Saturday, May 2, 2009

Eiffel (curta)





por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Para alguns, as duas torres residenciais gêmeas com dezenas de andares, construídas no Cais de Santa Rita e na frente do bairro de São José, são duas verrugas desproporcionais no seio da cidade. Para outros, os dois prédios são mais uma prova de progresso, sinalizando um Recife que cresce para cima, na vertical e de cima para baixo. Vendo o curta-metragem Eiffel, do jornalista e crítico de cinema pernambucano Luiz Joaquim, é fácil identificar que seu ponto de vista reside nos que integram o primeiro grupo. O filme passa hoje à noite na programação do Cine PE, na sessão dedicada aos curtas digitais.

O filme surgiu para Luiz Joaquim de uma vontade de se expressar sobre o Recife. “A idéia veio ano passado, quando revia Os Incompreendidos” (Les 400 Coups), o primeiro filme do cineasta francês François Truffaut, feito em 1959. Na abertura do filme, a câmera percorre Paris com o ponto de vista de alguém que sempre observa ao longe a Torre Eiffel.

“Me peguei deliciado com as imagens de abertura do filme de Truffaut, uma dedicatória de amor a Paris. Pensei que no Recife não poderia fazer algo assim, em torno de um único monumento, para homenageá-la, exceto por uma construção que emprestava uma imagem oposta do orgulho que tenho pela minha cidade, um monumento polêmico, mas gerador de uma polêmica velada, que pouco se discute nas mídias tradicionais locais”, disse à reportagem do JC, semana passada.

Admirador do cinema de Truffaut, Joaquim acredita que criando um vínculo entre a Torre Eiffel de Os Incompreendidos e as duas torres recifenses do seu próprio filme, ele apostaria numa simetria entre beleza e feiúra, “uma crônica audiovisual que, se fosse exibida em algum lugar, poderia chamar a atenção para isso que me incomoda como cidadão. Quando olho para aquilo, me vem sempre a idéia de que moro numa província. E me deparar com isso todo dia é ruim. Creio que esse filme não é apenas contra uma opção tomada por uma construtora, mas sobre uma combinação de fatores que permitiram que que algo do tipo pudesse acontecer”.

Sobre sua primeira realização cinematográfica, Luiz Joaquim, que é crítico de cinema da Folha de Pernambuco, diz que é um jornalista, “habituado a fazer tudo sozinho, e vi uma tranquilidade na realização e montagem, por isso segui em frente. Mas vejo que, na verdade, a simplicidade da realização e edição não diminui em nada o trabalho”. Eiffel foi produzido pela Símio Filmes com montagem do cineasta Daniel Bandeira (Amigos de Risco).

Essa sessão no Cine PE poderá ser importante no sentido de oferecer um raro retrato crítico do Recife hoje, como espaço urbano, diante de uma platéia de duas mil pessoas ou mais que poderá se ver na tela através de imagens cuidadosamente escolhidas da própria cidade.

Eiffel integra o que já se configura uma onda notável de filmes pernambucanos que questionam diretamente o traçado urbano de cidades brasileiras, e que tem no Recife um dos exemplos mais notáveis pela completa falta de planejamento e critério quando o tema é o espaço urbano. Menino Aranha (exibido ontem), de Mariana Lacerda, sobre a arquitetura do medo através da altura como dispositivo de segurança também está na seleção 2009 do Cine PE, e ainda veremos em breve o longa metragem inédito Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, também sobre um conceito social de construção, arquitetura e engenharia.

Costa Gavras



Costa Gavras socializa com fã na praia de Boa Viagem, Recife (foto KMF)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Aos 76 anos, Costa Gavras tem uma Palma de Ouro em Cannes por Desaparecido – Um Grande Mistério (Missing, 1982), sua primeira experiência com dinheiro de Hollywood, além de ter recebido o Urso de Ouro no Festival de Berlim com outra experiência nos EUA, o thriller Muito Mais Que um Crime (The Music Box, 1989). Seu filme síntese talvez seja Z (1969), que deu-lhe o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1970, obra que completa agora 40 anos e que terá uma sessão especial apresentada pelo próprio Gavras dentro da programação do Cine PE.

Sua trajetória parece dar-lhe amplas credenciais para estar à frente, atualmente, da Cinemateca Francesa, em Paris, uma das instituições mais respeitadas do mundo dentro do seu perfil. Inicialmente exilado na França nos anos 60, sua carreira foi iniciada na Grécia, naquela década, e é repleta de vitórias alcançadas com um cinema facilmente descrito como político, construído em cima de uma estética direta e voraz.

Na verdade, seus filmes tiveram uma grande relevância na época em que foram feitos, captando uma revolta contra um estado de coisas num período revolucionário em inúmeros aspectos, focando muitas vezes a repressão de regimes políticos contra o cidadão comum, que lutava sob a violência pelo direito de expressão e democracia.

Por ser tão atrelado a essa época, os principais filmes de Gavras, da sua fase 60/70, parecem ter assumido o valor de cartas históricas, atreladas ao momento por eles descritos. Tanto Z como Estado de Sítio (État de Siège, 1972) e Sessão Especial de Justiça (Section spéciale, 1975), foram queridinhos da censura no Brasil durante o período militar, todos cortados ou simplesmente proibidos para a exibição, aspecto, claro, que apenas aumentou a voltagem dos mesmos. Marcaram época em seus respectivos lançamentos tardios já na chamada abertura.

Uma cena de Desaparecido – Um Grande Mistério, lançado no Brasil pela Universal Pictures já dentro do período pré-democrático (1982), ilustra o toque Gavras. Ambientado no Chile, durante o golpe sangrento de Pinochet no governo de Salvador Allende, temos a história de um pai (Jack Lemmon), empresário americano de direita, que aos poucos acorda para Jesus no sentido de entender a participação do seu governo na política estrangeira. A cena em questão nos mostra centenas de homens reunidos e despidos nos túneis de um estádio de futebol. Um dos responsáveis engravatados à frente do esquema de tortura e morte fala com sotaque brasileiro, sutil colocação de como regimes fortes compartilhavam especialistas em repressão. Esse é o toque Costa Gavras.

Z será exibido esta semana dentro de uma curta série de quatro filmes pinçados da filmografia Gavras (são 17 longas ao todo), e que incluem seu mais recente Eden a L’Ouest, estréia recente nos cinemas franceses.

Os outros dois filmes programados esta semana são Amém (2002), sobre o oficial nazista Kurt Gerstein, engenheiro químico por trás do gás Zyklon-B, usado nas câmaras de extermínio dos campos de concentração sem que ele soubesse, inicialmente. Por último, passa O Corte (Le Couperet, 2005), sátira social sobre um desempregado que, para vencer a concorrência, decide, literalmente, eliminá-la.

1969 - Z, que deu a Gavras o Oscar de Filme Estrangeiro em 1970, parecia traduzir com precisão o clima de questionamentos políticos daquele tempo, da mesma forma que A Batalha de Argel (La Battaglia di Algeri, 1966), de Gillo Pontecorvo, o fizera três anos antes, ou Medium Cool, de Haskell Wexler, fez também em 69, nos EUA.

O filme de Gavras investiga desdobramentos que afetaram o cenário político na Grécia em 1963, quando o líder da oposição - Gregorios Lambrakis – foi morto num acidente de automóvel. A investigação desse acidente nos leva à revelação de um assassinato político e aos dilemas entre justiça e poder. A imagem final de uma Irene Papas reagindo a um desfecho que, num filme americano seria triunfal, talvez ajude a entender a ressonância do filme até hoje

O efeito moral e político de Z gerou discussões inflamadas não apenas sobre o poder que o cinema pode ter ao questionar um estado de coisas, mas também na forma como o filme foi capaz de servir de reflexo para os problemas políticos de cada sociedade, num mesmo tempo. Na Grécia, Papas e o próprio Gavras foram banidos do país, junto com o filme. Nos EUA, Z foi tido como anti-americano e, no Brasil, censurado.

Não deixa de ser curioso que, com a chegada dos anos 80, os filmes de Gavras tenham se voltado para dramas internos e individuais em personagens que entram em choque com erros do passado e, mais recentemente, com a sociedade aberta como um todo. Foi também nessa época que passou a firmar parcerias com Hollywood, selando as observações de detratores de que seu cinema sempre foi hollywoodiano, provável preconceito com um autor europeu que preza a montagem rápida, a câmera móvel e, ao seu modo, e sob a sua ética, personagens que poderiam ser descritos como heróis.

ÉDEM - No último Festival de Berlim, onde Gavras apresentou Eden a L’Ouest, ele conversou comigo sobre o filme, cronometrado como uma fábula veloz sobre a Europa hoje. Um interessante subtexto do filme é a forma como o personagem principal, Elias, vê-se explorado sexualmente por homens e mulheres.

Gavras comentou: “O imigrante ilegal é extremamente frágil, na França são cerca de 350 mil trabalhadores ilegais, para você ter uma idéia. Com o temor constante de ser deportado para uma realidade que ele ou ela não deseja mais, há uma facilidade de se sujeitar a tudo. Isso está no filme em momentos que exploram precisamente essas situações relacionadas ao sexo, como o homem do resort que o apalpa, ou a mulher alemã que o utiliza sexualmente. São idéias muito específicas escritas por mim e pelo co-roteirista Jean-Claude Grumberg em cenas que teriam como eixo questões que nos afligem como seres humanos.”

Sobre a idéia de manter a nacionalidade do personagem desconhecida, Gavras comenta, “me parece correta da seguinte forma: ao atrelar um fundo político e social a Elias, identificando a sua origem, você automaticamente traz o peso histórico, o drama dessa sua pátria mãe. Eu não queria isso, pois Elias deveria ser visto pelo que ele é, um homem, e não pela sua origem”.

A primeira parte do filme, toda ambientada num clube fechado, sugere uma versão artificial da própria Europa e, em alguns momentos, o espectador talvez acredite que Elias está preso lá.

