Friday, October 9, 2009

Naked (DVD)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Chama a atenção que Naked (Inglaterra, 1993), de Mike Leigh, finalmente veja a luz do dia no Brasil meses depois do lançamento nos cinemas de Simplesmente Feliz (2008). O primeiro, que sai agora em DVD sem nunca ter sido distribuído nas salas, é a crônica mais sombria de Leigh, contrastando com esse último, seu filme mais risonho.

Premiado em Cannes com Direção e Ator (David Thewlis) dois anos antes da Palma de Ouro para Leigh por Segredos e Mentiras, o tom de Naked lembra o de uma ressaca. Como ocorre em ressacas, o mal estar é forte, mas a sensação de estar vivo também.

O filme segue algo de bêbado e nublado nas suas duas horas e dez minutos, com espasmos de sobriedade tocante, um pouco como a própria Londres.

É fácil identificar A Odisséia de Ulisses na trajetória de Johnny (Thewlis), o personagem central, que a discute nominalmente numa das suas paradas. Sua misantropia vem com o sarcasmo típico da Inglaterra, pródiga em oferecer personagens agressivos dotados de espessa carapaça. Há neles, quase sempre, sensibilidades insuspeitas.

Johnny faz parte de uma galeria peculiar de ingleses como Alex, em Laranja Mecânica (1971), Trevor, o skinhead de Made in Britain (1984), ou Francie Brady, o proto-punk mirim de Nó Na Garganta (1997). É uma gente desagradável, mas nunca monótona, talvez por serem agentes do caos.

Aos 27 anos (“parece 40”, diz uma interlocutora), Johnny é maduro o suficiente para ter entendido um suposto mau humor de Deus, e ainda jovem o bastante para detestar suas conclusões. Revela-se um profeta pessimista que, nos seus piores momentos, tem a verve de um poeta marginal afiado, um chato com alguma razão. Explica, por exemplo, sua má aparência como tentativa de mesclar-se aos ambientes.

Chega na casa da ex-namorada, Louise (Lesley Sharp), que divide o espaço com Sophie (Katrin Cartlidge, falecida precocemente em 2002), quase sempre chapada. Ela irá encantar-se com o charme pós punk de Johnny, anunciando o fascínio que as mulheres têm por ele. O estado geral da casa também ilustra o estado de espírito do trio, que ele levará a um colapso imediato.

E esse cíclope sairá pela cidade numa estrutura de encontros fortuitos que, mesmo lembrando Depois de Horas (1986), de Martin Scorsese, ainda soa notável e original. Se na noite nova-iorquina de Scorsese o personagem é passivo, na noite londrina de Leigh, Johnny é o catalisador de tensões constantes.

Essa dureza tem na fala a sua verdade maior, um fator e tanto em tratando-se de cinema inglês, aspecto também percebido em Kes (1969), de Ken Loach, outro momento importante do cine britânico lançado há pouco pela mesma Lume Filmes.

Como Loach, Leigh tem um ouvido e tanto para o falar britânico. O trio Johnny, Louise e Sophie, o casal de escoceses que latem xingamentos na rua, o outro personagem masculino em cena, Jeremy (Greg Cruttwell). Esse último, cuja nobreza entediada parece nos levar de volta ao Inquilino, de Joseph Losey, enriquece de forma perversa um universo britânico singular aqui filmado por Mike Leigh.

Filme revisto em DVD (Lume Filmes), Agosto 2009, Recife

Friday, September 25, 2009

Tente Ver - no FESTIVAL DO RIO

Singularidades de uma rapariga loura - Não dá para ser melhor do que esse, e aos 100 anos de Manoel de Oliveira, um dos meus filmes preferidos que vi esse ano. Filmado em dezembro, lançado em fevereiro. Ele é assim, e só.

Ricky - François Ozon, é um tipo de sabor adquirido, mas gostei muito desse também, da seleção Berlim desse ano. Mix de 'fantastique' com drama social francês é, no mínimo, inusitado. E um exemplar notável na obra de Ozon, cineasta que eu admiro com certo enjôo.


Mother, de Bong Joon-ho -
- O diretor de The Host e Memories of Murder sai com um exercício hitchcockiano maravilha que, quando você menos espera, ainda emociona com sofisticação. Perfeita confusão para quem quer arquivar filmes por gêneros.

O Laço Branco - Das weiße Band, de Michael Haneke - A Palma de Ouro que todos querem ver. Outra dosagem inusitada de mistério com algum horror, amplificado pela nossa consciência da história do século 20. O nazismo, na sua gênese, como se fosse ainda um bebê engatinhando, prometendo um futuro sombrio.

The Time That Remains, de Elia Suleiman. Teria sido a minha Palma de Ouro em Cannes.

Politist, Adjectiv, de Corneliu Porumboiu - Um dos meus filmes preferidos de Cannes, esse ano. Os romenos são bons pra CARALHO, desculpem o termo, mas é a mais pura verdade.

Les Herbes Folles, de Alain Resnais - Fazendo par com o do Manoel de Oliveira, outro filme de um velho que filma leve como ninguém mais. Impressiona. Mas só veja se for 35mm. Cuidado.

Thirst - Sede de Sangue, de Park Chan-wook - Doidêra divertida. Só os coreanos mesmo.

Panique au Village, de Stéphane Aubier, Vincent Patar. é ver para crer.

The Chaser, Hong-jin Na. - Outro coreano empolgante. Vira clichês do serial killer de cabeça pra baixo.

Thursday, September 3, 2009

Up



Tem esse texto de Cannes, aqui o link: http://cinemascopiocannes.blogspot.com/2009/05/up_13.html. O filme estréia hoje e é bem bom.

Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo, filme de Marcelo Gomes e Karim Ainouz, tem sua estréia mundial hoje, no Festival Internacional de Cinema de Veneza, na Itália. O longa metragem de 78 minutos, um filme de amor, foi selecionado para a mostra paralela Orizzonti. Há três semanas, o produtor pernambucano João Jr, da Rec Produtores, mostrou o filme no Recife, em sessão fechada.

O filme de Gomes e Ainouz foi realizado ao longo dos últimos 10 anos e era conhecido como Carranca de Acrílico Azul Piscina. Passou anos como 'obra em construção'. Composto por impressões captadas em formatos diferentes de imagem, desde 1999, Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo (uma frase de pára-choque de caminhão) termina apresentando uma revisão interessantíssima do elemento 'sertão'.

Se o Cinema Brasileiro tem uma queda pelo sertão como paisagem aberta e dura, palanque estético para discursos políticos sobre pobreza e desigualdade, Gomes e Ainouz parecem abandonar isso e usar as vistas abertas dessa geografia como terreno intimista e pessoal. Tanto Cinema Aspirinas e Urubus como O Céu de Suely (de Ainouz) já apontavam para isso, e esse novo trabalho em co-autoria sacramenta desenvolve ainda mais o conceito.

A caminho de Veneza, nesses últimos dias, os cineastas responderam por email algumas questões iniciais sobre um filme que terá sua première brasileira em algumas semanas, no Festival do Rio, com lançamento nas salas previsto para janeiro.

"Mais do que Sertão, palavra que designa um locus físico e imaginário, uma construção tão densa de significados, preferimos pensar na palavra deserta. E o filme, em última instância, é a história de uma travessia por um lugar isolado, silencioso, rarefeito, mas talvez um lugar que já foi assim, e que hoje é bem mais cheio de ruídos", escreveram os dois diretores, que assinaram juntos as respostas.

Eles fizeram um filme ensaio dotado de coração (partido), aspecto emotivo notável numa obra que ejeta estruturas clássicas de narrativa. Há a sensação de que estamos vendo as imagens de um amigo, trazidas de uma viagem feita há pouco tempo, sua voz dedicada a descrever o que sentiu mais do que o que estamos vendo.

Essa viagem pelo interior do Brasil tem o tom de um torpor amoroso que vai adquirindo sentidos íntimos nos pensamentos em voz alta de um geólogo (Irandhir Santos). A relação dele com terra e pedra parece manter sua sanidade sob controle. A sensação de estarmos diante de uma coleção de imagens captadas na estrada vem de uma mistura orgânica de registros em película, vídeo digital e fotografias, lindamente sonorizadas.

"Na realidade, a tecnologia da imagem mudou significativamente nesses dez anos. No início nossas escolhas de formato foram feitas em função daquilo que poderiamos dispor, fianceiramente. E aí o filme foi sendo apontado para um lugar que é o lugar da colagem de formatos, emblemáticos de temporalidades diferentes, assim como é a região percorrida pelo personagem", dizem.

O trabalho de Santos (Amigos de Risco, Baixio das Bestas) faz de sua voz guia um personagem completo. "Para dirigir o Irandhir, primeiro fizemos um estudo de vozes em off em diferentes filmes que admiramos. Passamos horas e horas com Irandhir, refletindo sobre a gênese do personagem e seu estado emocional em cada momento da viagem. Queríamos que o personagem começasse com uma voz acertiva, determinada, afinal ele é um geólogo, classe média, com uma vida correta, organizada. Aos poucos, queríamos que ele fosse mudando, de acordo com a voz, se desorganizando. Irandhir foi incrível nesse processo, pela paciência e pela dedicação."

A seleção em Veneza de Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo confirma tendência impressionante da ainda pequena produção pernambucana no sentido de ganhar tela em festivais internacionais de primeira grandeza.

O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna, esteve em Veneza 1999 na paralela Nuovi Territori. Cinema Aspirinas e Urubus foi para Cannes, em 2005, e Árido Movie, de Lírio Ferreira, também para a Orizzonti de Veneza, no mesmo ano. Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, ganhou Melhor Filme em Roterdã 2007, enquanto Deserto Feliz, de Paulo Caldas, teve seleção em Berlim. Esse ano, Um Lugar ao Sol, documentário de Gabriel Mascaro, tem tido carreira sólida em festivais como Munique, Buenos Aires e Los Angeles.

