Saturday, May 22, 2010

Prêmios Un Certain Regard


Fui ver agora há pouco a entrega de prêmios da mostra Un Certain Regard, que tem um cerimonial dentro da mostra oficial muito tranquilo. Thierry Fremaux chama todo o pessoal de apoio e seguranças, e sua equipe de seleção da mostra, para o palco. É uma celebração, e de repente o peso de todo o festival, e os dias aqui desfrutados, caem nos ombros dessas pessoas. É muito bom.

A presidente do Júri, Cliare Denis, começou dizendo que o filme do Manoel de Oliveira, O Estranho Caso de Angélica, escolhido como filme de abertura, "iluminou toda a seleção com sua poesia". Foi isso mesmo. K.M.F

Os prêmios:

Prêmio Un Certain Regard (Fondation Groupama Gan)
Hahaha, de Hong Sangsoo (Coréia do Sul)

Prêmio do Júri
Octubre (Peru), de Daniel Vega e Diego Vega.

Prêmio de Interpretação Para as Três Atrizes de Los Labios
Adela Sanchez, Eva Bianco, Victoria Raposo

Friday, May 21, 2010

2 Cortes Secos

2 Cortes Secos me chamaram a atenção em Cannes, de dois filmes que colam ficção com realidade. Em 'Fair Game', de Doug Liman, as palavras da personagem interpretadas por Naomi Watts são completadas pela personagem real que ela interpreta, a partir de imagens de arquivo.

No dinamarquês Armadillo, filme punk rock sobre destacamento dinamarquês enfrentando o Talibã no Afeganistão, uma explosão num videogame de combate vira uma explosão de estrada que estilhaça as pernas de um soldado.

Psicose 50 Anos


Você está na 1a fila da Sala 60eme, de frente para a tela que ameaça desabar sobre você. As cordas de Bernard Hermann fazem seu peito vibrar. É PSICOSE de Hitchcock. (foto de Marcelo Miranda, eu estou à direita, afundado na cadeira, já temendo o filme) K.M.F

Thursday, May 20, 2010

'My Joy'


'My Joy', de Sergei Losnitza.

Obs: Esse texto é uma revisão geral acrescida do texto anterior sobre 'My Joy' publicado anteriormente.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A Palma de Ouro clara e evidente, a primeira desse Festival de Cannes, é a produção Alemanha/Ucrânia Schastye Moe (My Joy – Minha Alegria), do cineasta russo Sergei Losnitza, que não apenas estréia no longa metragem, mas o faz já na competição. Além da Palma, ele ainda arrisca ganhar a Câmera de Ouro, para estreantes. Poderosíssimo, como só o cinema russo parece conseguir ser, esse filme passa como uma parábola de proporções bíblicas sobre a Rússia atual, cultura fascinante marcada por uma história brutal que sugere pesado karma.

Losnitza apresenta uma pintura sofisticada do estado de espírito de toda essa cultura, pelo jeito marcada pela palavra “documentos...”, falada inúmeras vezes de maneira ameaçadora por homens fardados exercendo as piores formas de poder, oprimindo os mais fracos.

O filme parece tirar todo o ar da sala. O espectador pode sentir-se intimidado pelas imagens de Losnitza, num filme que abre com um trator passando literalmente por cima do espectador. No entanto, há sempre a certeza de que ele sabe bem o que está fazendo.

A força descomunal do filme poderá ser discutida e/ou questionada pelos que não têm intimidade com o país e sua história recente, ou seu panorama atual, algo que um outro realizador jovem, Ilya Khrjanovsky, fez no seu primeiro longa, 4 (2005), inédito comercialmente no Brasil. Tudo pode parecer agressivo demais, sombrio demais.

Losnitza tem uma carreira brilhante no documentário em curta e média metragem. Fez um outro filme impressionante chamado Blockade (2006) a partir dos arquivos do orgão de propaganda soviético sobre o cerco nazista a São Petersburgo (Leningrado, na época), recriando sons para as imagens mudas que mostram uma cidade asfixiada tentando viver.

Em Schastye Moe, o espectador é colocado num estado de tensão suspensa constante, e entra na casa das duas dezenas as imagens potentes da força bruta esmagando sinais inconfundíveis de delicadeza. Quando existe a suspeita de nihilismo por parte do realizador, ele nos dá uma sinfonia de rostos humanos numa feira de cidade pequena, um homem que só quer passar amor para seu filho pequeno, um outro que quer voltar para casa com um vestido para sua mulher.

O personagem principal é um motorista de caminhão (Viktor Nemets) que, como um garoto num conto de fadas, tenta manter-se na estrada principal, mas aos poucos toma caminhos cada vez menores e perdidos na floresta, aqui filmada em dois tons: no verde do verão e no branco gelado do inverno, onde Schastye Moe confirma suas tendências fabulares.

O fotógrafo moldavo Oleg Mutu (A Morte do Senhor Lazarescu, 4 Meses 3 Semanas 2 Dias) usa a tela larga scope de maneira orgânica, cada espaço ciente de sua importância, unindo estética e informação narrativa.

Losnitza nos leva a uma estrutura fabular perfeitamente cortada pelo clima de modernidade, vez ou outra nos contando episódios isolados no passado russo de uma memória afetiva traumatizada pela guerra.

Com a bússola moral quebrada, Losnitza desconstrói nossa segurança de espectador treinado, nos deixando sozinhos com os elementos. É ainda mais impressionante a sequência final, um apocalipse perfeitamente integrado à história, claramente fruto de um russo que lamenta muito o estado atual da cultura política e herança histórica que parece prender o seu país num estado constante de trauma.

MIKHALKOV - A participação de Schastye Moe na competição de Cannes terá um aspecto interessantíssimo pois baterá de frente com um outro filme, O Sol Enganador 2, produção russa dirigida pelo veterano Mikhail Mikhalkov. O choque será não apenas estético, mas político.

Conversando com colegas russos, soubemos que, diferente de Losnitza, que abandonou a Rússia por não saber mais lidar com o país, especialmente sua política ufanista de cinema, Mikhalkov é próximo do poder e de Vladimir Putin, que muitos na Rússia vêem como herdeiro da mentalidade stalinista de autoridade e propaganda.

Mikhalkov esteve também responsável pela política de cinema na Rússia, que praticamente deixou de apoiar filmes independentes para canalizar verba para esse seu filme novo, o mais caro da história cinematográfica russa (custou 40 milhões de dólares). Mikhalkov seria ainda uma continuação das reduzidíssimas classes abastadas que prosperavam favorecidas pelo antigo regime, seu filme uma promessa de propaganda.

O Sol Enganador 2, segunda parte do filme que ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro (1993) passa sexta-feira, em Cannes.

