
por Kleber Mendonça Filho
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Um Sonho Possível (The Blind Side, EUA, 2009) é o filme que deu o Oscar de Melhor Atriz a Sandra Bullock. É a história de Leigh Anne Tuohy, empresária branca conservadora (é republicana, porta armas de fogo), casada e com dois filhos. Ela adota um garoto negro de 17 anos, dois metros de altura e uma massa corporal que só parece sugerir uma coisa: futebol americano. Talvez seja o tipo de filme feito para circular no meio oeste racista dos EUA, onde os valores aqui defendidos serão compreendidos e aplaudidos. Por ter vencido esse Oscar, está sendo oferecido em lugares como o Brasil. Cuidado.
Esse filme e A Proposta foram os dois grandes sucessos de Bullock em 2009, arrecadando juntos quase 600 milhões de dólares só nos EUA. A soma aumenta a suspeita de que o Oscar foi um salário bônus para a atriz.
Mais uma vez, temos a questão da representação, nesse caso racial. Há pouco, outro filme oscarizado, Preciosa, nos mostrou uma outra adolescente americana negra e grande, presa nos problemas de sempre (abuso, violência, drogas). Se algo ali no enfoque já soava verdadeiro, o simples fato de o filme ser sobre essa menina, tendo-a à frente da câmera em quase todas as cenas, já é mais do que meio caminho andado.
Em Um Sonho Possível, o filme é sobre a empresária branca que parte para praticar seu cristianismo condescendente no garoto negro, que é tratado como um enorme bicho de pelúcia, ou um animal doméstico fofinho encontrado na rua. Para quem defender o filme lembrando que a história é real, vale destacar que a vida certamente pouco tem a ver com um anuncio de margarina disfarçado de filme como esse.
Primeira pergunta, por exemplo, é: será que o filho caçula da família era tão irritante quanto o do filme? O ator mirim Jae Head soa como um boneco de pilha loiro e sua alegria histérica e constante pega muito mal quando se transforma no professor de futebol do seu irmão negro adotado, seis vezes maior do que ele.
Apresentado como o arquétipo freqüente no cinema americano do homem negro grande e manso (vide E o Vento Levou, À Espera de um Milagre, etc), vitimado por uma mãe viciada em crack, Michael Oher (Quinton Aron) vaga pelo filme como um Obelix negro. É incapaz de entender as orientações do seu técnico de futebol, mas aprende o conceito do jogo quando sua mãe branca prega como um pastor da Igreja Disney sobre a força da família. Bullock enrola bem a língua pra falar o sotaque sulista americano, representação cultural do conservadorismo em todas as formas. The horror.
Filme visto no Plaza Casa Forte, Recife, março 2010
Concordo contigo em todos os aspectos, apesar da minha abordagem ter sido ligeiramente diferente. O filme exala um catolicismo que chega a ser pueril e ridículo, mas, na minha opinião, serve como contraste a O Livro de Eli - um dos filmes mais corajosos que já vi.
ReplyDeleteForte abraço.