Filme visto no Cinema da Fundação, Recife, Agosto 2009

A Orfã


Comunista toca Tchaikovsky.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A bobagem mais divertida da semana é o filme de criança peste A Orfã (Orphan, EUA, 2009), exercício de horror que visa conquistar públicos adultos com notável grosseria, cortesia da produtora Dark Castle Entertainment, selo especializado. O diretor espanhol Jaume Collet-Serra, que fez A Casa de Cera (House of Wax, 2005) para a mesma produtora, parece mostrar mais comprometimento com a causa do que a média dos colegas no gênero.

Que fique clara a vocação de A Órfã para o produto classe B, onde nada realmente faz muito sentido, mas, mesmo assim, a coisa flui como sangue num chão em declive. Mulheres grávidas, por exemplo, bom evitar, vide a seqüência de abertura verdadeiramente horrorosa.

Esse pesadelo inicial estabelece problemas no casal Kate (Vera Farmiga) e John (Peter Sarsgaard). Ela perdeu um bebê recentemente, e lida com alcoolismo. Os dois são pais de um garoto e uma caçula, que é surda. A necessidade de recuperar a terceira criança perdida os leva a um orfanato, onde encontram a aparentemente adorável garotinha de nove anos de idade, Esther (Isabelle Fuhrman). Esther é de origem russa.

Vale ponderar que, três semanas atrás, o muito bom Arraste-me Para o Inferno, de Sam Raimi, nos trouxe uma associação entre o bem (garota americana como torta de maçã) e uma senhora malvada do leste europeu que rogou praga na indefesa heroína. Todos os outros personagens associados ao mal eram estrangeiros, do leste europeu, com sugestão de que eram ciganos.

Em A Orfã, Esther, que irá revelar-se os pés da besta, é uma russa, e se lembramos que o canibal Hannibal Lecter de O Silêncio dos Inocentes era da Lituânia, temos aí uma observação válida sobre a maneira que a cultura de massa americana ainda trabalha fantasmas políticos relacionados ao mundo comunista.

Num repeteco do que vimos em O Anjo Malvado (The Good Son, 1993), onde Macaulay Culkin azedava uma família que o acolhia, Esther vai aos poucos revelando-se. Intimida os irmãos, incidentes estranhos ocorrem com ela por perto, que sempre ganha o benefício da dúvida por ser impossível criança de nove anos de idade fazer coisas do tipo.

O filme tem desenvolvimento de personagens (especialmente a mãe) tão acima da media quanto o tempo de projeção (120 minutos). Farmiga investe mais energia do que se esperaria, e o seu enlouquecimento é crível, já que Esther joga com as tensões entre ela e o marido, personagem cuja burrice cai como uma luva para as exigências do roteiro.

De qualquer forma, é um thriller B capaz de mostrar um pombo sendo esmagado por uma pedra e de flertar com a pedofilia, antes da grande revelação final, antecedendo o confronto final em noite, claro, de tempestade. Demente e divertido.

Filme visto na UCI Ribeiro, Boa Viagem, Recife

O Seqüestro do Metrô


O 'Seqüestro' original, bom filme.


O novo, de Tony Scott.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O Seqüestro do Metrô (The Taking of Pelham 123, EUA, 2009) é a refilmagem de um thriller muito bom, lançado em 1974, com o mesmo título (original e brasileiro), dirigido por Joseph Sargent. Aquele filme antigo funciona ainda mais hoje com o valor agregado de um registro da Nova York dos anos 70, e revela-se a provável referência maior de Quentin Tarantino para batizar seus ladrões, em Cães de Aluguel, com cores - Mr. Pink, Mr. White.... Difícil não lembrar do Seqüestro original vendo esse novo, uma diversão mediana feita pela máquina de fazer coisas Hollywood.

Esse novo é dirigido por Tony Scott (Top Gun, irmão de Ridley Scott). Ele não pára de mexer a câmera, adiantar a imagem, voltar a imagem, dar tremelique, fazer barulhinho. Quando o filme começou, achei que era o trailer. Esse cinema 'agite antes de usar' sugere a marca industrial de alguma máquina, uma trepeça de entretenimento que prende minimamente a atenção, com herói (Denzel Washington) e vilão (John Travolta).

O primeiro trabalha na sala de controle do metrô de Nova York, supervisionando o tráfego num telão. O segundo é malvadão e tem comparsas. Seqüestra um vagão, esclarece que é violento e exige dez milhões de dólares, inflação e tanto, pois em 1974 o resgate era de um milhão.

Esse tipo de produto parece existir para servir pratos requentados para um público que quer ver o que já conhece. Os clichês são o que há no filme, sempre sob camadas espessas de uma não-música genérica. Herói, por exemplo, irá se comunicar com malvado pelo rádio, gerando uma relação de respeito. Herói ameaçado fala com a esposa pelo celular, que faz pedido tocante sobre trazer leite pro jantar. Há uma corrida contra o tempo onde veículos pesados esmagam carros de passeio, a câmera continua balançando...

Curiosamente, Nova York é apenas um fundo borrado e tremido, locação real anônima como espaço filmado. Se pensarmos no que Spike Lee fez com um filme semelhante no gênero (Um Plano Perfeito, assalto a banco), cheio de identidade para a cidade (com o mesmo Washington), esse O Seqüestro do Metrô vira poeira minutos antes mesmo de acabar. Tente achar a versão antiga.

Filme visto no UCI Ribeiro Boa Viagem, Recife, Setembro 2009

Amantes (Two Lovers)






por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O realizador James Gray parece ocupar um canto tranqüilo da filmografia americana atual, algum espaço não muito distinto dos pequenos apartamentos de classe média que ele filma tão bem. Gray tem operado fora dos estúdios fazendo filmes pessoais a partir de gêneros clássicos como o thriller. Seu mais recente, Amantes (Two Lovers, EUA, 2008), um primeiro exercício sem atos de violência crua, é um exemplo raro de realismo elegante.

Amantes é uma história de amor clássica, muito embora seus filmes anteriores trouxessem o amor como união dos seus personagens. Aos 40 anos de idade, Gray e seus filmes Fuga Para Odessa (1994), Caminho Sem Volta (2000) e Os Donos da Noite (2007) são marcados por uma adesão ao elemento Família como um trilho pré-configurado que leva o indivíduo.

O cinema de Gray também sugere associação clara a uma casta reconhecida de cine-cronistas de Nova York. Como o próprio Gray, Spike Lee, Martin Scorsese, Abel Ferrara e Woody Allen, para citar poucos, filmam a mesma Nova York com olhares próprios. O ponto de vista de Gray fica nos arrabaldes do Brooklyn, em Brighton Beach.

O ponto de partida em Amantes é Leonard (Joacquin Phoenix), homem ligeiramente suicida e na casa dos trinta. Ele tem nos pais (Isabella Rossellini e Moni Moshonov), imigrantes israelenses, amor, apoio e um quarto. Leonard também fotografa, em preto e branco analógico.

Num mesmo dia, conhece duas garotas, Michelle (Gwyneth Paltrow) e Sandra (Vinessa Shaw). Michelle é a vizinha atraente, amante de um homem casado (Elias Koteas), um mistério fora do alcance natural de Leonard. Talvez ela seja a representação viva da Nova York de Manhattan, que fica ali pertinho, mas ainda longe. Não deve ser de graça que boa parte da comunicação entre ela e Leonard ocorra através de janelas adjacentes.

Sandra também é atraente, filha de uma família amiga (os Cohens), a garota kosher de Brighton Beach. Ela representa ainda um estranho elo financeiro entre os dois clãs, já que o pai dele está vendendo sua tinturaria ao pai dela.

Gray desenvolve essa crônica amorosa sem julgamentos, com um realismo sofisticado raro nessa época que valoriza câmeras bêbadas como prova de verdade. Para nos ajudar a entender Leonard, por exemplo, Gray nos mostra suas fotos.

Parte importante do filme se passa no aconchego de apartamentos, salas e quartos. Uma outra parte, em externas honestas onde o frio se faz sentir na imagem. Brighton Beach ganha espaço emotivo evidente, enquanto Manhattan é visitada com real sentido de deslocamento e encanto.

Esse equilíbrio entre partes é a base das dúvidas do próprio Leonard, que investe nas duas mulheres sem conseguir escolher. Amantes irá nos lembrar que homens não escolhem muita coisa, deixam que a vida e as mulheres escolham por eles.

Numa nota extra-filme, Phoenix declarou ter sido esta sua última atuação, assumindo comportamento estranho visto por milhões na TV e internet. Isso teria prejudicado Amantes nos EUA, o que é uma pena. Phoenix é uma das verdades do filme.

Filme revisto em Bluray, Recife, Julho 2009

As Testemunhas


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Não por coincidência, mas a última estréia do Rosa e Silva foi francesa (A Bela Junie) e nos apresenta uma ciranda amorosa entre uma dezena de personagens. O mesmo cinema apresenta esta semana uma outra crônica francesa, de sabor distinto, mas igualmente observadora dos movimentos amorosos entre um grupo de pessoas. As Testemunhas (Les Temoins, 2007), de Andrée Téchiné, cineasta gay militante que tem o talento para fazer seus relatos superarem os limites do gueto. Em As Testemunhas, ele nos dá uma visão pessoal e histórica dos anos 80, quando a AIDS chegou para mudar a maneira de amar, ter prazer e pensar a vida.

