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Monday, May 19, 2008

Movimentos migratórios de câmera

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Os irmãos Jean Pierre e Luc Dardenne, que já têm duas Palmas de Ouro (por Rosetta em 1999 e A Criança em 2004), apresentaram filme novo hoje, na competição de Cannes, Le Silence de Lorna. Vendo mais um belo filme da dupla, chega-se, à essa altura, à conclusão de que tornaram-se autores de segurança máxima, produzindo filmes artesanais com algo de uma marca industrial muito deles e também muito esperada (previsível não é exatamente a palavra, embora ela tenha vindo em mente). Os Dardennes não parecem interessados em deixar o campo que têm explorado em todos os seus filmes, com personagens europeus de classe trabalhadora, ruas cinzentas, apartamentos pequenos e uma câmera na mão que respira com cada um.

O foco desta vez é a movimentação migratória entre as muitas Europas, a personagem principal Lorna (Arta Dobroshi) uma garota albanesa que acaba de obter nacionalidade belga. Conseguiu isso com um esquema de casamento fajuto, seu marido alugado é um viciado em heroína chamado Claudy (Jerémie Renier, de A Criança).

Claudy é um personagem construído em ricos detalhes, um homem doce e carente, a quantidade de vezes que ele chama o nome dela – "Lorna!" – para necessidades das mais simples um dos aspectos notáveis dessa construção. Renier parece, aliás, continuar habitando o seu personagem de A Criança.

Revela-se que ele é apenas a parte desavisada de um esquema cruel que lucra não apenas com processos escusos de obtenção de cidadania, mas também de lucro com a morte de belgas especialmente escolhidos. Sendo ele um junkie, seria o alvo perfeito para processos de seguro para sua esposa.

Mais próximo de Rosetta, no sentido de observar de perto o rosto assustado de uma mulher cujo instinto triste de sobrevivência vai deixando feridas psicológicas, Le Silence de Lorna oferece esse raro prazer que é o de entender alguém via observação livre de julgamentos. Desdobrametos emotivos na segunda metade abrem janelas para a compreensão de alguém que nos apegamos aos poucos, num filme que confirma estabilidade maior de uma câmera que, de qualquer forma, continua na mão. Curiosamente, última cena traz música na trilha, aspecto incomum na obra dos irmãos. Com uma câmera cada vez mais firme e já uma partitura ali, observamos uma lenta adoção de novos registros dardenneanos.