Saturday, May 15, 2010

Vídeo KMF da Sessão de 'O Leopardo'

Cannes Video #2 - 'Il Gatopardo' from Kleber Mendonça Filho on Vimeo.

O Que Vi Até Agora

L'HOMME QUE CRIE (competição), Mahamat-Saleh Haroun - ****
RUBBER (Semana da Crítica), Quentin Dupieux - ***
SHIT YEAR (Quinzena), Cam Archer - ***
YOU'LL MEET A TALL DARK STRANGER (Hors Concours), Woody Allen - ***
ANOTHER YEAR (competição), Mike Leigh - *** 1/2
CHAT ROOM (Certain Regard), Hideo Nakata - Abandonei aos 44 mins, detestei.
IL GATOPARDO (Cannes Classics), Visconti - *****
AURORA, Cristi Ouiu - *** 1/2
WALL STREET - MONEY NEVER SLEEPS, Oliver Stone - *** 1/2
O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA, Manoel de Oliveira *****
MARTI, DUPA CRACIUN (TUESDAY, AFTER CHRISTMAS), Radu MUNTEAN ****
RIZHAO CHONGQING (CHONGQING BLUES), WANG Xiaoshuai ***
THE HOUSEMAID, IM Sangsoo ***
ROBIN HOOD, Ridley Scott **

Friday, May 14, 2010

Sessão Histórica de 'O Leopardo' Restaurado


por Kleber Mendnça Filho
cinemascopio@gmail.com


Em Cannes, você acha que vai apenas ver tranqüilo a versão restaurada de O Leopardo, de Visconti, na sala Debussy, e nota que a sessão não será normal já pelo cheiro de perfume que abala o ar. Aí percebe que, na fileira imediatamente atrás de você, papéis marcam poltronas com os nomes de Alain Delon, Claudia Cardinale e Martin Scorsese...

Para quem tem relação próxima com o cinema (eu e todos vocês que lêem isso aqui), a sensação não é careta. O cinema gera um sentimento mitificador sem igual, e se estamos falando de um clássico absoluto dessa arte como ‘Il Gatopardo’ a distância só parece aumentar. Só que, ao olhar para trás, você vê Alain Delon sentado vendo o mesmo filme, e Cardinale, filmada por Visconti, sendo vista por você sem lentes, ou Scorsese, que fez ‘The Age of Innocence’ pensando em Visconti, reprocessando O Leopardo. É tudo muito possível no cinema, e muito próximo no cinema, e distante demais.

Foi uma sessão histórica, e rever o filme não teria preço se fosse pago. Entre muitos, o momento que mais me chamou a atenção é a cena onde o príncipe de Burt Lancaster, sentindo-se velho e decadente no meio da grande festa, é rejuvenescido pela beleza indescritível de Cardinale, noiva do seu sobrinho, Delon. Lancaster já faleceu, Delon e Cardinale já estão velhos, talvez em algum momento se sentindo como aquele príncipe.

Qualquer excesso, perdoem, mas acabo de sair da sessão e o tema é caro ao Sr. Visconti. Foi muito bom.

Aurora (Un Certain Regard)



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Cannes continua sendo o ponto zero hoje no mundo para o cinema romeno, e a mostra Un Certain Regard nos traz mais duas provas de que esses romenos parecem ter dominado o mercado do realismo. Eu só acho interessante que num mundo cada vez mais 3D, será que existe um mercado para esse realismo tão afiado? Marti, Dupa Cracium (Terça, Depois do Natal), de Radu Muntean, e Aurora, de Cristi Puiu, foram exibidos quinta e sexta.

A atual safra premiadíssima de cinema romeno, na verdade, como todos já devem saber, teve início com um filme maravilhoso de Puiu, exibido em Cannes 2005, A Morte do Sr. Lazarescu, que infelizmente não encontrou distribuição no Brasil. Puiu levou a Câmera de Ouro naquele ano com a linda história de um homem idoso e doente, numa noite de Bucareste. Seu segundo filme foi muito esperado e fica o lamento geral que seja uma decepção.

Está de volta o tratamento processual que parece unir todos os filmes romenos (Leste de Bucareste e Policia Adjetivo, de Corneliu Porumboiu, 4 Meses 3 Semanas 2 Dias, de Cristian Mungiu), vindo de uma câmera perspicaz que acompanha o personagem num determinado ambiente. O problema é que em Aurora, Puiu leva o conceito ao ponto da exaustão, ainda mais a serviço de um olhar que já conhecemos. Tematicamente, há ainda sensação de déja vu.

É essencialmente a história de alguém que mata, algo que Kieslowski filmou tão bem (e em menos da metade do tempo) em Não Matarás, ou Haneke (usando vetores diferentes, é verdade) em algo como Benny’s Vídeo.

Em Aurora, Puiu pede demais do espectador ao nos fazer acompanhar um homem recém divorciado, infeliz, perambulando por Budapeste e matando, ao longo de três horas de projeção quatro pessoas. Difícil não lembrar que o título internacional de Não Matarás é A Short Film About Killing (Um Filme Curto Sobre Matar), e que Puiu fez um filme longo sobre a mesma coisa. Muito bem filmado, com um final ainda mais lacônico que parece sugerir que a sociedade é um lugar frio e indiferente para se viver, Aurora talvez seja a minha primeira real decepção vinda da Romênia.

Filme visto na Debussy, 14 de Maio 2010, Cannes

Marti, Dupa Cracium (Un Certain Regard)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


De volta à expressividade pessoal que faz os romenos tão bons, temos Terça, Depois do Natal, que poderá ser discutido a partir de agora em termos de como filmar a intimidade das pessoas. Uma referencia, especialmente na raiz temática “casamento”, sempre foi Ingmar Bergman, mas Muntean consegue deixar marca própria nessa linda/terrível história sobre o fim de um casamento.

O marido tem uma filha e tem também uma amante alguns anos mais jovem que a esposa. Eu tinha visto o filme anterior de Muntean – Boogie, passou na Quinzena em 2008 -, bom filme que fica menor junto desse. Já analisava relações de traição, responsabilidade, relacionamento, tudo muito bem filmado, atuado e vivido.

Num filme onde o cinema é tão íntimo dos personagens, vale dizer que o barulho da câmera faz parte da cena onde homem e mulher sussurram um para o outro, ou gritam um com o outro. E é ainda um filme onde a cena final não pode ser esquecida. Ela sintetiza não apenas a cumplicidade entre pessoas, mas entre a câmera e nós mesmos.

Filme visto na Debussy, Cannes, 13 Maio 2010

Wall Street - Money Never Sleeps (hors concours)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Foi nos primeiros meses de 1988 que eu vi no Cinema São Luiz (Recife) Wall Street – Poder e Cobiça, filme de Oliver Stone, na época ainda gozando do sucesso de Platoon. O filme, enxuto, tenso, com um sólido senso moral, falava sobre os EUA daquele momento, dominado pela cultura yuppie da era Reagan. Hoje, parece o tipo de filme que não vemos mais em Hollywood, obra adulta para adultos, e que só agora, 22 anos depois, ganha uma continuação, Wall Street – Money Never Sleeps (O Dinheiro não Dorme). Passou ontem em Cannes em pré-estréia mundial fora de competição. Tem estréia no Brasil em setembro.

Foi o filme do dia, em termos de mídia, uma das poucas produções Hollywood esse ano no festival, para a alegria de uma imprensa faminta por filmes grandes cheios de celebridades num cardápio onde predominam pequenos filmes autorais de países como a Romênia, a Coreia ou mesmo a França. Aliás, como bem disse o inglês Mike Leigh (em competição esse ano outra vez com Another Year), numa entrevista publicada ontem na Hollywood Reporter, “os americanos fingem que, mas, na verdade, não entendem Cannes”.

E os jornalistas, americanos ou não, estavam felizes ontem com a presença de Stone, Michael Douglas (que ganhou seu Oscar de ator por Wall Street), Josh Brolin, Shia LaBeouf, Frank Langella e o produtor Edward Pressman, na coletiva de imprensa.

Douglas, que interpretou o urubu de Wall Street Gordon Gekko, está de volta no filme novo, que começa com Gekko saindo da prisão por crimes cometidos nos anos 80. Dos seus artigos pessoais recuperados na saída, um gigantesco celular ilustra bem a passagem do tempo e dos costumes. São de Gekko/Douglas as melhores falas dessa continuação, como “nos anos 80, ganância era uma coisa boa, hoje ela foi legalizada”.

É curioso observar que, se o primeiro filme traçava perfil de um estado de espírito político na sociedade americana na época, nesse novo sobressai-se antes de tudo um reflexo do mercado atual de cinema. Se no primeiro, Douglas dividia o filme com Charlie Sheen, agora Douglas está no filme como passageiro. Nosso herói é interpretado por LaBeouf (Transformers), ator amigável para platéias jovens que os produtores claramente almejam com o tom censura 13 anos (o PG-13 de Hollywood) do todo.