Wednesday, May 19, 2010

Video #3: Realizadores '5X Favela'

Cannes Video #3 - '5X Favela' from Kleber Mendonça Filho on Vimeo.

Des Hommes e des Dieux (competição)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A França tem quatro filmes em competição (Tournée, de Mathieu Almaric, La Princesse de Montpensier, de Bertrand Tavernier, e Hors la Loi), e destacamos o muito bom Des Hommes e des Dieux (Dos Homens e de Deus), de Xavier Beauvois. É muito sóbrio e bem filmado esse relato sobre fé, vocação e amor ao próximo como projeto de vida, num monastério nas montanhas de Maghreb, norte da África, anos 90.

É a histórica verídica de como um grupo de oito monges franceses envolvem-se com extremistas do islã, que passaram a discordar até mesmo do apoio que o monastério dava aos seus vizinhos, uma comunidade pobre. O elenco inclui Lambert Wilson, mais confortável aqui do que no filme do Tavernier, e o impagável Michael Lonsdale, que segue sendo grande presença no cinema francês, desde Beijos Roubados, de Truffaut.

No filme mais silencioso de todo o festival, uma cena onde ouvimos O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky revela-se um dos momentos memoráveis do festival. Beauvois cria um transe que será quebrado pelo peso da intolerância e da violência. Muito bem recebido.

Cannes 2010


Pablo Trapero, diretor de 'Carancho'

Grand Hotel, entrevistas no jardim.

Juliette Binoche a modelo esse ano partout.

Realizadores do '5x Favela' em Cannes



Sobre a Imagem Russa

Eu tentei lançar alguma coisa no texto sobre My Joy, do Losnitza, sobre a força bruta da imagem numa idéia de cinema russo, qualidade que também encontramos na literatura, poesia que vem de lá. É algo de difícil comprovação, pois ela passa pelo racional e vai direto ao coração, em geral quebrando-o. Talvez esse clipe aqui postado ajude a ilustrar um pouco do efeito geral de My Joy. Pertence a um filme irmão do filme de Losnitza - "4" (2005), de Ilya Khrjanovsky, obra interessante, mas indisciplinada e até imatura, também um panorama moderno sobre o país. De qualquer forma, essa sequência de abertura eu nunca esqueci, e é carregada dessa força "russa" de enquadrar, de agredir com uma imagem de um poder inimaginável sobrepondo-se a tudo.

Tuesday, May 18, 2010

My Joy (competição)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Schaste Moe (My Joy, Minha Alegria), de Sergei Losnitza, é a Palma de Ouro clara e evidente em Cannes esse ano. O filme tem um estado de espírito que acelera o pulso pela força de cada um dos seus planos. Toda vez que vejo esse cinema de corte russo, com traços inconfundíveis da herança soviética, lembro daquela carcaça de cavalo levantada pela ponte suspensa em Outubro, de Eisenstein.

Esse filme passa como uma parábola de horror de proporções bíblicas sobre a Rússia. Indo além de uma idéia de retrato realista dessa cultura e sua paisagem, vamos um passo além, pois o filme resulta numa pintura sofisticada do seu próprio estado de espírito, o retrato da alma.

A força descomunal do filme poderá ser discutida e/ou questionada pelos que não têm intimidade com o país e sua história recente e atual. Tudo pode parecer agressivo demais, pessimista demais, poético demais, de um impacto difícil de administrar. Para quem tem uma intimidade mínima, essa visão artística só pode ser admirada.

Esse é o primeiro filme de ficção de Losnitza, que tem uma carreira brilhante no documentário em curta e média metragem. Fez um outro filme impressionante chamado Blockade (2006) a partir dos arquivos do orgão de propaganda soviético sobre o cerco nazista a São Petersburgo (Leningrado, na época), recriando sons para as imagens mudas que mostram uma cidade asfixiada tentando viver.

Em Schastye Moe, o espectador é colocado num estado de tensão suspensa constante, e entra na casa das duas dezenas as imagens potentes da força bruta esmagando sinais inconfundíveis de delicadeza.

Quando existe a suspeita de nihilismo por parte do realizador, ele nos dá uma sinfonia de rostos humanos numa feira de cidade pequena, um homem que só quer passar amor para seu filho pequeno, um outro que quer voltar para casa com um vestido para sua mulher.

No entanto, esse é um filme que começa com a imagem de uma betoneira misturando concreto, um trator e um cadáver, e o nível de tensão em cada plano é algo a ser ainda estudado.

O fotógrafo moldavo Oleg Mutu (A Morte do Senhor Lazarescu, 4 Meses 3 Semanas 2 Dias) usa a tela larga scope de maneira orgânica, cada espaço ciente de sua importância, unindo estética e informação narrativa.

Das paisagens de verão a florestas geladas, Losnitza nos leva a uma estrutura fabular perfeitamente cortada pelo clima de modernidade, vez ou outra nos contando episódios isolados no passado de uma memória coletiva traumatizada.

Nosso personagem principal e condutor é um motorista (Viktor Nemets) de caminhão que, como um garoto num conto de fadas, tenta manter-se na estrada principal, mas aos poucos toma caminhos cada vez menores e perdidos na floresta.

Com a bússola moral quebrada, e a alma claramente vencida, Losnitza desconstrói nossa segurança de espectador treinado, nos deixando sozinhos com os elementos, e um deles é um outro cadáver que precisa ser enterrado. É ainda mais impressionante a sequência final, um apocalispe perfeitamente inserido na história, fruto de um russo que lamenta muito o estado atual da cultura política e herança histórica do seu país.

Filme visto na Debussy, Cannes 18 Maio 2010

I Wish I Knew (Un Certain Regard)



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Me chama a atenção que ao ver um filme de Eduardo Coutinho, tem-se a sensação de estarmos diante de um documentarista. No cinema de Jia Zhang Ke, fica a impressão de que ele é um historiador. Seus últimos três, pelo menos, Useless (2007), 24 City (2008) e esse novo – I Wish I Knew - que passou em Cannes domingo (Un Certain Regard) - parecem ter a chave da história oral nas mãos, uma contrapartida de cabeças falantes equilibrada por uma construção de imagens sofisticadas de registro, ao que parece, feitas com uma preocupação não apenas de preencher a tela larga do cinema hoje, mas principalmente no futuro.

Sente-se uma certa transformação na obra de Jia Zhang Ke, se pegarmos seus filmes de dez anos atrás, mais claramente associados à idéia de ficção. Nessa trinca recente, ele assume o papel de principal cronista / testemunha ocular da China moderna, um feito e tanto num cinema chinês moderno que também parece preocupado em trazer para os filmes as mudanças que ocorrem na cultura, infra-estrutura e paisagem do grande país.