Techiné apresentou As Testemunhas na competição do Festival de Berlim, há dois anos, e faz do filme um relato pessoal e apaixonado da geração que foi o pára-choque de uma revolução triste, 25 anos atrás. O cinema americano já abordou o tema com filmes simpáticos como Meu Querido Companheiro ou Filadélfia, mas é a crueza do cinema francês que já rendeu pelo menos um filme memorável sobre o período, As Noites Selvagens (Les Nuits Fauves, 1991), de Cyril Collard.

Numa ciranda de personagens que poderá lembrar Drummond para alguns, Techiné (As Rosas Selvagens) divide seu filme em três partes: a primeira é Verão de 84 - Os dias felizes, onde vemos o casal Sarah (Emmanuele Béart) e Mehdi (Sami Bouajila) que acabam de ter um filho. São amigos do médico Adrien (Michel Blanc).

Sarah é uma intelectual concentrada demais nas suas idéias para poder se preocupar com pequenos detalhes da vida como maternidade, e a composição de Béart para essa péssima mãe é formidável.

Mehdi irá buscar respostas para impulsos que sugerem uma bisexualidade a ser explorada, enquanto Adrien tenta aplacar sua solidão gay de meia idade indo procurar garotos nos parques de Paris, como o Bois de Boulogne. Ele apaixona-se por Manu (Johan Libereau), rapaz que exerce vida afetiva e sexual livre, e que dará a Lucien o seu melhor e o seu pior.

Se a militância de Techiné assume bem mais a forma de uma bandeira tremulante para a causa gay do que cineastas como John Waters (escrachado demais para levantar bandeira alguma) e Pedro Almodóvar (livre demais para soar monotemático), o espectador, de qualquer forma, poderá apreciar sua paixão e coragem de abrir a caixa de lembranças.

O filme corre pelas suas duas horas de duração relutante em cair na emoção barata, conseguindo com isso um relato passional do choque que essas pessoas tiveram ao entender que o mundo e os costumes via liberdade sexual conquistados tão pouco tempo antes seriam sustados. As testemunhas do título são estes personagens.

Chama muito a atenção no filme, já dos primeiros segundos de projeção, como Téchiné filma e edita tudo tão rápido. Parece estar sugerindo que a vida é curta e precisamos correr para vivê-la, sempre.

Filme visto no Berlinale Palast, Berlim, Fev 2007

A Bela Junie (La Belle Personne)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Uma quadrilha de cupidos parece estar à solta no liceu parisiense que é o cenário principal de A Bela Junie (La Belle Personne, França, 2008), filme de Christophe Honoré. O jovem e prolífico autor francês de Em Paris e As Canções de Amor volta a filmar o amor e a cidade com o tom de quem venera o passado do cinema e da literatura franceses. Adapta A Princesa de Cléves (La Princesse de Clèves), de Madame Lafayette, com peculiar autoridade.

Os prazeres antigos desse filme moderno são muitos, a começar pelo rosto da linda Junie, interpretada por Léa Seydoux. Sua cara, olhar, presença e personagem sugerem uma revisão de Anna Karina, a musa de Jean Luc Godard em filmes maravilhosos como Viver a Vida. O rosto de Seydoux é uma espécie de recuperação mágica de uma imagem clássica.

Se juntarmos ainda a presença de Louis Garrel (Amantes Constantes, Cançõe de Amor e Em Paris), que parece estar sempre assombrado pelo fantasma (no jeito e na semelhança facial) de Jean Pierre Léaud, muso de François Truffaut, confirma-se o fascínio que esse jovem realizador tem pela herança do cinema francês da Nouvelle Vague.

Se Honoré não fosse tão bom, seus filmes não passariam de uma bossa vazia vampirizando o passado. Honoré supera isso e transforma o passado em amor de cinema através de talento próprio. É uma estranha ocorrência de cinema retrô e autoral, embora, para ser bem sincero, talvez o seu maior traço pessoal seja a saudade de um cinema que ele revive.

Junie é uma adolescente que acaba de perder a mãe, mudando de escola para tentar arejar sua vida. É apresentada a todos pelo seu primo, Mathias. Sua beleza misteriosa e aérea inspira o amor instantâneo em dois rapazes. Dá quase para ver as flechas cravadas em seus corações e os cupidos rindo atrás de pilastras, arcos em punho.

Os ataques de amor não ficam apenas em torno de Junie, “a bela pessoa” do titulo original. O professor de italiano Nemours (Louis Garrel, ligeiramente jovem demais para o papel, mas sempre uma presença) envolve-se livremente com alunas e uma colega do corpo docente. Somos informados dos amores discretos de outros professores e um triângulo passional entre três garotos também vem à tona.

Depois de um tempo, fica difícil acompanhar quem está perdidamente apaixonado por quem, e quem está tentando largar o amor de um outro para, assim, deixar de sofrer. É uma linda ciranda com forte sabor literário da escola romântica, numa Paris moderna onde a arquitetura tombada do tradicional liceu reflete a tentativa de Honoré voltar a um passado.

Filme visto no Cine Rosa e Silva, Recife, Agosto 2009

Anticristo


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


No último Festival de Cannes, Lars von Trier espalhou uma série de "aspas" cínicas ao mostrar seu "Anticristo". "Eu sou o melhor cineasta do mundo" foi a mais popular, embora uma outra tenha chamado menos atenção. "Anticristo...", escreveu no material de imprensa, "foi feito com aproximadamente 50% da minha inteligência habitual". A obra seria ainda fruto de uma dura fase pós-depressão...

A teoria dos 50% não só renova o calculismo aberto de Von Trier para com o que filma (fonte de irritação para muitos), como explica a primeira sensação, durante a projeção, de que vemos as brutas do filme que teriam sido vagamente editadas. Esse meio-filme é falado na língua da psico-bobagem por marido e esposa (Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg), isolados numa cabana fabular após a perda do filho.

No entanto, algo ocorre durante essa obra de pés tortos e poucos amigos. Percebemos forças não catalogadas num cinema de gênero (o do horror) via autor incomum. São os delírios potentes de um anormal, seus personagens, bonecos de macumba que ele fura com grande alegria.

Von Trier, que inspirou sensações de apocalipse em obras que usavam a mulher como portadora do amor -"Ondas do Destino", "Dançando no Escuro", "Dogville"- está, enfim, livre para investir apenas no mal-estar mono. Isso talvez explique o fato de

"Anticristo" ser 40 ou 60 minutos mais curto do que os outros.
Esse olhar é notável ao vermos o realizador dar um tom algo alienígena aos elementos de sempre no gênero. O prólogo, uma publicidade espetacular de xampu, atualiza a abertura de "Inverno de Sangue em Veneza", de Nicolas Roeg. A cabana lembra "A Morte do Demônio", de Sam Raimi.

No entanto, "Anticristo" irá seguir o caminho da mulher, que Gainsbourg obedece com fervor em elos femininos insuspeitos com a obra de José Mojica Marins. Essa mãe, uma das várias fêmeas-bicho do filme (todas com crias mortas), é o horror da natureza e instrumento astucioso de Satanás. A personagem, seguindo desígnios do autor, irá abrir a caixa de ferramentas para punir o prazer e a sexualidade. A plateia cruza as pernas.

Em Cannes, esse filme único gerou reações típicas no cinema extremo. Espectadores deixaram a sala no que mais pareciam atos políticos irados. Parecem não saber que o cinema de horror tem essa função há muito tempo, e que, para alguns artistas, xingamentos soam como música erudita.

Filme revisto no Arteplex Unibanco, São Paulo, Agosto 2009

Caro Sr. Horten (O'Horten)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A interação de gente lacônica com planos abertos fixos parece ter se transformado num sub-gênero do cinema, vide a estranha sucursal latina de filmes como Whisky e Gigante. O estilo pode ter relação distante com Buster Keaton ou Jacques Tati, reprocessados por Aki Kaurismaki (O Homem Sem Passado), Elia Suleiman (Intervenção Divina) ou Roy Andersson (Vocês os Vivos) como provas de estilo. O filme norueguês Caro Sr Horten (O’Horten, Noruega/Alemanha, 2007), de Bent Hamer, sugere essa busca pelo lacônico como alguma fórmula a ser perseguida.

Selecionado para a mostra Un Certain Regard, de Cannes 2007, o filme de Hamer propõe que a vida deve ser vivida enquanto ainda há tempo. Chama a atenção que o estilo aparentemente frio ganhe notas dissonantes com um certo tom piegas. Há uma trilha sonora do lugar comum que dá ao relato um ar desagradável de história fofinha.

No inverno da sua vida (neva muito no filme), o personagem titular (o ator Baard Owe, presença) chega à aposentadoria depois de 40 anos conduzindo locomotivas que seguiam retas entre ponto A e ponto B. O’Horten será obrigado, portanto, a lidar com uma vida livre e não-linear, entendendo o quanto suas funções foram restritivas como projeto de vida.

Passará a interagir com as ruas frias de Oslo e seus personagens, de uma visita não planejada ao quarto de um garoto à amizade com um esquizofrênico.

É um ponto de partida válido, já visto com alguma semelhança temática por David Lynch no lindo e subestimado A História Real (1999). Caro Sr. Horten, de qualquer forma, tem vida no rosto forte de Owe, que apela para o fumo do seu cachimbo como saída para pequenos pânicos e grandes dúvidas.

Sobre dúvidas, observe o final. Poderá ser questionado pelos que verão idéias distintas. Seria desonesto, piegas ou humano na sua (in)coerência, uma conclusão, acreditamos, sintonizada com a alma escandinava desse homem bom e triste.

