava fazendo em espaço tão importante.
Vale dizer que, nas mostras paralelas, o cinema alemão pareceu relacionar-se bem com o seu passado. Alem do evento que foi a apresentação de Metropolis, Berlim apresentou a cópia restaurada de um documento essencial para entender não apenas o elemento humano, mas a história dolorida da Alemanha: Nuremberg: Its Lesson For Today, o documentário oficial do julgamento de 23 oficiais nazistas, exibido na Alemanha como parte do processo de desnazificação da Alemanha no pós-Guerra.
Por último, um relançamento pertinente, e não menos fascinante: a Fundação Fassbinder, dedicada a divulgar a obra de Rainer Werner Fassbinder, apresentou em duas sessões especiais a copia nova de um dos seus filmes menos conhecidos, Welt am Draht (1973), surpreendente por ser um filme de ficção científica sobre mundos virtuais criados por computador. É o presente.
Não é possível ignorar os comentários da imprensa internacional em Berlim sobre a forma como o ator Gerard Depardieu aparece num dos seus dois novos filmes, ambos projetados na Berlinale. L’Autre Dumas, de Safy Nebbou, é sobre o escritor Alexandre Dumas, passou na Berlinale Special (e eu não vi), mas é em Mammuth (competição), filme de Benoit Delépine, que Depardieu parece ter chocado.
Ele é filmado como uma espécie de irmão gordo do Lutador, de Mickey Rourke, cabelos longos e loiros, redondo na forma, às vezes nu em cena, sem pudores, total entrega. Obelix também seria referência. A reação da platéia chega a ser interessante dada a rejeição efusiva ao corpo de Depardieu.
O filme em si é um LA-DI-DA francês e granulado, filmado não apenas em baixa resolução, mas no que aparenta ser a intenção de fazer o filme mais visualmente feio da era moderna. Granulado como uma câmera de segurança e verde escuro no tom, Mammuth é inicialmente curioso, com suas observações da vida nas classes mais baixas da França, nas movimentações naturais de um ogro nos obstáculos do dia a dia.
Mais tarde, a julgar pelas minhas caretas discretas no escuro, talvez não passe de uma besteira com vôos de poesia de má qualidade, e ar artsy-biruta. A base aparenta ser o sentimento de passagem do tempo na vida, e há, de fato, um tom agridoce promissor.
Depardieu é um açougueiro que chega à aposentadoria sem os papeis necessários para ganhar sua pensão. Visita lugares onde trabalhou, como cemitérios e boates, à procura de documentos. Isabelle Adjani, numa estranha participação que valoriza seu rosto, é sua musa da morte, e cada novo encontro desse road movie pretensamente experimental garante os risos típicos dos filmes excêntricos.
Mammuth é uma aposta no grão e na gordura, e chega para Depardieu como um registro não apenas de pequenas pretensões artísticas, mas também dele próprio como corpo físico. De certa maneira, o filme enfrenta padrões de beleza, seja na imagem suja ou na falta de vaidade do seu astro, ocupando curioso espaço. Encolhe ainda mais após a sessão.
O realizador inglês Michael Winterbottom, cujas habilidades como cineasta espalham-se por todas as gamas, formatos e gêneros apresentou seu exercício em mitologia americana aplicada, The Killer Inside Me (O Assassino Dentro de Mim). Foi exibido hoje, no Festival de Berlim, o último filme apresentado em competição. A violência do filme gerou o tipo de reação comum em festivais de cinema, e que irá repetir-se nas salas, quando do seu lançamento. Espectadores levantando-se apressados em direção à saída de emergência.
Ambientado nos anos 50, no interior do Texas, é a história de um jovem xerife adjunto (Casey Affleck) que começa a despertar suspeitas sobre suas condutas depois que uma série de assassinatos passam a ocorrer na sua jurisdição, normalmente com pessoas com as quais ele esteve.
É uma história clássica de assassino por natureza na paisagem americana, e já há acusações de que The Killer Inside Me seja mais do mesmo. Talvez seja, considerando a freqüência desse sub-gênero nas imagens americanas.
De qualquer forma, essa história foi filmada por esse realizador inglês com certo fascínio, em em 35mm CinemaScope. Estão lá os enquadramentos clássicos da mitologia americana, o sotaque forte do Texas, a música, a violência.