Na verdade, o trabalho de LaBeouf nesse novo Wall Street repete o que ele mesmo fez em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, ou seja, ser o meio campo entre os adolescentes e um grande astro de 20 anos atrás, agora grisalho.

No entanto, o filme não deve ser desprezado. Stone, o principal cronista dos EUA, talvez em toda a história de Hollywood, sempre lidando com Grandes Temas em letras garrafais (Vietnã, anos 60, 11 de Setembro, Nixon, política externa, Bush, etc) mais uma vez retrata essa sociedade numa época em que a informação é tudo o que há. Seu filme é sobre o poder assumindo a forma mutante da informação, o que nos leva às aspas de Russel Crowe na coletiva de Robin Hood, no primeiro dia de Cannes, e talvez ao novo Godard, Film Socialisme.

Stone chega a encher a tela de letrinhas, números e efeitos digitais (uma bolha de sabão ilustra o efeito... er... ‘bolha estourada’ da economia) que parecem coisa de filme 3D (o filme é 2D). Há jargões técnicos e a trama, vez ou outra, soa como uma língua estrangeira não dominada, embora o roteiro se esforce para trazer tudo para o térreo. Susan Sarandon, por exemplo, faz a mãe do garoto, endividada por especular com imóveis.

De qualquer forma, passa batido esse pequeno drama maternal se comparado aos conflitos entre o herói do filme original, interpretado por Charlie Sheen (reaparece numa ótima e cínica ponta), e seu pai (Martin Sheen), um dos pontos mais fortes daquela obra. Vai-se também um certo clima de cinema americano ‘grand public’ que não se faz mais (o Wall Street original) com os ‘post its’ desse novo na idéia de família. Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme ou O Dinheiro Não Dorme Nunca termina sendo mesmo o retrato desse tempo agora.

Filme visto no Lumiere, Cannes, 14 de Maio 2010

Thursday, May 13, 2010

O Que eu Vi Até Agora

AURORA, Cristi Ouiu - *** 1/2
WALL STREET - MONEY NEVER SLEEPS, Oliver Stone - *** 1/2
O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA, Manoel de Oliveira *****
MARTI, DUPA CRACIUN (TUESDAY, AFTER CHRISTMAS), Radu MUNTEAN ****
RIZHAO CHONGQING (CHONGQING BLUES), WANG Xiaoshuai ***
THE HOUSEMAID, IM Sangsoo ***
ROBIN HOOD, Ridley Scott ** 1/2

Godard aspas

A frase mais comentada em Cannes, via edição publicada da revista 'Les Inrockuptibles', foi “Autor não tem direito, autor só tem dever!” O encontro de Godard com a imprensa semana que vem, em Cannes, deverá ser um dos momentos mais importantes do festival.

The Housemaid (competição)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Na competição, o coreano The Housemaid (a Empregada Doméstica), de Im Sangsoo, conta história perfeitamente escabrosa entre ricos e pobres, sobre a jovem titular que trabalha numa mansão. Ela passa a ter caso com o patrão milionário para o desgosto da esposa grávida e a sogra. Poderia ser o filme brasileiro que não tem sido feito, talvez pelo fato de o material lembrar qualquer coisa entre Nelson Rodrigues e uma novela das oito. O filme, no entanto, é cinemão Scope, cada plano uma alegria para o diretor.

Eu fiquei dividido entre não gostar da sensação constante de marxismo simples onde ricos são ruins e pobres têm bom coração e o interesse geral pelo material. É algo que dissipa-se pela pura energia de Im Sangsoo. É a riqueza generalizada desses filmes coreanos, vide Oldboy, Hospedeiro, Mother, Thirst, etc.

Sangsoo parece pegar emprestado pelo menos duas deixas de A Profecia (cena, elemento de construção, não tematicamente), o thriller de 1976 dirigido por Richard Donner. Esse jovem diretor coreano esteve em Cannes em 2005 com o igualmente energizado The President’s Last Bang, que talvez seja bem melhor, reconstituição sanguinolenta de um golpe de estado em 1980, em Seoul.

Como sempre em tratando-se de coreanos, eles não são nunca chatos, e é importante ressaltar uma certa energia sensual nesse filme e um final WHATDAFUCK - HÃ???!!! que parece elevar alguns graus acima o que já estava me entretendo. Eu achei que seria vaiado, foi até bem aplaudido. Parece que a energia instiga.

Filme visto na Debussy, Cannes, 13 Maio 2010

O Estranho Caso de Angélica (Un Certain Regard)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Da tranqüilidade do primeiro dia, Cannes pulou para a quarta marcha hoje. Dois orientais chamaram a atenção, o melodrama chinês sobre pais e filhos Chonqing Blues, de Wang Xiaosuai, e o nunca chato coreano The Housemaid, de Im Sangsoo, uma luta de classes numa mansão.

No entanto, quem não pára de roubar a cena em festivais desse porte a cada novo pequenino-grande filme é Manoel de Oliveira, que estreou mundialmente O Estranho Caso de Angélica, apresentado na paralela Un Certain Regard.

Oliveira estava na coletiva de imprensa do seu filme, tranqüilo, discutindo cinema, e é sempre bom enfatizar que ele faz isso aos 101 anos de idade. “A morte é uma certeza, e eu não tenho medo dela”, afirmou.

Indo direto ao ponto, seus filmes proporcionam experiência sem igual que sugere ligação entre um cinema pessoal e moderno feito hoje que não existiria sem um sentido palpável de um passado que parece ser só dele. É um privilégio poder ver essas modernas cápsulas do tempo, onde predomina a sensação de analógico num ambiente onde só se pensa em digital.

Quantas vezes mais iremos nos impressionar com a sua capacidade de escrever esse cinema com letras, sons e imagens que nos remetem a uma noção palpável de Portugal, e nisso vem a elegância romântica criada na literatura e no teatro, nos galanteios de muito tempo atrás, no linguajar de um olhar romântico que ainda sai puro num filme feito em 2010?

O Estranho Caso de Angélica, uma co-produção brasileira (via Mostra Internacional de Cinema de SP), foi originalmente escrito em 1952 como roteiro... Oliveira atualiza como ninguém mais atualizaria, deixando uma idéia curiosa de um senso de tempo que não cabe no termo ‘anacronismo’. Isso faz de O Estranho Caso de Angélica o irmão coerente de uma outra jóia desse autor, Peculiaridades de uma Rapariga Loira, que estreou ano passado em Berlim, adaptação de Manoel de Oliveira para o romance de Eça de Queiroz.

Em ‘Angélica’, o personagem central chama-se Isaac, um fotógrafo judeu levado numa madrugada chuvosa para uma quinta de família nobre para fotografar pela última vez Angélica, bela jovem que acaba de morrer. Com sua Leika manual, e um reforço na iluminação, ele a enquadra, imagem que não conseguirá mais tirar da cabeça. Um pouco como o próprio espectador.

A governanta desse cavalheiro está sempre reclamando que ele só tem olhos para coisas antigas, preferência sustentada apaixonadamente pelo próprio Isaac, e a associação jocosa com o tom de Oliveira é inevitável. E lá saem dois personagens voando pelos céus como recortes montados a partir de um filme de Meliés chocando-se com uma discussão recente sobre os caminhos do downturn financeiro do mundo atual.

Enfrentando o estranhamento inicial da família católica da falecida, Isaac segue assombrado pela imagem da mulher, documentando, talvez para esquecer (ou para lembrar sempre) os trabalhadores braçais das vinhas do Rio Douro, objeto de estudos passados na obra de Oliveira. Ele quebra seu transe formal com a mecanização de tratores e caminhões que passam sempre aqui e acolá, outro prazeroso choque.

Estaria Manoel de Oliveira, um pouco como Isaac, documentando apaixonadamente uma certa beleza que está indo embora com o tempo? A poesia disso tudo é que esse cinema dele é esse próprio registro.

Filme visto no Debussy, Cannes, 13 Maio 2010

Wednesday, May 12, 2010

"Entrance" - VIDEO #1

"Entrance" - Cannes 2010 vídeo #1/CinemaScópio from Kleber Mendonça Filho on Vimeo.

Cannes, agora há pouco

CORTA! FF! CORTA!!! FF!!


Vendo esse Robin Hood do Ridley Scott, mais uma vez a mesma sensação. Esses filmões caros de Hollywood não se dão tempo para ter classe ou estilo, se é que podemos cobrar algo tão essencial num filme de cinema. Lá vai uma grua subindo para finalmente vermos um plano aberto e CUT, para um plano médio de alguém num cavalo, o montador não teve paciência de deixar a grua mostrar mais, subir mais. Max Von Sydow vai dar um abraço paternal em Russell Crowe numa outra promessa de plano aberto... CUT para um plano desengonçado mais próximo da mesma ação. CUT, CUT, CUT, e o montador, talvez ameaçado pelos executivos já nervosos de que o elenco não tem nenhum adolescente, faz CUT CUT CUT e a gente fica dormente, vendo o filme correr feito um doido, sem nenhuma imagem realmente de valor nas esbaforidas duas horas e 20 de projeção. CUT CUT CUT. E olha que Scott fez aquela coisa linda e perfeitamente impressa nas nossas mentes, o horror show Alien (1979). Hm. K.M.F

Instalação de Tapete Vermelho

Quarta, dia de Robin Hood


Oh, esse Google...