Friday, August 21, 2009

Avatar Trailer


Baixei o trailer do Avatar - http://www.apple.com/trailers/fox/avatar/ -, do James Cameron. Vendo as imagens de florestas digitais penduradas no vácuo. A indústria aposta no filme como oportunidade de reequipar o parque exibidor mundial para o 3D.

Sem medo algum de ver meu queixo cair em dezembro, e me apaixonar pelo filme, esse trailer, hoje, parece apontar para uma confirmação impressionante do que já temos tido ao longo dos últimos 10 anos. O look abraça o aspecto 'videogame', talvez fechando por completo a relação de namoro que temos tido entre o cinema e as imagens sintetizadas dos jogos. Me lembrei dos delírios de amigos com o look do GTA IV, enquanto que pra mim, é apenas um look de videogame.

Foi uma caminhada e tanto (Tron e Videodrome - 1982 - The Lawnmower Man - 1991 - The Matrix - 1999 - Final Fantasy - 2001 - A Scanner Darkly - 2006, Beowulf / 2007) de mundos vituais, não só de maneira assumida, mas na nossa percepção de que todo o cenário é um simulacro estranho, muitas vezes irritante, da realidade. Irritante pelo aspecto árido, morto.

Para nós, cinéfilos brasileiros, há ainda uma preocupação extra que, no caso de Avatar, adiciona mais uma camada de artifício ao todo. A dublagem. Rumores da indústria apontam que "não seria possível legendar" filmes em 3D por ser o processo caro e complicado. Eu vi 'Up' em Cannes legendado e tudo me pareceu lindo, e acho improvável que o processo seja mais caro do que pagar a atores/dubladores e remixar o filme para cada país.

Se a partir de agora, a indústria ditar que tudo o que veremos (num mundo que abraça o 3D como o mais incrível e importante avanço da história da imagem em movimento) será dublado, temos mais um prego no caixão da experiência cinematográfica que estávamos tendo, até agora, há décadas.

Não são só as imagens limpas, sem batimento, grão ou risco, mas imagens sem identidade também na voz. Imagens sem voz não como escolha (cópias dubladas e legendadas), mas como imposição industrial (cópias apenas dubladas).

Outra coisa me chama a atenção no trailer, algo que também me chamou a atenção essa semana vendo uma chamada de Os Normais 2, na Globo. Seria uma nova tendência? A pergunta é: sobre o que é o filme? No site da Apple, achei alguma informação, aqui traduzida, sobre Avatar:

AVATAR nos leva a um novo mundo espetacular muito além da sua imaginação, onde um herói relutante embarca numa jornada de redenção e descobertas, liderando uma batalha heróica para salvar toda uma civilização.

Hmm. Soa como uma farofa genérica.

Essa semana, revi o Two Lovers, de James Gray. O filme se passa em apartamentos aconchegantes e ruas reais de Nova York. Há algum tipo de alívio nisso. K.M.F

A Teta Assustada


Cinema mulher.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Associar o olhar de quem filma à questão do gênero é uma observação constante no cinema. É uma procura válida, considerando que os homens detém maioria esmagadora do espaço, enquanto as mulheres lutam por um lugar desde sempre. Isso leva muitos a procurar uma coisa misteriosa chamada “o olhar feminino” toda vez que uma mulher filma. No caso de A Teta Assustada (La Teta Asustada, 2009), da cineasta Claudia Llosa, a constatação é clara, num exemplo de cinema da mulher.

Mesmo que termos relacionados à percepção de gêneros (mulher, gay, macho) extrapolem a mera catalogação e análise de discurso e soem simplesmente pejorativos, obras como A Teta Assustada parecem servir de resposta para um mundo dominado por filmes de testosterona, feitos por homens e que investem na destruição. No filme de Llosa, temos um longo ato de reconstrução nos seus 95 minutos. É algo muito fêmea.

A Teta Assustada ganhou o Urso de Ouro em Berlim esse ano. Essa produção peruana, co-produzida com dinheiro espanhol, tem um certo ar de filme para exportação, muito embora os prazeres da sua beleza sejam reais e freqüentes.

A questão central é o ponto de vista feminino a partir de uma herança de violências contra o corpo da mulher. Essa brutalidade faz parte da história recente do Peru, informação liberada rápida e didaticamente. Um prólogo forte, com a tela do cinema em preto, nos passa o ódio pelo desrespeito à mulher, e estabelece a personagem central, Fausta (Magaly Solier).

Essa garota-mulher de beleza exótica e local é um daqueles rostos cartão-postal que defendem o filme a cada cena. Ela dá à obra uma certa embalagem de latinidade para exportação, acrescida de uma poesia crua normalmente associada ao realismo fantástico, outra expectativa do olhar estrangeiro sobre essa cultura.

Fausta, um bichinho do mato, trabalha como empregada doméstica para uma pianista da classe alta, em Lima. Seu tio, que a quer bem, acredita que ela é vítima da “teta assustada”, onde o leite angustiado da mãe é passado para a filha pelo peito. Fausta, de fato, nasceu em meio ao horror.

Ela precisa administrar pelo menos duas questões essenciais. A primeira, enterrar o cadáver da sua sofrida mãe, ainda guardado em casa no povoado onde vive. A segunda questão envolve seu próprio corpo, que ela parece ter blindado contra toda e qualquer possibilidade de violência por parte de homens. Não é à toa que Fausta sente-se tão desconfortável nas curiosas sequências de casamento que pontuam a narrativa. São duas idéias ricas em significados e que dão ao filme sustento dramático marcante.

É um filme de detalhes, alguns deles forçando a relação do espectador com uma série de signos. Llosa filma repetidamente um portão mecânico, por exemplo, tão típico na nossa América Latina dividida entre o lado de fora (pobreza) e o lado de dentro (riqueza). Talvez exista ainda uma leitura sexual para a relação do portão com a personagem, pois é ela quem sempre aciona o abre e fecha da barreira. Há pombas brancas em cena e batatas também, como elemento de segurança e vida que cresce morta. Mais tarde, vida que cresce viva.

As imagens fluem, as cores são fortes e Llosa filma com economia segura. Seu filme trilha a linha tênue que separa o intrigante do efeito calculado. No geral, sai ganhando a intriga da beleza de uma delicadeza inegavelmente feminina.

Filme revisto no Cinema da Fundação, Recife, Agosto 2009

The Hangover (Se Beber Não Case)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Se Beber Não Case (The Hangover, EUA, 2009) acertou na mosca comercial. Tornou-se a comédia de maior sucesso dos últimos 25 anos nos EUA, título que ainda pertencia a Um Tira da Pesada (Beverly Hills Cop, 1984). É um filme bem articulado, calculado para conquistar o público masculino americano que compõe uma cultura peculiar na administração das suas culpas sexuais.

O filme parece ter sido armado a partir de pesquisas de marketing feitas nas portas de cinemas. Esse passatempo para rapazes tem como antepassado o outro hit gigante de tantos verões passados, o verdadeiramente mal criado Clube dos Cafajestes (National Lampoon's Animal House, 1978), de John Landis, que, de alguma forma, soava bem mais natural e livre do que esse aqui.

Por ser moderno, segue a linha secretamente carola do muito bom O Virgem de 40 Anos, de Judd Apatow, e do longo Penetras Bons de Bico, de David Dobkin. Assim como Se Beber Não Case, os dois filmes citados trazem um grupo de homens que, a partir da amizade que os une, irão passar por uma aventura. Nos três, a instituição do casamento é a âncora moral de tudo.

Desta vez, a aventura envolve um mistério, explicada pela idéia de que todos sofrem de uma ressaca monstruosa. Parte do pacote químico consumido envolvia o ‘boa noite Cinderela’, a droga que põe a vítima para dormir e cria um lapso de esquecimento. Útil para os prazeres culpados aqui mostrados e para o filme como um todo.

Na cultura americana, Las Vegas é uma espécie de zona franca moral onde o indivíduo pode soltar os cachorros nos prazeres que o dinheiro compra, longe de suas cidades e à solta na chamada ‘sin city’ (cidade do pecado). Talvez seja bem visto socialmente pelo fato de ir a Las Vegas significar, indiretamente, que há situação financeira saudável por parte do cidadão, e que lá ele poderá comprar o seu prazer, gerando ainda mais capital. Pelo jeito, é tudo muito bem aceito por famílias, namoradas, noivas e esposas, uma vez que “o que acontece em Vegas, fica em Vegas”. Esse tipo de coisa foi abordado num dos segmentos do bem melhor Vamos Nessa (Go, 1999), de Doug Liman.

Às vésperas do casamento de Doug (Justin Bartha), ele e seus amigos Phil (Bradley Cooper), Stu (Ed Helms) e Alan (Zach Galifianakis) vão comemorar nos hotéis e cassinos. A noiva de Doug passa o filme se maquiando preocupada e a namorada de Stu é uma bruaca dominadora. A personagem mulher mais simpática em cena é uma prostituta Disney (Heather Graham). É de se suspeitar que os realizadores não têm muito contato com mulheres.

Acordando na manhã seguinte, Doug está desaparecido, e os três não lembram de nada. O roteiro mantém o interesse, especialmente ao criar terreno para o que talvez seja (excetuando as de Animal House) a farra mais absurda já mostrada no cinema, noite revelada em detalhes engraçados.

Um aspecto curioso é ver que o mistério é elucidado através de ‘imagens de arquivo’ (câmeras de segurança, fotografias). O choque entre a razão sóbria e o fato registrado em imagem é dramático como humor, mesmo que homens sensatos nas suas vidas comuns se vejam roubando uma viatura policial ou abduzindo o tigre de estimação de Mike Tyson.

A presença de Tyson no filme é o tipo de detalhe que explica, em parte, o sucesso de Se Beber Não Case. Carismático, engraçado e fã de Phil Collins, acrescenta tom absurdo ao todo. Há também a participação de uma bicha chinesa que acredita no chilique como instrumento de ameaça.

