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Saturday, May 17, 2008

Julianne Moore - (vídeo)

Julianne Moore na Vogue francesa de maio. Ahem.

Vou postar trechos de entrevistas feitas aqui, essa é com Julianne Moore, feita com seis outros jornalistas no Hotel Martinez. Infelizmente, sem legendas em português, sem tempo para legendar.

No contexto de um projeto internacional como Blindness, perguntei se há diferença para o trabalho do ator no trato com cineastas estrangeiros e americanos / Hollywood.



Nesta segunda parte, perguntei sobre trabalhar em São Paulo.



Terceira pergunta questiona se alguém como ela fica com alguma cicatriz deixada por personagens. Mencionei a atuação dela em Savage Grace, de Tom Kalin, que passou ano passado na Quinzena dos Realizadores, atualmente em cartaz no Brasil.

Entrevista Julianne Moore

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Julianne Moore é aquela com algo de uma presença notável nos filmes, muitos lembram dela em Boogie Nights e Magnólia, filmes de Paul Thomas Anderson, ou Fim de Caso, de Neil Jordan, apresentando intensidade constante num rosto de ruivo de feições fortes. Ela parece com facilidade trafegar entre o cinemão (fez Jurassic Park: O Mundo Perdido, de Spielberg, e Hannibal, de Ridley Scott) e, cada vez mais, projetos que apresentam desafios evidentes, como a mãe alcoólatra e incestuosa de Pecados Inocentes (Savage Grace), filme que a trouxe a Cannes ano passado, via Quinzena dos Realizadores. Esse ano, ela volta a Cannes para apresentar Ensaio Sobre a Cegueira, o filme do brasileiro Fernando Meirelles que abriu o festival, também na competição, adaptado do romance de José Saramago. Na última quinta-feira, Moore recebeu a reportagem do Jornal do Commercio no Hotel Martinez, em Cannes.


Pergunta – José Saramago viu o filme?

JM – Ainda não, a filha dele estava na sessão oficial, ela gostou muito, o que me deixou feliz. Nesta próxima sexta, eles vão levar o filme para Lisboa para que ele o veja.

KMF– O seu personagem, "a mulher do médico", sai fortalecida no filme. Quando de você mesma foi no fortalecimento da personagem?

JM – Como atriz, a melhor coisa que você tem ao seu dispor é você mesma. Você tenta sempre enfocar do ponto de vista dela e aí você vai se colocando aos poucos. Com essa personagem, eu não conseguia nem enxergar o seu "o arco", se é que ele existe, eu só tinha que ir daqui para ali. Literalmente, ela ia por partes, tipo, "hoje eu faço isso", "hoje eu lavo as roupas dele", "isso está sujo". Há uma cena que infelizmente foi cortada onde eu lavava o cabelo de Alice (Braga), ela tentava se lavar na pia e eu chegava e lavava o cabelo dela. Não era um sistema onde ela pensava "vou ajudar essas pessoas que não estão enxergando", mas pequenos passos tomados em direção a um senso de responsabilidade.

KMF– Qual seria o objetivo do filme para vocês que o fizeram?

JM – Filmes não prevêem nada, filmes apenas refletem. Quando você adapta literatura, tenta-se iluminar uma história com o próprio cinema, tenta-se habitar essa história. Não faz parte do meu trabalho dizer o que vai acontecer porque, afinal de contas, esse filme reflete uma ansiedade que aflige toda uma cultura globalmente. Como Fernando diz sempre, há várias maneiras de olhar para essa história, politicamente, socialmente.

KMF – A cena que muitos comentam no filme é a do estupro do grupo de mulheres, também momento forte originalmente do livro.

JM – Nós nunca duvidamos da capacidade e delicadeza de Fernando para tocar essa cena. Sabia que ele seria específico e cuidadoso em relação ao que ele precisava. Também tínhamos um grupo de atores muito conscientes em relação aos sentimentos dos colegas. É também uma cena importante também até por fazer alguns questionar "será que as pessoas desceriam àquele ponto?" É claro que sim, e um comportamento conhecido nas guerras, estupro. Na verdade, trabalhar o livro Ensaio Sobre a Cegueira é tarefa tão árdua para o ator, especialmente para o meu papel. Como atuar e mostrar que ela quer fazer algo, mas ela não faz? A direção de Fernando (Meirelles) me permitiu desenvolver isso, pois ele administra tanta informação ao mesmo tempo em que ele pinta o quadro com um pincel pequeno, que deixa que o seu rosto fale muito do que fica implícito.

KMF – Na coletiva de imprensa você parecia empolgada com a idéia de filmar com diretores de outras nacionalidades, Fernando Meirelles, brasileiro, um filme recente seu ainda em finalização – Shelter - dirigido por dois suecos, Måns Mårlind e Björn Stein. Há uma diferença entre trabalhar com diretores americanos e estrangeiros?