Er... não.

Next...

Ok.


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A imagem de homens ainda instalando um tapete vermelho numa das calçadas da Croisette, em Cannes, meio que definiu o dia no maior festival de cinema do mundo. O filme de abertura, Robin Hood, passou na prestigiosa sessão de gala, mas teve as projeções de imprensa vazias como nunca antes visto no festival, fato talvez explicado pelo lançamento mundial do filme de Ridley Scott sexta-feira. A coletiva de imprensa do ‘industrialmente divertido’ filme de aventura parecia gerar mais interesse do que o filme em si, uma vez que a imprensa já havia visto a revisão de Scott e Russell Crowe (fizeram Gladiador juntos) para o herói universal.

A ausência em Cannes que todos comentavam era a do próprio Ridley Scott, que operou o joelho recentemente, ficando em casa sob ordens do seu médico.

Crowe, que também é produtor dessa nova versão do nobre ladrão de Nottingham, estava na função. Ele entrou na coletiva com os dois filhos pequenos, e parecia cochichar nos ouvidos dos meninos algo tipo “papai vai ali falar umas bobagens com essas pessoas e volta já, não se assustem com as câmeras e esses flashes...”.

Fez seu trabalho como o “talento classe A” que ele é em Hollywood, participando com paciência e bom humor às perguntas generalistas da imprensa global. “Brasil, Espanha, talvez Portugal têm boas chances, sim”, opinou sobre a Copa do Mundo.

O filme de Scott sugere o mesmo tipo de revisão que os recentes Jornada nas Estrelas e Batman Begins ofereceram, nos mostrando “o início de tudo”. É algo que Hollywood tem chamado de ‘reboot’, termo associativo do “reiniciar” um computador. Não é de se espantar que boa parte desses filmes tenham a fluência digital de um computador, com mega-ritmo para não aborrecer crianças de 13 anos e um estilo joão-ninguém ditado pelo montador, e não pelo diretor.

Nos melhores momentos da carreira de Scott (Alien, Blade Runner, Thelma & Louise), temos a impressão de estarmos vendo filmes. Nos piores, ele não parece passar de um empresário e gestor, e inclua aí o tão popular Gladiador.

“Está na hora de refazer Robin Hood? Sim, totalmente, embora nossas idéias iniciais dessem um filme de sete horas e meia”, disse Crowe. “Muitos foram feitos, e conheço toda a tradição deixada por Errol Flyn, Douglas Fairbanks, até mesmo a versão de Mel Brooks, A Louca Louca História de Robin Hood. De todo modo, não acho que um sequer tenha me dado as motivações desse herói popular”.

O ator australiano continuou “Numa época em que o inglês médio viajava não mais do que 20 kms do seu lugar de nascimento, temos um homem que conheceu a Palestina, um cosmopolita que viu a pobreza do seu pais e quis mudar alguma coisa”.

Hábil manipulador de mídia, Crowe respondeu com enormes aspas a pergunta sobre de quem um moderno Robin Hood roubaria, hoje. “O poder hoje está nas mãos de gente como vocês, que trabalham com a informação. O monopólio da mídia é o grande inimigo e fonte de toda a riqueza”.

A coletiva prosseguiu com perguntas sobre adereços de couro e sobre a cena em que Lady Marianne (Blanchett) ajuda Robin a sair da sua couraça de ferro estilo século 12. “Como foi a preparação para tirar aquela couraça?”, perguntaram a Blanchett. “Era de plástico”, finalizou a também australiana. Sua resposta foi ainda mais honesta não foi sobre o filme em questão, mas sobre seu trabalho ao lado de Liv Ullman na montagem de Um Bonde Chamado Desejo, em Sidney. “Liv é um míssil que só busca a verdade”.

Eu viajei a Cannes via Jornal do Commercio e Aliança Francesa Recife

Produtor


Brian Grazer supervisiona Blanchett. (eu prometo que esta será a pior foto de toda a cobertura, e que isso não se repetirá). K.M.F

Café da Manhã, Cannes


12 de Maio, 2010, Boulevard Carnot, Cannes

Sunday, May 9, 2010

Cannes 2010

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Minha 12a vez em Cannes. Saio da aposentadoria por duas semanas para estar novamente lá, cobrindo para o Jornal do Commercio (Recife), via parceria com a Aliança Francesa.

Aqui no blog, todo o material, e mais alguma coisa, na já conhecida melhor cobertura do Brasil! Usarei vídeo, fotografia e textos, com o acréscimo do twitter, esse ano. Muita coisa pela frente, com certeza, e aqui vão duas sequências de imagens que fazem parte da experiência cannoise.

Vendo entre 35-45 filmes por festival, vemos essas vinhetas dezenas de vezes, abrindo as sessões. Para quem nunca foi, posto aqui.



Esta abre sessões da seleção oficial, competição, Un Certain Regard, foras de competição.



Essa é a da 'Quinzena', provavelmente a mais linda vinheta de festival de cinema do mundo (e são muitas).

Uau

Eu não sei bem o que achar disso, mas é potente.

M.I.A, Born Free from ROMAIN-GAVRAS on Vimeo.

Friday, May 7, 2010

Recife Frio Atualizado (Festivais e Prêmios)


E 'Recife Frio' vai indo em frente, com mais alguns convites e seleções no Brasil e exterior nos próximos meses. No meio de toda a correria do longa, eu não vou poder acompanhar o filme nos próximos festivais, mas não é possível fazer tudo.

Por outro lado, já estamos tocando um DVD especial com Recife Frio para os próximos meses, acompanhado de algum material extra. A repercussão tem sido incrível e a capacidade que o tal filme tem de comunicação me espanta. Nas próximas semanas, uma exibição no Cinema São Luiz, Recife, deverá acontecer.

Muita gente tem me perguntado se não vou postar no You Tube, a resposta ainda é não. O filme ainda terá uma carreira em 35mm, nas salas de cinema, é importante que seja visto coletivamente. Para mim, a internet deve ser sempre o último estágio possível de um filme, e já postei meus outros no Vimeo - http://www.vimeo.com/cinemascopio/videos. Tentem ver.

No mais, uma atualização das andanças recentes do filme.


Festival de Brasília (Novembro 2009)
Melhor Diretor
Melhor Roteiro
Prêmio da Crítica
Prêmio do Público
Prêmio Aquisição Canal Brasil
Melhor Momento do Festival - Prêmio do Jornal Cooreio Braziliense
Prêmio Vagalume

Festival Luso Brasileiro de Santa Maria da Feira (Portugal, Dezembro 2009)
Melhor Filme (Júri Oficial)
Melhor Filme (Público)

Festival de Tiradentes (Janeiro 2010)
Melhor Filme (Prêmio do Público)

Festival Internacional de Roterdã (Holanda, Janeiro 2010)

Festival Latino-Americano de Cinema de Toulouse (França, Março 2010)

3º Festival de Cinema da Cidade de Nova Iguaçu
Prêmio Melhor Roteiro

Cine PE 2010 (Abril 2010)
Melhor Diretor
Melhor Roteiro
Melhor Direção de Arte
Prêmio Aquisição Programa Zoom - TV Cultura

A SEGUIR

Panorama Coisa de Cinema - Salvador
Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA, Goiás)
XIII Fenart - João Pessoa (filme passa dia 26 de maio)

K.M.F

Friday, April 2, 2010

Homem de Projeção (1992)

Em geral, eu me relaciono bem com os filmes que eu já fiz, sem grandes arrependimentos. E ainda tem alguns que eu realmente gosto muito (!), como esse Homem de Projeção (1992), com oito minutos e feito no final do curso de jornalismo em super8 e VHS. É sobre seu Alexandre Moura, projecionista do extinto Art-Palácio, no centro do Recife (fechado em 1992).

O filme registra seu Alexandre, que virou um amigo de verdade, e também a sala de cinema, que pertencia a uma outra era. É menos conhecido que Eletrodoméstica, Vinil Verde e Recife Frio, mas tem alguma coisa de especial pra mim, talvez por já ter o efeito do tempo passado em cima dele.

Homem de Projeção é um dos 9 filmes que eu disponibilizei no Vimeo, com ótima qualidade. A minha página lá é: http://www.vimeo.com/cinemascopio/videos . K.M.F

Homem de Projeção (1992) from Kleber Mendonça Filho on Vimeo.

Thursday, April 1, 2010

Deixando a Crítica Para Fazer Filme

Aos Leitores...

Depois de 12 anos e seis meses, estou deixando de escrever para o Jornal do Commercio do Recife. Foi uma parceria excelente, que rendeu belos frutos e onde eu sempre tive total liberdade de externar minha visão de cinema e de mundo num trabalho (em termos de configuração, perfil e produção) inédito no Recife, incomum no Brasil. Foi uma decisão difícil, mas que se faz necessária.

