
Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com
Esta semana, na cabine de imprensa de Wall-e (EUA, 2008), o novo produto da incrível fábrica Pixar, pediram aos jornalistas que entregassem seus celulares à representante da Disney, ordens expressas da grande corporação do castelo encantado para que os telemóveis não fossem usados como máquinas de pirataria. Os três colegas que atenderam ao pedido (declinei polidamente, dentro das possibilidades) viram seus aparelhos embrulhados em sacos plásticos de investigação forense. Ironicamente, protegiam um filme industrial que apresenta bela reflexão sobre um mundo feio de marcas e máquinas. A saber, meu modelo é esse, equipado com duas câmeras e, pelo menos uma delas, capaz de captar imagens decentes durante alguns minutos. Permaneceu comigo. Juro que não gravei nada.

Já há algum tempo que tornou-se repetitivo escrever anualmente sobre a excelência da Pixar, a produtora de Toy Story (1995), Os Incríveis (2004) e Ratatouille (2008), todos nota dez. Se fosse um time de futebol, a Pixar seria o campeão invicto há 13 anos, sempre de goleada. Seus vices (Shreks, Abelhas e Pandas, geralmente da Dreamworks Animation) fazem sucesso lutando pelos vitoriosos segundos lugares com piadas televisivas e animações esforçadas.
A Pixar, que foi comprada pela Walt Disney Company por sete bilhões de dólares depois de abafar os filmes da própria Disney em repercussão e arrecadação, conseguiu, sob contrato firmado a ferro e fogo, manter-se livre artisticamente da mãe controladora, sua distribuidora. É um ninho californiano de jovens criadores que continua avançando rumo ao infinito e além com obras cheias de imaginação.
Em Wall-e, o personagem principal é um robô com a sigla titular ainda legível na velha lataria (Wall-e: "waste allocation load lifter – class Earth", ou "empilhadeira de carga para distribuição de lixo – classe Terra"). O conceito é lindo. Essa maquininha é a imagem radical da solidão, o último 'habitante' da Terra, ou talvez dos EUA, que virou um grande lixão. Ele vive numa paisagem de sucata entre montanhas de dejetos das grandes corporações que só industrializavam em larga escala, talvez como a própria Disney.
Como em Blade Runner, a raça humana foi literalmente para o espaço, vivendo em colônias "off-mundo". É retratada como uma nação em órbita formada por americanos obesos cujo sedentarismo - assistido por todo tipo de tecnologia consumista - aboliu o simples contato olho no olho. Nessa sátira a toda uma civilização, o ser humano virou um mamífero inerte com a graça de leões marinhos, inchado pelo seu próprio conforto tecnológico adquirido.
Sozinho na Terra, Wall-e empilha o lixo deixado por essa cultura. No fim do dia, tem uma casinha para onde recolhe-se, sua única amizade a de uma simpática baratinha, a imagem poética da sobrevivência. Um VHS do musical da Fox Hello Dolly (1969) traz algum alento para rotina tão insalubre.
A recorrência do elemento industrial chama a atenção na Pixar. A humanização de brinquedos em Toy Story, ou automóveis, em Carros (2006), é levada a um outro nível, visual e sonoro. O diretor Andrew Stanton, que levou o Oscar de animação por outra demonstração de excelência via Pixar, Procurando Nemo (2003), investe na narrativa puramente visual com leveza marcante, sem diálogos durante boa parte da projeção.




Estão lá parte do design e da idéia de descontrole via tecnologia de 2001, de Stanley Kubrick, referencias visuais a construções marcantes de Alien e Aliens, em especial no tom industrial de um futuro velho, feito pelos restos da civilização, também de Mad Max. Jacques Tati e seu Playtime não deve estar longe, sem falar que Wall-e, sua amada sonda branca Eva e o filme em si tem a resistência, arrojo de design e confiabilidade de um Mac.
Não é apenas uma questão de admirar a riqueza do conceito, e de como ele é explorado, mas também de levar em conta o cheque branco que a Pixar teve ao nos mostrar um novo filme tão silencioso, por uma vez desprovido da idéia muito comercial de família e que ainda mostra um mundo em grande parte destruído pelas simpáticas multidões de gordos que, na verdade, somos nós, a raça humana.
Em Fim dos Tempos, tivemos um outro colapso da vida na Terra, talvez uma revolta da flora contra a raça humana. Em Wall-e, mais uma vez as preocupações com os destinos do planeta ganham imagens poderosas que só o cinema americano, na sua melhor expressão, é capaz de nos dar. É uma justificativa eco-temática num filme que mimetiza aquilo que ele mesmo é: máquina, indústria e lixo.
Filme visto no UCI Tacaruna, Recife, Junho 2008