Sua preocupação com esse registro sugere um amor pessoal focado. I Wish I Knew não pareceu agradar tanto a platéia, uma informação sempre desimportante, mas talvez notável considerando que o realizador e sua atriz estavam presentes.

O filme constrói (em duas horas e 20 minutos) uma versão palpável de história através de relatos vividos verbalizados. A técnica de história oral sempre me atraiu muito nos estudos de história.

Sua fragilidade é exatamente sua maior força, ouvir o relato em primeira pessoa que traz experiência de vida e verdade, ao mesmo tempo em que a memória pode ser falha, introduzindo o erro e o julgamento errado de um determinado fato. Datas podem ser equivocadas, mas nada supera essa experiência narrada, ou a imagem de um rosto que lembra, ou que faz esforço para lembrar.

Zhang Ke usa uma galeria de personagens maduros, alguns idosos, para filmar a China, as mudanças de costume, a violência dos conflitos internos, da Guerra, do partido, dos lugares abandonados, ou demolidos.

Num momento, ele nos mostra uma entrevista interrompida bruscamente pela sua personagem, que ordena “pare de gravar”, seguido de um corte sumário. A cena semelhante de Um Lugar ao Sol, doc de Gabriel Mascaro, me veio à mente, sem jogar aí qualquer julgamento sobre aquele outro procedimento.

I Wish I Knew tem alguns procedimentos que o levam a um outro estágio do documentário. As imagens largas em scope sugerem que não há outra forma de filmar a China, e as composições são fortes, enamoradas tanto pela beleza como a feiúra da arquitetura e da destruição.

Filme visto na Debussy, Cannes, 16 Maio 2010

Monday, May 17, 2010

Copie Conforme (competição)



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Saindo agora da sessão do filme novo de Abbas Kiarostami, Copie Conforme (Cópia Verdadeira). Horas antes, eu havia escrito sobre as legendas de Godard em Film Socialisme, e agora à noite Kiarostami usa de maneira jocosa as mudanças de língua, tudo muito inteligente e com significados no mínimo astutos, até onde consegui sentir. O filme, no entanto, não é sobre isso, mas apenas um dos detalhes que o enriquecem muito.

É uma mudança e tanto de forma, no que já havia sido anunciado como o primeiro Kiarostami filmado na Europa, com atores europeus. O filme é um presente para Juliette Binoche.

Na superfície, o filme flerta com uma série de outras observações já feitas que rondam a memória do espectador, em especial Viaggio a Italia, de Rosselini, e mesmo o Before Sunrise/Sunset do Richard Linklater. Une uma reflexão sempre a pé e em deslocamento sobre o casamento como história pessoal de cada um, de duas pessoas, somando essa história ao em torno, que não deve ser por acaso tratar-se da Itália.

O homem (William Schimell), aliás, é um acadêmico, especializado em patrimônio cultural, e será a parte mais fria da dupla, cética, distante e fria, mas com doses curiosas de um homem ainda apaixonado. É inglês. Ela, francesa, também fala italiano e francês, e a verbalização do que sentem logo vira uma caixa de pequenas surpresas ao longo do filme.

Ali por baixo, Kiarostami discute rica e prosaicamente identidade de ser você mesmo com uma outra pessoa, e o que se constrói junto num ambiente que já parece ter visto de tudo, vivido tudo e acolhido todos. E tocam os sinos da igreja, sempre para lembrar que o tempo passa e leva as pessoas junto.

O filme é muito delicado.

Filme visto na Sala Debussy, Cannes, 17 maio 2010

Terraço da Quinzena



É aqui onde encontros são feitos, entrevistas marcadas e bebida consumida.

Outrage (competição)



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Outrage (competição) não deixa de ser uma decepção vinda de Tóquio, onde o autor e ator Takeshi Kitano, o cara dura mais interessante do cinema internacional, nos dá um incrível banho de sangue que chega a lembrar pornografia. Ignoramos a historinha e já sabemos que vão partir para o BANG!! POW!! CAPOW!!” a cada quatro minutos, de relógio. E que sons de tiros... que som de um cutelo decepando dedos...

Envolvimento, caracterizações ou observações sobre a máfia japonesa são ejetadas para dar lugar a um toma-lá-da-cá draconiano a partir do momento em que uma família decide dar um susto numa outra família. O espectador logo ficará dormente por esforço repetido.

Pela monotonia, freqüência do sangue e criatividade das execuções, lembra Sexta-Feira 13, embora o assassino seja qualquer um, em qualquer lugar. Vez ou outra, a brutalidade é engraçada e absurda (uma vitima é pega na cadeira do dentista), mas na maioria das vezes apenas desagradável e vazia.

Do ponto de vista cultural, é interessante observar que a idéia de racismo e uma mínima correção política ainda não chegou ao Japão. Acontece que a Yakuza despeja a embaixada do Gabão em Tóquio para fazer seu escritorio, seu embaixador um homem negro retratado de forma caricata, QI inexistente e nenhum respeito próprio em cenas pensadas como comédia. Silêncio absoluto da platéia ocidental em Cannes. Se a Yakuza é racista, faria parte da história, mas fica a dúvida sobre o olhar do próprio filme.

Filme visto na Debussy, 16 Maio 2010

Film Socialisme (Un Certain Regard)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Jean Luc Godard, muito aguardado, cancelou sua vinda a Cannes, onde faria concorrida coletiva de imprensa hoje. SO jornal Liberation publicou o que seria o conteúdo do bilhete manuscrito que enviou a Thierry Fremaux para dar suas satisfações:

"Depois de problemas de tipo grego, nao vou poder estar no festival. Com Cannes, vou até a morte, mas nao darei mais um passo que seja pra frente."

Seu filme, no entanto, passou, chama-se Film Socialisme (Un Certain Regard), prova de que quem já fez tanto pelo cinema, pode fazer mesmo qualquer coisa. O cancelamento de sua vinda ao festival parece casar perfeitamente com as palavras que fecham o filme: ‘No Comment’.

Os franceses têm uma expressão muito boa para mostrar ceticismo, espanto, descrença e alguma interjeição de absurdo: “n'importe quoi”. Film Socialisme foi o mais benvindo ‘n'importe quoi!’ de Cannes até agora, uma nova variação dos fluxos de idéias e pensamentos que observamos na obra recente de Godard, uma mutação da sua capacidade de expressar-se por imagens, já há 50 anos.