O motivo de eu deixar a crítica cinematográfica é o meu longa metragem O Som ao Redor, que está em pré-produção. Logo será filmado e ainda esse ano estará em pós-produção. Equilibrar um trabalho desse porte com as obrigações semanais de um crítico, vendo filmes e escrevendo, simplesmente não é possível.

Os dois últimos textos escritos no atual contrato com o JC foram para Chico Xavier e A Single Man, publicados hoje, quinta-feira de Páscoa, dia 1o de abril. Eventuais interpretações de que isso é uma piada não procedem.

Há a real possibilidade de eu voltar em maio para mais duas semanas de trabalho no que deverá ser a minha 13a cobertura consecutiva do Festival de Cannes 2010, mostrando o tipo de relação próxima que tenho com o Jornal do Commercio.

Nesse sentido, preciso agradecer ao JC pelos anos de colaboração, especialmente ao meu editor Marcelo Pereira, do Caderno C, Ivanildo Sampaio, redator chefe, e meus colegas de editoria Flávia de Gusmão, Fabiana Moraes, Diana Moura, Marcos Toledo, Schneider Carpeggiani e Carol Almeida. E no último ano, a parceria também de Felipe Fernandes e Luis Fernando Moura, estagiários profissionais.

De qualquer forma, a partir de agora, a prioridade de trabalho e tempo é o longa metragem. Eventuais posts aqui no blog virão, mas sem o compromisso semanal de escrever tanto. E sobre tanta coisa.

Obrigado, Kleber
cinemascopio@gmail.com

Chico Xavier - O Filme


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Antigamente, a semana santa oferecia boas oportunidades de lucro para os cinemas, que colocavam em cartaz dramas bíblicos como Ben Hur e Os Dez Mandamentos, ou paixões de Cristo já bem riscadas e em preto e branco. Os costumes mudaram e as salas hoje ignoram a páscoa, exceto por fenômenos isolados como A Paixão de Cristo (2004) de Mel Gibson, que resgatou a sensação de cinemas terem seus dias de igreja. Esse ano, o brasileiro Chico Xavier, filme de Daniel Filho, investe na semana santa como estratégia de negócio, no país espiritualizado que é o Brasil. O filme estréia amanhã em 350 cinemas.

Há um mês, um funcionário do multiplex UCI/Ribeiro Plaza Casa Forte já mostrava-se impressionado com a procura pelos ingressos, rivalizando Harry Potters e Twilights. Deverá ser um sucesso de público, do mesmo diretor que parece investir no populismo como pesquisa estética, vindo dos sucessos recentes Se Eu Fosse Você, vistos por cerca de dez milhões de brasileiros.

Em Chico Xavier – O Filme, Daniel Filho aborda o médium mineiro que faleceu aos 92 anos em 2002. Sua trajetória de ligação divulgada entre o mundo terreno e o espiritual atraía o interesse de crentes e ateus pelo fato de assumir para si um mistério da natureza humana, o de saber o que se encontra depois da morte, incluindo o contato com os mortos.

Talvez seja um prato cheio para os produtores de um filme que poderá beneficiar-se de um público muito pouco cartesiano como o brasileiro, fruto de inúmeras misturas de fé, e cujo resultado é mais precisamente próximo do “espiritual”, sem que isso defina exatamente uma igreja, ou uma franquia religiosa.

O populismo do cinema de Daniel Filho não deixa de ser fascinante. Ele investe no acabamento (o filme é tecnicamente bem feito) e no desejo constante de agradar o espectador que crê. Nesse sentido, seu filme cai mesmo como uma luva no mercado da semana santa, resgatando o tom de catecismo filmado (ou espiritualismo comercial projetado) dos clássicos bíblicos de páscoas passadas.

Não há dúvidas ou questionamentos, e mais uma vez chega a sensação de que o cinema brasileiro de mercado tem essa preferência nacional pelos “grandes temas” abordados com pinceladas gigantes e desengonçadas que passam por cima de detalhes como sutileza e intimismo.

De fato, Chico Xavier – O Filme parece ter saído da mesma máquina de cinema modesto que cuspiu produtos recentes como Lula – O Filho do Brasil, de Fábio Barreto, ou Salve Geral!, de Sergio Rezende. São filmes que parecem achatar as histórias e personagens reais nos quais se baseiam para que caibam nas caixas apertadas da superficialidade narrativa.

Ostentando a realidade de personagens verídicos como medalha, os resultados são geralmente folhetinescos, e mais uma vez fica a sensação de estarmos diante de uma novela pobre de idéias, mas rica em mediocridade, como se acreditasse que seu público não seria capaz de entender algo mais interessante. Já nos letreiros fantasmagóricos de Scooby Doo na abertura, o filme parece nos lembrar que fantasmas são o mote.

Sobre TV, aliás, Daniel Filho arma seu filme, não por coincidência, ao redor de um programa televisivo, Pinga Fogo, onde Xavier (Nelson Xavier) é sabatinado por entrevistadores. Zooms na imagem eletrônica do vídeo nos levam aos esperados flashbacks do Chico criança, rapaz, homem e senhor. Sua entidade maior, Emanuel, também é vista vestindo uma toga.

Dos primeiros contatos com os desencarnados à sua fama regional e nacional de elo entre os dois planos, ficamos sabendo como surgiu a estranha peruca que marcou a imagem de Xavier à sua trajetória de crenças e descrenças, onde os céticos são: a) vilanescos ou b) no caso do personagem de Tony Ramos, transformados em fieis que se entregam às evidências, outra afinidade com o cinema comercial religioso. De Ben Hur a Samsão e Dalila, alguém verá forçosamente a luz antes do fim da sessão.

Ramos e Cristiane Torloni, aliás, parecem ter sido escritos para representar o espectador médio, talvez o casal que for pagar para ver o filme num multiplex. Pais em luto, ela crê, ele não, e a atuação de Ramos soa como a leitura de um telegrama, e nao de algo que teria sido psicografado.

Curioso ver que os melhores momentos do filme são no estúdio de TV, onde Daniel Filho de fato parece mostrar intimidade com o material. Das câmeras RCA de época trocando lentes, às direções de estúdio e planos da platéia e entrevistadores, o filme flui, como se estivesse em casa. É a fé televisionada para as massas, mas exibida nos cinemas. Amém.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, Março 2010

A Single Man

Intervalo de photo-shoot.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Conheça um personagem pelo quão bem organizadas são suas gavetas. À certa altura de Direito de Amar (A Single Man, EUA, 2009), filme de Tom Ford, o elegante George abre uma de suas gavetas impecáveis na sua casa podre de chic e impressiona como a caixa de Band Aid combina com o em torno, não só na coordenação de cores, mas também em arrumação. Essa história frufru de amor e perda nos chama para desfrutar de suas paixões materiais e emotivas, com ênfase no material.


Filmes são como casas, e o simples fato de vê-los significa entrar na residência do diretor. Ford, profissional reconhecidíssimo do ramo da moda, nos mostra a sua visão de mundo. Aparentemente, é um romântico muito elegante, mas carregado dos trejeitos irritantes que aprendemos a associar ao mundo espetacularmente vazio dos fashionistas.

Ford, através do seu filme, parece procurar amparo para as agruras do mundo na beleza, e isso não seria uma coisa ruim, ao contrário. No entanto, o tratamento do todo sugere algo de negativo pelo fato de a beleza que parece encantar Ford é aquela realçada por assessórios, pelo artifício, e não pelo valor humano, pelas coisas que, quem sabe, deveriam ser realmente importantes na vida.

O personagem principal é George (Colin Firth, ator britânico de interesse), um professor de literatura inglesa na Los Angeles de 1962. Ele acaba de perder seu companheiro super model (na verdade, era arquiteto) num acidente. Seu luto parece combinar perfeitamente com o esquema de cores que o cerca, seja na decoração, nas roupas ou até mesmo na correção de imagem do filme em si. É como se Ford tivesse exacerbado uma aula passada de expressionismo.

O parafuso emocional de George ganha tons sublinhados de montagem, câmera e som, e Ford nos faz enxergar sua idéia pessoal de beleza através do seu triste personagem principal. Ele é bem mais blasé com sua amiga do peito (Julianne Moore), que é real, do que com seus encontros momentâneos com representantes de uma idéia comercial de beleza.

A imagem de uma bela garotinha de vestidinho rodado, cuja câmera a filma de baixo para cima, nos leva a um rosto que deve ter levado quatro horas para maquiar. No escritório da universidade, a secretaria impecável e espetacularmente bela chama a atenção de George não por sua personalidade engraçada, livre ou forte, mas pelos maravilhosos adereços de roupa, cabelo, perfume e maquiagem que resultam num lindo piteuzinho fashion.

E assim vai o filme, com um senso estético paralisante, mas com uma sensação de luto narrada em primeira pessoa não tão distante assim da saudade contida em Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo, o ensaio de Marcelo Gomes e Karim Ainouz que não poderia ser mais distinto na construção de imagens.