“É verdade que existia essa idéia de ‘dublar’ uma idéia sonhada de Europa, do ocidente, através do clube fechado durante todo o filme. De qualquer forma, evoluímos no sentido de deixar o resort depois da primeira parte e levar Elias na sua viagem até Paris. A idéia foi abandonada porque, de qualquer forma, esse é um paraíso falso até mesmo para os europeus, pois no resort é possível passar alguns dias, ou uma semana, e onde tudo é caríssimo. É um lugar falso, mesmo se queiramos vê-lo como uma representação da Europa, que é um espaço real.”

Sobre o aspecto passivo do personagem central, Gavras o descreve como uma versão do Cândido, de Voltaire, “um pouco como uma criança que descobre tudo, e é através dessas descobertas que eu mostro as contradições de nossa sociedade”.

Eden a L’Ouest (Cine PE)



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


É inegável a sintonia de Eden a L’Ouest (ou O Édem no Oeste, França/Grécia, 2009), o mais novo filme de Costa Gavras, em relação a temas atuais que ganham os noticiários do mundo. O longa metragem abre, amanhã à noite, a edição 2009 do Cine PE – Festival do Audiovisual, com a presença do próprio Gavras. O filme fechou o último Festival Internacional de Berlim e terá sua primeira exibição no Brasil no Recife.

O tema de Eden a L’Ouest (O Edem é no Oeste) é o grande tema do cinema europeu já há alguns anos: o choque entre ricos e pobres, numa história narrada pela trajetória de um clandestino pobre na Europa rica.

Foi semana passada que as agências de notícias informaram que um navio turco, o Pinar, finalmente recebeu autorização do governo italiano para atracar depois que o barco salvou 140 migrantes ilegais africanos de duas embarcações clandestinas que estavam para afundar no Mediterrâneo. O Pinar passou quatro dias em águas internacionais esperando que a Itália e sua vizinha Malta, também da Comunidade Européia, resolvessem de quem seria a responsabilidade de aceitar os náufragos segundo as leis internacionais de busca e salvamento. A Itália terminou aceitando os migrantes.

O filme de Gavras começa exatamente num desses navios carregados de gente, onde Gavras, sem perder tempo e com a ligeireza que lhe é tão peculiar, estabelece uma das principais idéias do filme que é a perda da identidade, perda esta em nome da sobrevivência. Logo somos apresentados ao nosso personagem principal, Elias (o ator italiano Riccardo Scamarcio), um rapaz de origem não especificada (seria da Armênia?) que irá começar uma epopéia moderna pontuada por detalhes clássicos que não escondem a base como sendo a da viagem de Ulisses.

O mar é o Egeu e Elias vai parar no Édem, um resort grego com praias particulares (uma das grandes perversões do poder, privatizar um pedaço de mar) que bem poderia ser o cenário de todo o filme. Esta versão irônica da Europa vem completa com milionários russos (o temido novo poder da região), hóspedes à procura de prazeres sexuais, entretenimento programado e fartura de bebida e comida, elementos estrangeiros para um visitante clandestino que não fala nenhuma das línguas do continente.

E logo entendemos que Elias será uma bola de fliperama batendo e sendo rebatido, personagem passivo que apenas reage aos estímulos de terceiros. Creio que é fator inédito na obra de Costa Gavras, cineasta que sempre desenvolveu personagens ativos, caçadores da verdade e da mudança. Seu Elias é uma alma boa e pura que tem em Paris o destino final da sua viagem. Suas interações são sempre pacíficas e seu senso moral afiado.

Nos piores momentos do filme, lembrei do personagem de João Miguel, em Estômago, o ignorante gente fina que vence por ser um safo nato. Nos melhores, Gavras parece sair ganhando pela energia louca do filme, energia esta que parece mais física do que no campo das idéias.

Se Gavras sempre deixou sua marca através da agilidade das suas tramas (Z, aos 40 anos de idade, mantém firme um ritmo moderno), Eden a L’Ouest talvez esteja na pole position da velocidade narrativa. Piscou o olho, perdeu duas cenas importantes, e essa observação sobre ritmo (montagem, câmera) é válida para um realizador de 76 anos que, aliás, continua fascinado pela presença da mídia onipresente (equipes de TV nos mais estranhos lugares pontuam o filme), algo que já abordara numa das suas produções americanas, O Quarto Poder (Mad City, 1997).

PS: Misteriosamente (para mim), não entendo como Gavras escolheu acabar seu filme com plano tão feio e mal realizado.

Filme visto no Berlinale Palast, Berlim, abril 2009

Eu Te Amo, Cara



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Parece existir um nicho de mercado formidável que toma como alvo os bilhões de homens emocionalmente imaturos que, mesmo na casa dos 30, tentam lidar com a vida adulta. Parte dessa imaturidade pode, inclusive, estar relacionada à natureza da chamada preferência sexual. Exemplos recentes são os muito engraçados (e grotescamente conservadores) O Virgem de 40 Anos e Superbad, da escola Judd Apatow. Essa leva ganha mais um expoente em Eu Te Amo, Cara (I Love You, Man, EUA, 2009), filme estranhamente gay-masculino de John Hamburg.

O homem em questão é Peter (Paul Rudd, ator simpático dos filmes de Apatow, aqui finalmente como principal), que acaba de pedir sua namorada Zooey (Rashida Jones) em casamento. Promete-lhe o tipo de garantias futuras de estabilidade financeira que envolvem negócios imobiliários. Eu tenho certeza que a piada não foi planejada pelos roteiristas (filmes são produzidos com grande antecedência), mas o efeito junto à crise que ataca a economia dos EUA é engraçado, vide Sim Senhor, com Carrey.

O filme pinta Zooey como uma barbie, rodeada de amigas barbies que só falam em casar ou em casamento, ou nas seguranças garantidas pela instituição do casamento. É uma imagem deprimente das mulheres, e a desculpa é o foco ser, de fato, o elemento masculino. Uma interpretação possível é a de que o olhar gay masculino do filme começa a mostrar suas unhas afiadas no todo.

Peter descobre que não tem um amigo sequer que possa chamar para ser seu padrinho. Olha em volta e passa a entender que todo homem tem amigos, e as imagens de grupos e grupos de machos às gargalhadas nas ruas e carros podem ser realmente assustadoras e muito engraçadas, especialmente por obedecer a cartilha de linguagem básica onde alguém passa a olhar em volta para entender o que se passa, em planos e contraplanos. Acho que a última vez que vi isso com tanta sem vergonhice foi em Procura-se Amy (Chasing Amy, 1997), de Kevin Smith, onde Ben Affleck finalmente entende (ao olhar para os lados, para frente e para trás) que está num bar lesbo.

Peter descobre que até seu pai tem dois grandes amigos, um deles o próprio filho caçula gay (Andy Samberg). Gay, portanto, seria uma das palavras chave do filme, que dá início a um inusitado jogo de sugestões homo para a busca de Peter por alguém que possa chamar de amigo, tema e tom abordados de manera bem diferente em Superbad.

Aqui, no entanto, a coisa fica ainda mais inusitada, uma vez que essa busca, claramente gay no tom, nunca realmente se concretiza, provável intenção de discutir um mundo de aparências cuidadosamente projetadas. Peter não parece de fato assumir a homossexualidade sugerida a cada nova cena, especialmente na sensação acumulada de que Zooey é uma chata e de que bem mais divertido é passar horas com homens.

Efetivamente, Peter passa suas horas com Sydney (Jason Segel), seu novo amigo, um investidor meninão, típico californiano gente boa, dono de uma casa cheia de brinquedos que sugerem ter ele estacionado na adolescência (vide O Virgem de 40 Anos). Não deve ser coincidência que Sydney seja um nome híbrido, usado em homens ou mulheres, embora Sydney, o personagem em si, mostre-se um heterossexual dos mais ativos.

Há um clima geral de disfarce nas claras intenções de Eu Te Amo, Cara que aumentam o interesse por esse objeto estranho na produção hollywoodiana. O filme não parece crer que seja possível para um homem achar companhias femininas interessantes o suficiente para viver tranqüilo sem a companhia prolongada, desejada e irritante de amigos macho. De fato, o efeito geral é o de um comentário sarcástico sobre o tipo de masculinidade que mal consegue esperar a hora de livrar-se da mulher para ir encher a cara com os amigos, falar bem de futebol e mal das mulheres, fenômeno estranhíssimo que a sociedade vê como prova de masculinidade.

Ao final, Eu Te Amo, Cara parece celebrar o casamento como selador das aparências mantidas (não percam o plano do segundo grande amigo do pai) num mundo que é, em grande parte, gay, gay, gay. Engraçada provocação.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, abril 2009

Cannes 2009



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Saiu a tão esperada seleção 2009 do Festival de Cannes. Chama a atenção na lista desse ano na mostra competitiva uma espécie de colosso de grandes nomes do cinema mundial como Pedro Almodóvar, Lars Von Trier, Quentin Tarantino, Ang Lee e Michael Haneke, para citar apenas cinco, sensação ainda mais forte do que em outros anos. Na prestigiosa mostra paralela Un Certain Regard está o filme brasileiro À Deriva, do cineasta pernambucano radicado em São Paulo, Heitor Dhália. Eduardo Valente confirma exibição de No Meu Lugar na seleção oficial com sessão especial. O curta-metragem do Recife Superbarroco, de Renata Pinheiro, também estará em Cannes na Quinzena dos Realizadores.

PALMAS - Apostando nos pesos pesados do cinema de autor feito no mundo atualmente, Cannes confirma a sua vocação para seleções focadas que explicam a relevância do festival, que chega esse ano à sua 62a edição. Boa parte dos selecionados são freqüentadores premiados de Cannes, alguns com a Palma de Ouro. Nessa categoria, estão Lars Von Trier (Palma de Ouro em 2000 por Dançando no Escuro), que esse ano apresenta o seu filme de horror assumido Anticristo. Ken Loach (Palma por Ventos da Liberdade) apresenta Looking For Eric, Jane Campion (O Piano) traz Bright Star e Quentin Tarantino (Pulp Fiction) sua reinterpretação para uma aventura de guerra com Inglorious Basterds, talvez o primeiro filme anunciado na rede de boatos dos últimos meses. Na verdade, Tarantino já anunciou, antes de começar a filmar em setembro, que o seu Bastardos Inglórios seria lançado em Cannes 2009.