O filme foi, em grande parte, mal recebido, talvez refletindo a natureza barata da literatura do autor Jim Thompson, cujo livro homônimo foi publicado em 1952. É um autor, e um livro da chamada ‘pulp fiction’, e o tratamento de Winterbottom nos pareceu totalmente adequado.
A carga mais pesada das imagens agressivas de The Killer Inside Me (com distribuição já garantida no Brasil) existe na violência contra mulheres, resultado de um personagem que, em parte, as adora, e, de outra maneira, quer destruí-las em arroubos assustadores de agressão e extermínio. E o faz com as mãos e os pés, para máximo contato físico. Curiosamente, com os homens, os atos de brutalidade são bem mais rápidos e certeiros, o que não deixa de ser um aspecto curioso da construção desse personagem.
Na coletiva de imprensa, uma jornalista levantou a questão sempre presente da sexualização do crime e da brutalidade, uma vez que as duas personagens femininas são interpretadas por estrelas sensuais como Jéssica Alba e Kate Hudson. Winterbottom também enfrentou a fúria básica dos mais sensíveis, e sua resposta foi a resposta padrão.
“A violência no cinema deve ser chocante. Acho questionável quando filmes mostram a violência como algo divertido, engraçado. Sobre misoginismo, é uma questão sempre complicada, já que a violência contra as mulheres é algo que faz parte da sociedade, e certamente faz parte da história desse personagem. Alem disso, meu filme deixa claro que este é um homem com sérios problemas, ele não é um modelo a seguir”.
Winterbottom, que já fez filmes tão díspares como A Festa Nunca Termina (2000), sobre a cena musical de Manchester, Nesse Mundo (2002, Urso de Ouro em Berlim) e Caminho Para Guantanamo, lembrou que seu primeiro longa metragem, O Beijo da Borboleta (1995) já marcava território temático semelhante, mas ambientado no norte da Inglaterra.
Em Berlim, ele quis deixar clara sua intenção de fazer um filme que fosse totalmente fiel ao livro, algo que beirasse o exercício de linguagem. “Isso não significa que tenha partido para procurar a imagem do cinema noir, mesmo que o livro tenha essa carga noir.
Um aspecto também levantado na coletiva foi a ausência de todo o elenco, em Berlim. Isso foi somado aos boatos, divulgados na première mundial do filme no Festival de Sundance de que Jéssica Alba teria abandonado a sessão na cena em que é vitimada.
“Isso não é verdade, Jessica havia visto o filme antes, foi a Sundance para apresenta-lo e não ficou para ver a sessão. Sobre a ausência dos outros, é uma pena, quando aceitamos o convite para vir a Berlim, prometemos que todos estariam aqui, portanto, podem imaginar como estamos chateados. De qualquer forma, Casey tem preferido não trabalhar em filmes, e já me considero sortudo de tê-lo tido no filme”.
Depois de uma semana inteira com máximas de dois graus negativos, o termômetro passou hoje dos três positivos, começando a derreter o verdadeiro rinque de patinação no gelo no qual Berlim se transformou. Este é ido como um dos invernos mais fortes dos últimos 10 anos. E já chegando ao fim, persiste a sensação de que esta 60a edição da Berlinale tem qualidade geral respeitável, mas num todo sem filmes que desencadeiem reações de grande alegria.
Combinando o desconforto físico trazido pelo frio do lado de fora dos cinemas com o frio sentido na tela, há um destaque claro e evidente na competição que é o filme russo Kak Ya Provel Etim Letom (Como Terminei Meu Verão), do diretor Alexei Popogrebsky. Todo filmado no círculo polar ártico, na ponta extremo-leste do território russo, é a história de dois homens numa base de monitoração meteorológica isolada.
O mais velho (Grigory Dobrygin) é pai de família, e comunica-se com esposa e filho através de mensagens de celular enviadas por terceiros, na base de rádio, a centenas de quilômetros de distancia. O mais jovem é um estagiário (Sergei Puskepalis) que pegou o serviço para escrever uma monografia nesse exílio exótico. O filme se passa no verão do Círculo Polar Ártico, mas as temperaturas não parecem passar de zero grau.
A sensação de isolamento é espetacular, deixando o filme a alguns metros do cinema fantástico, onde lembranças de O Enigma do Outro Mundo (The Thing, 1982), de John Carpenter, são constantes. Trabalhos de fotografia (com a câmera digital Red) e som incríveis, provam que Popogrebsky é um nome a se observar.