Chama a atenção que seja tão textualmente um livro ilustrado de poesias, falado em francês, russo, algumas frases em inglês. Nada em Film Socialisme parece pré-formatado, e isso nos remete a uma das frases de Godard incluídas no material de imprensa. “Mesmo com Final Cut (ed: programa de edição da Apple, usado até para editar os video-posts aqui do blog), o mais humilde ou mais arrogante dos montadores estará preso às convenções do passado e do futuro”.

Estamos num transatlântico, onde o filme bate bola formal com o outro ensaio que é o filme pernambucano Pacific, de Marcelo Pedroso, imagens de um deslocamento burguês filmadas com pequenas câmeras digitais.

A água do mar convida pensamentos, que são reprocessados nas legendas em inglês como obras à parte, redefinindo o papel da legenda e provavelmente irritando os que não ouvem o francês. A legenda deixa de ser um instrumento e vira obra, e eu adorei isso. Talvez adorasse da mesma forma se não entendesse francês. É como se as letras subtituladas finalmente ganhassem liberdade de ser outra coisa, não submissas à fala, mas paralelas ao filme.

Outra referencia é Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira, também num transatlântico que se desloca pelo tempo. Godard sobrepõe seus temas como irmãos antagonistas, em geral usando curtas frases: Palestina: acesso negado, pobre Europa, humilhada pela Liberdade, Hollywood Meca do Cinema, Tumulo do Profeta, o sol e a morte a gente não olha de frente (o que me leva ao filme do Iñarritu, visto momentos antes).

É um fluxo digital, uma corrente de idéias que no todo irá sempre levar alguns a perder a paciência, e outros a sentir um prazer sereno nessa massa caótica.

Num dos momentos do filme, a voz de Godard é ouvida: “CinemaScope”, e corrigida por uma criança, “Não, 16X9”. Talvez defina a relação absolutamente moderna desse chato fascinante, que aos 79 anos continua se revendo dentro da própria imagem, mudando com ela. Ou melhor, desejando que ela evolua.

Filme visto na Debussy, Cannes, 17 Maio 2010

La Princesse de Montpensier (competição)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O cinema francês foi mal representado ontem, na mostra competitiva, com La Princesse de Montpensier, filme algo de empalhado de Bertrand Tavernier. É um dramão de época (1562, na guerra entre católicos e protestantes) com cascos de cavalo estrondando o Dolby quase tanto quanto os volumosos figurinos e lutas de espada. A coletiva de imprensa deixou transparacer que o filme é mais dos produtores do que de Tavernier, sempre um problema.

Marie de Montpensier (Melanie Therry) é uma jovem força feminina da natureza, capaz de fazer todos os homens enlouquecerem por ela, um problema já que Therry, certamente uma gracinha (fotografa como Michelle Pfeiffer em Ligações Peigosas) não é nenhuma Claudia Cardinale em O Leopardo. Lambert Wilson, Gaspard Ulliel e Grégoire Ringuet encaram tudo com profissionalismo, embora o filme aparente ser a resposta francesa para o mesmo tipo de passatempo inexpressivo de Robin Hood, que abriu Cannes quarta passada.

Filme visto na Sala Lumiere, Cannes, 16 Maio 2010

Un Homme Qui Crie (competição)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Muito bom o filme em competição do Chade, o primeiro do país africano na história de Cannes. Un Homme Qui Crie (Um Homem Que Grita) é sério candidato a prêmio. Retrato honesto e tocante da vida hoje no Chade, onde a juventude está sendo perdida pela guerra civil e as perspectivas de vida logo chegam a zero para a população. Pode parecer painel ambicioso, mas não é, uma vez que o cineasta Mahamat-Saleh Haroum usa os pequenos detalhes para falar de algo bem grande.

É um filme sobre a figura paterna, homem de 60 anos, ex-campeão nacional de natação, que há 40 anos cuida da piscina de um hotel, ilha de riqueza. Seu filho de 20 é levado a força para lutar no faminto exército do país. É tudo tão lindamente filmado, com emoções contidas que revelam um filme poderoso, deixando o espectador mais uma vez se perguntando, “mas, e a África...?”.

Filme visto na Sala Bazin, Cannes, 15 maio 2010

Another Year (competição)



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Na manhã do sábado, o Grand Theatre Lumiere, o maior de Cannes, exibiu duas versões de Londres, por dois autores com extensa folha corrida. Primeiro passou Another Year (competição), onde Mike Leigh mais uma vez acompanha, com sua peculiar mistura de ceticismo e alento, um grupo de pessoas na capital inglesa. Depois, esvaziaram a sala, e voltamos para a segunda sessão, onde Woody Allen mostrou seu novo filme, You’ll Meet a Tall Dark Stranger (hors concours), crônica sobre os temas que lhe são caros, o pessimismo quase sempre bem humorado de viver.

No caso de Leigh, volta o bom espanto de ver um cineasta totalmente interessado em filmar o rosto das pessoas. É curioso ver esses dois filmes juntos, pois Leigh confirma-se incrível retratista da realidade inglesa, enquanto Allen continua sendo o autor de uma dimensão paralela só sua, aqui por um acaso filmada em Londres. “Esse filme poderia ter sido feito em qualquer outra cidade”, disse Woody na coletiva.

Em Another Year (Outro Ano/Mais Um Ano), Leigh faz jus ao titulo mostrando pequenos detalhes da vida de um grupo de pessoas ao longo da divisão clássica quatro estações (da primavera ao inverno). Com uma dezena de personagens bem administrados, fica claro apenas na última cena quem seria de fato o foco principal do filme, toque potente.

Um casal cinqüentão feliz, ele (Jim Broadbent) é geólogo, ela (Ruth Sheen) psicóloga, tem um filho tranqüilo de 30 anos (Oliver Maltman). São o eixo do filme e dão assistência emocional para Mary (Lesley Manville), uma amiga simplesmente infeliz que passa a testar a paciência dos amigos com sua carência. E há uma série de outros personagens interessantes, sempre interagindo em torno de instituições britânicas como pequenas salas, cozinhas e jardins.

Leigh é muito acusado, na sua carreira, de dureza e crueldade com alguns dos seus personagens, algo que desaparece em alguns dos seus filmes. Seu último, Simplesmente Feliz, foi seu olhar mais ensolarado até agora, e voltamos, de certa forma, às sombras com Another Year.

É muito curioso observar como filmes batem para as culturas que os produziram.
Ontem, por exemplo, saiu crítica na revista britânica Screen International que joga o filme no lixo pelos personagens “que você evitaria numa festa” e, essa é a melhor parte, pondera que “a carreira nos cinemas da Inglaterra deverá ser sombria, onde já instala-se clima pessimista com as novas medidas tomadas pelo novo governo”, citação ao clima inglês pós-eleição que deu vitória aos conservadores.