RESPEITO - Se esses são os ganhadores de Palmas de Ouro, há também outros nomes que já saíram reconhecidos de Cannes com prêmios nobres. Ang Lee (Leão de Ouro em Veneza por Brokeback Mountain) faz par com Tarantino nos dois filmes americanos esse ano na competição, rara participação fraca (em números) do cinema americano de autor tão valorizado pelo festival francês. Lee apresenta Taking Woodstock, revisão do evento pop-musical que definiu uma geração.

Pedro Almodóvar fará a estréia internacional (o filme já foi lançado na Espanha) de Los Abrazos Rotos, Michael Haneke (Cachê, Funny Games) chega com um novo filme (em preto e branco), Das Weiße Band, que o leva de volta à Áustria depois de seus últimos filmes terem sido filmados na França e EUA. O coreano Park Chan-Wook, que fez muita gente arregalar os olhos com Old Boy em 2005, vem agora com Bakjwi (Sede), sobre um vampiro, e Elia Suleiman (do ótimo Intervenção Divina, premiado em 2002) apresenta The Time That Remains, sobre a história recente da Palestina.

Os veteranos Marco Bellochio (Bom Dia, Noite) e Alain Resnais (Medos Privados em Lugares Públicos) também estão lá. Bellochio com Vincere, sobre a amante do ditador Benito Mussolini, Resnais (aos 87 anos no próximo dia 3 de junho), e um dos nomes por trás da Nouvelle Vague há 50 anos, exibirá Les Herbes Folles.

JOVENS - Há ainda os realizadores mais jovens que Cannes parece ter como investimento futuro. Brillante Mendoza, cineasta filipino, volta à competição com Chop Chop, um ano depois de apresentar o excelente Serbis. A escocesa Andrea Arnold (Red Road, em 2005) traz Fish Tank e a espanhola Izabel Coixet (Minha Vida Sem Mim), claramente o nome mais inexpressivo da seleção, projeta Map of the Sounds of Tokyo. Veremos. O cineasta franco-argentino Gaspar Noé mostra a produção francesa Soudain Le Vide. O filme anterior de Noé, Irreversível, é algo que ninguém esquece, projetado aos urros de horror no festival de 2002 como um tipo de experiência em imagens de choque.

Além de Noé e Resnais na competição, a participação francesa impressiona esse ano. Jacques Audiard (De Tanto Bater Meu Coração Parou) terá seu novo filme, Un Prophète, ao lado do jovem Xavier Giannoli, 37 anos, com A L'origine, totalizando quatro filmes falados em francês, embora a França e seus euros estejam espalhados por toda a mostra oficial no extenso sistema de co-produção entre europeus, hoje.

Por último, chama a atenção mais uma safra rica trazida da Ásia, região geográfica muito destacada pelo festival, em ciclos. Além do filipino Mendoza, e do coreano Park Chan Wook, temos Johnnie To, de Hong Kong, e seu sempre prazeroso cinema de gênero com Vengeance. Há promessas de controvérsia via sexualdade filmada em Spring Fever (Febre de Primavera), de Lou Ye (China), seu anterior, o muito bom Summer Palace foi proibido pelo governo chinês. Um dos mais esperados da seleção é o novo filme de Tsai Ming Liang (O Sabor da Melancia), da Malásia, que agora filmou na França Visages (rostos).

DHÁLIA – O cineasta Heitor Dhália chega a Cannes com seu terceiro longa metragem, À Deriva. Esse pernambucano foi trabalhar em São Paulo no mercado publicitário nos anos 90, fez o curta Conceição (1999), no Recife, e adaptou Crime e Castigo na forma de uma crônica moderna no seu primeiro longa, Nina (2004). Seu segundo filme, O Cheiro do Ralo (2006) tornou-se um enorme sucesso de perfil alternativo, com aproximadamente 200 mil ingressos vendidos no Brasil, um feito e tanto.

Ao tornar-se diretor da casa, na poderosa produtora O2 de Fernando Meirelles, partiu para desenvolver projetos internacionais que são o perfil da produtora. A O2, com a força de Cidade de Deus, que tomou Cannes de assalto em 2002, emplacou na mostra Un Certain Regard do festival O Banheiro do Papa (2007) e, ano passado, teve o enorme prestígio de abrir o festival com Ensaio Sobre a Cegueira, do próprio Meirelles. Segundo o site da O2, À Deriva estréia no Brasil ainda nesse primeiro semestre. O filme tem no elenco o ator francês Vincent Cassel (Irreversível), Cauão Reymond, Camilla Belle e Débora Bloch.

Em declaração ontem à imprensa, Dhália disse "Ter um filme selecionado em Cannes é ver um sonho se realizando. Há dois anos, estive lá justamente para anunciar o projeto de ‘À Deriva’. Quem é cinéfilo sabe o que essa notícia significa”, afirma Heitor Dhalia.

Terra



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Os melhores documentários de observação da natureza são ingleses, feitos pela BBC, e já existiam décadas antes de a cultura da televisão a cabo espalhar pelo mundo o onipresente Discovery Channel, que também alimenta-se do mesmo material britânico. Quem já não deitou num sofá para ver lutas territoriais entre antílopes no Quênia ou a fuga cruel e desesperada de um filhote de elefante das garras de um leão faminto? É tudo filmado de uma forma tecnicamente soberba, cativante, o tipo de coisa que está à mostra em Terra (Earth, Inglaterra/Alemanha, 2007), versão condensada para uma única sessão de cinema (90 minutos) da série Planet Earth (Planeta Terra), produzida pela BBC com 12 capítulos de uma hora cada.

O filme parece ter sido montado a partir do infindável arquivo da BBC com imagens da natureza em luta e em harmonia, com o melhor que a tecnologia de imagem é capaz de permitir. Boa parte do que vemos no filme pode ser achado em fragmentos postados no YouTube, muito embora escolher bem uma sala de cinema com ótima projeção deverá fazer justiça à experiência de ver essas imagens na tela grande.

Terra é prazeroso, não obstante a narração solene (dublada) que, em grande parte, lembra uma descrição para deficientes visuais.Não deixa de ser curioso que um filme tão cheio de imagens eloquentes ainda acredite na gordura de uma narração impostada que só reforça o que já estamos vendo. Quer uma sugestão? Leve um player mp3 e crie sua trilha sonora pessoal com fones de ouvido. Dependendo da escolha musical, Terra pode ser ainda mais interessante.

Meticulosamente embalado para satisfazer o mercado de famílias que vão juntas ao cinema, a poderosa Disney comprou os direitos de distribuição e lança o filme sob o selo Disney Nature, clara tentativa de explorar comercialmente o eco-filão que rendeu milhões de dólares para produções francesas como Migração Alada (Le Peuple Migrateur, 2001) e a Marcha dos Pingüins (La marche de l'empereur, 2005). A palestra powerpoint Uma Verdade Inconveniente (An Inconvenient Truth, 2007) também merece lembrança, onde Al Gore nos dá um “se ligue” sobre os rumos que a raça humana tem dado ao planeta, ganhando um Oscar em troca. Escolheram também lançar essa semana por causa do Dia da Terra (22 de abril).

Em Terra, a lição é mais amena. O eixo narrativo é um ano inteiro de ciclos naturais, começando no pólo norte e terminando no pólo sul. Se é que há personagens principais, estes seriam uma família de ursos polares, vítimas diretas das mudanças climáticas, principal tema em discussão na área. As imagens de uma mãe e seus dois ursinhos polares saindo da hibernação, ou a do urso pai à procura de comida, dão início às indagações de espectadores que têm a facilidade de pensar aspectos como técnica e logística: “como filmaram isso?”. A pergunta volta à mente inúmeras vezes ao longo da projeção.

A sucessão de imagens espetaculares mostra situações como cegonhas vencendo as montanhas do Himalaia e enfrentando rajadas congelantes de vento ou, no momento mais cartunesco do filme, patinhos mandarim bebês deixando o ninho pela primeira vez em vôos desengonçados e corajosos. O investimento em imagens “família” estimula uma identificação entre bichos e gente, e a seqüência onde a ave do paraíso da Nova Guiné arruma a casa para receber uma pretendente, seguido de uma dança muito louca para ganhar a menina é uma coisa engraçada e estranha.

(aliás, veja aqui e caia para atrás de graça com a dor alheia)



Imagens de famílias (elefantes, pingüins, baleias jubarte) reforçam os laços, mesmo que pequenos filhotes sejam vítimas de predadores ferozes (leões, linces, tubarões brancos). Essas seqüências de terror natural são calibradas por uma montagem ‘censura livre’ que não deixa dúvidas sobre a crueldade da natureza, mas nunca mostrando uma gota sequer de sangue. Outras imagens espetaculares feitas com lapso de tempo (a câmera permanece um mês inteiro parada, filmando algumas imagens cada dia) onde toda uma paisagem muda com o fim de uma estação e a chegada da próxima chamam a atenção pela precisão e também para um aspecto cultural.

Fica a sensação, especialmente para possíveis utilizações do filme como material didático, que espectadores dos trópicos saem com a sensação de que sua região não foi representada. Há uma breve passagem pelas florestas equatoriais, mas logo chegamos à misteriosa e fotogênica África, num todo que privilegia a vida sob as quatro estações bem definidas, especialmente sob o gelo. Talvez caiba ao cinema brasileiro filmar o próprio país como ninguém jamais o viu, menos ainda os brasileiros.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, abril 2009

Um Conto de Natal


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

O cineasta francês Arnaud Desplechin tem a capacidade de sugerir filmes que passam a sensação de estarmos diante de um livro de mil páginas. Se Reis e Rainha (Rois et Reine, 2004) já tinha isso, a idéia de um calhamaço ronda mais ainda o seu último, Un Conto de Natal (Un Conte de Noel, 2008), uma experiência e tanto em alcance dramático, excessos estilísticos e uma tapeçaria humana que é ao mesmo tempo fascinante e enlouquecedora na sua neurose. Nos convida para um final de ano com uma família cuja grande casa parece ter não apenas múltiplos cômodos, mas também túneis obscuros e passagens secretas para dentro de uma psicologia espessa que termina por oferecer mais um retrato bem impresso do bicho gente.