No final das contas, temos uma comédia masculina que consegue evitar o sexo filmado como o diabo corre da cruz (sexo é objeto de repulsa no mercado hollywoodiano hoje), que explora a liberdade paga e sem memória, e com a redenção moral de um altar no final. Um casório no final é elemento indispensável nesse tipo de produto.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, Agosto 2009

Sunday, August 16, 2009

Vinheta #2 do Janela Internacional de Cinema do Recife

Eu havia feito a 1a vinheta do Janela (posrtada aqui), e agora entrou no ar a 2a, feita por Gabriel Mascaro. Usa uma obra de Banksy, artista inglês.

Thursday, August 13, 2009

Drag me to Hell


O Horror Oral de Sam Raimi.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A gente reclama de Hollywood, da monotonia da sua produção e, por tabela, da programação dos multiplexes, mas a verdade é que o cinemão americano, por linhas talvez tortas, termina surpreendendo pela diversidade. Essa semana, por exemplo, temos não apenas a anomalia que deve ser vista chamada Brüno, com Sascha Baron Cohen, mas também essa deliciosa baderna cinéfila que é Arrasta-me Para o Inferno (Drag Me To Hell, 2009), filme de Sam Raimi, ambos produções da Universal.

Se Brüno é fruto exclusivo do nosso mundo na primeira década do século 21, o filme de Raimi parece existir com base no passado do cinema comercial classe B feito nos EUA, nos filmes e séries de terror dos anos 60 e 70, como The Twilight Zone (Além da Imaginação) ou A Casa da Noite Eterna (Legend of Hell House, 1973). É um desses filmes onde o espectador tem a certeza de estar se divertindo tanto quanto o cineasta que o fez.

É a história de uma garota bacana chamada Christine (Alison Lohman), com namorado companheiro Clay (Justin Long). Ela trabalha com empréstimos num banco e descobre horrorizada que foi amaldiçoada por uma cliente idosa, Dona Gamush (Lorna Raver).

A maldição veio depois que Christine recusou um empréstimo para a cliente, decisão tomada pela nossa heroína de bom coração a partir de exigências de produtividade no banco e medo de perder uma promoção. Competitividade capitalista e liquidez garantida podem levar alguns a ter um encosto por perto, cuidado.

Na verdade, “idosa” não é a palavra certa para descrever a Dona Sylvia Ganush, pois ela é apresentada como o pesadelo perfeito da “velha debaixo da cama”. Séria, voz rouca, chapa nos dentes e um lenço na cabeça. Para americanos, a lista de horrores ainda inclui um espesso sotaque estrangeiro. É uma “velha”, no sentido mais aterrorizante do termo, parte integrante da psicologia infantil mais sombria.

Dizem que os dois gêneros de cinema mais difíceis de acertar são o horror e a comédia. Em termos práticos, a eficácia de cada um pode ser checada em reações físicas no espectador, seja rindo ou se encolhendo na cadeira, não raramente pulando ou contorcendo-se, com asma cômica ou boca seca. Dos dois gêneros, muito raramente surgem frutos que unem de maneira igualitária o medo e a graça. Esse é o caso de Arrasta-me Para o Inferno.

Sam Raimi tem a mão firme de um autor que escreve com caligrafia pessoal. Foi um desses talentos natos recrutados pela grande indústria a partir de primeiras experiências totalmente independentes que rodaram o mundo, como o clássico espetacular da invenção e da câmera absurda que é A Morte do Demônio (The Evil Dead, 1983), feito por ele e seus amigos em 16mm e orçamento zero.

Talvez Hollywood tenha aberto os olhos para o trabalho de Raimi depois que dirigiu o delirante Darkman (1990) para a Universal e, encurtando a história, Raimi é hoje o homem por trás do sucesso de bilhões de dólares da franquia Homem Aranha, que vai agora para o quarto filme com ele ainda dirigindo.

Isso parece gerar um prazer ainda maior de vê-lo fazendo um filme pequeno como Arrasta-me Para o Inferno. Nesse tipo de cinema B, algo não funciona tão perfeitamente como deveria, o filme em si talvez deixe a desejar em partes, mas os prazeres são enormes ao longo de praticamente toda a duração, e sensação geral é a melhor possivel.

Vale observar curiosidades alarmantes nesse filme. Raimi não apenas aposta num trabalho de som radical, misto de “som clássico” amparado por trilha sonora de Christopher Young acrescida da agressividade das mixagens modernas, mas há uma engraçada fixação oral do filme (e de Raimi) em relação ao terror. Há muita boca aberta, ataque de boca, mordidas e líquidos indesejáveis entrando e saindo de bocas. Veja, com a boca tapada.

PS: Outra coisa sobre o fator estrangeiro da bruxa Ganush, e que nos confirma aspectos nefastos (mas sempre reveladores) da cultura americana. Além de ela ter sotaque, todas as pessoas intimamente relacionadas com o mal, até mesmo um guru benigno, tem a aparência de não-americano, ou sotaque de fora. Na verdade, são mexicanos ou europeus do leste. Nossa heroína, claro, que nada tem a ver com o mal, mas que é apenas vítima, é loirinha e americana como uma torta de maçã.


PS: A pré-estréia na qual vi o filme sábado, 8 de agosto, foi um pesadelo por si só. A imagem desfocava constantemente na sala 4 do UCI Boa Viagem, às vezes radicalmente (as legendas viravam borrões brancos indecifráveis). Espectadores gritavam (com o defeito), saíam para reclamar, o filme parou numa cena tensa, três minutos sem qualquer informação, o filme volta, desenquadrado. Nenhum pedido de desculpas, nenhuma cortesia (como nos EUA...) para que o espectador volte outro dia sem ter que pagar. Enfim, o UCI Boa Viagem, com 11 anos, está mais para uma sala de 2a. rodada, mas com ingressos caros de sala de 1a. Pena.

Tempos de Paz


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Daniel Filho está meio que no topo. Já nos seus 70, se manteve à frente da TV, do teatro e do cinema no Brasil ao longo dos últimos 40 anos, sempre em posições de liderança. Nos últimos dez anos, parece ter encontrado um nicho gigantesco junto à Globo Filmes onde tem a liberdade de fazer a sua musculação criativa e comercial com uma série de sete filmes em oito anos, todos populares e que incluem os dois Se Eu Fosse Você, vistos por mais de nove milhões de brasileiros. E segue fazendo seu cinema com mais um exercício chamado Tempos de Paz (Brasil, 2009), com Tony Ramos e Dan Stulbach.

Ao se debruçar sobre os filmes de Daniel Filho, há sempre uma tensão curiosa para com o observador que não pode se considerar um admirador do que ele filma. Temos um homem do entretenimento brasileiro, talvez o maior nome de uma indústria de áudio-visual que ainda engatinha, associado diretamente a marcos históricos da cultura nesse país, como a novela Dancin’ Days (1978) e a um filme como Cidade de Deus, que assina como produtor associado.

Seus filmes recentes, como A Partilha (2001) ou Primo Basílio (2007) ilustram seu discurso, já muito conhecido, que é o de sempre se comunicar com o grande público. Parece estar fazendo bem esse trabalho há décadas. Essa busca pelo público tem a contrapartida, por parte dele, como realizador, de fazer filmes que estão acima da média brasileira de mercado, produções fluentes, com atuações corretas e roteiros funcionais que contam histórias.

Normalmente, seriam filmes medíocres se a média brasileira não fosse tão ruim. Como estamos, os filmes de Daniel Filho são os melhores produtos comerciais que temos, numa proposta nacional de mercado, público e lucro através de uma constância na sua produção.

Depois de Se Eu Fosse Você 2, lançado em janeiro, ele nos traz esse produto aparentemente pequeno, uma adaptação da peça Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de Bosco Brasil. O resultado é curioso.

É essencialmente um diálogo teatral entre dois personagens antagônicos, Segismundo (Ramos) e Clausewitz (Stulbach), o primeiro, um chefe da alfândega no Rio de Janeiro em abril de 1945. O segundo é um ator polonês que desembarca no porto vindo da Europa. O brasileiro esteve à frente de horrores como integrante da policia de Getúlio Vargas, o polonês sofreu horrores do nazismo. O próprio Daniel Filho interpreta uma vitima política de Segismundo, homem íntegro que tenta entender o porquê da violência contra a sua pessoa.

Tempos de Paz parece abraçar as origens teatrais do material encenado, tentativa de o cinema honrar o palco, e isso inclui até mesmo a buzina do navio ouvida de tempos em tempos, com a identidade sonora de que estaria sendo operada por algum contra-regra.

O texto parece achatado, no sentido de que tudo o que é dito parece se bastar, sem entrelinhas ou dubiedades, levando progressivamente a momentos de dramaticidade que chamam sempre um virtuosismo terrivelmente piegas. Talvez seja o segredo da narrativa popularesca, uma situação sem nuances que levará a uma explosão de emoção encenada e pontuada.

O personagem Segismundo, um ignorante com passado sofrido, burocrata infernal e capacho sem escrúpulos, irá se curvar diante do poder da arte de um homem puro. Vale observar que, por outro lado, o artificialismo constante é finalmente assumido com alguma delicadeza.

Stulbach parece destacar-se com a alegria evidente de quem adora seu personagem. Ele e Ramos dividem o espaço cênico como num espetáculo popular encenado sexta à noite, com casa lotada. Poderá ser um sucesso para o nicho inexistente no Brasil de filmes pequenos com pretensões populares.

PS: Stulbach, durante a projeção, me lembrou não apenas do Tom Hanks, mas do Hanks de O Terminal, de Spielberg, preso numa situação semelhante, e pintado com tintas mesmas, a do bom homem que conquista a burocracia.