O filme transforma-se em drama enervante num momento de ausência do homem mais velho. O estagiário recebe uma mensagem importante via rádio que, de forma não explicada via formas convencionais, ele não quer, ou não consegue passar para seu chefe, assumindo comportamento cada vez mais inusitado, como uma criança assustada. Seria a loucura do isolamento? Ou o peso da natureza sobre o homem, aspecto tão visto nas imagens russas de cinema?
Como Terminei Meu Verão tem a cotação mais alta no quadro da crítica, atualizado diariamente na revista inglesa Screen International, distribuída no festival. Uma leitura possível colocaria o filme bem próximo dos territórios distantes filmados no cinema de Werner Herzog, presidente do júri em Berlim.
Dois filmes com ponto de vista feminino passaram na competição, o melhor deles o argentino Rompecabezas (Quebra-cabeças), de Natalia Smirnoff. Muito envolvente, utiliza estrutura minimalista com resultados consideráveis. Maria Onetto, a mesma atriz tão bem utilizada por Lucrecia Martel em A Mulher Sem Cabeça, volta com um ar e uma postura não tão diferente. Interpreta uma dona de casa de Buenos Aires que descobre-se exímia montadora de quebra-cabeças.
Mãe de filhos homem crescidos, marido delicadamente machista, ela descobre na resolução peça a peça de imagens da cultura universal (Egito antigo e clássicos da pintura) uma energia que talvez estivesse faltando na sua vida. Isso aumenta depois que responde a um anúncio para que treine suas habilidades com um homem de meia idade rumo a um campeonato internacional. Uma das imagens do festival: ver essa mulher, sempre serena, não necessariamente infeliz, abrir um verdadeiro sorriso pelo simples fato de sentir-se bem consigo mesma.
É um filme de mulher sobre as conquistas necessárias de pequenas liberdades, cuidadosamente modulado pelas atuações super naturais e por um roteiro bem escrito. Salta aos olhos a capacidade que os argentinos têm de gerar filmes a partir do que parece ser pouca coisa, com grande confiança nos dramas humanos de boa qualidade e tom obviamente pessoal. Salta também aos olhos a influência de Martel não só em tentativas recentes do cinema brasileiro de curta e longa metragem, mas também nesse produto da própria Argentina.
O outro filme dirigido por cineasta mulher é da Bósnia e Herzegovina. Na Putu (No Caminho), de Jasmila Zbanic (ganhadora do Urso de Ouro 2006 por Em Segredo). Como no argentino, há uma libertação por parte de uma mulher, mas aqui de fantasmas da história recente e sangrenta do país, tema também visitado no filme anterior.
A aeromoça Luna (Zrinka Cvitesic) vê seu companheiro desempregado se converter a uma forma radical de islamismo, levando-o a mudar completamente como pessoa. É o choque entre a Bósnia européia globalizada pós-conflitos dos anos 90 e as raízes dessa mesma cultura, que não parece ir embora. Nos dois filmes, ações afirmativas políticas de mulheres que decidem seus próprios caminhos. No filme de Zbanic, tudo me parece tão cansado e auto-afirmativo.
O bom título internacional de É Proibido Fumar, filme de Anna Muylaert, é Smoke Gets in Your Eyes, nome do clássico pop do The Platters, nos anos 60. Foi anunciado em Berlim que o filme terá comercialização administrada para o mercado estrangeiro pela Figa Films, de Los Angeles. O filme foi lançado no Brasil em dezembro último, e agora está no mercado de Berlim.
Deu hoje na Screen International essa lista de especulações sobre possíveis filmes atualmente "em pós-produção" e que poderão ser considerados por Cannes. Mera especulação. Não há menção a títulos do cinema brasileiro. K.M.F
Chantrapas (Otar Iosseliani, que luxo ver filme novo dele) Aurora, de Cristi Puiu (de A Morte do Sr. Lazarescu, um dos meus top 10 da década) Film Socialism (Jean Luc Godard) You Will Meet a Tall Dark Stranger (Woody Allen) Rabbit Hole (John Cameron Mitchel) The Tree of Life (Terrence Malick) Somewhere (Sofia Coppola) The Fighter (David O. Russel) The Turin Horse (Bela Tarr) Tamara Drewe (Stephen Frears) Untitled (Mike Leigh) Certified Copy (Kiarostami) Death of a Hostage (Johnnie To) Carancho (Pablo Trapero) Machete (Robert Rodriguez) The Expendables (Sylvester Stallone) Black Swann (Darren Aronofsky) Miral (Julian Schnabel).