Vendo o filme de Desplechin, que torna-se, a cada novo trabalho, um dos principais cronistas das relações humanas atualmente em atividade no cenário internacional de cinema, pode-se pensar com curioso interesse na tradição que o cinema francês tem de filmar personagens que falam, sensação sentida outra vez recentemente em Entre os Muros da Escola, onde Laurent Cantet comanda um tiroteio verbal entre alunos e professores ambientado, em grande parte, dentro de uma sala de aula.

No caso de Desplechin, ele não apenas exercita seus quilos de texto, interpretados pelo seu elenco (Catherine Deneuve, Chiara Mastroianni, Mathieu Almaric, Emmanuele Devos) como que se num transe coletivo, mas acrescenta movimento, imagens congeladas, montagem veloz e brusca, telas divididas, direção de arte beirando o barroco, intertítulos (literários...) e referências ao próprio cinema e à música numa mistura ambiciosa. Passa a sensação de que este seria o seu último filme, e que nenhuma idéia ou imagem poderia ficar de fora.

Essa sensação talvez faça sentido levando em consideração que a matriarca da família Vuillard, Junon (Deneuve), na cidade natal de Desplechin, Roubaix, norte da França, acaba de ser diagnosticada com leucemia, doença que vitimou, anos antes, um filho aos seis anos de idade, trauma do clã e certamente dela como mãe.

Não deve ser por um acaso que os Vuillard têm uma doença sanguínea que os une, elemento literal que ilustra bem o sentido que Desplechin traz para seu cinema. Se em Reis e Rainha ele foi capaz de mostrar que uma carta tem o poder de queimar a pele pelo seu conteúdo virulento, aqui as relações biológicas entre os personagens são fortalecidas por um interesse que beira o científico e que logo se tornam questões psicológicas e mesmo espirituais.

Junon, por exemplo, teria gerado um segundo filho, Henri, com seu marido Abel (Jean-Paul Roussillon). A missão no mundo de Henri seria poder, tudo dando certo, ser um doador compatível de medula óssea para o irmão, na época, enfermo. Com a morte da criança amada, Henri teve que contentar-se com o tratamento distante dos pais, que nele depositaram uma tonelada de culpa e rejeição. Não é de se espantar que Henri adulto (Almaric, de A Questão Humana) cumprimente a mãe ao chegar para os festejos natalinos com a alegre pergunta “E aí? Continua sem me amar?”, para a qual ela responde, “Nunca amei!”.

Se fosse um filme sueco, trocas do tipo talvez agregassem peso ainda maior, mas há uma certa veia francesa que mantém a dureza dos diálogos num ritmo que parece ditado pela elegância de uma taça de vinho. Henri é claramente um homem destroçado, e sua imagem assinatura, também adequada para passar o tom do filme, é sua capacidade de cair de cara no chão numa esquina urbana, alguém que tenta se levantar depois de ter a vida inteira com a cara, literalmente, no chão.

A menção aos dramas suecos talvez não seja justa, pois temos aqui um irmão caçula do Fanny e Alexander (1983) de Ingmar Bergman, grande tapeçaria do intimismo invernal que os europeus filmam tão naturalmente em internas pontuadas por comida e bebida.

Desplechin, astuto observador das movimentações familiares, é o tipo de diretor que não apenas põe o olho nas movimentações peculiares das crianças dentro de uma casa como é capaz de escalar Chiara Mastroianni, filha de Deneuve na vida real, não como sua filha no filme, mas numa relação nora/sogra. E vejam a miniatura daquela casa, representação de toda a família como o próprio cinema muitas vezes é em relação a vida.

Filme visto no Grand Theatre Lumiere, Cannes, Maio 2008

Friday, April 17, 2009

Lars? Come on...



Gosto de Lars Von Trier (espero um dia chegar ao nível de sofisticação de alguns colegas que o acham nada, eu chego lá), seu talento me parece sem fim, e já pensando na lista de melhores da década, penso constrangido que terá facilmente três filmes dos 10 finalistas.

No entanto, fui ver esse trailer do novo LVT, Anticristo, nossa, que porcaria. Espero que estejas de sacanagem e que eu saia da sessão comovido com o horror proposto. Esse trailer, por outro lado, não me disse nada. Corvos? Gritos ferais de biblioteca de áudio de horror de mercado? Cabana na floresta? A melhor imagem (a última) me lembra Mojica (a referência é ótima, mas dèja vú), mas devo admitir que um detalhe me fez crer que talvez exista algo de interessante no filme em si, na tela bem grande. A frase:

"Tenha a coragem de ficar na situação que te assusta". Soa familiar, Lars-filosofia.

PS: Para quem nunca viu, ache correndo uma cópia do incrível THE KINGDOM (Kismet), feito por LVT para a TV dinamarquesa, um desses grandes momentos da TV. Inacreditavelmente assustador, e muito, mas muito engraçado quando quer. K.M.F

Moby Lynch

Novo filme de David Lynch para Moby.


Shot In The Back Of The Head from Moby on Vimeo.

O Som de Truffaut e Hitchcock



Eu tinha postado na comunidade do CinemaScópio no Orkut isso aqui. Amigo meu, Luis Borba, conhecedor de todas as coisas Hitchcock e Leone, me enviou esse link maravilha - http://tsutpen.blogspot.com/search/label/The%20Hitchcock%2FTruffaut%20Tapes -, uma aquisição (ou presente digital) e tanto, especialmente para quem, como eu, conhece o livro Hitchcock e Truffaut desde os anos 80, mas esperava um dia poder ouvir as fitas originais dos dois monstrinhos falando sobre cinema.

Sim, você pode baixar em mp3 e ouvir chegando em casa, no ônibus, a pé ou avião, esse embate histórico entre um admirador e seu mestre. Depois de esgotar as 25 sessões, tente ver A Noiva Estava de Preto, normalmente um dos filmes mais fracos de Truffaut, mas que, como às vezes ocorre no cinema, pronto para uma revisão que deverá revelar uma obra apaixonada sob novo olhar. K.M.F

Sunday, April 12, 2009

Tony Manero


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Um aspecto curioso da grande indústria cultural é a sua capacidade de inspirar a periferia, explicitando o abismo que há entre produtor e consumidor. No caso do cinema, a nossa percepção do filme estrangeiro é um aspecto vivo dessa relação. Hollywood e sua força residem não apenas nessa distância geográfica e cultural, mas também na aura de faz de conta que maximiza a distância entre vida real e o que se passa na tela, entre primeiro e terceiro mundos. O filme chileno Tony Manero analisa isso, jogando ainda com toda uma carga histórica local interessantíssima.

O filme do diretor Pablo Larraín (seu segundo longa metragem) se passa em Santiago do Chile em 1978, auge do governo linha dura de Augusto Pinochet, precisamente durante o lançamento nos cinemas de Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever, EUA, 1977), dirigido por John Badham. O filme chegou como o primeiro de dois ganchos de direita dados na época pelo jovem John Travolta nas bilheterias do mundo, o segundo, lançado logo após (e ainda mais bem sucedido) foi Grease – Nos Tempos da Brilhantina (Grease, 1978), de Randal Kleiser.

Quem está hoje na casa dos 40 poderá lembrar de 1978 e de como Tony Manero, o personagem de Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite, se transformou num fenômeno entre homens desejosos de reproduzir minimamente bem em discotecas, salões de festa ou mesmo salas de estar a coreografia ao som dos Bee Gees que se tornou icônica, auxiliada pelo figurino (terno e calça branca, camisa preta por dentro, sapatos altos), pelas luzes no assoalho do dancing e pela presença eletrizante de Travolta na produção da Paramount Pictures.

Larraín pega exatamente esse fenômeno gerado pelo filme de 1977 e nos dá uma releitura (algo de assustadora) sobre um dos temas mais persistentes da sociedade contemporânea, e que parece estar sendo filmado a cada mês pelo cinema atual: o fascínio com a celebridade, o glamour, a capacidade de se expor da nova cultura. Mesmo ambientado em 1978, Tony Manero é claramente um filme sobre hoje, e revela-se uma das visões mais originais sobre esse tipo de coisa.

O personagem principal chama-se Raúl Peralta (Alfredo Castro, excelente ator), homem de 52 anos que gosta de dizer que sua profissão é o show business, muito embora tenhamos dificuldade em crer nisso. Magro, algo de charmoso, Raúl é o centro de um pequeno grupo de amigos que se apresentam num bar de periferia com a intenção de reproduzir as coreografias do filme. Sua grande preocupação é apresentar-se num programa de TV e conquistar o título de “melhor Tony Manero do Chile”.

Raúl parece ter efeito especial sobre as mulheres, a dona do bar, sua namorada e filha adulta, aspecto que o filme reproduz sexualmente de maneira direta e crua. Ele, no entanto, revela-se um desastre na sua falta de habilidade social, uma máquina de amoralidade que não pensa duas vezes antes de matar alguém.

Alguns que viram o filme parecem sempre lembrar imediatamente do Travis Bickle de Robert de Niro, em Taxi Driver, o filme de Martin Scorsese feito em 1976 sobre um outro estranho bicho urbano. Raúl, no entanto, talvez se encaixe melhor numa descrição mais comedida do astro sanguinário do falso documentário e proto-reality show belga Aconteceu Perto de Sua Casa (C’est Arrivé Pres de Chez Vous, 1992).

Ele pode cobiçar uma TV colorida, ou pode revoltar-se com o fato de Os Embalos de Sábado à Noite ter sido tirado de cartaz no velho cinema de rua que o exibia, ou ainda ter o desejo de roubar a cópia do filme em 35mm, levando-a para casa, sonho cinéfilo enlouquecido nunca antes filmado. São pequenas ações que inspiram uma violência irresponsável, e que o filme deixa correr solta, sem conseqüências práticas ou legais.