Filme visto no Box Cinemas, Recife, Agosto 2009

Pornochancheiro

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Wednesday, August 12, 2009

Brüno


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Há algo de atraente na feiúra de Brüno (EUA, 2009), filme dirigido por Larry Charles, mas que pertence ao ator e arte-anarquista inglês Sacha Baron Cohen. Ele interpreta o personagem titular, um jornalista espetacularmente gay, fascinado pelo mundo da moda e das celebridades. Talvez o filme não seja muito bem sucedido como proposta completa e fechada de uma comédia, mas termina sendo notável pela sua capacidade de desfigurar artisticamente um estado de coisas que já observamos com perplexidade real, diariamente.

Cohen impressionou com Borat (2006), um ‘documentira’ muito engraçado sobre, em termos gerais, a dificuldade que os EUA têm de lidar com o elemento estrangeiro. A estética do constrangimento tão bem pesquisada por Cohen já era o centro das atenções, atraindo vítimas insuspeitas para serem expostas pela sua ignorância, racismo e preconceito.

Em Brüno, ele expande seu raio de ação, e parece ter como alvo a sociedade moderna cujo epicentro continua sendo os EUA. Na verdade, é até difícil definir o quê Cohen está mirando nesse filme, que é o equivalente hollywoodiano (o estúdio por trás é a “Üniversal”) de uma bomba de prego toscamente montada. O filme é uma benvinda anomalia.

O eixo de Brüno aparenta ser a representação e percepção do homossexualismo, aqui personificado pelo fashionista austríaco de 1.90m, geneticamente incapaz de estar a menos de um metro de uma mulher.

Além de termos um pastor evangélico que cura homossexualidade (extensamente ridicularizado), há o clímax do filme, seqüência espetacular construída para dar corda numa platéia (dentro e fora do filme) que não parece entender que o homossexualismo existe e faz parte do mundo. Como sempre, planos de reação são o ouro desse tipo de investigação, e cada um deles aqui apresentado traz carga dramática grande.

No entanto, Brüno sai dando tiro não só em relação à percepção do ser gay.

“Madonna tem o dela, Brangelina tem o deles, eu também tenho” diz Brüno ao abrir uma caixa de papelão na esteira de bagagens do aeroporto, com um bebê africano dentro. O infante - trocado na África por um iPod - passa a usar uma camisetinha colada com a palavra “Gayby” estampada.

Idéias como estas dão conta, de uma só vez, do descaso do mundo rico para com a África, das celebridades e de suas excentricidades super divulgadas, dos valores de um mundo. Fica difícil, por exemplo, não lembrar daquele incidente com Michael Jackson pendurando seu bebê de uma varanda ao vermos fotos de Brüno e seu filho, o pai dentro de uma roupa de apicultura, o garotinho coberto de abelhas desprotegido.

Um outro momento inteligente envolve Paula Abdul sentando em mexicanos durante uma entrevista, interpretação perfeita para as diferenças que existem nos EUA, especialmente em Los Angeles. Está tudo lá, distorcido pelas lentes da anarquia.

Curiosamente, o efeito do filme está mais no todo do que nas partes. Um número de sequências maior do que o aceitável não parece funcionar, ficando o espectador a entender a idéia, mas a lamentar o resultado. Uma ida à Faixa de Gaza chama mais a atenção pela coragem da empreitada do que pelo efeito pretendido, e uma tentativa de destruir a reputação sexual de um político (Ron Paul) deixa apenas um gosto ruim na boca.

Essa tensão do constrangimento e do confronto vem de experiências não esclarecidas entre a realidade (Harrison Ford não quis fazer parte, subentende-se...) e a encenação (atores trabalhando para o filme, como no hotel, a própria Abdul). É um curioso jogo de cena que, de alguma forma, Eduardo Coutinho talvez ache interessante, borrando as linhas entre tensão registrada e tensão encenada.

Essa dúvida constante pode ser a principal riqueza do filme. Brüno talvez seja o repórter principal do mau gosto, o Perez Hilton do cinema, o E! Entertainment News estilizado, o enterro de Michael Jackson transformado em cena filmada. Seu filme de cinema traveste-se de TV para se tornar uma caricatura fiel de como as coisas têm sido.

Há algo de muito forte e obstinado nas entrelinhas do trabalho de Cohen e do seu provável mentor intelectual, o comediante americano Andy Kaufman, falecido precocemente em 1984. A obra de Kaufman ganhou um belo filme pelas mãos de Milos Forman, Man on the Moon (O Mundo de Andy, 1999).

Os dois artistas, judeus de origem, têm algum tipo de cruzada apaixonada contra os que fazem do mundo um espaço menor do ponto de vista das idéias, das diferenças. Resta abrir o debate para questionar os métodos de Cohen, que toca o terror ético armado com câmeras. É o mais próximo que temos do Coringa de Batman, livre, solto e bem pago, fazendo filmes. No caso de Cohen, ele não perguntaria "Why So Serious?", mas talvez o seu direcionamento seja "Porquê tão tacanha?". Aparenta estar lutando ferozmente contra isso.

PS: Adorei Brüno levando chibatadas da virgem.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, Agosto 2009

Monday, August 10, 2009

Os 50 MELHORES Filmes da 2a. Guerra (Time Out)


A Time Out (Londres) propõe mais uma lista, a dos 50 GREATEST Filmes da 2a. Guerra Mundial, preparando terreno para o lançamento de Bastardos Inglórios, de Tarantino. Essas listas são sempre um prazerzinho, especialmente quando o filme que ocupa o Número 1 bate com o seu próprio filme NÚMERO 1.

O link é esse - http://www.timeout.com/film/features/show-feature/8357/the-50-greatest-world-war-two-movies-part-one.html, em inglês, claro.

Leiam os comentários de Quentin Tarantino e vejam como ele acerta todos, exceto, claro, seu discurso 'bulshit' (polido, educado, medido e pesado) sobre O Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg. K.M.F

Friday, August 7, 2009

O Multiplex Global


foto KMF, Buenos Aires, Julho 2006

Quem viaja para o exterior já deve ter percebido que o mesmo filme lhe persegue desde o seu bairro, em aeroportos, no avião e para aonde quer que você vá. É um pouco isso quando vejo esse link - boxofficemojo.com/intl/ - das bilheterias em todo o mundo. São os mesmos filmes, em todos os lugares, de Gana à Eslovênia, do Recife a Moscou, Rio e Budapeste.

Poucos focos de resitência (ou seja, filmes que ninguém nunca ouviu falar, ou ouvirá mais na vida) vêm exatamente de países cuja cultura cinematográfica oferece resistência (Suécia, Coréia do Sul). É Hollywood. K.M.F

Moscou



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Poder acompanhar a construção lenta e gradual da obra de um autor continua sendo uma das melhores coisas da arte. No caso de Eduardo Coutinho, seu cinema (Cabra Marcado Para Morrer, Santo Forte, Babilônia 2000) firmou-se como o cinema brasileiro do registro, forçosamente rotulado de “documentário”. Recentemente, partiu para ensaios filmados que parecem questionar sua própria herança autoral. Isso nos leva ao curioso fracasso que talvez seja Moscou (Brasil, 2009), seu novo filme.

A possibilidade de Moscou ser uma falha não deve ser entendida como a de um fracasso comum. Não trata-se de um documentário objetivo que nada acrescenta à obra do realizador, ou que resvala para o ‘nada a declarar’ como discurso. Eduardo Coutinho parece estar além disso, como se à procura de uma busca.

Na verdade, se cada filme (ou obra) é uma busca, às vezes é importante registrar a busca, ou a tentativa, como o próprio filme. É um conceito que esse autor já vinha desenvolvendo a cada novo trabalho. Dessa vez, no entanto, ele documenta o processo de uma obra que não acontece.

Durante a projeção de Moscou, Coutinho parece estar nos trazendo uma caixa não com um filme dentro, mas com um paralelepípedo de dez quilos. E nos pede ansioso que olhemos para a pedra que ele achou na sua procura.

Se em Edifício Máster (2003) ele traçava um panorama humano confinado às linhas arquitetônicas de um prédio, em Moscou ele parece despir-se dos personagens para investigar a arquitetura dramática de uma encenação pobre. Vaga sem pistas pela sua pesquisa num filme composto por imagens de um jogral mal filmado em planos estéreis.

Logo, o exercício de Moscou ficará restrito a um jogo puramente intelectual. É a estréia de Coutinho no exercício cerebral monótono e fora de controle, uma lombra bem mais atraente finda a sessão do que ao longo da mesma. Atraente pois um dos nossos grandes autores está livre para experimentar, e solto para tentar se entender, mesmo que a sua busca seja de interesse restrito para os muito poucos que tiverem a paciência.

Isso pode soar como um ponto positivo para alguns, mas certamente deve ser algum tipo de pesadelo momentâneo para esse autor dotado do talento para a clareza inteligente no filmar. Exigir paciência a partir de um exercício brechtiano sem frescor como esse é sensação frustrante na obra de alcance normalmente bem maior que é a obra de Eduardo Coutinho.

A aridez de Moscou para com as figuras que o habitam chama a atenção. No conjunto da obra, o filme é coerente com o anterior, Jogo de Cena (2007), já uma reflexão sobre realismo e drama encenado, usando o teatro não apenas de maneira literal (palco, cortina, coxia), mas no seu sentido mais figurativo (a de uma mentira gerada, como o cinema também é).

Coutinho utiliza mais uma vez o procedimento de atores (Grupo Galpão, de Belo Horizonte) interpretando eles mesmos, e também personagens, nesse caso os de As Três Irmãs, de Anton Checov. O texto de 1901 é um dos mais fascinantes momentos do dramaturgo russo.