Resta um filme imprensado entre dores de amor e a dúvida cruel do que vestir, e se a escolha irá cair bem com o papel de parede. Que chic.


Filme visto no Cinema da Fundação, Recife, Março 2010

Wednesday, March 31, 2010

The Box


por Kleber Mendonça Filho

Na tradição das histórias de trancoso, onde o realismo da vida diária se transforma no fantástico, temos A Caixa (The Box, EUA, 2009). Esse filme atinge graus de muito interesse antes de finalmente deixar um gosto forte de insatisfação no espectador, algo que parece ser a marca do seu diretor, o americano Richard Kelly. No seu lançamento nos EUA ano passado, A Caixa pareceu lembrar muita gente dos antigos episódios de Além da Imaginação (The Twilight Zone), de Rod Serling. Essa história foi, inclusive, escrita por um colaborador da clássica série de TV, Richard Matheson (também autor de Eu Sou a Lenda).

O ponto de partida é corretamente clássico e intrigante. Em 1976, um casal classe alta (James Marsden e Cameron Diaz), ele funcionário da Nasa, ela professora, recebem a visita de um homem (Frank Langella) que sai do já obrigatório carro preto. Na verdade, o filme toma bem o seu próprio tempo para estabelecer o mistério, um deleite total desde o início.

Como um vendedor, ele traz uma caixa com um botão vermelho protegido por uma redoma de vidro. Lembra uma reprodução portátil do temido botão do apocalipse na Guerra Fria. Há a informação de que a família poderá ganhar um milhão de dólares (sem imposto) caso decidam apertar o botão. O detalhe é que, fazendo isso, alguém, em algum lugar, irá morrer naquele mesmo instante como resultado direto da ação.

Procurem não saber mais nada sobre o filme, até pelo fato de o que se segue ser indescritível. Kelly surgiu como um herdeiro fedelho de David Lynch, e a sensação persiste positiva e negativamente. Estreou com o cultuado Donnie Darko (2001), história sobre um adolescente marcada por uma certa angústia, mas também por buracos no tempo e no espaço, realismo e sonho.

Seu segundo filme, o bagunçado Southland Tales (2006), tem poucos defensores. Fez um filme gigantesco que não parece fazer muito sentido, exceto pela ousadia de gastar um caminhão de dinheiro e o interesse de alguns dos seus momentos.

Em The Box, Kelly trabalha pela primeira vez com um estúdio (Warner) e parece ter tido carta branca para trazer toque autoral, com tudo o que esse toque tem de bom e de ruim, incluindo mais buracos no tempo e no espaço. Isso significa que algum personagem irá entrar em algum lugar e sair a quilômetros de distancia num flash de luz e água.

A primeira hora do filme é muito boa. Kelly não trabalha apenas com essa trama fantástica e suas repercussões, mas usa com grande efeito o clima da época, filmado com requintes prazerosos de produção. A casa da família com sua decoração anos 70 berrante, uma visita à Nasa em plano seqüência, os carros e roupas conspiram para uma atmosfera imaginada de tempo e espaço – os EUA da Guerra Fria – sublinhadas por estranhas notícias espaciais.

Depois de mais ou menos uma hora, o espectador pode começar a fazer caretas e exclamar mudos “??!!”, e suspeitamos que Kelly não quer que seu filme seja divertido, mas apenas estranho, desconexo e emperrado. Há ainda um tom de seriedade que não lhe faz muito bem. Assistimos a desdobramentos que carecem de envolvimento, enquanto A Caixa enforca-se com sua própria corda.

Chama a atenção a escolha de elenco. Diaz parece engolir Lewis, ator com cara de garoto de 17 anos, jogador de futebol americano, embora o roteiro de Kelly abra espaço para cenas inusitadas que constroem o casal, não obstante a discrepância entre os dois atores. Momentos como o que ele constrói uma prótese ortopédica para a esposa são o tipo de curiosidade que Richard Kelly injeta nos seus filmes, mesmo que o todo deixe essa sensação geral de insatisfação e oportunidades perdidas.

Filme visto em Bluray, Fevereiro 2010, Recife

Thursday, March 18, 2010

O Livro de Eli



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Nos chamou a atenção que os dois filmes lançados hoje no circuito comercial – Um Sonho Possível e O Livro de Eli – poderão facilmente ser projetados em escolas da bíblia para platéias cristãs que queiram reiterar sua fé. Esse tom conservador exultante pode ser sobra da doutrina dos anos Bush-pós 11 de Setembro, quando o sentido de “ser americano” fechou-se ainda mais como um caracol em torno da idéia de família, do patriotismo e da religião.

Em O Livro de Eli (The Book of Eli, 2009), dirigido pelos Irmãos Hughes, temos uma versão especial de um sub-gênero conhecido: o filme pós-apocalíptico, muito em voga nos anos 60 e 70 (O Planeta dos Macacos, The Omega Man, Mad Max) como produto do medo de uma guerra nuclear entre capitalismo e comunismo. No geral, esse tipo de filme tinha um herói que refletia o desespero da anarquia que tomaria o mundo, ele mesmo levando sua descrença e seus medos na nossa frente. É o tipo de produto artístico onde um pouco de nihilismo faz sempre bem.

Já em O Livro de Eli, o herói titular é interpretado por Denzel Washington, ator que impõe qualidades imaculadas aos seus personagens, desde sempre. Eli certamente se comporta como os heróis do passado, um homem capaz de usar a ultra-violência contra os que partem para cima dele com selvageria. No entanto, Eli revela-se totalmente diferente.

Além de naturalmente imaculado via Washington, Eli é um herói messiânico que recebeu uma missão de espalhar a palavra de Deus sobre a terra como o portador das velhas boas novas. Não há quedas ou erros nesse homem pós apocalíptico, pois ele é o certo e o escolhido. Depois de 15 minutos, é como se víssemos Jesus desafiando a paisagem com um facão, pistola e 12.

O livro também vira objeto de desejo do malvado da história, Carnegie (o sempre interessante Gary Oldman), que quer usá-lo como instrumento de poder (ele é visto lendo biografia sobre Mussolini).

Carnegie é o chefe de uma comunidade onde tudo se troca, a personagem de Tina Turner da Bartertown de Mad Max Além da Cúpula do Trovão, onde a vida também vale pouco. O escritório de Carnegie fica nas ruínas de uma sala de cinema.

Os Irmãos Hughes dirigem com alguma tentativa de estilo, mas eles próprios parecem ter uma missão: a de nunca permitir que seu filme exista como uma divertida aventura (a sequência do casal de idosos é a mais séria ameaça nesse sentido). É uma quase-culpa católica, pois O Livro de Eli é um desses projetos tristes que sugerem aspirações mais profundas e espirituais.

Eu simpatizo com os Hughes, faziam (talvez ainda façam) produtos autorais curiosos, cheios de energia mas pobres de construção e iseguros no estilo sempre agressivo. Para quem viu Menace II Society (1993), Dead Presidents (1995) e From Hell (2001), talvez concorde.

Em Livro de Eli, parecem usar manuais de instrução para chiliques modernos a partir de material reciclado. A fotografia é escura, mesmo no deserto, e cinza esverdeada, mesmo sob céu azul. Essa artificialidade parece combinar com a monotonia messiânica de Eli, que faz amizade casta com a garota mais gracinha (e limpa) do mundo pós apocalíptico (Mila Kunis), enquanto o filme atinge dois coelhos com uma só pedra: é sertanejo e gospel, ao mesmo tempo.

PS: a virada final não faz sentido para ateus.

Filme visto no Plaza casa Forte, Recife, março 2010

The Blind Side


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Um Sonho Possível (The Blind Side, EUA, 2009) é o filme que deu o Oscar de Melhor Atriz a Sandra Bullock. É a história de Leigh Anne Tuohy, empresária branca conservadora (é republicana, porta armas de fogo), casada e com dois filhos. Ela adota um garoto negro de 17 anos, dois metros de altura e uma massa corporal que só parece sugerir uma coisa: futebol americano. Talvez seja o tipo de filme feito para circular no meio oeste racista dos EUA, onde os valores aqui defendidos serão compreendidos e aplaudidos. Por ter vencido esse Oscar, está sendo oferecido em lugares como o Brasil. Cuidado.

Esse filme e A Proposta foram os dois grandes sucessos de Bullock em 2009, arrecadando juntos quase 600 milhões de dólares só nos EUA. A soma aumenta a suspeita de que o Oscar foi um salário bônus para a atriz.

Mais uma vez, temos a questão da representação, nesse caso racial. Há pouco, outro filme oscarizado, Preciosa, nos mostrou uma outra adolescente americana negra e grande, presa nos problemas de sempre (abuso, violência, drogas). Se algo ali no enfoque já soava verdadeiro, o simples fato de o filme ser sobre essa menina, tendo-a à frente da câmera em quase todas as cenas, já é mais do que meio caminho andado.