Isso talvez se explique pela visão particular de Larraín sobre o momento histórico do Chile. Filmado com uma inteligência que neutraliza perfeitamente a clara falta de recursos de produção, Tony Manero nos dá um clima sugerido de terror via repressão política (caminhões com soldados passando na rua, assassinatos em lugares ermos), atmosfera que banca totalmente os descaminhos de Raúl, seu descaso com o outro.

Essa visão artística de um momento político de um país alinha-se com as visões pessoais de outros cineastas contemporâneos que partiram para filmar as histórias recentes das suas culturas, como Almodóvar o fez com a Espanha dos anos Franco em Carne Trêmula (1998) e A Má Educação (2004), ou Cristian Mungiu com a Romênia de Nicolae Ceausescu em Quatro Meses Três Semanas Dois Dias (2007). São visões essencialmente artísticas, livres de narrativas factuais históricas que nada acrescentariam aos filmes.

Por fim, há um aspecto digno de nota sobre a relação de Raúl com Tony Manero. Ele consegue tirar o seu faz de conta de Os Embalos de Sábado à Noite, filme que, dentro do vocabulário hollywoodiano comum, revela-se uma obra dura e realista, filho típico do excelente cinema americano dos anos 70. Ele bem que poderia ter se apegado ao Travolta fantasioso de Grease, mas parece existir uma identificação entre Raúl, artesão de globo de discoteca via bola de futebol dente de leite e cacos de vidro e o Tony proletário, vendedor de tinta, morador do Brooklyn, em Nova York. Nos parece uma bela conexão entre dois personagens da periferia que todos nós somos, de certa forma.

Filme revisto no Cinema da Fundação, Recife, Abril 2009

Saturday, April 11, 2009

Gabriel Mascaro / "Um Lugar ao Sol"




"Acho que ainda convivemos com o eco de um Projeto de intelectuais que se imaginaram, por um momento, ter o poder e missão de ser o porta-voz das classes populares, como se os sujeitos marginalizados não pudessem engendrar sua própria idéia de representação social ou visibilidade."

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O mais novo longa metragem pernambucano teve estréia mundial no Buenos Aires Festival Internacional de Cine – Bafici, na Argentina. Um Lugar ao Sol, filme de Gabriel Mascaro, passa num dos festivais de perfil independente e autoral que mais ganham importância no circuito internacional. O documentário investiga enfoque inédito no Brasil, a parcela reduzida da sociedade que mora em coberturas, e segue, depois do Bafici, para um segundo compromisso em Nyon, na Suíça, no importante festival de documentários Visions du Réel. O filme foi um dos contemplados, mês passado, pelo Edital do Audiovisual do Governo de Pernambuco com uma verba importante para a sua difusão em festivais e salas de cinema.

Um Lugar ao Sol teve início como um projeto de curta metragem e logo ganhou corpo de longa metragem através de material registrado no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Com imagens rodadas em 16mm e em digital pelo fotógrafo Pedro Sotero, Mascaro registrou entrevistas com oito moradores de coberturas, símbolo internacional de status social, personagens localizados pela produção a partir do que o realizador chama de “um curioso livro que mapeia a elite e pessoas influentes da sociedade brasileira”.

Para Mascaro, “o filme traz um debate sobre desejo, visibilidade, insegurança, status e poder”, através das paisagens. É um filme sobre isolamento social e visão de mundo que representa mais uma peça do cinema pernambucano que, mais do que nunca, abandona o ideal rural e folclórico tradicional do passado voltando-se para a vida na cidade.

Um Lugar ao Sol discute também o atual estado de abandono no qual encontram-se as silhuetas inchadas de cidade brasileiras grandes como Recife, tomadas por uma praga arquitetônica que vende a verticalização como um modelo a ser seguido.

O tema também está sendo abordado em dois outros filmes feitos no Recife, os curtas-metragens Menino Aranha, da jornalista Mariana Lacerda, e Eiffel, do crítico de cinema Luiz Joaquim. O primeiro é uma reflexão sobre a arquitetura do medo no Recife, e o segundo um comentário discretamente demolidor sobre as duas verrugas brancas de cimento e concreto construídas no Cais de Santa Rita, as torres da construtora Moura Dubeux. Menino Aranha e Eiffel serão exibidos no próximo Cine PE, neste mês de abril.

Nessa entrevista feita por email, de Buenos Aires, onde esteve para apresentar seu filme, Gabriel Mascaro reflete sobre a representação cinematográfica das classes altas no Brasil e sobre a própria altura como forma de proteção.

O conceito de observar classes localizadas "acima" na sociedade é uma idéia que não deveria soar ousada no cinema brasileiro, mas é. De onde surgiu e como você desenvolveu o conceito desse filme?

GM - Infelizmente o filme termina por ser uma idéia ousada. O ideal era que não fosse. Temos no Brasil algumas poucas referências de filmes nessa busca, como o ‘Opinião Publica’, do Arnaldo Jabor, o ‘Retrato de Classe’, dirigido por Gregório Bacic... Mas acho impressionante a quase ausência de documentários envolvendo grupos sociais de classe média alta e elite no Brasil. Acho que ainda convivemos com o eco de um Projeto de intelectuais que se imaginaram, por um momento, ter o poder e missão de ser o porta-voz das classes populares, como se os sujeitos marginalizados não pudessem engendrar sua própria idéia de representação social ou visibilidade. Toda uma lacuna e vácuo de produção de conteúdo sobre a classe média e elite no Brasil se cristalizou. Quando tive a idéia de fazer o filme Um Lugar ao Sol, queria poder acessar excertos do imaginário deste grupo social que pouco havia conhecido, por ter crescido numa família de classe media baixa e por pouco ter visto filmes sobre. Mas resolvi fechar este dispositivo elegendo potenciais personagens que morassem em valiosas coberturas de prédio. Um filtro natural que desdobraria ainda uma reflexão que transcenderia a idéia de grupo social (evitando o olhar sociologizante), e abriria a possibilidade no filme de pensar sobre o modelo de cidades verticais que estamos construindo. Todos os meus verbos estão no futuro do pretérito porque terminou que eu não consegui acessar com expressividade o grupo social preterido. Resultou que apenas 8 personagens me cederam entrevistas e o filme termina por evidenciar a minha própria inacessibilidade. Um Lugar ao Sol pode ser ousado, mas não é pretensioso. O filme não arquiteta uma representação classista e não se propõe a tratar os personagens como um bloco de cimento homogêneo. Mas sim sobre o tipo de sedimento ideológico que estamos construindo.

Há no Brasil a idéia de altura como mecanismo de proteção? Em que níveis isso opera?

GM - É surpreendente perceber quantas variáveis influenciam na escolha desse modelo arquitetônico vertical de um segmento da classe média/alta e elite brasileira em viver em elevados prédios. Mas o que mais me interessa nessa questão é indagar sobre o momento que essa busca deixa de ser uma opção social protecionista e passa a ser o sonho, o desejo real e irrefutável, tendo a ‘ cobertura’ como utopia e plenitude. As crianças nascem imbuídas do sonho do apartamento próprio, com grande vista para o entorno, tendo todas as opções de lazer dentro do condomínio e toda experiência comunitária dentro dos muros do prédio. E esse sonho é vendido diariamente pelas construtoras e pouco paramos para pensar sobre a cidade que queremos viver.

O que se passa com a paisagem do Recife, atualmente?

G - No Recife existe um desconfortável clima de triunfo deste projeto de paradigma arquitetônico de verticalização, logo, deste paradigma de sociedade. É perturbador. Uma construtora pernambucana vende seu projeto imobiliário como contemporâneo, evoluído, que utiliza o slogam: ‘se a vida é feita de escolhas,aqui você vai poder ser o que quiser’. Um lugar ao Sol se propõe a trafegar pelo imaginário social do desejo. O que me motiva como realizador é poder entender o desejo das pessoas e saber o que elas gostariam de ser, e não que elas são.

O filme surgiu como um curta-metragem. Foi natural a passagem para o longa?

G - O projeto foi contemplado como um filme de curta-metragem para ser finalizado em 35mm num edital de pernambucano. O projeto se mostrou tão complexo para mim que terminou rendendo um longa-metragem naturalmente. Encontrei reais possibilidades de distribuir o filme em projeções digitais e isso terminou que deu uma nova vida ao filme, onde me sinto mais contemplado conceitualmente. Depois de mais de 6 anos de gestação, o filme inaugura sua trajetória no BAFICI e logo em seguida tem a premiere européia no Festival Visions Du Reel, na Suíça, um importante festival europeu englobando a cultura do documentário.

Os Delírios de Consumo de Becky Bloom



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Os Delírios de Consumo de Becky Bloom (Confessions of a Shopaholic, EUA, 2009) não é a porcaria que seu material de divulgação me levou a crer que seria. O trailer sugere uma imitação sem vergonha de O Diabo Veste Prada com uma certa sensibilidade Sex and the City. A embalagem de ‘filme de mulherzinha’ é entregue pela direção de arte que carrega no rosa choque para ajudar a definir a personagem principal, uma garota capaz de partir para unhadas e puxões de cabelo com uma outra colega de luta caso queiram o mesmo acessório em concorrida remarcação. Essa asneira colorida diverte minimamente e, longe de ser apenas uma imitação com ilusão de qualidade, o filme é honestamente fajuto nas suas intenções.

A heroína da peça é uma patricinha de QI especialmente pequeno, Rebecca Bloom (a australiana Isla Ficher), uma jornalista. Presa num estado terminal de consumismo, essa jovem da classe média trabalhadora gasta 16 mil dólares em penduricalhos comprados compulsivamente em lojas onde vitrines ganham vida com a magia de manequins que filosofam sussurrando sobre a importância de comprar algo.

Perseguida por um cobrador espetacularmente chato (perfeito casting do ator Robert Stanton, que rosto, que óculos, que cabelo...) e freqüentando o ‘consumistas anônimos’, Rebecca arranja emprego numa revista de economia cujo editor será seu príncipe encantado (Hugh Dancy). Usando como base para o novo emprego seus surtos consumistas, torna-se uma bem sucedida colunista ao assinar como “a menina da echarpe verde” textos que parecem traduzir tendências financeiras da economia para o patricês que outras da sua fauna e flora consigam entender.