Talvez um olhar que se atenha ao cinema revele o filme de um artista que dramatiza como poucos o teatro humano.

Filme visto no Lumiere, Cannes, 15 Maio 2010

You'll Meet a Tall Dark Stranger (hors concours)




por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Sobre Woody Allen, poucos autores dramatizam tão bem o ridículo necessário que é a comédia humana. A começar pelo título You’ll Meet a Tall Dark Stranger (Irás Conhecer um Moreno Alto), que leva a duas coisas. A promessa de romance para uma mulher, normalmente via cartomante, que tem no ideal latino uma noção de romance sensual. Ou, na versão de Woody Allen, o sujeito alto e moreno é a própria morte, semelhante à ironia de Clarice Lispector quando as cartas prometem à sua Macabéia “um alemão loiro”.

E Allen nos dá uma outra ciranda terrivelmente sarcástica de personagens que preferem depositar suas possibilidades de felicidade na ilusão. Uma esposa abandonada na terceira idade (Gemma Jones) passa a decidir sua vida via cartomante. Seu ex-marido (Anthony Hopkins) clareia os dentes, passa a fazer exercício e casa-se com uma jovem prostituta à procura do elixir da juventude. Um escritor fracassado (Josh Brolin) submete o manuscrito de um amigo morto, como se fosse dele. A mulher dele (Naomi Watts) acredita numa possibilidade de amor que talvez não seja real.

“Minha relação com a morte continua a mesma, sou totalmente contra”, afirmou Allen para uma onda estridente de gargalhadas no encontro com a imprensa, sábado. “Quero chegar aos 100 como Manoel de Oliveira chegou, e não com placas de alumínio espalhadas pelo corpo, me arrastando, ligado a aparelhos”.

Sobre o sarcasmo para com os que vivem de ilusões, disse “se eu conhecer um boboca numa festa que acredita em misticismos e cartomantes, é claro que eu vou rir da cara dele e achá-lo um boboca; mas sei que ele será bem mais feliz do que eu jamais serei. De qualquer forma, para mim, eles só fazem alimentar uma indústria de milhões de dólares”.

Brolin, que também está em Wall Street – Money Never Sleeps, de Oliver Stone, falou de Allen: “há um grande fator de sedução em Woody Allen, e esse fator vem da sua humildade. Eu fiz uma ponta em Melinda Melinda, anos antes, e ele me convidou para esse filme novo com um bilhete que dizia, “você talvez se lembre de mim de Melinda Melinda, eu era o diretor”.

A relação de Allen com os atores foi descrita por ele da seguinte forma: “tudo se resume a você saber contratar. Sabendo contratar os atores, você já tem tudo à mão e não precisa fazer mais nada, só calar a boca e pegar o cheque”.

Durante a projeção, You’ll Meet a Tall Dark Stranger passa como um filme meio-termo de Allen, pelo menos até o momento em que a imagem cinematográfica de uma janela, já no final, eleva o filme a algo realmente especial. Sem entrar em detalhes, mostra, num único plano, que a felicidade, assim como o próprio cinema, é apenas uma questão de ponto de vista. É bonito, e é amargo.

Filme visto na Lumiere, Cannes, 15 de Maio 2010

Saturday, May 15, 2010

Vídeo KMF da Sessão de 'O Leopardo'

Cannes Video #2 - 'Il Gatopardo' from Kleber Mendonça Filho on Vimeo.

O Que Vi Até Agora

L'HOMME QUE CRIE (competição), Mahamat-Saleh Haroun - ****
RUBBER (Semana da Crítica), Quentin Dupieux - ***
SHIT YEAR (Quinzena), Cam Archer - ***
YOU'LL MEET A TALL DARK STRANGER (Hors Concours), Woody Allen - ***
ANOTHER YEAR (competição), Mike Leigh - *** 1/2
CHAT ROOM (Certain Regard), Hideo Nakata - Abandonei aos 44 mins, detestei.
IL GATOPARDO (Cannes Classics), Visconti - *****
AURORA, Cristi Ouiu - *** 1/2
WALL STREET - MONEY NEVER SLEEPS, Oliver Stone - *** 1/2
O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA, Manoel de Oliveira *****
MARTI, DUPA CRACIUN (TUESDAY, AFTER CHRISTMAS), Radu MUNTEAN ****
RIZHAO CHONGQING (CHONGQING BLUES), WANG Xiaoshuai ***
THE HOUSEMAID, IM Sangsoo ***
ROBIN HOOD, Ridley Scott **

Friday, May 14, 2010

Sessão Histórica de 'O Leopardo' Restaurado


por Kleber Mendnça Filho
cinemascopio@gmail.com


Em Cannes, você acha que vai apenas ver tranqüilo a versão restaurada de O Leopardo, de Visconti, na sala Debussy, e nota que a sessão não será normal já pelo cheiro de perfume que abala o ar. Aí percebe que, na fileira imediatamente atrás de você, papéis marcam poltronas com os nomes de Alain Delon, Claudia Cardinale e Martin Scorsese...

Para quem tem relação próxima com o cinema (eu e todos vocês que lêem isso aqui), a sensação não é careta. O cinema gera um sentimento mitificador sem igual, e se estamos falando de um clássico absoluto dessa arte como ‘Il Gatopardo’ a distância só parece aumentar. Só que, ao olhar para trás, você vê Alain Delon sentado vendo o mesmo filme, e Cardinale, filmada por Visconti, sendo vista por você sem lentes, ou Scorsese, que fez ‘The Age of Innocence’ pensando em Visconti, reprocessando O Leopardo. É tudo muito possível no cinema, e muito próximo no cinema, e distante demais.

Foi uma sessão histórica, e rever o filme não teria preço se fosse pago. Entre muitos, o momento que mais me chamou a atenção é a cena onde o príncipe de Burt Lancaster, sentindo-se velho e decadente no meio da grande festa, é rejuvenescido pela beleza indescritível de Cardinale, noiva do seu sobrinho, Delon. Lancaster já faleceu, Delon e Cardinale já estão velhos, talvez em algum momento se sentindo como aquele príncipe.

Qualquer excesso, perdoem, mas acabo de sair da sessão e o tema é caro ao Sr. Visconti. Foi muito bom.

Aurora (Un Certain Regard)



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Cannes continua sendo o ponto zero hoje no mundo para o cinema romeno, e a mostra Un Certain Regard nos traz mais duas provas de que esses romenos parecem ter dominado o mercado do realismo. Eu só acho interessante que num mundo cada vez mais 3D, será que existe um mercado para esse realismo tão afiado? Marti, Dupa Cracium (Terça, Depois do Natal), de Radu Muntean, e Aurora, de Cristi Puiu, foram exibidos quinta e sexta.