Surpresa boa na participação brasileira Bróder, de Jeferson D, exibido agora há pouco na seleção Panorama, em estréia mundial no Festival de Berlim via sessão de imprensa. É uma crônica muito bem observada sobre três amigos da periferia de São Paulo, faixa etária 23 anos, numa breve reunião para comemorar o aniversário de um deles. Possibilidades de o filme cair em clichês são, quase todas, anuladas por uma honestidade tocante, claramente fruto de um universo social bem observado.
O perigo do clichê está bem mais presente na sinopse do que no que vemos projetado. A ambientação é a classe média baixa de São Paulo na já muito filmada topografia urbana vernacular das periferias brasileiras dos becos e vielas. É um ambiente repleto de possibilidades, uma delas o crime.
É também um espaço essencialmente familiar, algo muito bem estabelecido na primeira meia hora, onde uma feijoada de aniversário junta os amigos Macu (Caio Blat), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Silvio Guindane).
Pibe saiu do bairro para criar filho com a esposa, Jaiminho joga futebol na Espanha, é milionário, e Macu, ainda na comunidade, lida com gente que pertence claramente ao lado sombrio da força.
É claro que a matriz para esse tipo de narrativa é o Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973), de Martin Scorsese, ou o Os Donos da Rua (Boyz’n’D’Hood, 1991), do John Singleton, mas Jeferson D dá ao cinema brasileiro um ponto de vista importante para esse tipo de material.
O trio de amigos divide não apenas a amizade, mas também (ex)namoradas, irmãs, primas, madrinhas e padrinhos. O catolicismo é abandonado para o protestantismo (numa cena muito bem ilustrada) e é quase possível sentir o cheiro do feijão no fogo. Aos poucos, os personagens são desenvolvidos de forma muito acima da media, com perfeita integração de Blat, Haagensen e Guindane, alem de uma participação muito boa de Cássia Kiss, na casa.
Curiosamente, a única nota (espetacularmente) falsa de Bróder é exatamente uma cena onde um personagem branco, da classe alta, é visto no seu ambiente, do outro lado de um telefonema. Esse empresario bebe champanhe com sua esposa loira de olhos azuis, num verde campo de golfe. A cena me chamou muito a atenção, pois normalmente a nota falsa está na representação das classes mais baixas, no exotismo dos becos e das vielas. Ou seja, muito interessante.
A segunda metade de Bróder cai em rendimento, uma vez que Jefferson D parece precisar levar adiante a tese de que os caminhos para os jovens da periferia são, de fato, perigosos, algo arrematado num letreiro final que deveria ter sido arquivado como idéia.
De qualquer forma, os desdobramentos são bem articulados, com os dois pés no chão de São Paulo e arrabaldes, muito antes de Bróder revelar-se “um filme com uma mensagem”. Bem filmado e atuado, o que mais destaca-se para mim é o simples fato de Bróder ter coração.
Um dos filmes mais simpáticos que vi em Berlim nesta edição chama-se The Kids Are Alright, da diretora Lisa Chodolenko, com distribuição no Brasil já definida (Imagem Filmes). É uma comédia americana de costumes e corte liberal, o tipo de coisa que os estúdios dificilmente fariam. É sobre um casal de mulheres (Annette Bening e Julianne Moore) que gerou um casal de filhos (Mia Wasikowska e Josh Hutcherson) via banco de esperma. Chegando aos 18 anos de idade, eles descobrem a identidade do pai/doador, um dono de restaurante e bon vivant (Mark Ruffalo).
O pai de família da casa é a médica de Annette Bening, controladora, dominadora e que mantém o menino de 15 anos, a garota de 18 (Wasikowska será vista em breve como a Alice no País das Maravilhas de Tim Burton) e também sua companheira na coleira curta.
Quando o homem se aproxima, é ela quem sente o peso do ciúme. Pequenas tensões surgem, todas administradas com surpreendente maturidade pelo filme, que usa vocabulário (verbal e visual) generoso para a sexualidade.