Em Um Sonho Possível, o filme é sobre a empresária branca que parte para praticar seu cristianismo condescendente no garoto negro, que é tratado como um enorme bicho de pelúcia, ou um animal doméstico fofinho encontrado na rua. Para quem defender o filme lembrando que a história é real, vale destacar que a vida certamente pouco tem a ver com um anuncio de margarina disfarçado de filme como esse.

Primeira pergunta, por exemplo, é: será que o filho caçula da família era tão irritante quanto o do filme? O ator mirim Jae Head soa como um boneco de pilha loiro e sua alegria histérica e constante pega muito mal quando se transforma no professor de futebol do seu irmão negro adotado, seis vezes maior do que ele.

Apresentado como o arquétipo freqüente no cinema americano do homem negro grande e manso (vide E o Vento Levou, À Espera de um Milagre, etc), vitimado por uma mãe viciada em crack, Michael Oher (Quinton Aron) vaga pelo filme como um Obelix negro. É incapaz de entender as orientações do seu técnico de futebol, mas aprende o conceito do jogo quando sua mãe branca prega como um pastor da Igreja Disney sobre a força da família. Bullock enrola bem a língua pra falar o sotaque sulista americano, representação cultural do conservadorismo em todas as formas. The horror.

Filme visto no Plaza Casa Forte, Recife, março 2010

Polícia Adjetivo




por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


À certa altura de Policia Adjetivo (Politist, Adjectiv, Romênia, 2009), filme de Corneliu Porumboiu, tem-se a sensação de estarmos ouvindo o embate sem acordos entre um medico humanista e um mecânico submisso a manuais operacionais. Os dois discutem a questão da responsabilidade para com o ser humano, questão que deveria ser orgânica e nunca técnica. De forma brilhante, o filme mostra para o espectador que o poder está muitas vezes com o mecânico, que, além de cego, é ainda surdo.

Numa dessas coincidências de programação, o filme estréia no Recife com O Que Resta do Tempo, do palestino Elia Suleiman. Alem de ambos terem estado no Festival de Cannes 2009, são filmes distintos em cores e estilos mas que se desdobram a partir do humor que brota sob uma idéia bem estabelecida de opressão.

No filme de Porumboiu, um jovem policial (Dragos Bucur) vê-se encarregado de seguir um adolescente usuário de haxixe que talvez tenha dado a droga para dois amigos. O policial sabe que, perante a lei antiga, o garoto deverá ser preso e julgado, arruinando a vida de um jovem que, para ele, faz algo que não merece castigo tão duro. Sabe também que a Romênia, no seu processo de europeização, irá mudar a lei para esse tipo de delito. É uma defesa humanista e bem fundamentada dentro de uma idéia de cultura e tempo.

Não é difícil entender onde está o ponto de vista do cineasta nesse conflito, claramente representado pelo herói desse filme policial comicamente lento. A lentidão proposta pelo filme expõe o absurdo de um trabalho que consiste em observar pouca coisa acontecendo e ainda burocratizar esse quase nada através de um relatório que resulta na mais árida literatura (estampada na tela para que o espectador possa sentir a ironia do absurdo).

O primeiro filme de Porumboiu – Ao Leste de Bucareste -, era uma comedia hilariante com esse tipo de minimalismo sobre como os romenos lidam com sua memória recente. Em Policia Adjetivo, paira sobre o todo o peso de uma cultura ditatorial que estimulava o absurdo no dia a dia, rotina muitas vezes marcada por uma idéia de burocracia que ninguém deveria nunca merecer.

Se o tom radical do filme é capaz de deixar alguns espectadores do lado de fora, os que estiverem firmes nos trilhos do que Porumboiu propõe serão brindados com um longo trecho final absolutamente genial onde o já citado “médico” (o jovem policial) irá enfrentar o “mecânico” (seu chefe infernal), interpretado pelo grande ator que é esse Vlad Ivanov.

Ivanov mostrou domínio absoluto da ameaça mansa das palavras contra duas jovens mulheres num quarto de hotel em 4 Meses 3 Semanas 2 Dias, de Cristian Mungiu. Em Polícia Adjetivo, põe, literalmente, os pingos os ‘i’s ao desconstruir - com o poder da hierarquia e a ajuda de um dicionário - uma tentativa de humanizar as leis do homem para o homem. A cena final é uma jóia triste de ironia, possivelmente a grande arma da arte contra os tiranos.

Filme visto na Sala Debussy, Cannes, Maio 2009, e revisto no Cinema da Fundação, Recife, outubro 2009.

Entrevista - Corneliu Porumboiu


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Corneliu Porumboiu, 35 anos, é um dos talentos mais destacados da nova geração de cinema romeno que vem conquistando todos os grandes prêmios mundo a fora, começando pelo Festival de Cannes. Seu primeiro filme, Ao Leste de Bucareste (2006), uma engraçada reflexão sobre memória (ou amnésia) e história, ganhou a Câmera D’or, troféu dado a estréias. Seu segundo filme, Policia Adjetivo (Politist, Adjectiv) levou o prêmio especial do júri em Cannes, ano passado, e tornou-se um dos mais elogiados filmes do ano no mundo todo. Tido como “filho do festival”, Porumboiu reforçou com obra perfeitamente absurda a boa mão do cinema romeno para discutir o tempo e as palavras, as leis e a opressão, tema recorrente num cinema de jovens realizadores que foram crianças numa Romênia ditatorial. Em Cannes, logo apos a primeira sessão de Policial Adjetivo na Mostra Un Certain Regard, Porumboiu conversou sobre seu filme com Kleber Mendonça Filho.

KLEBER MENDONÇA FILHO – Seus filmes se passam na Romênia de hoje, mas parecem ter uma carga de opressão herdada na cultura que, para um observador estrangeiro, é facilmente associada ao passado recente do país. Como chegou a Policia Adjetivo?

Corneliu Porumboiu – Sim, está tudo lá, ainda precisaremos de duas ou três gerações para dissipar esse cheiro ruim. Eu cresci nessa Romênia antiga. Duas coisas me levaram a esse filme. A primeira vem do fato de eu ter um grande amigo de infância que é policial. Falávamos de um caso que ele via como sem importancia e ele me disse que não queria levar à frente a investigação pois não queria que sua consciência pesasse. Isso me chamou a atenção porque, no gênero do “filme policial”, normalmente o policial, ou “tiras”, como os americanos gostam de chamar, os casos são sempre sérios, difíceis e espetaculares. Nesse caso, era o oposto, algo que ele, como policial, queria ignorar pela falta de gravidade por ele interpretada. Depois disso, fiz algo interessante: mandei emails para amigos perguntando o que, para eles, seria “consciência”. Foi engraçado, e as respostas as mais estranhas possíveis. Soube também de uma outra história sobre dois irmãos, numa cidade pequena, um foi pego fumando maconha pela policia, o que os levou ao seu irmão. Esses foram os dois pontos de partida, depois disso, parti para a literatura, escrever.

KMF - Policial Adjetivo passa como um filme policial no sentido “gênero policial” desmontado peça por peça. . É um policial, mas há a sensação de que você não quer que ele se entregue às peças mais fáceis desse tipo de filme.

CP – O filme é um policial! Desde o início que ele deveria ser, e quem discordar, eu mostro o titulo do filme. Me interessava muito pensar um pouco sobre filmes americanos, ou melhor, o cinema clássico de gênero. É claro que, em primeiro lugar, os desdobramentos vinham da própria história, mas eu comecei a pensar muito sobre a idéia de esperar, sobre ver coisas que não estão acontecendo. No filme policial normal, é o oposto, o que acontece é “o que conta”, “ação!”. Curiosamente, foi pensando no meu filme que passei a conhecer os outros filmes policiais clássicos, por serem o extremo oposto.



KMF - Em Ao Leste de Bucareste, você já usava o tempo filmado (real) de maneira provocadora, algo que parece ser levado a um patamar ainda mais radical em Policial Adjetivo.

CP – O cinema entende a linguagem do tempo. É a única arte onde o tempo pode estar ali intacto. Para mim, é mais fácil definir um personagem, ou uma personalidade, através do tempo de ser e estar. O estar pode ser mais revelador do que dez páginas de diálogos e caracterizações. O tempo que leva para alguém se mexer e você descrever o mundo através do tempo. É um ponto de vista pessoal meu e que me interessa como expressão no cinema.

KMF - Esse elemento tem utilização particular nos seus filmes, mas é percebido nos filmes romenos que têm chamado a atenção nessa leva recente, como A Morte do Sr. Lazarescu e 4 Meses 3 Semanas 2 Dias.

CP – É tudo uma questão de como se narra uma história. Esses filmes são simples, de certa forma, minimalistas, histórias que se passam num período curto. É uma fuga de um certo tipo de cinema de “grandes histórias” que se passam ao longo de dez anos, e você é obrigado a escolher aqueles momentos especiais. É uma visão compartilhada de cinema que, pelo jeito, temos tido.

KMF - Além de ter sido selecionado para o ateliê Cinefondation do Festival de Cannes, seus dois longas estiveram aqui. Qual sua percepção dessa relação com o festival.