A atual safra premiadíssima de cinema romeno, na verdade, como todos já devem saber, teve início com um filme maravilhoso de Puiu, exibido em Cannes 2005, A Morte do Sr. Lazarescu, que infelizmente não encontrou distribuição no Brasil. Puiu levou a Câmera de Ouro naquele ano com a linda história de um homem idoso e doente, numa noite de Bucareste. Seu segundo filme foi muito esperado e fica o lamento geral que seja uma decepção.

Está de volta o tratamento processual que parece unir todos os filmes romenos (Leste de Bucareste e Policia Adjetivo, de Corneliu Porumboiu, 4 Meses 3 Semanas 2 Dias, de Cristian Mungiu), vindo de uma câmera perspicaz que acompanha o personagem num determinado ambiente. O problema é que em Aurora, Puiu leva o conceito ao ponto da exaustão, ainda mais a serviço de um olhar que já conhecemos. Tematicamente, há ainda sensação de déja vu.

É essencialmente a história de alguém que mata, algo que Kieslowski filmou tão bem (e em menos da metade do tempo) em Não Matarás, ou Haneke (usando vetores diferentes, é verdade) em algo como Benny’s Vídeo.

Em Aurora, Puiu pede demais do espectador ao nos fazer acompanhar um homem recém divorciado, infeliz, perambulando por Budapeste e matando, ao longo de três horas de projeção quatro pessoas. Difícil não lembrar que o título internacional de Não Matarás é A Short Film About Killing (Um Filme Curto Sobre Matar), e que Puiu fez um filme longo sobre a mesma coisa. Muito bem filmado, com um final ainda mais lacônico que parece sugerir que a sociedade é um lugar frio e indiferente para se viver, Aurora talvez seja a minha primeira real decepção vinda da Romênia.

Filme visto na Debussy, 14 de Maio 2010, Cannes

Marti, Dupa Cracium (Un Certain Regard)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


De volta à expressividade pessoal que faz os romenos tão bons, temos Terça, Depois do Natal, que poderá ser discutido a partir de agora em termos de como filmar a intimidade das pessoas. Uma referencia, especialmente na raiz temática “casamento”, sempre foi Ingmar Bergman, mas Muntean consegue deixar marca própria nessa linda/terrível história sobre o fim de um casamento.

O marido tem uma filha e tem também uma amante alguns anos mais jovem que a esposa. Eu tinha visto o filme anterior de Muntean – Boogie, passou na Quinzena em 2008 -, bom filme que fica menor junto desse. Já analisava relações de traição, responsabilidade, relacionamento, tudo muito bem filmado, atuado e vivido.

Num filme onde o cinema é tão íntimo dos personagens, vale dizer que o barulho da câmera faz parte da cena onde homem e mulher sussurram um para o outro, ou gritam um com o outro. E é ainda um filme onde a cena final não pode ser esquecida. Ela sintetiza não apenas a cumplicidade entre pessoas, mas entre a câmera e nós mesmos.

Filme visto na Debussy, Cannes, 13 Maio 2010

Wall Street - Money Never Sleeps (hors concours)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Foi nos primeiros meses de 1988 que eu vi no Cinema São Luiz (Recife) Wall Street – Poder e Cobiça, filme de Oliver Stone, na época ainda gozando do sucesso de Platoon. O filme, enxuto, tenso, com um sólido senso moral, falava sobre os EUA daquele momento, dominado pela cultura yuppie da era Reagan. Hoje, parece o tipo de filme que não vemos mais em Hollywood, obra adulta para adultos, e que só agora, 22 anos depois, ganha uma continuação, Wall Street – Money Never Sleeps (O Dinheiro não Dorme). Passou ontem em Cannes em pré-estréia mundial fora de competição. Tem estréia no Brasil em setembro.

Foi o filme do dia, em termos de mídia, uma das poucas produções Hollywood esse ano no festival, para a alegria de uma imprensa faminta por filmes grandes cheios de celebridades num cardápio onde predominam pequenos filmes autorais de países como a Romênia, a Coreia ou mesmo a França. Aliás, como bem disse o inglês Mike Leigh (em competição esse ano outra vez com Another Year), numa entrevista publicada ontem na Hollywood Reporter, “os americanos fingem que, mas, na verdade, não entendem Cannes”.

E os jornalistas, americanos ou não, estavam felizes ontem com a presença de Stone, Michael Douglas (que ganhou seu Oscar de ator por Wall Street), Josh Brolin, Shia LaBeouf, Frank Langella e o produtor Edward Pressman, na coletiva de imprensa.

Douglas, que interpretou o urubu de Wall Street Gordon Gekko, está de volta no filme novo, que começa com Gekko saindo da prisão por crimes cometidos nos anos 80. Dos seus artigos pessoais recuperados na saída, um gigantesco celular ilustra bem a passagem do tempo e dos costumes. São de Gekko/Douglas as melhores falas dessa continuação, como “nos anos 80, ganância era uma coisa boa, hoje ela foi legalizada”.

É curioso observar que, se o primeiro filme traçava perfil de um estado de espírito político na sociedade americana na época, nesse novo sobressai-se antes de tudo um reflexo do mercado atual de cinema. Se no primeiro, Douglas dividia o filme com Charlie Sheen, agora Douglas está no filme como passageiro. Nosso herói é interpretado por LaBeouf (Transformers), ator amigável para platéias jovens que os produtores claramente almejam com o tom censura 13 anos (o PG-13 de Hollywood) do todo.

Na verdade, o trabalho de LaBeouf nesse novo Wall Street repete o que ele mesmo fez em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, ou seja, ser o meio campo entre os adolescentes e um grande astro de 20 anos atrás, agora grisalho.

No entanto, o filme não deve ser desprezado. Stone, o principal cronista dos EUA, talvez em toda a história de Hollywood, sempre lidando com Grandes Temas em letras garrafais (Vietnã, anos 60, 11 de Setembro, Nixon, política externa, Bush, etc) mais uma vez retrata essa sociedade numa época em que a informação é tudo o que há. Seu filme é sobre o poder assumindo a forma mutante da informação, o que nos leva às aspas de Russel Crowe na coletiva de Robin Hood, no primeiro dia de Cannes, e talvez ao novo Godard, Film Socialisme.

Stone chega a encher a tela de letrinhas, números e efeitos digitais (uma bolha de sabão ilustra o efeito... er... ‘bolha estourada’ da economia) que parecem coisa de filme 3D (o filme é 2D). Há jargões técnicos e a trama, vez ou outra, soa como uma língua estrangeira não dominada, embora o roteiro se esforce para trazer tudo para o térreo. Susan Sarandon, por exemplo, faz a mãe do garoto, endividada por especular com imóveis.