O diretor australiano PJ Hogan é um gente fina, vide seus O Casamento de Muriel e O Casamento do Meu Melhor Amigo, embora demonstre ter sido aniquilado de certa forma pela estrutura. De qualquer forma, traz seu olhar claramente gay e algo de divertido para o todo, e esse seu toque ajuda muito o filme no sentido de torná-lo uma experiência levemente indolor.

Dado o atual clima de crise financeira internacional, Os Delírios de Consumo de Becky Bloom parece casar bem com os tempos através da moral fajuta da sua história. Vale saber que o filme é produzido por Jerry Bruckheimer, responsável por coisas caras como Armagedom, Piratas do Caribe e Bad Boys, filmes que, juntos, custaram quase um bilhão de dólares.

A informação é engraçada, uma vez que a moral da história é a de que supérfluo é ruim, e que aprofundar-se em algo é bom (a echarpe verde parece ilustrar isso). Essa filosofia, num mundo correto, não deveria ajudar o filme em nada, dadas as suas não-credenciais. No entanto, no nosso mundo de shopping centers, vitrines e das marcas que aparecem em todo o filme, deverá ser um sucesso.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, abril 2009

Dois em Um



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Ver filme comercial ruim de uma outra nacionalidade que não a hollywoodiana tem algo de positivo. Por ser francês, Dois em Um (La Personne aux Deux Personnes, França, 2008) indica que o mercado de lá é potente o suficiente para arremessar sub-produtos a outras terras, fazendo pequena frente aos americanos. Oferece visão variada da sua produção européia que não restringe-se ao cinema de autor que chega a lugares como o Brasil com respeito garantido. Só ano passado, o maior recordista de público da história da França, a comédia Bienvenue Chez Les Ch’Tis (inédita no Brasil), foi visto por 20 milhões de franceses, fortalecendo a auto-estima do cinema de lá e a luta contra a presença de Hollywood. O lado melancólico é que por causa dos mesmos filmes hollywoodianos e seu poderio, um produto francês como esse termina chegando ao Brasil via circuito “de arte”, gerando curiosa disfunção estética.

Dois em Um pertence ao revolucionário conceito humorístico onde um espírito troca de corpo com outro, idéia que vem e volta no cinema como gripe pós-carnaval. Já tivemos mãe que troca com filha, homem que troca com cachorro e marido com mulher no inacreditável sucesso brasileiro Se Eu Fosse Você, cujo segundo filme aproxima-se dos seis milhões de espectadores no país. Gripe forte essa.

Desta vez, temos um contador bem comportado (Daniel Auteuil) que, ao ser atropelado por um ex-roqueiro dos anos 80 (Alain Chabat), vê seu corpo invadido pela alma do motorista, que bateu com a cabeça. E lá estamos no terreno de Um Espírito Baixou em Mim (1984) e Viagem Insólita (1987) onde alguém ouve vozes dentro da sua cabeça, e ninguém mais ouve. O espectador terá que sofrer pelas mesmas piadas de sempre, incluindo a primeira ida ao banheiro depois da troca.

O filme é algo de formidável na forma como bóia desengonçado sem qualquer vestígio de graça. É fascinante tentar entender o que teria levado Auteuil a não apenas querer fazer o filme, mas a desejar ver-se numa tela grande andando de cueca semi-nu pra lá e pra cá. O ator como gênero animal é mesmo um bicho muito estranho.

Não seria estranho descobrir na internet que os diretores, que assinam apenas Nicolas e Bruno, vieram da publicidade. A atenção deles à arquitetura deslumbrada da moderna área parisiense de La Defense e ao apartamento estilo anos 70 do personagem de Auteuil parecem ganhar mais atenção do que o roteiro, que dá ao espectador a sensação de estarmos diante de material bruto que aguarda edição.

Filme visto no Cine Rosa e Silva 1, Recife, Abril 2009

Saturday, March 21, 2009

Radiohead



por Kleber Mendonça Filho
Rio de Janeiro


Três filmes me impressionaram até agora, esse ano:

- Peculiaridades de Uma Rapariga Loira, de Manoel de Oliveira.
- Gran Torino, de Clint Eastwood.
- o show do Radiohead no Rio, ontem.

algumas coisas sobre o ocorrido na Praça da Apoteose.

Será que as bandas brasileiras que abrem eventos desse tipo, antes de bandas estrangeiras, assinam contrato de limitação técnica resignada como forma de servir de trampolim para as atrações principais? Digo isso pois o simpático show dos Hermanos não parecia ter luz, ou a que tinha me lembrava o tipo de luz que uma bandinha de colegial tocando no encerramento do ano letivo teria, no auditório da escola. O som estava à altura da luz.

No Kraftwerk, uma coisa me chamou a atenção. Os quatro men machines alemães representam uma banda essencial na música pop, e que, nos anos 70 e 80, estiveram à frente do tempo, com um catálogo de músicas que parecia prever um futuro que hoje sabemos que estava certo, eletronicamente falando.

Dessa forma, a idéia de quatro homens expressionsitas com algo de Lang e Metropolis cuidando de máquinas minimalistas no palco deveria ser um conceito e tanto 30 anos atrás, mesmo 20.

Só que hoje, vendo os quatro ali, enfileirados, atrás de laptops, a primeira coisa é que me vem à mente é que eles talvez estejam checando email num internet lounge. Nossa relação com as máquinas e computadores é hoje excessiva e promíscua, e o conceito do Kraftwerk ao vivo me parece velho, embora as músicas (The Model, Trans Europe Express, Music Non Stop, Autobahn) não esteja. São lindas.

Acho que Kraftwerk, depois de anos à frente do seu tempo, finalmente está preso no presente, possivelmente até mesmo já um pouco no passado.

Já o Radiohead, não sei bem o que é aquilo. Melhoram, a cada disco, senso de imagem deles é belo, e a capacidade que têm de traduzir uma obra musical numa apresentação ao vivo através do som, do design de palco e de luz, e da capacidade técnica da banda em si, é assombrosa.

Voltando à coisa da luz e som dos Hermanos ontem, a discrepância entre o início da noite e a entrada do Radiohead é o equivalente a ver um filme preto e branco em DVD mono projetado em vídeo e depois entrar um outro filme em 70mm seis canais. A projeção larga de flagrantes muito bem pensados dos músicos no palco tem uma concepção perfeita, jogando fora as imagens televisivas que normalmente "mostram" bandas tocando para quem está mais longe do palco.

Eu já vi alguns shows históricos (Prince 3 vezes, The Cure, R.E.M, Chico Science & Nação Zumbi), e dá pra sentir que você está vendo um na hora, como o de ontem. Espero que quando filhos e netos estiverem descobrindo o catálogo completo do Radiohead, aos poucos, eu possa dizer, "eu vi ao vivo".

A banda parecia estar dando tratamento especial à platéia, primeira vez no Brasil, tocaram, acho que tudo do In Rainbows, mais de duas horas, 3 bis, Paranoid Android, No Surprises, até Creep, cujos primeiros acordes geraram uma saraivada de "CARALHO!" na multidão. Aquelas ameaças da guitarra em Creep, antes do refrão, ganharam luz à altura da ameaça.

É uma das grandes bandas do mundo, no auge dos seus super poderes. O show gerou um tipo especial de euforia, e o que mais se via no descampado de lixo que escoava lentamente rumo ao metrô era gente se abraçando e se perguntando, "você viu aquilo?".

Gran Torino




por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Por uma dessas coincidências, dois filmes que estréiam hoje trazem essencialmente o mesmo tema, mas em registros bem diferentes. O tema é os EUA pós-11 de setembro aos poucos abrindo-se para o elemento estrangeiro, algo que talvez soe como uma redução adequada para o já pequeno O Visitante (The Visitor), mas uma imposição limitada que nem começa a fazer justiça à demonstração de delicadeza autoral que é Gran Torino (2008), de Clint Eastwood. Nos dois filmes, homens americanos maduros se abrem para o mundo, e para si mesmos, através do contato aproximado com cidadãos de passaporte, língua e cultura estrangeiras.

O mais novo exemplar da filmoteca Eastwood chega há menos de dois meses do lançamento nos cinemas do seu último filme, o melodrama da Universal estilo anos 30, A Troca, um filme que eu já chamei aqui de obeso, mas que me agrada em muito.

Aos 78 anos de idade, Eastwood continua impressionando como um caso especial no cinema (já está filmando o próximo, The Human Factor), e Gran Torino ainda nos oferece o trabalho de um autor que não apenas narra bem e levemente, mas registra o tema do envelhecimento de forma totalmente coerente com a sua própria trajetória. Ele dá a sua cara a esse tema.

Eastwood, que abre seu filme com um enterro e um batizado, já vem abordando a passagem do tempo sobre o corpo e a aproximação da morte desde que passou dos 60, na época de Os Imperdoáveis (1992), algo desdobrado de maneira inusitada em Cowboys do Espaço (1999), para citar apenas dois.

Isso de um astro hollywoodiano que viu-se no auge da sua popularidade no final dos anos 60 e início dos 70. É fato que em 1972/1973, aos 42 anos, Eastwood atingiu o auge como astro de maior bilheteria em Hollywood via filmes como O Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971), de Don Siegel, seu mentor, alguns anos depois da sua fase spaghetti western com Sergio Leone, seu outro mentor.

É impossível não associar essa época ao ano de fabricação (1972) do Ford modelo Gran Torino estacionado na garagem de Walt Kowalski, o velho ranzinza que Eastwood interpreta de coração nesse novo filme. O Gran Torino verde de estado impecável parece uma espécie de troféu automotivo de um outro tempo, símbolo vivo de uma juventude americana que já se foi para esse velho resmungão que não agüenta a família nem os vizinhos.

Noções de correção política ainda não chegaram na casa desse viúvo, que detesta ver sua vizinhança tomada por “japas”, na verdade integrantes da comunidade Hmong, povo que os EUA herdaram depois da Guerra do Vietnã. Walt guarda ainda memórias duras da Guerra da Coréia, onde lutou muito jovem.