A escolha de As Três Irmãs talvez seja sugestiva para conhecedores do trabalho de Coutinho. É sempre um enigma tentar enxergar o homem que faz os filmes, mas o texto de Checov deixa um sabor forte e duradouro de passagem do tempo, da satisfação inalcançável e uma ânsia de ser lembrado num futuro distante. Isso é abraçado com força em determinado momento na voz rouca de Coutinho sumindo em direção ao silêncio.

Já na casa dos 70, Coutinho inspirou em muitos a sensação de estar deixando seu réquiem quando do lançamento de O Fim e o Princípio, em 2005. A sensação volta a rondar Moscou. Naquele outro filme, ele conversava com idosos numa pequena comunidade do interior da Paraíba. Foi um filme de transição e de impasse, apontado por alguns como a repetição de um mesmo procedimento.

Em O Fim e o Princípio, Coutinho parecia flertar com a obra de Lars Von Trier em Dogville (2003). Um mapa emotivo da comunidade sertaneja seguia o mesmo tipo de design do mapa da comunidade no filme do cineasta dinamarquês, e agora é impossível não lembrar em Moscou da encenação de Von Trier via Brecht em Dogville e em Manderlay (2005).

A citação a Von Trier é útil ainda no sentido de trazer Coutinho para um trio de autores (Von Trier com Anticristo, Quentin Tarantino com Bastardos Inglórios) do cinema que acabam de apresentar obras incomuns que podem ser vistas como fracassos especialíssimos que deixam cada um dos autores em encruzilhadas criativas que inspiram mais otimismo do que pessimismo.

No caso de Moscou, há um momento representativo na apresentação dos atores no início do filme. Temos a presença não só do diretor da peça, Enrique Dias, mas do próprio Coutinho, que parece estar substituindo Checov à mesa. Nesse encontro inicial, todos parecem estar indo a algum lugar. No final, suspeita-se que apenas Coutinho foi, saindo ileso de uma experiência que não deu certo, exceto pela pedra que disso resultou.

Filme visto no Cinema da Fundação, Recife, Agosto 2009

GI Joe - Rise of the Cobra


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Não há muito o que dizer sobre GI Joe - Rise of the Cobra (EUA, 2009), a farofa hi-tech de ação da semana. Trata-se de mais uma adaptação não de um livro, ou de uma peça, nem tampouco de um videogame, mas de um brinquedo. É o segundo brinquedo adaptado em um mês depois de Transformers 2, com o qual GI Joe divide todas as semelhanças. Por brinquedo, nos referimos aos “bonecos de ação” da marca Hasbro, agora transformados num filme milionário com todas as explosões que tem direito.

O diretor é Stephen Sommers, que fez A Múmia e Van Helsing. É triste compará-lo a Michael Bay e ainda ver que Sommers sai por baixo. Por mais que Bay seja uma besta, ainda é possível enxergar ali um autor besta. No caso de Sommers, não há nada que aponte para o trabalho de um ser humano ali por trás. GI Joe passa como uma coisa genérica onde até mesmo os efeitos especiais parecem abaixo de um mínimo esperado. Ou seja, pode ter faltado pulso (algo que Bay notoriamente tem) para exigir o melhor do melhor.

A historinha envolve mais um esquadrão especial de forças americanas, os “Joes”, última cartada do mundo militarizado para situações limite. Esse mundo dos ‘Joes’ é futurista e repleto de tecnologia de guerra, o que dá ao filme um ar de Robocop com James Bond e Exterminador do Futuro. À exceção de Dennis Quaid, como o comandante, o elenco é todo classe B, o que não deve ajudar muito filme tão sem personalidade nas bilheterias.

Eles irão enfrentar mais um maluco que quer destruir o mundo, aliado da nanotecnologia, micro baratinhas que roem o que estiver pela frente. O apetite destrutivo desse tipo de coisa já é conhecido, e envolve a demolição de pontos turísticos internacionais. Dessa vez, sobra para a Torre Eiffel.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, Agosto 2009

Thursday, August 6, 2009

John Hughes Morre aos 59




Acabei de ler na Variety. Um brinde para esse realizador que marcou uma geração que hoje está na casa dos 30-40 a partir de crônicas cheias de momentos verdadeiros sobre ser jovem (nos anos 80). Quem viu The Breakfast Club (1984), Weird Science (1985), Curtindo a Vida Adoidado (1986) e Pretty in Pink (1986, escreveu e produziu) deve saber do que estou falando.

Wednesday, August 5, 2009

Longa de Esmir Filho



Recebi email de uma assessoria internacional de imprensa divulgando o primeiro longa de Esmir Filho (Alguma Coisa Assim, Saliva), e uma série de links para teasers. O filme terá sua estréia mundial em Locarno, semana que vem.

Achei curiosa a forma como o email destaca o fato de o filme não ter nada a ver com o vocabulário usual do cinema brasileiro, onde a palavra chave é favela - "shows a new refreshing side of Brazil, far removed from the caricatures, the favelas, crime and samba music". Deverá gerar uma quantidade interessante de discussão quando chegar ao Brasil.

Friday, July 31, 2009

Sobre Halloween e a Playarte



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Semana passada, estreou Halloween (2007), refilmagem de Rob Zombie do filme de John Carpenter, feito originalmente em 1978. A distribuidora Playarte não exibiu o filme para a imprensa brasileira. Eu escrevi sobre o filme para a Folha de S. Paulo com base no DVD francês do filme (a crítica pode ser lida nesse blog). Horas após a estréia de Halloween nos cinemas brasileiros, no entanto, começaram a surgir relatos na internet de que o filme fora mutilado pela Playarte. Dos 108 minutos originais, a versão lançada no Brasil ficou com 83.

Os cortes mal feitos suprimiram 26 minutos do filme, um desrespeito não apenas aos realizadores mas também ao público, que viu uma versão 'pirateada' do filme passando nos cinemas que cobram ingressos caros. Tentei obter uma posição oficial da Playarte ao longo da semana, sem sucesso, algo também tentado por diversos jornais e sites de cinema do país.

Aos poucos, surgiram revelações. O Diário Oficial da União publicou os planos da distribuidora, que, não querendo lançar um filme com classificação 18 anos (a versão original), submeteu a versão incompleta para atingir a classificação 14 anos, “excluindo conteúdo violento”, e fazendo cenas inteiras sumir do filme.

A história piora com a revelação quinta-feira de que a mesma Playarte já prepara o lançamento de Halloween em DVD, anunciando cinicamente “Versão Estendida SEM CORTES! Inclui Cenas não exibidas no cinema”.

Resta ao público evitar o filme, que entra na sua segunda semana em cartaz. E resta à Playarte, distribuidora tradicional no Brasil, rever suas estratégias de lucro. Num mercado que reclama tanto da pirataria, ver um filme dessa forma, desrespeitado pelo próprio distribuidor, lembra as histórias de cidades do interior de antigamente, onde filmes passavam pela tesoura do padre local.

Aqui, no entanto, não trata-se de crença religiosa, mas a crença burra no dinheiro. Burra porque a manobra pode ter dado lucro, o lucro de um golpe, mas as perdas em imagem da distribuidora no mercado não são poucas.

Além disso, creio que o incidente revela a relação sempre distante entre o Brasil e o cinema de gênero, no caso, o horror, normalmente visto como algo indecifrável e dispensado como 'trash', vulgar e descartável.

À Deriva


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Dia 28 de agosto estréia Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas para confirmar que o atual cenário de cinema brasileiro comercial está dominado por comédias. Se Eu Fosse Você 2, O Divã e A Mulher Invisível computam dez milhões de espectadores esse ano, indicação mercadológica de que esse tipo de filme é o que há no nosso mercado. Com isso em mente, não deixa de ser um tipo de alívio ver algo como À Deriva (Brasil, 2009) tentando achar espaço.

É o terceiro longa do realizador pernambucano radicado em São Paulo Heitor Dhália, que antes fez Nina (2004) e O Cheiro do Ralo (2006). O filme teve sua estréia mundial na mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes, há dois meses, fato muito destacado pela campanha de divulgação do filme.

Dado o cenário atual, À Deriva chega hoje aos cinemas do Brasil como produto diferenciado. Desta vez, não temos um humor de comercial brasileiro de cerveja, adultos comportando-se como crianças de 12 anos e uma linguagem de TV para um público que procura sintonizar a Globo nas salas de cine.

O filme de Dhália é um relato que cheira a algo claramente pessoal e investiga relações familiares do ponto de vista de uma adolescente, Filipa (Laura Neiva). Ela observa de camarote a dissolução do casamento dos pais (Débora Bloch e Vincent Cassel) durante uma temporada de férias numa praia paraíso (Búzios, RJ), filmada nos tons meticulosamente dourados do que um certo tipo de cinema entende como sendo lembranças distantes. O filme parece se passar discretamente nos anos 80.

Neiva, que está em praticamente todas as cenas, é a primeira pessoa do filme, uma adulta em formação que irá aprender algumas coisas novas sobre o funcionamento das pessoas no mundo dos crescidos. Percebe coisas que seus irmãos mais novos nem imaginam, especialmente a movimentação amorosa do seu pai em relação a outras mulheres. Não percebe, no entanto, o que acontece com a mãe.

O francês Cassel (Irreversível, 13 Homens e um Novo Segredo) parece tentar honrar aqui sua admiração pessoal pelo Brasil, para onde vem com freqüência. Fala português e ocupa um personagem que soa como se não tivesse sido escrito originalmente para ser francês, como se Cassel tivesse aceitado o papel em cima da hora. De qualquer forma, o ator é sempre presença.