De qualquer forma, passa batido esse pequeno drama maternal se comparado aos conflitos entre o herói do filme original, interpretado por Charlie Sheen (reaparece numa ótima e cínica ponta), e seu pai (Martin Sheen), um dos pontos mais fortes daquela obra. Vai-se também um certo clima de cinema americano ‘grand public’ que não se faz mais (o Wall Street original) com os ‘post its’ desse novo na idéia de família. Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme ou O Dinheiro Não Dorme Nunca termina sendo mesmo o retrato desse tempo agora.

Filme visto no Lumiere, Cannes, 14 de Maio 2010

Thursday, May 13, 2010

O Que eu Vi Até Agora

AURORA, Cristi Ouiu - *** 1/2
WALL STREET - MONEY NEVER SLEEPS, Oliver Stone - *** 1/2
O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA, Manoel de Oliveira *****
MARTI, DUPA CRACIUN (TUESDAY, AFTER CHRISTMAS), Radu MUNTEAN ****
RIZHAO CHONGQING (CHONGQING BLUES), WANG Xiaoshuai ***
THE HOUSEMAID, IM Sangsoo ***
ROBIN HOOD, Ridley Scott ** 1/2

Godard aspas

A frase mais comentada em Cannes, via edição publicada da revista 'Les Inrockuptibles', foi “Autor não tem direito, autor só tem dever!” O encontro de Godard com a imprensa semana que vem, em Cannes, deverá ser um dos momentos mais importantes do festival.

The Housemaid (competição)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Na competição, o coreano The Housemaid (a Empregada Doméstica), de Im Sangsoo, conta história perfeitamente escabrosa entre ricos e pobres, sobre a jovem titular que trabalha numa mansão. Ela passa a ter caso com o patrão milionário para o desgosto da esposa grávida e a sogra. Poderia ser o filme brasileiro que não tem sido feito, talvez pelo fato de o material lembrar qualquer coisa entre Nelson Rodrigues e uma novela das oito. O filme, no entanto, é cinemão Scope, cada plano uma alegria para o diretor.

Eu fiquei dividido entre não gostar da sensação constante de marxismo simples onde ricos são ruins e pobres têm bom coração e o interesse geral pelo material. É algo que dissipa-se pela pura energia de Im Sangsoo. É a riqueza generalizada desses filmes coreanos, vide Oldboy, Hospedeiro, Mother, Thirst, etc.

Sangsoo parece pegar emprestado pelo menos duas deixas de A Profecia (cena, elemento de construção, não tematicamente), o thriller de 1976 dirigido por Richard Donner. Esse jovem diretor coreano esteve em Cannes em 2005 com o igualmente energizado The President’s Last Bang, que talvez seja bem melhor, reconstituição sanguinolenta de um golpe de estado em 1980, em Seoul.

Como sempre em tratando-se de coreanos, eles não são nunca chatos, e é importante ressaltar uma certa energia sensual nesse filme e um final WHATDAFUCK - HÃ???!!! que parece elevar alguns graus acima o que já estava me entretendo. Eu achei que seria vaiado, foi até bem aplaudido. Parece que a energia instiga.

Filme visto na Debussy, Cannes, 13 Maio 2010

O Estranho Caso de Angélica (Un Certain Regard)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Da tranqüilidade do primeiro dia, Cannes pulou para a quarta marcha hoje. Dois orientais chamaram a atenção, o melodrama chinês sobre pais e filhos Chonqing Blues, de Wang Xiaosuai, e o nunca chato coreano The Housemaid, de Im Sangsoo, uma luta de classes numa mansão.

No entanto, quem não pára de roubar a cena em festivais desse porte a cada novo pequenino-grande filme é Manoel de Oliveira, que estreou mundialmente O Estranho Caso de Angélica, apresentado na paralela Un Certain Regard.

Oliveira estava na coletiva de imprensa do seu filme, tranqüilo, discutindo cinema, e é sempre bom enfatizar que ele faz isso aos 101 anos de idade. “A morte é uma certeza, e eu não tenho medo dela”, afirmou.

Indo direto ao ponto, seus filmes proporcionam experiência sem igual que sugere ligação entre um cinema pessoal e moderno feito hoje que não existiria sem um sentido palpável de um passado que parece ser só dele. É um privilégio poder ver essas modernas cápsulas do tempo, onde predomina a sensação de analógico num ambiente onde só se pensa em digital.

Quantas vezes mais iremos nos impressionar com a sua capacidade de escrever esse cinema com letras, sons e imagens que nos remetem a uma noção palpável de Portugal, e nisso vem a elegância romântica criada na literatura e no teatro, nos galanteios de muito tempo atrás, no linguajar de um olhar romântico que ainda sai puro num filme feito em 2010?

O Estranho Caso de Angélica, uma co-produção brasileira (via Mostra Internacional de Cinema de SP), foi originalmente escrito em 1952 como roteiro... Oliveira atualiza como ninguém mais atualizaria, deixando uma idéia curiosa de um senso de tempo que não cabe no termo ‘anacronismo’. Isso faz de O Estranho Caso de Angélica o irmão coerente de uma outra jóia desse autor, Peculiaridades de uma Rapariga Loira, que estreou ano passado em Berlim, adaptação de Manoel de Oliveira para o romance de Eça de Queiroz.

Em ‘Angélica’, o personagem central chama-se Isaac, um fotógrafo judeu levado numa madrugada chuvosa para uma quinta de família nobre para fotografar pela última vez Angélica, bela jovem que acaba de morrer. Com sua Leika manual, e um reforço na iluminação, ele a enquadra, imagem que não conseguirá mais tirar da cabeça. Um pouco como o próprio espectador.

A governanta desse cavalheiro está sempre reclamando que ele só tem olhos para coisas antigas, preferência sustentada apaixonadamente pelo próprio Isaac, e a associação jocosa com o tom de Oliveira é inevitável. E lá saem dois personagens voando pelos céus como recortes montados a partir de um filme de Meliés chocando-se com uma discussão recente sobre os caminhos do downturn financeiro do mundo atual.

Enfrentando o estranhamento inicial da família católica da falecida, Isaac segue assombrado pela imagem da mulher, documentando, talvez para esquecer (ou para lembrar sempre) os trabalhadores braçais das vinhas do Rio Douro, objeto de estudos passados na obra de Oliveira. Ele quebra seu transe formal com a mecanização de tratores e caminhões que passam sempre aqui e acolá, outro prazeroso choque.

Estaria Manoel de Oliveira, um pouco como Isaac, documentando apaixonadamente uma certa beleza que está indo embora com o tempo? A poesia disso tudo é que esse cinema dele é esse próprio registro.