JM – Eu sou uma atriz americana e aço filmes, em grande parte, americanos. No entanto, o mundo está mudando e essa "experiência global" está se tornando mais presente e ganhando reflexo no mercado de cinema. Ao mesmo tempo, não há uma diferença. É claro que há diferenças culturais, o que, obviamente, vira piada rapidamente, "o que faz os suecos serem o que são?", "porquê brasileiros são diferentes?", mas no final das contas, quando você está ali trabalhando, todos usam o mesmo vocabulário, o do cinema. Outra coisa é que, como artista, abre literalmente outros mundos para você que não estavam disponíveis dez anos atrás, ou mesmo cinco anos atrás. Ensaio Sobre a Cegueira, por exemplo, foi financiado com dinheiro do Japão, Canadá e do Brasil.

KMF – Vendo ano passado Pecados Inocentes aqui em Cannes, fica difícil não cogitar se uma atriz como você não fica com cicatrizes deixadas por personagens.

JM – Não fico, é tudo faz de conta. Tenho enorme interesse no comportamemto, porque as pessoas fazem o que fazem, porque as coisas acontecem, as conseqüências do comportamento. Fiquei fascinada pela família Baekeland (família adaptada de personagens reais, em Pecados Inocentes), eles eram realmente problemáticos psicologicamente, era claro que havia ali doença mental, alcoolismo e drogas, necessidade voraz por atenção, ela era maníaco depressiva e alcoólatra, ele foi diagnosticado como paranóico esquizofrênico.

KMF – Você está na capa da Vogue francesa esse mês, em todas as bancas. Você gosta de fazer esse lado "glamour"?

JM – Sabe que gosto?! Essa capa, em especial, eu levei muito a sério, toda a equipe representa o que há de mais sofisticado em estilo hoje no mundo, nós fotografamos muito rapidamente, foi tudo muito fácil, eu tenho que dizer que achei o máximo estar na capa da Vogue francesa.

KMF – Como foi sua experiência em São Paulo, durante o tempo em que filmou lá?

JM – Obviamente que me diverti muito lá, as pessoas foram fantásticas, mas é tão grande, tão movimentada. Até mesmo Fernando voltava impressionado com a energia louca da cidade. É uma cidade de extremos, e acho que isso foi perfeito para o filme, com riqueza extrema e pobreza extrema lado a lado. É mais um exemplo de "será que as pessoas estão vendo isso, ou estão preferindo não ver?" O próprio uso de helicópteros para evitar áreas ruins é uma amostra disso. O que acontece numa cidade como São Paulo é apenas mais dramático, pois é algo que se passa em todo o mundo.

Wednesday, May 14, 2008

"Cegueira" com Algo de Déja Vu

foto KMF


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

O Festival de Cannes teve sua abertura oficial hoje, ironicamente com um filme chamado Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness), do brasileiro Fernando Meirelles. O tom do "não enxergar" da obra parece encontrar eco no belo cartaz oficial do festival esse ano, que traz uma foto de David Lynch onde um rosto feminino tem os olhos cobertos pela sombra de uma tarja preta. Maneira interessante de dar início a 12 dias ininterruptos de cinema, um filme sobre a ausência do olhar e que, por sua vez, também passa forte sensação de déja vu.

Exibido em projeção digital cristalina que ressaltou o trabalho do colaborador de Meirelles, César Charlone, que desta vez abandona a câmera na mão de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, o filme foi recebido na sessão de imprensa com um silêncio que abre espaço para diferentes interpretações (indiferença educada ou simples torpor, primeira opção mais provável). O silêncio foi ainda marcado por uma solitária salva insistente de palmas que não obteve adesão.

O filme deixa sensação curiosa no espectador ao investigar os efeitos da "treva branca" que o prêmio Nobel José Saramago descreve no seu livro, "um mar de leite" que chama a atenção pela luz, e não a escuridão. A sensação parece marcada por um reconhecimento do esforço de produção, mas também pela já citada sensação de um terreno já muito trilhado.

As idéias aqui traduzidas de Saramago resultam numa obra tão semelhante a tantas outras no repertório do cinema fantástico (a série inglesa de TV The Day of the Triffids, o australiano The Last Wave, de Peter Weir, Extermínio, de Danny Boyle, para citar apenas três), o drama apocalíptico que nos traz um cenário desolador de colapso social e humano. Na verdade, não faz nem seis meses que vimos algo do tipo em Eu Sou a Lenda (um desmanche sem vergonha de uma dezena de obras antepassadas), que, diga-se de passagem, também contava com a presença de Alice Braga no elenco.

A diferença aqui é que o apocalipse não é um efeito espetacularmente visual, mas uma deixa para reflexões internas que ganham peso na segunda metade do filme que investe numa claustrofobia que aproxima o filme do teatro filmado com sofisticados efeitos de luz e tonalidades lácteas. Meirelles, o montador Daniel Rezende e seu roteirista e ator Don McKellar suam as suas camisas numa primeira metade atropelada, preocupada com a apresentação relâmpago de todos os personagens, alguns deles meros figurantes (Sandra Oh).