Obviamente que, nesse tipo de “cinema independente americano” (ou filmes americanos realizados fora dos estúdios), os 15 minutos finais tendem a virar decepção. De qualquer forma, The Kids are Alright revela-se uma peculiaridade, já que há aqui a defesa a ferro e fogo do ideal de família (não muito diferente de um filme da Disney), muito embora essa família seja efetivamente gay.
Além do documentário anglo-americano Lixo Extraordinário, a outra participação brasileira na Panorama foi Besouro, exibido terça-feira, filme de artes marciais já lançado nos cinemas do Brasil. A revista Hollywood Repórter publicou critica muito positiva do filme de Daniel Tikhomiroff assinada por Deborah Young. “O divertido Besouro é um tipo raro de filme de artes marciais com história envolvente e idéias sociais sendo expressas”.
Há um boato tão interessante quanto inusitado correndo em Berlim sobre uma possível parceria entre Martin Scorsese, na cidade para divulgar A Ilha do Medo, e o dinamarquês Lars Von Trier. Segundo a revista inglesa Screen International, os dois teriam se encontrado na cidade no final de semana para discutir uma refilmagem de Taxi Driver, o clássico de Scorsese. O projeto seria parte de uma série proposta por Von Trier com base nos “filmes que me fizeram querer fazer filmes”. O produtor de Von Trier, Peter Aalbaek, não confirmou nem negou, e disse que um anuncio oficial será feito em breve. Rumores também apontam para a participação de Robert de Niro...
Abandonando um pouco a seleção oficial, dois documentários poderosos, de realizadoras independentes, foram apresentados na seção Panorama. Ilustram linhas de tempo totalmente distintas para a história do povo de Israel, agregando novos valores aos arquivos de imagem dessa história, e também reprocessando-os.
Em A Film Unfinished (Um Filme Inacabado), de Yael Hersonski, a copia de trabalho de um filme nazista de propaganda rodado no Gueto de Varsóvia é revista, depois de décadas perdida nos arquivos. Em Budrus, a brasileira Julia Bacha (radicada nos EUA) registra o conflito entre moradores de uma vila nos territórios ocupados por Israel, que reagem pacificamente à construção injusta de um muro de segurança nas suas terras.
A peculiaridade dessa descoberta é investigar a natureza do cinema de registro como uma farsa, uma vez que as equipes de reportagem do 3o Reich foram enviadas para armar um relato parcialmente ficcional sobre a propagada natureza avarenta dos judeus.
Cerca de 500 mil judeus foram segregados no gueto, que a história revelou ter sido a última parada da grande maioria antes das deportações para campos de extermínio como Treblinka e Auschwitz.
Com farto material de takes “1”, “2” e “3”, cenas eram ensaiadas e repetidas para ilustrar o contraste entre os ricos e os pobres, a equipe trazia carne para frigoríficos vazios e dramatizava uma vida burguesa onde muitos morriam de fome.
A idéia de propaganda filmada é uma constante na produção de imagens desde o início do cinema, há mais de 100 anos, com destaque para o acervo de imagens da 2a. Guerra Mundial via americanos, soviéticos, ingleses e alemães.
O filme é inferior a um relato russo chamado Blockade (2005), de Sergei Loznitsa, montado com imagens recusadas na época pela máquina de propaganda da URSS, sobre a vida em São Petersburgo durante o cerco nazista. A jovem Hersonski, por exemplo, usa música dramática e reconstitui uma entrevista importante em cristalino formato de alta definição, criando choque indesejável com o material em película encontrado.
De qualquer forma, há no seu filme algo de verdadeiro e particularmente grotesco nessa análise de imagens encontradas proposta. Especialmente quando a realidade histórica é quebrada pela repetição imposta por um sentido ainda mais grotesco de ficção, a equipe nazista vista acidentalmente nas cenas que foram cortadas.
Em Budrus, Julia Bacha filma em Mini-DV e com a câmera trêmula na mão uma rara instância onde um enfrentamento entre judeus e palestinos é guiado por uma idéia inicial de paz. O conflito surge do muro erguido por Israel para garantir mais segurança para o país, isolando-o dos territórios palestinos. O problema é que o muro não começa na linha fronteiriça de Israel, mas quilômetros dentro das terras palestinas, desenhado com aparente arrogancia.