Filme visto no Debussy, Cannes, 13 Maio 2010

Wednesday, May 12, 2010

"Entrance" - VIDEO #1

"Entrance" - Cannes 2010 vídeo #1/CinemaScópio from Kleber Mendonça Filho on Vimeo.

Cannes, agora há pouco

CORTA! FF! CORTA!!! FF!!


Vendo esse Robin Hood do Ridley Scott, mais uma vez a mesma sensação. Esses filmões caros de Hollywood não se dão tempo para ter classe ou estilo, se é que podemos cobrar algo tão essencial num filme de cinema. Lá vai uma grua subindo para finalmente vermos um plano aberto e CUT, para um plano médio de alguém num cavalo, o montador não teve paciência de deixar a grua mostrar mais, subir mais. Max Von Sydow vai dar um abraço paternal em Russell Crowe numa outra promessa de plano aberto... CUT para um plano desengonçado mais próximo da mesma ação. CUT, CUT, CUT, e o montador, talvez ameaçado pelos executivos já nervosos de que o elenco não tem nenhum adolescente, faz CUT CUT CUT e a gente fica dormente, vendo o filme correr feito um doido, sem nenhuma imagem realmente de valor nas esbaforidas duas horas e 20 de projeção. CUT CUT CUT. E olha que Scott fez aquela coisa linda e perfeitamente impressa nas nossas mentes, o horror show Alien (1979). Hm. K.M.F

Instalação de Tapete Vermelho

Quarta, dia de Robin Hood


Oh, esse Google...

Er... não.

Next...

Ok.


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A imagem de homens ainda instalando um tapete vermelho numa das calçadas da Croisette, em Cannes, meio que definiu o dia no maior festival de cinema do mundo. O filme de abertura, Robin Hood, passou na prestigiosa sessão de gala, mas teve as projeções de imprensa vazias como nunca antes visto no festival, fato talvez explicado pelo lançamento mundial do filme de Ridley Scott sexta-feira. A coletiva de imprensa do ‘industrialmente divertido’ filme de aventura parecia gerar mais interesse do que o filme em si, uma vez que a imprensa já havia visto a revisão de Scott e Russell Crowe (fizeram Gladiador juntos) para o herói universal.

A ausência em Cannes que todos comentavam era a do próprio Ridley Scott, que operou o joelho recentemente, ficando em casa sob ordens do seu médico.

Crowe, que também é produtor dessa nova versão do nobre ladrão de Nottingham, estava na função. Ele entrou na coletiva com os dois filhos pequenos, e parecia cochichar nos ouvidos dos meninos algo tipo “papai vai ali falar umas bobagens com essas pessoas e volta já, não se assustem com as câmeras e esses flashes...”.

Fez seu trabalho como o “talento classe A” que ele é em Hollywood, participando com paciência e bom humor às perguntas generalistas da imprensa global. “Brasil, Espanha, talvez Portugal têm boas chances, sim”, opinou sobre a Copa do Mundo.

O filme de Scott sugere o mesmo tipo de revisão que os recentes Jornada nas Estrelas e Batman Begins ofereceram, nos mostrando “o início de tudo”. É algo que Hollywood tem chamado de ‘reboot’, termo associativo do “reiniciar” um computador. Não é de se espantar que boa parte desses filmes tenham a fluência digital de um computador, com mega-ritmo para não aborrecer crianças de 13 anos e um estilo joão-ninguém ditado pelo montador, e não pelo diretor.

Nos melhores momentos da carreira de Scott (Alien, Blade Runner, Thelma & Louise), temos a impressão de estarmos vendo filmes. Nos piores, ele não parece passar de um empresário e gestor, e inclua aí o tão popular Gladiador.

“Está na hora de refazer Robin Hood? Sim, totalmente, embora nossas idéias iniciais dessem um filme de sete horas e meia”, disse Crowe. “Muitos foram feitos, e conheço toda a tradição deixada por Errol Flyn, Douglas Fairbanks, até mesmo a versão de Mel Brooks, A Louca Louca História de Robin Hood. De todo modo, não acho que um sequer tenha me dado as motivações desse herói popular”.

O ator australiano continuou “Numa época em que o inglês médio viajava não mais do que 20 kms do seu lugar de nascimento, temos um homem que conheceu a Palestina, um cosmopolita que viu a pobreza do seu pais e quis mudar alguma coisa”.

Hábil manipulador de mídia, Crowe respondeu com enormes aspas a pergunta sobre de quem um moderno Robin Hood roubaria, hoje. “O poder hoje está nas mãos de gente como vocês, que trabalham com a informação. O monopólio da mídia é o grande inimigo e fonte de toda a riqueza”.

A coletiva prosseguiu com perguntas sobre adereços de couro e sobre a cena em que Lady Marianne (Blanchett) ajuda Robin a sair da sua couraça de ferro estilo século 12. “Como foi a preparação para tirar aquela couraça?”, perguntaram a Blanchett. “Era de plástico”, finalizou a também australiana. Sua resposta foi ainda mais honesta não foi sobre o filme em questão, mas sobre seu trabalho ao lado de Liv Ullman na montagem de Um Bonde Chamado Desejo, em Sidney. “Liv é um míssil que só busca a verdade”.

Eu viajei a Cannes via Jornal do Commercio e Aliança Francesa Recife

Produtor


Brian Grazer supervisiona Blanchett. (eu prometo que esta será a pior foto de toda a cobertura, e que isso não se repetirá). K.M.F

Café da Manhã, Cannes


12 de Maio, 2010, Boulevard Carnot, Cannes

Sunday, May 9, 2010

Cannes 2010

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Minha 12a vez em Cannes. Saio da aposentadoria por duas semanas para estar novamente lá, cobrindo para o Jornal do Commercio (Recife), via parceria com a Aliança Francesa.

Aqui no blog, todo o material, e mais alguma coisa, na já conhecida melhor cobertura do Brasil! Usarei vídeo, fotografia e textos, com o acréscimo do twitter, esse ano. Muita coisa pela frente, com certeza, e aqui vão duas sequências de imagens que fazem parte da experiência cannoise.

Vendo entre 35-45 filmes por festival, vemos essas vinhetas dezenas de vezes, abrindo as sessões. Para quem nunca foi, posto aqui.



Esta abre sessões da seleção oficial, competição, Un Certain Regard, foras de competição.



Essa é a da 'Quinzena', provavelmente a mais linda vinheta de festival de cinema do mundo (e são muitas).

Uau

Eu não sei bem o que achar disso, mas é potente.

M.I.A, Born Free from ROMAIN-GAVRAS on Vimeo.