As reflexões ganham peso, na verdade, ou evaporam, dependendo da sua escola de pensamento, pois são parcialmente entregues em pacotes de uma narração em off na voz de Danny Glover que parece desvalorizar o trabalho de imagem que Meirelles, equipe técnica e atores usam para construir o discurso. Uma imagem do filme, em especial, se destaca pela simplicidade. Através de um efeito básico, mas incrível na sua eficácia, um garoto, que está cego esbarra numa mesa invisível que aparece repentinamente ao ser atingida.

E eis que vêm as vozes em off , nesse caso trazendo coisas tipo "pior do que não ver é não ser visto", algo que Meirelles abordou em leituras sociais nos seus Domésticas (1999) e Cidade de Deus (2002). Essa cegueira branca e inicialmente literal assola a população de um país sem face numa cidade grande genérica de algum lugar do mundo, abrindo o campo para a distopia e o flagelo social.

Esse aspecto "lugar nenhum" desta variação de apocalipse me chamou a atenção, sendo brasileiro e vendo um filme internacional feito por um diretor nacional. A transformação de São Paulo, usada como locação urbana perfeitamente travestida de um abandono calculado (excelente trabalho de arte), no espaço mítico e sem nome do filme, diz uma ou duas coisas sobre o trabalho de Meirelles, cineasta paulista que constrói, filme a filme, uma inusitada carreira para si mesmo.

Refaz, nos seus próprios termos, o que realizadores do país raramente fazem, e coloco isso sem juízo de valor, pois além de uma questão de competência para uma aceitação pelo mercado externo, há simplesmente algo de vocação. Nesse sentido, talvez apenas Alberto Cavalcante fizera algo semelhante num contexto bem diferente há 60 anos, e, de uma maneira mais próxima, Hector Babenco, nos últimos 25 anos. Curiosamente, da geração de Meirelles, apenas Walter Salles trilha caminho parecido, e talvez não seja coincidência que Salles é o outro concorrente brasileiro na competição de Cannes esse ano, co-diretor de Linha de Passe, com Daniela Thomas.

Depois de localizar Domésticas e Cidade de Deus em São Paulo e no Rio, Meirelles fez O Jardineiro Fiel na África e na Europa. Agora, passa para o próximo andar, assumindo um estado de abstração nacional e geográfica completa proposta por Saramago.

Assume o caminho tomado por diretores que o mundo externo inclui num mesmo escaninho, o dos "cineastas latinos" como Alejandro Iñarritu (Babel) e Alfonso Cuaron (Filhos da Esperança, outra visão apocalíptica multicultural, Cuaron, aliás, é membro do júri esse ano) que abandonaram temáticas locais para abraçar projetos externos que, na melhor das hipóteses, refletem o mundo globalizado de hoje, na pior, um desinteresse por falar sobre sua própria realidade.

Optam por um discurso global (ou "globalizado") que reduz identidades culturais locais a um mero bip fraco no gigantesco radar do mundo. Isso é bom, ou é ruim? Talvez seja ruim para os cinemas nacionais que criaram esses cineastas, embora Ensaio Sobre a Cegueira não deixe dúvidas sobre seu pedigree: é uma produção brasileira co-realizada (técnica e financeiramente) com parceiros externos, especialmente do Canadá.

Na coletiva de imprensa do filme, o caráter internacional do filme foi visto como algo apenas positivo. "O mundo se encaminha para a globalização real, e a realização desse filme é prova disso, com equipe composta por canadenses, japoneses, brasileiros, mexicanos, e a coisa mais incrível... só três americanos! Que maravilha!"

Alguns dos lugares comuns que compõem o filme também foram reforçados na coletiva. "Me interessei pela fragilidade da idéia que temos de sociedade, na qual patinamos numa fina camada de gelo. No final das contas, somos todos animais", disse Meirelles. Ele também mostrou-se interessado pelo fato de eventos apocalípticos como o furacão Katrina, o 11 de Setembro e as atuais crises relacionadas aos alimentos estarem em pauta.

Uma jornalista britânica enxergou no filme um subtema do "abandono estatal", como o observado durante a tragédia do Katrina, em Nova Orleans, algo, que para o olhar brasileiro, poderia já ter uma leitura nacional em relação às prisões do país.

Na verdade, a sugestiva programação de Ensaio Sobre a Cegueira, logo na abertura, nos pareceu uma inspirada sugestão de auto-reflexão para freqüentadores de um festival como esse, em especial para a crítica. O filme, que adapta fiel e assustadamente os escritos de Saramago, sugere inúmeras idéias sobre nossa incapacidade de enxergar o que sempre esteve ali, ou de perder a capacidade de reconhecer imagens que nós sempre tivemos. Parece cair como uma luva não só para o filme em questão, mas também para essa sempre inesperada atividade de ver cinema e tentar apreendê-lo.