Ele irá se envolver com os seus vizinhos depois que Thao (Bee Vang), garoto adolescente, é levado a tentar roubar o Gran Torino pressionado por uma gangue de jovens Hmong que querem tomá-lo para o mau caminho. Com a participação da irmã mais velha de Thao, Sue (Ahney Her), há uma engraçada (e encantadora) aproximação do velho racista americano com os seus vizinhos, obstáculos que começam a ser superados não só através de uma conversa muito humana, mas também via comida e uísque de arroz.

A união inusitada de um homem de 78 anos com adolescentes inteligentes emocionalmente talvez expliquem o enorme sucesso do filme nas bilheterias (na verdade, a maior arrecadação de Eastwood em mais de 50 anos de carreira).

Gran Torino parece ter um apelo que vai de A a Z, mostrando com grande delicadeza que a união de mundos diferentes (jovens e velhos, nativos e estrangeiros) é sempre uma aventura humana sem igual. A naturalidade dessa aventura é um dos aspectos mais cativantes de Gran Torino, que mostra naturalmente a troca entre os que seriam diferentes, um espelho importante de cinema para uma cultura, a americana, que sempre trata o "estrangeiro" como algo que deve ser incompreendido.

Em outros níveis, Gran Torino é também um acréscimo maravilhoso à já citada filmoteca Eastwood. Há desdobramentos violentos no filme que não devem ser revelados, mas que reprocessam de forma consciente a imagem cinematográfica de um ator que interpretou muitas vezes a força bruta armada como reação à violência do homem.

Bem longe de filmar mais um filme da série Dirty Harry, com o personagem perseguindo bandidos aos 80 anos e gerando constrangimento, Gran Torino nos dá um sentido agudo de realidade. Algumas vezes nesse filme, vemos Walt/Eastwood já incerto do seu corpo, dentes cerrados, apontando um revólver fantasma com o dedo indicador como cano em direção aos que mereceriam, em outros tempos, morrer. Uma das imagens do ano.

Filme visto no Plaza Casa Forte Kinoplex, Recife, Março 2009

O Visitante


"Tu me ensinas a tocar djembe que te dou um espelho"

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Mais do que nunca na sua história, os EUA se viram repelidos pela idéia de “estrangeiro” depois dos ataques do 11/9, expressão máxima do mal vindo de fora na história americana recente. Como o Brasil, os EUA têm uma postura relativamente caipira de país continente onde a idéia do “estrangeiro” é sinônimo de estranheza, não obstante essas duas culturas terem sido construídas a partir de imigrantes. Em O Visitante (The Visitor, EUA, 2008), a outra estréia de hoje a trilhar um mesmo tema (ver Gran Torino), o cineasta Tom McCarthy parte para fazer o tipo de filme “para um mundo melhor” usando noções básicas de interação entre americanos e estrangeiros.

Como em Gran Torino, temos um americano maduro, o professor universitário Walter (Richard Jenkins, que foi indicado ao Oscar de Melhor Ator por esse trabalho, esse ano, perdendo para Sean Penn em Milk). Walter é um chato de galochas, o típico intelectual deprimido, acadêmico enfadado com a academia, parte desse desânimo oriundo da perda da sua esposa pianista respeitada, assunto que sentimos aos poucos na composição doída e sedada de Jenkins.

Chegando no seu apartamento de Nova York para apresentar um paper que ele apenas assinou, e onde não ia há quase um ano, descobre um casal de imigrantes ilegais morando lá, Tarek (Haaz Sleiman), sírio, e Zainab (Danai Jekesai Gurira), senegalesa. Estavam em regime de ocupação clandestina, Tarek um percussionista e Zainab artesã de pulseiras para vender. Se fossem brasileiros, ele jogaria capoeira e ela também faria artesanato.

O lado bom da história é que o casal é muito simpático, honesto e tornam-se amigos de Walter, que irá deixar que fiquem como seus hóspedes até que encontrem um lugar para ficar na cara e apertada Manhattan.

Diferente de Gran Torino, e o lado ruim desse aqui, é que tudo isso soa como se o americano enfadado (especialista em economia, mundo rico e mundo pobre), e sua relação com o casal de estrangeiros muçulmanos fizesse parte de um programa de interação cultural financiado por uma OnG. A conversa entre as duas partes não supera o aspecto raso, indo em direção à atração superficial pelo exótico.

Walter, por exemplo, descobre um mundo de possibilidades à sua frente ao ser apresentado por Tarek aos prazeres do djembe, um instrumento de percussão. A imagem de Walter espancando o djembe seria a idéia de interesse pelo estrangeiro, bicho exótico cheio de ginga, e o espectador logo poderá lembrar de turistas bem intencionados numa roda de capoeira no Pelourinho ou no Pátio de São Pedro.

O filme desdobra-se rumo à sua terceira parte quando Tarek é preso no metrô e levado para um crudelíssimo exemplo de arquitetura brutal, uma enorme caixa de sapatos de concreto sem janelas onde seu destino será decidido por uma lei fria de imigração. Entra no filme o que faltava até então na sua estrutura previsível, um interesse amoroso para Walter, na forma da bela mãe de Tarek, Mouna (Hiam Abbass, a teimosa dona dos limoeiros de Lemon Tree).

O Visitante talvez funcione mais pela sua boa vontade para com o tema do que pela sua delicadeza mecânica, muito embora boas intenções não sejam suficientes para muita coisa.

Filme visto no Box Guararapes, Recife, Março 2009

Glauber 70

publicado no Jornal do Commercio sábado, 14 de Março 2009

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


70 anos Glauber Rocha faria hoje, e é sempre difícil traduzir uma fração crível da sua importância como lenda real da expressão artística brasileira, em grande parte através do cinema. Se a noção de filme brasileiro tivesse uma constituição oficialmente outorgada, ela teria sido escrita por Rocha via seu texto histórico A Estética da Fome. Se o cinema nacional e latino americano tivesse um guru, ele provavelmente seria Glauber Rocha, um deus iconoclasta crente de que a bateria na música seria o que a montagem é para o cinema.

Glauber é hoje uma história real e uma lenda, ambas ricas em medidas iguais, e abertas para a desconstrução, a dilapidação e a desmitificação. Como Reiner Werner Fassbinder (falecido em 1983), Glauber morreu jovem aos 40 e poucos anos (42), virando um mito amparado por sua obra e os desdobramentos que surgiram a partir dela.

Artista claro e evidente com um discurso eletrizante quando falava ou escrevia sobre o cinema e as sociedades, o fato de ele não ser exatamente adotado como esse deus, ou reconhecido oficialmente como redator da nossa constituição fílmica, apenas reflete as saudáveis discordâncias que existem entre os que separam fato de lenda, dos que têm fé religiosa e os que se vêem ateus. Mais ainda, sua rejeição por alguns faz sentido pelo simples fato de a arte ser uma entidade livre de regras e autoridades impostas.

No último Festival de Berlim, por exemplo, o cineasta José Padilha, diretor de Tropa de Elite, mostrou pela primeira vez o seu documentário Garapa, sobre a fome no Brasil e no mundo. Filmado cruamente em preto e branco, Padilha respondeu a uma indagação glauberiana colocada por mim mesmo sobre o conceito de filmar a fome, e se, por um acaso, ele teve em mente as idéias de Glauber sobre a representação da pobreza, tão discutidas no cinema brasileiro.

“Eu nunca li o manifesto de Glauber. Eu não me interesso por manifestos, não acho que faz parte do meu trabalho dizer a outros colegas cineastas como se deve filmar, estabelecer regras, não obstante o fato de eu respeitar muito Glauber”, respondeu Padilha, com base no seu próprio trabalho.

A resposta nos lembra o debate histórico sobre Cidade de Deus, em setembro de 2002, em São Paulo, onde ficou tanto claro que as idéias de Glauber ainda podem fazer muito sentido para cineastas e críticos, como causar rejeição numa outra plataforma dos que fazem o cinema.

O debate também ilustrou indiretamente o tema controvertido da já citada fé religiosa numa virtual santidade de Glauber, uma vez que reações típicas da religião eram sentidas toda vez que alguém admitia corajosa e constrangedoramente “não gostar de Glauber nem do seu cinema”.

Ainda hoje, a frase é recebida com o mesmo tipo de choque que fiéis numa igreja ou templo teriam ao ouvir de alguém que “Deus não existe”, e o tom de sacrilégio foi repetido ano passado quando o humorista Marcelo Madureira foi ouvido gritando no Cine Odeon, durante sessão da dureza inconteste que é A Idade da Terra, a frase “Glauber é Uma Merda!”. O incidente gerou discussão em jornais e internet, inclusive discussões semânticas sobre a frase em si, uma vez que “Glauber é Um Merda” seria mais grave do que “Glauber é Uma Merda”.

É muito fácil admirar a trajetória de Glauber e seu legado, assim como diminuir o seu impacto, especialmente quando ele é utilizado como o metro com o qual procedimentos são medidos num cinema brasileiro como o feito atualmente no ano 2000, onde uma comédia de papelão como Se Eu Fosse Você 2 conquista quase seis milhões de espectadores. Tudo depende do quão benéfica a influência de Glauber pode ser no campo das imagens e das idéias pela manhã, ou o quão equivocada ela pode ser interpretada à tarde.

A longevidade das suas idéias sobreviveram fortes ao quase sumiço de circulação dos seus filmes ao longo dos últimos 15 anos, que viram raras cópias velhas em 35mm exibidas de maneira bissexta em salas isoladas do Brasil, e fitas VHS em péssimo estado sumirem naturalmente de locadoras do país.

Só nesta década que um trabalho de restauração e reapresentação dos seus filmes ofereceu a oportunidade de a mais nova geração de cinéfilos ter acesso decente aos filmes. Esse projeto chamado Coleção Glauber Rocha está sendo bancado pela Petrobras, Cinemateca Brasileira e Estúdios Mega, e dirigido por Paloma Rocha, sua filha, e Joel Pizzini, realizador e pesquisador do legado de Glauber. Da filmografia, já foram restaurados e lançados em 35mm e DVD (de excelente qualidade) Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967), O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) e A Idade da Terra (1980), seu último filme.