Bloch traz credibilidade dramática para o filme como a mãe instável e alcoólatra. Se juntarmos o personagem principal da filha à força insensata da mãe, vemos que À Deriva é uma obra dominada pela força sempre assustadora das mulheres.

O filme, de certa forma, é um gol para Dhalia, que parecia concentrar-se na direção de arte vistosa, figurinos berrantes e atitudes ‘mudernas’ nos seus dois filmes anteriores, mas que aqui traz o elemento humano para a frente das suas preocupações. Usa, de qualquer forma, uma série de clichês que fazem a história avançar.

Esse rito de passagem, por exemplo, envolve a perda da virgindade como barreira transponível rumo à maturidade, e eis que esse rito é marcado pelo cintilar de águas douradas sob o brilho energético do sol de Búzios. A locação é uma escolha que dá ao filme uma sensação constante de estarmos presos dentro de uma série de cartões postais. O tom geral é rosa choque.

Na verdade, é curioso observar a movimentação de alguns jovens realizadores e a pressão que existe no sentido de fazerem produtos de mercado para o cinema, seja lá o que significa isso. Na verdade, suspeitamos que isso envolve pegar uma visão pessoal totalmente realizável como obra honesta, pura e simples e maquiá-la com os mecanismos do bom gosto tido como médio. Teme-se que, no final das contas, um projeto como esse não agrade totalmente a nenhuma das partes, seja o espectador à procura de um filme forte e autoral, ou ao grande público, adestrado para rir.

À Deriva é uma produção da Focus Features (Universal) e O2 Filmes, do Fernando Meirelles (Cidade de Deus, Ensaio Sobre a cegueira), claramente a produtora de publicidade e cinema mais bem sucedida do Brasil, possivelmente da América Latina. Se Meirelles é um realizador seguro que tem o talento nato de fazer filmes para o mundo, percebe-se que sua estrutura termina atraindo e/ou influenciando outros realizadores a atingir um certo “padrão internacional” que, na pior das hipóteses, é trazido de forma calculada.

Se isso é óbvio em projetos estritamente comerciais como Viva Voz (2004), de Paulo Morelli, esse tipo de pressão termina se evidenciando com certo pesar quando o filme proposto vem de uma motivação que aparenta ser pessoal, moldada finalmente num produto que quer ser comercial.

De maneira semelhante à sentida em relação ao primeiro longa de Philipe Barcinski, Não Por Acaso (2007), outra produção da O2, À Deriva, mais bem sucedido como filme, também sugere algo de pessoal, mas acrescida de mecanismos que sugerem uma embalagem industrial. Além da paisagem e fotografia Polaroid, a música de Antônio Pinto, uns pianinhos que emulam Yann Tiersen (Amélie Poulain) se intrometem numa ação humana que, de outra forma, é de interesse.

De qualquer forma, fica a curiosidade de observar como o mercado irá receber À Deriva, que, no geral, está acima do que o recente cinema brasileiro de ambições comerciais tem feito.

Filme visto na Sala Debussy, Cannes, Maio 2009

Desejo e Perigo


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Dramas humanos de amor em tempos de guerra parecem, em geral, divididos em dois tipos. No primeiro, duas pessoas são separadas pela morte de uma delas, vide o popular O Suplício de uma Saudade (1954), ou a obra prima russa Quando Voam as Cegonhas (1959). O segundo tipo mostra uma relação de amor engolida por eventos bem maiores e poderosos, exemplo clássico de Casablanca (1941) ou do recente filme de Ang Lee, Desejo e Perigo (Se, Jie, EUA/China/Taiwan/Hong Kong, 2007), uma história envolvente cujo sabor frio da sua beleza permanece com o espectador bem depois de finda a sessão.

Desejo e Perigo se passa na Shanghai de 1942, mesmo cenário e período do interessante fracasso que foi O Império do Sol (1987), de Steven Spielberg, a história de um garoto perdido. No filme de Lee (taiwanês de origem, radicado nos EUA), temos uma movimentação política por parte de estudantes chineses que embarcam numa ação patriótica que visa matar Yee (Tony Leung), oficial chinês que trabalha para os japoneses durante a dramática ocupação da China.

Um dos estudantes perdeu a família pelas mãos severas de Yee, um homem frio que executa seu trabalho de maneira brutal. A intenção do grupo, à frente de encenações universitárias bem sucedidas com toques claramente ufanistas, é oferecer uma isca sexual para Yee.

A isca será a bela Mak Tai Tai (Wei Tang), atriz de talento capaz de emocionar centenas no palco, e que terá de contracenar sexualmente com Yee para conquistar sua confiança. Mais à frente, irá colocá-lo numa armadilha. É o clássico personagem da viúva negra, ou da espiã Mata Hari, algo revisto recentemente no também muito bom A Espiã (2006), de Paul Verhoeven, onde uma judia é enviada disfarçada para conquistar a cama de um oficial nazista, na Holanda ocupada.

Se no filme holandês temos uma empolgante aventura sobre a ética da guerra, no filme de Lee o tom é ainda mais sombrio. Ele vai fundo na relação física entre a isca e sua presa, filmando o sexo de maneira honesta e direta. Desejo e Perigo é um daqueles filmes raros que comporiam lista de obras que ajudam a construir a imagem filmada do coito no cinema, algo que permanece um tabu em 2009.

A presença de Leung reforça ainda mais paralelos possíveis nas lembranças do espectador com Amor à Flor da Pele (2000), de Wong Kar Wai, onde o sexo constante entre um casal estava no ar, e não na tela. No filme de Lee, no entanto, o amor e o romantismo, desenvolvido a partir de uma relação carnal inicialmente violenta, passa para a discreta delicadeza rumo a uma conclusão que volta a ser brutal, como a própria guerra. Mistura sentimentos humanos como traição, decepção e a violência absoluta do poder.

É um desses filmes clássicos, bem filmados. Uma seqüência importante (e muito violenta) parece não apenas servir de informação para o espectador sobre as medidas extremas influenciadas por uma Guerra, mas ainda evoca Hitchcock e a sua afirmação de que “matar um ser humano é algo trabalhoso e que dura muito, mas muito tempo”.

Não só o sexo está perfeitamente iluminado, mas partidas de majongue e cenas de rua são show. O roteiro de Lee, James Schamus e Hui Ling Wang constrói firmemente personagens e situações humanas, dando espaço ainda para que você preencha espaços. Instigante.

Filme visto no Cine Rosa e Silva, Recife, Julho 2009

Monday, July 27, 2009

Halloween (Rob Zombie)



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


É curioso que Halloween (1978), de John Carpenter, autor que filmou a aflição com tanta elegância, tenha estabelecido a base para o moderno filme de terror, o “slasher”, gênero marcado por um filmar tão feio. Mais curioso é ver que depois de dezenas de cópias e mutações, Halloween, remake oficial dirigido por Rob Zombie, uma antítese do original, ainda seja de interesse.

Um caso raro de filme dividido em dois, na narrativa e na qualidade, o novo Halloween parece funcionar no todo como bom produto de gênero via toque pessoal do seu autor.

O mito do bicho papão sugerido por Carpenter tinha a forma de um assassino mascarado e mudo que não desistia, faca em punho, sem noção ou explicação. Matava numa coreografia sublime de travellings em Panavision sob uma música eletrônica primitiva que ninguém esquece, criação do próprio Carpenter.

Se o original investiu tempo e atenção nas vítimas aterrorizadas pelo vulto, na versão de Zombie o carinho é todo depositado no bicho papão, sem paciência ou interesse para as adolescentes que gritam. Teoricamente, a idéia é infeliz, pois tira-se o mistério natural do mal puro e simples, o equivalente a tentar explicar o medo do escuro.

Na prática, no entanto, Zombie faz um filme interessante. Ex-vocalista da banda White Zombie, ele havia mostrado sua sensiblidade heavy metal para o cinema nos seus dois primeiros filmes, A Casa dos Mil Corpos e Rejeitados Pelo Diabo. Com Halloween, confirma que ‘família’ é sua palavra chave.

Seu interesse pelo psicopata Michael Myers é não apenas a melhor coisa do filme, como sugere uma refilmagem de Carrie a Estranha (1976), de Brian de Palma, e não tanto do filme de Carpenter. Por baixo da sordidez estridente das relações, há um cuidado pelo menino sempre mascarado com sérios problemas na escola e em casa. É mal tratado por todos, mas amado pela mãe, pelo psiquiatra (Malcolm Macdowell) e pelo próprio cineasta. A utilização de Love Hurts (o amor dói), do Nazareth, soa bem no filme em vários sentidos e a explosão de violência perturba.

É uma primeira parte que Zombie quer que seja só dele, já que na segunda metade, ainda dotada de imagens potentes no gênero, irá apenas cumprir cláusulas contratuais que dão ao filme o tipo de dormência que mutações desse tipo geralmente têm. No entanto, Zombie consegue fechar seu horror heavy metal com o que Carpenter sempre teve em mente: uma imagem de puro cinema.

ATENÇÃO: esse texto publicado na Folha de S. Paulo ontem foi feito com base no filme visto no DVD francês de Halloween, de Rob Zombie. Eu revi o filme há duas semanas, no Recife. No sábado, um dia após a sua estréia nos cinemas brasileiros, saíram comentários na comnunidade do CinemaScópio do Orkut (a partir de nota no http://mestreinfernauta.blogspot.com/2009/07/michael-myers-vs-playarte.html) informando que o filme havia sido cortado no Brasil e ficado com 86 minutos, o que explica a baixa classificação 14 anos. A versão francesa é classificada 16 anos e tem 109 minutos

Sunday, July 26, 2009

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