
por Kleber Mendonça Filho
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Nos chamou a atenção que os dois filmes lançados hoje no circuito comercial – Um Sonho Possível e O Livro de Eli – poderão facilmente ser projetados em escolas da bíblia para platéias cristãs que queiram reiterar sua fé. Esse tom conservador exultante pode ser sobra da doutrina dos anos Bush-pós 11 de Setembro, quando o sentido de “ser americano” fechou-se ainda mais como um caracol em torno da idéia de família, do patriotismo e da religião.
Em O Livro de Eli (The Book of Eli, 2009), dirigido pelos Irmãos Hughes, temos uma versão especial de um sub-gênero conhecido: o filme pós-apocalíptico, muito em voga nos anos 60 e 70 (O Planeta dos Macacos, The Omega Man, Mad Max) como produto do medo de uma guerra nuclear entre capitalismo e comunismo. No geral, esse tipo de filme tinha um herói que refletia o desespero da anarquia que tomaria o mundo, ele mesmo levando sua descrença e seus medos na nossa frente. É o tipo de produto artístico onde um pouco de nihilismo faz sempre bem.
Já em O Livro de Eli, o herói titular é interpretado por Denzel Washington, ator que impõe qualidades imaculadas aos seus personagens, desde sempre. Eli certamente se comporta como os heróis do passado, um homem capaz de usar a ultra-violência contra os que partem para cima dele com selvageria. No entanto, Eli revela-se totalmente diferente.
Além de naturalmente imaculado via Washington, Eli é um herói messiânico que recebeu uma missão de espalhar a palavra de Deus sobre a terra como o portador das velhas boas novas. Não há quedas ou erros nesse homem pós apocalíptico, pois ele é o certo e o escolhido. Depois de 15 minutos, é como se víssemos Jesus desafiando a paisagem com um facão, pistola e 12.
O livro também vira objeto de desejo do malvado da história, Carnegie (o sempre interessante Gary Oldman), que quer usá-lo como instrumento de poder (ele é visto lendo biografia sobre Mussolini).
Carnegie é o chefe de uma comunidade onde tudo se troca, a personagem de Tina Turner da Bartertown de Mad Max Além da Cúpula do Trovão, onde a vida também vale pouco. O escritório de Carnegie fica nas ruínas de uma sala de cinema.
Os Irmãos Hughes dirigem com alguma tentativa de estilo, mas eles próprios parecem ter uma missão: a de nunca permitir que seu filme exista como uma divertida aventura (a sequência do casal de idosos é a mais séria ameaça nesse sentido). É uma quase-culpa católica, pois O Livro de Eli é um desses projetos tristes que sugerem aspirações mais profundas e espirituais.
Eu simpatizo com os Hughes, faziam (talvez ainda façam) produtos autorais curiosos, cheios de energia mas pobres de construção e iseguros no estilo sempre agressivo. Para quem viu Menace II Society (1993), Dead Presidents (1995) e From Hell (2001), talvez concorde.
Em Livro de Eli, parecem usar manuais de instrução para chiliques modernos a partir de material reciclado. A fotografia é escura, mesmo no deserto, e cinza esverdeada, mesmo sob céu azul. Essa artificialidade parece combinar com a monotonia messiânica de Eli, que faz amizade casta com a garota mais gracinha (e limpa) do mundo pós apocalíptico (Mila Kunis), enquanto o filme atinge dois coelhos com uma só pedra: é sertanejo e gospel, ao mesmo tempo.
PS: a virada final não faz sentido para ateus.
Filme visto no Plaza casa Forte, Recife, março 2010