Uma das localidades afetadas é a vila de Budrus, onde surge uma resistência pacífica, que usa a energia das mulheres e crianças para enfrentar a chegada de tratores que irão por abaixo oliveiras importantes culturalmente para a comunidade. Numa passagem extremamente significativa, a comunidade também mostra preocupação de que as crianças não enxerguem o muro da escola que os ensina noções de cidadania.
Não há qualquer dúvida sobre onde está o ponto de vista de Bacha. Ela consegue duas entrevistas importantes com membros do exército de Israel, que acreditam num tom sempre polido na força e na necessidade de limpar a área. Há uma escalada de tensões e, depois de ações prolongadas de mulheres e crianças, rapazes começam a jogar pedras. O filme cria uma situação tensa e não é difícil lembrar de Avatar, de James Cameron, onde o lado fraco enfrenta a estupidez bem equipada dos menos justos...
Informações indicam que as batalhas (com feridos, mas sem mortos) levaram Israel a redesenhar o mapa dos seus muros e cercas, uma vitória para os moradores, reinterpretada pelo comandante israelense como uma vitória de Israel, que assim quis que as coisas fossem. Budrus é mais uma janela para entendermos de perto conflitos ancestrais normalmente descritos de longe pela mídia, com o tipo de “imparcialidade” que gera ainda mais confusão.
É sempre muito bom sair de um filme coçando a cabeça, acompanhado escada abaixo por um ponto de interrogação. Havia ocorrido um dia antes com o japonês Caterpillar, ontem foi a vez de Shekarchi (Caçador), filme iraniano (feito com dinheiro alemão) diferente de qualquer coisa já vista na filmografia do país. Também fica a pergunta do como um filme desse foi feito no país de Mahmoud Ahmadinejad.
Pois bem, temos um segurança, homem de família. Uma tragédia, resultado dos protestos de rua de um ano atrás, o deixa só. Ele pega um rifle e, como um caçador na natureza selvagem, mata, à distancia, dois policiais. É um filme cheio de raiva e desobediência civil, com uma visão humana e pessimista das instituições iranianas. A violência e mais próxima de um filme ocidental, mas ainda há uma economia à vista que esperamos sempre dos iranianos. Bom.
Já chegando à metade da competição esse ano, e a gelada Berlim (temperaturas sub-zero há quase uma semana) revela-se uma das seleções mais felizes das últimas edições. Um destaque de hoje, por exemplo, foi o muito estranho filme japonês Caterpillar, de Koji Wakamatsu, típica sessão das gargalhadas isoladas, sinal de incômodo no recinto e obrigatórias em todo festival que se preze. É um ensaio sobre os efeitos da 2a. Guerra Mundial sobre a sociedade japonesa, feito com, aparentemente, muito pouco dinheiro, mas com idéias fortes de como expressa-las poeticamente.
É a história de um soldado que volta da guerra um herói condecorado, mas desfigurado, surdo, mudo, sem braços nem pernas. Obviamente que lembranças de Johnny Vai à Guerra (Johnny Got His Gun, 1972), de Dalton Trumbo, vêm à mente, mas Caterpillar desdobra o conceito.
Essa sobra machucada de um ser humano passa a ser conhecida na sua pequena comunidade agrícola como “O Deus da Guerra”, levado em passeios semi-oficiais num carrinho de mão, de chapéu e uniformizado, pela sua mulher, de quem a sociedade espera que exerça suas funções heróicas de esposa, ao lado do marido herói.
Além do impacto desse “Deus da Guerra” na sociedade japonesa (a máquina patriótica o torna um orgulho famoso), Caterpillar nos mostra para máximo efeito a intimidade dessa vida a dois. As únicas formas de comunicação entre o soldado e sua mulher são o sexo e a alimentação, uma vez que, descontadas as condições físicas desse homem, ele continua saudável para comer e copular, com voracidade.
Rodado em vídeo, com uma estética curiosa de produto eletrônico já quase retrô, com inserções momentâneas de imagens de arquivo da Guerra transmitindo uma sensação palpável dos efeitos do conflito sobre os japoneses, Caterpillar é uma sessão difícil.
É possível que o sexo nunca tenha sido filmado nesses termos no cinema, agregando ainda um mal estar formidável sobre as lembranças sórdidas desse soldado no conflito, assim como o estado de espírito fragilizado da esposa, presa entre ser serviçal, cozinheira e objeto sexual. Não seria uma surpresa se Caterpillar sair de Berlim com algum prêmio importante.