
Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
de Cannes
Todo ano, a Cahiers du Cinema publica o seu "Atlas" do mundo, um relatório de como anda o cinema mundial, cada país (ou mercado) coberto por um crítico local (o Brasil é avaliado por Pedro Butcher, da Folha de S. Paulo). O experiente crítico Quintín abriu seu texto sobre o cinema argentino com grande pessimismo, mas aliviado pelo fato de "não estarmos produzindo filmes fascistas como Tropa de Elite, do nosso vizinho". E se ele anda pessimista com a produção deles, para o olhar vizinho brasileiro os argentinos continuam fazendo filmes que ajudam a manter uma média observada das mais sãs, caso de Leonera, filme de Pablo Trapero que passou hoje na competição. Rodrigo Santoro tem participação interessante com personagem bissexual cuja importância não traduz-se no seu pouco tempo na tela.
O filme, na verdade, pertence a Martina Gusman, no papel de Julia, e revela-se um clássico "estudo de personagem". Ela vai presa pela morte do namorado, que trouxe seu amante para morar na casa dela. Uma discussão violenta terminou na morte do homem, e acompanhamos via narrativa processual a relação dela dentro da prisão, a comunidade interna marcada pelo homossexualismo (guardas penitenciárias e presas, em grande parte, gay), amizades e sua adaptação num bloco para presas mãe. Julia está grávida.
Rodado em tela larga e a câmera na mão típica de filmes intimistas, Leonera tem os cacoetes de uma produção latina realista, preciso na sua vontade de mostrar o amadurecimento de uma garota que ainda tenta entender o que fez, e porque está ali, com o filho que, até os quatro anos de idade, cresce na prisão. Sem ser particularmente excelente, tocante ou diferenciado, Trapero (El Bonaerense) fez, de qualquer forma, uma crônica segura não só nas atuações, mas também na ambientação que nos diz algumas coisas sobre o processo de justiça e detenção num país latino.
O que mais me chamou a atenção: É um filme incrivelmente feminino, e sempre me interessa muito ver obras de homens com olhares tão interessados pela mulher (recentemente, Paul Verhoeven em A Espiã, Céu de Suely, de Karim Ainouz). Julia vai de amante machucada a presa atordoada e, em momentos que explicam, talvez, o título, a uma fera enfurecida, ataque causado por eventos relacionados à sua cria. E essa fera está ainda enjaulada, muito bom. É um aspecto sempre válido de mostrar a mulher dona do seu caminho, mesmo com uma corrente no tornozelo.
Eu sei que, de um tempo para cá, alguns colegas e amigos críticos no Brasil estão trabalhando duro para desativar essa noção até certo ponto benevolente para com o cinema argentino, Trapero, inclusive, tornou-se incrivelmente "uncool" depois do seu, de qualquer forma, muito agradável e verdadeiro Família Rodante. Mesmo assim, eu não consigo olhar para um Leonera com desprezo, especialmente se compará-lo à nossa média nacional que, para mim, permanece (na ficção/longa, claro), com as obrigatórias raras exceções, das mais lamentáveis.