CP – Dez anos atrás eu entrei na faculdade de cinema e nesse tempo, já tenho dois filmes realizados, ambos trazidos para Cannes. Para ser sincero, quando comecei a estudar, achei que fazer um filme já seria um sonho realizado. O que tem acontecido comigo já seria suficiente. É claro que me sinto um “filho de Cannes”, mas, ao mesmo tempo, me sinto totalmente tranqüilo em relação ao terceiro filme, e se ele estará ou não em Cannes, embora possa parecer que eu faça cinema para estar no festival!

O Que Resta do Tempo



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Na entrevista que eu fiz com feita com Elia Suleiman (abaixo), ele parece ressentir-se de o olhar sobre seus filmes ser sempre carregado de “uma visão política”. Entendemos o desconforto do autor em filmes tão pessoais, mas não há como dissociar a política, a história e a geografia de uma obra como O Que Resta do Tempo (The Time That Remains, Fra/Ale/Ing/Ita/Bel, 2009), onde Suleiman faz uma crônica pessoal da sua cidade, Nazaré, de 1948 aos dias de hoje. Esse filme é maravilhoso.

É impossível ignorar imagens políticas como um salto com vara, poético e algo de mágico, por cima do muro erguido por Israel para separar-se (e proteger-se) dos seus vizinhos palestinos.Talvez seja uma de muitas imagens assinaturas do filme que mostram o quanto o cinema existe no autor como seu próprio estado de espírito.

Há dois lados muito claros nessa história, e que geram discussões acirradas: de um lado, a truculência de um povo militarizado que sobreviveu à barbárie do holocausto pouco tempo atrás, marcando seu espaço no mundo a força numa área que seria dividida com um outro povo irmão, enxotados de lá no pós-Guerra.

Os palestinos são claramente o lado pobre, os oprimidos, cidadãos de segunda classe no seu próprio espaço. Isso amplifica o interesse por um ponto de vista palestino via cinema contrapondo-se ao olhar já estabelecido do cinema israelense.

O ponto de vista de Suleiman é o do cidadão oprimido que integra uma sociedade oprimida, mas cuja cabeça é mantida com o nariz acima da linha do horizonte. Ele libera borrifadas de ironia e humor contra o opressor para expor o absurdo de uma vida vigiada.

Como nos seus dois filmes anteriores (Chronicle of a Disappearance e Intervenção Divina), o próprio Suleiman, 49 anos, mostra sua cara no filme. Ele é o homem que vem de longe (talvez ele mesmo, o cineasta), via aeroporto, para visitar sua mãe.

Memórias e histórias do passado ilustram o filme, lindamente composto via fotografia clara e nítida. Seu pai é um guerrilheiro numa ação de resistência em 1948 aqui mostrada sem grandes convicções de que uma vitória seria possível. De qualquer forma, a imagem do pai sobrevive forte ao longo de toda a narrativa, e, aos poucos, o espectador entende que a aparente frieza do estilo de Suleiman guarda enorme calor pelo seu pai e por sua mãe.

O jovem Elia, visto na escola assistindo a Spartacus (sobre um escravo que rebela-se) e na sua casa de tons pastéis, domina parte importante do filme, quase sempre sendo repreendido por questionamentos políticos, um dos melhores deles em relação aos EUA.

A carga histórica narrada de Suleiman cheira sempre a verdade, e o espectador tem a certeza de que estas são histórias e vinhetas anotadas da vida real.

Nos segmentos mais contemporâneos de O Que Resta do Tempo, o filme perde seu tom confessional e emotivo, mas ganha na comédia surda, absurda e sarcástica, revelando que só a arte mesmo é capaz de enquadrar a realidade e tirar dali um comentário poderoso sobre a vida em sociedade, dentro de uma geografia emocional e num tempo que é do autor, e de ninguém mais.

Filme visto no Lumiere, Cannes, maio 2009

Elia Suleiman (entrevista)


por Kleber Mendonça Filho
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Elia Suleiman, 49 anos, nasceu em Nazaré, Palestina, nos territórios ocupados por Israel. Tem construído uma obra cinematográfica extremamente pessoal, adotando naturalmente o olhar de um cronista de recursos dramáticos tão afiados quanto minimalistas sobre sua visão de uma vida normal do seu povo sob condições anormais de uma repressão histórica e fraticida. Fez um dos grandes filmes da década de 2000 (Intervenção Divina, 2002), infelizmente pouco visto, mas premiado no Festival de Cannes. Em maio do ano passado, exibiu novamente em competição em Cannes O Que Resta do Tempo (The Time That Remains), belíssimo retrato pintado sobre sua família, sua cidade e sua casa. Foi em Cannes que Suleiman recebeu a reportagem do Jornal do Commercio para uma conversa sobre identidade cultural e o humor como válvula sob a opressão.

JC – Por ser frequentemente descrito como um “cineasta palestino”, seu cinema é, talvez, excessivamente discutido na base do “político”. É uma carapuça que lhe cai bem, ou não?

ES – Exatamente, e não, não me cai bem. Vejo como uma posição preguiçosa da imprensa e da critica, de uma maneira geral, que terminam parando nesse nível, sem ir alem e enxergar o elemento humano, que deveria ser o motor de tudo. É como se vivessem dentro do status quo fornecido, do qual não querem se desviar e se deixar inspirar num nível humano, internacional e universal. A maneira mais fácil é puxar o microfone e perguntar “como é que os palestinos fazem isso, aquilo e aquilo outro?”, como se estivéssemos num zoológico. Como se não vivêssemos exatamente da mesma maneira que todos vivem nos outros lugares. Todos os povos, desde a primeira e segunda guerras, insistem em viver uma vida normal. Dito isso, é impossível ignorar que, numa determinada cidade, você cruza a rua e lá está um Jeep que pertence a um determinado exército, empatando os transeuntes.

KMF – Em relação a isso, o humor pode ser especialmente fértil sob a opressão social e política? Em Cannes 2009, tanto o seu filme, como os filmes romenos Policia Adjetivo e Histórias da Época de Ouro parecem ter esse ponto em comum.

ES – Pra falar a verdade, é difícil julgar. Eu diria que ‘o humor de um gueto’ vem, em parte, da necessidade de se aumentar, alongar o tempo, ou ganhar tempo, muitas vezes verticalmente. Ou seja, se você sabe que terá uma determinada quantidade de tempo na qual irá sobreviver sob condições adversas, seja de maneira constante ou até a hora em que será levado para a forca, uma maneira de alongar sua vida nessas condições seria de ‘poetizar’. Há uma enorme quantidade de poesia no humor. E nessa redimensão do tempo, ele te faz viver um momento melhor e mais longo. Ou pelo menos, uma medida de tempo não identificada. Para mim, o cinema tem essa capacidade de ressaltar esses momentos com o humor. O humor, aliás, precisa de uma particularidade relacionada ao ritmo, à deixa, a repetição, o arremate. Faz parte de uma musicalidade, e é preciso estar atento a esse ritmo.

KMF – Seu humor pode ser corretamente associado a uma idéia de Palestina sob, ou não, o peso de Israel?

Elia Suleiman – Eu não quero colocar um selo nisso. As pessoas têm um determinado tipo de humor por questões de personalidade, e não por causa de uma ‘condição social’. É possível vermos alguém que seja muito engraçado, e essa pessoa pertencer às classes abastadas. Mas um certo tipo de humor, num determinado meio social, que pode fazer parte de um sentido de guetificação, de desespero e abandono, e o resultado disso pode ser o que chamamos de “humor negro”, ironia, e nesses casos, sim, é possível. No entanto, eu não consigo ser objetivo o suficiente para me incluir nessa teoria.

KMF - O Que Resta do Tempo é extremamente generoso com os espaços que você filma, privilegiando o plano aberto. Há uma intenção de se registrar não apenas um estado de espírito, mas também os espaços físicos, não muito distante de um documento?


ES - Meu filme não tem a pretensão de nem ao menos tentar fazer um retrato de Nazaré. Há algumas maneiras de entender aquele espaço, a primeira delas é ir lá conhecer e aprender como uma testemunha ocular, se relacionando por dentro, culturalmente. Uma outra maneira é ler perspectivas diferentes sobre lugares como Nazaré. Meu filme não lhe informa nada alem do que ele próprio significa, ou é. Por um lado, eu não tenho a autoridade de traduzir o estado de espírito de um povo, mas de expressar o que eu sinto. Não acho que o filme deva ser visto como uma tese sócio-política sobre um estado de coisas e uma sociedade. Ao assistir um filme feito por mim, peço que deixe o seu racional para trás, e também sua fome natural por informação. Creio que há pouca informação para se obter através das imagens, exceto, claro, pelo estímulo de ir atrás de mais informações.

KMF - A idéia de seu filme como um estado de espírito lhe agrada?