Curiosamente, o trabalho de manutenção e expansão da memória de Glauber não existe apenas na recuperação dos filmes. Rocha e Pizzini, que são casados, têm realizado filmes que abordam de forma acurada o universo do artista, como o sólido relato factual Anabasys.

Paula Gaitan, por outro lado, viúva de Glauber, fez, há dois anos, um dos mais belos retratos impressionistas sobre a mística em torno de Glauber Rocha na profunda reflexão em imagens e sons que é Diário de Cintra, que aborda exatamente a fase final da sua vida. É um filme tão pessoal que chega a doer.

Dono de um estilo único de filmar, e impossível de citar ou imitar sob o risco de vermos um pastiche grotesco (há inúmeros, especialmente em escolas de cinema), o cinema de Glauber Rocha traz uma carga impressionante de sincretismo num Brasil colado pelas culturas européia, negra e indígena.

A riqueza dessas imagens, aliás, não funciona apenas dentro de uma compreensão distanciada e intelectualizada, mas também numa explosão de montagem e câmera que gera uma certa tristeza ao sabermos que, mesmo deflagrando um sem número de debates e conquistando admiradores naturais no país e no exterior, seu cinema nunca realmente encontrou eco no grande público. Na verdade, poucas vezes no cinema o fosso entre arte e popular foi tão grande, ainda mais num cinema repleto de signos de um Brasil popular e populista.

Um caso em questão, e que ilustra algo dessa incompreensão: a simples menção à morte de Glauber Rocha em 22 de agosto de 1981, aos 42 anos, nos lembra um dos seus mais belos e grandes filmes, um curta-metragem, Di. Aqui, ele filmou uma celebração à alegria de viver em toda a sua energia no enterro do seu amigo, o artista plástico Di Cavalcanti, cujo velório aconteceu no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

"Ninguém Assistiu ao Formidável Enterro de sua Última Quimera, Somente a Ingratidão, Essa Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável", fala Glauber ao abrir seu filme que muito incomodou a família Cavalcanti, decretando-o banido de exibições públicas. Eles não entenderam que Glauber e sua câmera indiscreta, filmando detalhes do caixão e do falecido em closes fúnebres era, na verdade, uma atitude artística de respeito para com o amigo morto e de uma crueza agressiva para com as formalidades da morte.

O filme está disponível no You Tube, e ver Di hoje, dia em que Glauber faria 70 anos, seria uma lembrança viva da sua energia única.


Thursday, March 12, 2009

Entre os Muros da Escola


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Interessante como filmes se renovam, mesmo atendendo a uma série de convenções já tão conhecidas. Entre os Muros da Escola (Entre Les Murs, 2008), filme de Laurent Cantet, seria mais um signatário do micro-gênero “alunos e professores”, responsável por entretenimentos tidos como nobres do passado, Ao Mestre Com Carinho (1966), de James Clavell, e Sociedade dos Poetas Mortos (1989), de Peter Weir, para citar dois. A questão é que o filme de Cantet pertence à mais fina escola francesa de um cinema entregue à observação da sociedade, resultando numa demonstração delicada de crueza que chega intacta ao espectador. Também chegou intacta ao júri presidido pelo ator Sean Penn, no Festival de Cannes, ano passado, onde o filme ganhou a Palma de Ouro.

Para entender um pouco Entre os Muros da Escola, é bom saber algo sobre o seu diretor. O cinema dele acontece no nível da classe média trabalhadora, onde pequenos conflitos ganham um tratamento dedicado. Em Recursos Humanos (Ressources humaines, 1999), que não passou nos cinemas brasileiros, Cantet promove o choque entre um filho, recém formado em administração, que assume cargo no departamento titular de uma fábrica onde seu pai trabalha há 30 anos.

Seu filme seguinte levou muitos a crer que Cantet seria “o cineasta do trabalho”, uma vez que em A Agenda (L’Emploi du Temps, 2001), temos um pai de família paralisado psicológica e socialmente pela perda do emprego, saindo todo dia de manhã com terno, gravata e pasta sem ter a coragem de contar para ninguém que está desempregado. No seu filme seguinte, Em Direção ao Sul (Vers Lê Sud, 2005), Cantet abordou o abismo entre ricos e pobres ao mostrar um grupo de mulheres francesas, inglesas e americanas, indo ao Haiti para um turismo sexual sem grandes culpas, nos anos 70.

Chegando a Entre os Muros da Escola, Cantet dedica-se a nos mostrar os confrontos entre um professor de ginásio e sua turma de francês que ele também orienta, numa instituição pública de ensino nos subúrbios de Paris. O filme não poderia ser mais direto ao ponto, sem música, sem sair da escola e focando exclusivamente nas trocas verbais e nos olhares entre as partes. Muito se fala do quão falado o filme é, mas prestem atenção nos olhares, nas aprovações e desaprovações, na incapacidade que alguns alunos têm de levantar os olhos, e na facilidade de outros de destruir com os olhos.

Se não tivesse claramente se assumido um filme de ficção com atores (e não-atores), poderia passar como um documentário de cinema direto, do estilo “mosca na parede” que tudo ouve e tudo vê. Em duas horas, registra-se um processo que dura, no filme, o ano letivo, começando com a volta às aulas, terminando com o início das férias.

Ainda sobre uma idéia de ‘realismo’, importante destacar que o ator e roteirista François Bégaudeau escreveu o livro homônimo sobre o qual Cantet fez o filme. Bégaudeau interpreta ele mesmo (ou uma versão bem próxima dele mesmo), também François, um professor diante de uma turma que traduz a mistura racial e étnica que forma a paisagem humana na França, hoje.

Temos meninos e meninas facilmente descritos como franceses, e outros, como Suleymane (Franck Keïta), que luta para se considerar francês via suas origens nas Antilhas. Há os que não querem ser franceses, como Khoumba (Rachel Régulier) e Esmeralda (Esmeralda Ouertani), irritados demais para assumirem identidades que julgam impostas. O garoto chinês Wey (Wei Huang) observa tudo com misto de generosidade e perplexidade, fator auxiliado pelo seu domínio limitado do próprio francês, e talvez um talento nato para a matemática.

Vendo essa turma tão cultural e racialmente diferente, podemos começar a pensar na realidade da educação no Brasil, onde noções básicas de cidadania inexistem em escolas particulares caras que segregam natural e cruelmente cor e poder aquisitivo, formando novas gerações de preconceito e isolamento culturais, uma vez que a noção de escola pública permanece frágil o suficiente para atender unicamente as demandas das classes menos favorecidas. Triste.

Filmado como uma série de confrontos no ringue que é a sala de aula, Cantet nos dá intervalos narrativos ao acrescentar ainda mais tensão com os bastidores da escola. Comissões disciplinares onde punições inúteis precisam ser decididas e onde o preço exorbitante da máquina de cafezinho também é discutida dão abrangência ao filme, assim como o contato com alguns pais. Cantet, no entanto, não nos priva de um humanismo do mais puro bom gosto, como num brinde delicadíssimo de champanhe proposto na sala de professores a duas crianças.

É tudo muito preciso, e esse humanismo ganha a mais perfeita tradução na sensação que temos de não estarmos diante de mais um filme sobre professores e alunos onde o mestre é aquele monumento de bronze e sabedoria inspiradora e irretocável. No caso de François, eis um professor que está ensinando, errando e aprendendo diariamente, exatamente como seus alunos. Nos lembra que educação é uma troca, e não uma ordem. Linda imagem final.

Filme revisto no Cinema da Fundação, Recife, março 2009.

Sex Drive


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Um doce para quem não abrir alguns sorrisos acima do amarelo com a comédia primitiva sobre adolescentes americanos com ganas de perder a virgindade que é Rumo ao Sexo (Sex Drive, EUA, 2008), estréia de hoje. A coisa é mesmo rudimentar e indefensável, mas há um contexto amável no filme sobre amizades e companheirismo que o colocam em alguma sub-categoria do gênero atualmente dominado pelos filmes de Judd Apatow, que fez os muito interessantes (eu juro que são) O Virgem de 40 Anos e Superbad, filmes, aliás, bem melhores do que esse.

Ian Lafferty (Josh Zuckerman) é um garoto de 18 anos com dupla personalidade, uma no chat on line, onde seria um jogador de futebol americano musculoso (a montagem da cabeça de Ian no corpo inchado é perfetamente horrorosa), outra na realidade, onde é um garoto normal, tímido, que se veste de rosquinha para divulgar a lanchonete onde trabalha, num shopping, e que observa preocupado todos se dando bem, menos ele.

Tímido demais para conseguir conquistar a menina que ele gosta, sua amiga Felicia (Amanda Crew), já experiente, ele monta um esquema com uma garota que mora numa outra cidade, via chat, a promessa de uma primeira vez com o tipo de menina boneca-inflável que aparenta ser a norma de beleza e atitude nos EUA.

Ian convida Felicia e Lance (Clark Duke), seu outro bom amigo, para irem de carro em direção ao encontro que irá resolver seu atraso. A viagem fica a umas 12 horas de carro e tudo vira um road movie depois que Ian rouba o Dodge anos 70 do irmão mais velho, troglodita que espera sair do armário.

Ian, Lance, um tipo intelectual cínico com sucesso entre as meninas, e Felicia se metem nas proverbiais ‘maiores confusões’, com direito a uma parada numa comunidade Amish que revela-se competente em festas e bebedeira, além de problemas no carro do possesso irmão, que os persegue.

É tudo meio cru e grosso, mas não sem alguma graça, como se os responsáveis estivessem a serviço de uma lezêra mas conseguissem incluir algumas verdades que presenciaram em algum lugar. Numa cena, por exemplo, Ian leva um fora de uma garota, numa festa, sua cara no chão observada por um outro convidado que sorri e diz “dureza, né?”.

Aspecto ainda mais positivo do que nos filmes de Apatow é a idéia de que o sexo existe e pode ser praticado pelos personagens principais, sem culpas ou moralismos, especialmente se as pessoas forem do bem. Para completar, a equação obrigatória nesse tipo de coisa – sexo = constrangimento – relativamente baixa, desta vez.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Recife, Março 2009