ES – Sim, o meu. Se algo der errado, eu poria a culpa no meu jeito de filmar, e em ninguém mais. Eu tenho uma queda clara pela ambientação da “terra de ninguém”, de uma situação estática, aquele momento em que não venta. Isso me interessa especialmente quanto à questão humana. Isso, claro, me leva a Samuel Becket, que também parece ter essa tendência de achar mais interessantes aqueles momentos em que não há nada acontecendo. Há sempre referencias a uma espécie de vácuo, mas que são promessas de ação, de mudança, pois antecedem o momento da explosão.

KMF - A cena onde as crianças assistem a Spartacus, de Stanley Kubrick, na escola é uma lembrança de infância sua? Há uma leitura política clara relacionada, talvez, à opressão.

ES - Na verdade, meu irmão viu Spartacus. Ele é quatro anos mais velho do que eu, estudávamos na mesma escola. Eu roubei essa experiência dele, assim como roubei muitas outras que terminaram sendo usadas nos meus filmes. Foi também o coral no qual ele cantava que ganhou o prêmio de melhor musica em hebreu, e não eu, pois não sabia nem nunca soube cantar num coral. Portanto, há essa mistura de referências pessoais que podem não ser as minhas experiências pessoais, mas que são verdadeiras, de qualquer forma. Ao mesmo tempo, nunca tome uma verdade como o ponto final nos meus filmes, mas apenas como um ponto de partida. A partir daí, temos ligações concretas com uma realidade vivida por mim, ou por muitos que existiam ao redor de mim.

Shutter Island / Cape Fear




Alguns têm usado Cabo do Medo (Cape Fear, 1991) como referência, mas queria Shutter Island ter a força, energia e obsessão daquele outro. K.M.F

Monday, March 8, 2010

Oscar 2010: Um Registro sobre Contradições


por Kleber Mendonça Filho
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Contradição foi a palavra chave na noite do Oscar 2010. Numa indústria sempre faminta por dinheiro, Guerra ao Terror, um filme que arrecadou, até agora, 14 milhões de dólares nos cinemas americanos, passou por cima de Avatar, que já está com 720 milhões no banco. Mesmo assim, prestigiram Sandra Bullock, estrela e miss simpatia embalada pelo suce$$o fenomenal do seu último filme, Um Sonho Possível (estréia no Brasil 19 de março). E na véspera do dia internacional da mulher, Kathryn Bigelow entra para a história como a primeira mulher a ganhar um Oscar de Direção por Guerra ao Terror, grande vencedor numa cerimônia que foi amplamente anunciada como empolgante, mas que arrastou-se mancando até o final.

A vitória do pequeno Guerra ao Terror (The Hurt Locker), filme produzido fora do sistema de estúdios, sugere a grande contradição de uma indústria que parece apoiar com o reconhecimento do Oscar o tipo de filme que ela mesma tem tido dificuldade de produzir. Não apostar em filmes pequenos e a maior facilidade hoje de arcar com custos gigantescos de arrasa-quarteirões tem sido assunto corrente em Hollywood.

“Guerra ao Terror foi feito sem exibições teste, sem memos do estúdio ou grupos de foco”, como bem informou a dupla de editores Bob Murawski e Chris Innis, no palco. É uma frase que pode passar despercebida, mas que revela o tipo de cinema que Guerra ao Terror representa frente aos produtos espremidos, espancados e empacotados por executivos no mundo corporativo da indústria de hoje, e que resultam no tipo de coisa que vemos semanalmente nos multiplex.

AVATAR - Pode-se dizer também que a história repete-se se lembrarmos de 1977, quando Guerra Nas Estrelas, de George Lucas, na época um sucesso e um fenômeno ainda maior do que Avatar é hoje, perdeu para o pequeno, intimista e pessoal Noivo Neurótico Noiva Nervosa (Annie Hall), de Woody Allen. O gênero ficção científica definitivamente não é levado a sério pela Academia, preferindo reconhecer méritos técnicos (Avatar ganhou Fotografia, Efeitos Especiais e Direção de Arte).

DVD - Do topo dos seis prêmios conquistados por Guerra ao Terror (som, edição de som, montagem, roteiro original, diretora e filme), foi impossível não lembrar da distribuidora brasileira Imagem Filmes. Ela comprou The Hurt Locker para distribuí-lo no Brasil, mas em junho passado, por não acreditar num produto que não encaixava-se no padrão de mercado, optou por jogar o filme direto em DVD, sem lançá-lo no cinema.

Contraditoriamente, resgatou o filme desperdiçado para lança-lo nas salas mês passado, depois das indicações ao Oscar, e agora perde a chance de faturar alto com os Oscars do filme de Kathryn Bigelow. Preparam agora um lançamento de Guerra ao Terror em Bluray, ainda um mercado de nicho. O DVD, de qualquer forma, não deve parar essa semana, nas locadoras.

Contradição curiosa foi o fato de Bullock, aos 45 anos, ter recebido, na noite do sábado, o Framboesa de Ouro de Pior Atriz por um outro filme, All About Steve, e na noite de domingo o Oscar de Melhor Atriz por Um Sonho Possível. Bullock esteve presente nas duas cerimônias, mostrando que bom humor é uma qualidade sua.

O também admirado Jeff Bridges levou Melhor Ator por Coração Louco (Crazy Heart). Bridges é presença já há 40 anos no cinema, filho de “uma família do showbusiness” (seu pai foi Lloyd Bridges, seu irmão Beau Bridges), com grandes atuações passadas contando como excelente currículo (A Última Sessão de Cinema, Starman, Suzie e os Baker Boys, O Grande Lebowski).

Preciosa, filme de Lee Daniels, outro filme de pequeno porte, saiu-se bem com dois Oscars, Atriz Coadjuvante (Mo’Nique) e Roteiro Adaptado (Geoffrey Fletcher), enquanto a Academia mostrou-se inglória e ingrata com um dos grandes filmes americanos do ano, Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino. Das oito indicações, converteu apenas uma, ator coadjuvante para o alemão Christopher Waltz.

TWITTER – Vale registrar o fenômeno de comunicação que é o twitter, onde, pela 1a vez, cinéfilos e imprensa usaram a ferramenta de mensagens com 140 caracteres para acompanhar a entrega do Oscar com comentários e informações instantâneas, troca inédita de impressões em tempo real, entre continentes diferentes.

Eu, pessoalmente, gostei de usar o twitter como bloco de anotação (com momentos realmente silly) e termômetro para medir a própria cerimônia, descartando eventuais fãs chocados com a derrota de Avatar. Me pergunto como será o twitter em Cannes, pois o meu interesse é escrever como alguém alfabetizado, e não ficar teclando frases soltas. Ironicamente, a sedução da ferramenta é grande.

Na internet brasileira, já foi possível sentir o peso cultural da vitória do filme argentino O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos), de Juan José Campanella, vencedor surpresa de Melhor Filme Estrangeiro (o favorito era A Fita Branca).

Entre o desconforto de alguns com uma suposta superioridade do cinema argentino para com o brasileiro, e a transformação da vitória de Campanella numa preocupação real com os caminhos da Copa do Mundo (a Argentina pode ser superior cinematograficamente, mas é inadmissível em termos de futebol), nos resta achar a preocupação histórica com o jardim do vizinho interessantíssima. E engraçada.

E se o assunto brasileiramente paranóico é futebol a partir do Oscar dado ao cinema, no ano da copa, vale ficar assustado com pelo menos uma cena de O Segredo dos Seus Olhos (filme que eu não vi), amplamente divulgada no You Tube desde ontem à noite. Sem querer borrifar gasolina na fogueira, mas é uma cena cheia de virtuosismo que mostra total intimidade com a experiência de ir ao estádio, assunto que o cinema brasileiro é tradicionalmente perronha. A cena:



THE BREAKFAST CLUB - Os apresentadores Alec Baldwyn e Steve Martin defenderam bem as piadas roteirizadas, com destaque para uma sátira a Atividade Paranormal, mas sumiram do palco por longos períodos. Foi uma das cerimônias mais sem ritmo da memória recente, alternando entre monotonia e partes apressadas em ligeiro ‘fast forward’ para ganhar tempo.

Para concluir, a mais dolorosa contradição da noite de domingo. Uma homenagem longa e elaborada ao cineasta John Hughes, falecido precocemente ano passado. Sua obra impactou quem era jovem nos anos 80 com filmes como Curtindo a Vida Adoidado, O Clube dos Cinco e A Garota do Rosa Shocking. No palco, os atores, na época adolescentes, hoje quarentões. Vale destacar via Twitter as exclamações de uma sociedade que foi adestrada a valorizar a cosmética acima de tudo, sem lembrar que atores envelhecem e tomam rumos que podem não ter nada a ver com o cinema.

Isso, aliás, ilustra bem a trajetória de Hughes. Ele nunca foi lembrado pela Academia quando vivo. Na verdade, ele afastou-se de Hollywood depois do sucesso dos filmes Esqueceram de Mim (Home Alone), enojado com a ética dos executivos e dos estúdios, partindo para viver uma vida tranqüila com sua família até sua morte repentina. A homenagem deixou sabor agridoce de cinema através da idéia de imagens deixadas.