Saturday, May 17, 2008

Linha de Passe

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Passou agora de manhã para a imprensa o Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, o segundo brasileiro na competição de Cannes 2008, o primeiro foi Blindness, de Fernando Meirelles. A primeira impressão é a de talvez ser o melhor momento de Salles desde Central do Brasil ou, melhor, Terra Estrangeira (1995) que também foi fruto de parceria com Thomas. O filme me chamou a atenção em diversas questões.

Linha de Passe tem como cenário a cidade de São Paulo, em especial sua periferia. Foi estranho ver imagens de São Paulo filmadas por dois dos mais destacados cineastas do Brasil, nas telas de Cannes, com um intervalo de três dias. E essas imagens não poderiam ser mais diferentes no tom.

Em Ensaio Sobre a Cegueira, Meirelles usou São Paulo como um cenário artificial, ou um cenário real maquiado de ficção, uma cidade genérica, fotogênica no seu caos e feiúra. Perguntei a Meirelles, uma vez que, se a cidade pertenceria a uma outra dimensão, porquê utilizar de maneira tão eloqüente o Minhocão, por exemplo? "O filme foi feito para o mundo inteiro ver, e no final das contas, digamos que 5% do público total de Blindness será brasileiro, portanto ainda restam todos os outros espectadores que não conhecem a cidade". Meirelles pode estar certo, uma vez que colegas estrangeiros nem sabiam que tratava-se de São Paulo, Mahnola Dargis, critica do The New York Times, inclusive escreveu que "Toronto está uma bagunça no filme".

No filme de Meirelles, dotado de notável trabalho de faz de conta técnico, vemos com freqüência nos cantos dos planos placas de veículos com o design familiar brasileiro do Detran (três letras seguidas de quatro números, cor cinza), mas no espaço superior reservado para a cidade e o estado, há um vazio, como se a identidade tivesse sido digitalmente apagada, a maior deixa cênica para a perda da identidade da cidade no filme.

Vendo o Linha de Passe, de Salles e Thomas, não foi difícil chegar a lembranças de Terra Estrangeira, e de como aquelas imagens de São Paulo, no preto e branco granulado da ressaca Collor, talvez fossem até mais muito interessantes como tratamento visual e atmosférico para o livro Ensaio Sobre a Cegueira!

Nesse novo filme, a intenção é trazer uma representação fiel e urgente de São Paulo, e a referência mais recente é a de Os 12 Trabalhos, filme de Ricardo Elias onde o seu personagem principal também é um motoboy, profissão paulistana que também ganha grande destaque em Linha de Passe.

O motoboy em questão é um dos quatro irmãos de uma mesma mãe, moradores da periferia e, cada um deles, vivendo suas vidas em montagem paralela que consegue não apenas equilibrar as histórias de cada um deles sem que nenhuma pareça precária ou carente. Principalmente, nos dá a sensação de que aqueles personagens, durante a maior parte da projeção, não existem exclusivamente para satisfazer as vontades dos realizadores (algo que eu senti em Os 12 Trabalhos). Fica a sensação de que esses cinco existem fora do filme.

Vale observar que essa família carece de uma figura paterna, aspecto levantado na coletiva de imprensa por uma jornalista italiana que fez menção a Rocco e Seus Dois Irmãos e a um certo aspecto possível de influência do neo-realismo italiano. A carência paterna (ou presença forte de uma mãe) está presente em Terra Estrangeira, Central do Brasil e Água Negra, que Salles fez em Hollywood.

A ausência do pai é problemática para pelo menos um deles, o mais novo, vítima daquele tipo bem carinhoso de racismo brasileiro intra-familiar, o racismo do tipo carinhoso. Negro, seu pai é visto num toque reconhecivelmente autoral através de uma foto rasgada, o pai separado (por um rasgão no papel) da mãe, num momento do passado onde os dois, aparentemente, existiam como um casal.

Esse garoto, Reginaldo (Kaique de Jesus Santos), nutre atração por ônibus, lindamente desenvolvida em imagens (o ensaio dele atrás do motorista é talvez a cena mais expressiva do filme) ao longo da narrativa para um "pay off" no final que, segundo o próprio Salles na coletiva, foi algo adaptado de fato, a história de um garoto da periferia que chegou a roubar mais de 30 ônibus, dirigindo-os pela cidade. O fato foi abordado num curta, infelizmente pouco visto, chamado O Menino e o Bumba (13 minutos, 2007), dirigido por Patrícia Cornils.

Salles volta também à questão dos milhares de anônimos que dão seus nomes em seqüências de cortes rápidos, como em Central do Brasil, ou mesmo na montagem de rostos latinos de Diários de Motocicleta, e desta vez temos um dos meninos (Vinícius de Oliveira, de Central do Brasil, agora adulto) como aspirante a jogador de futebol, que sabemos ser o principal sonho de profissão dos meninos pobres brasileiros.

Um terceiro irmão embrenhou-se numa igreja, tentando espalhar a palavra de Deus, e o personagem da mãe (gestante de um quinto) traz para o filme a questão das classes, uma vez que sua patroa é da classe média alta, provável moradora de Pinheiros ou dos Jardins.

Chama a atenção no filme a maneira agressiva como o trânsito é filmado, e isso inclui dois momentos que passam discreta e seguramente como "cenas de ação". Há também uma tentativa valente de filmar futebol, algo que nunca realmente funciona no cinema, seja ele brasileiro ou não. Minha teoria é que algo na fluência da montagem em cinema revela a natureza falsa dos momentos diferentes colados, e com a educação de anos de TV ao vivo, os olhos se recusam a aceitar. Mesmo assim, Vinícius tem a presença física adequada para acreditarmos na sua instabilidade em relação a tudo o que não tem a ver com futebol.

Linha de Passe, no entanto, chega a uma conclusão que me incomoda. Parece existir uma desejo de se chegar a algum lugar em relação aos personagens, cada um terminando com a sua assinatura cinematográfica do que o destino pode estar reservando para eles, e isso num filme que sai-se tão bem na demonstração livre de pequenos momentos da vida.

Uso de música ( Gustavo Santaollala) cria os trilhos mágicos sobre os quais veremos os rostos de cada um deles, numa tentativa de deixar os finais abertos para cada um, mas, ao mesmo tempo, distribuindo boa vontade e compaixão para um grupo que sugere algo de piegas.

De qualquer forma, Salles e Thomas nos dão um painel humano rico, com a estampa forte de um lugar, e quase todas as notas soam afinadas. Em termos de cinema brasileiro, Linha de Passe representa o que melhor há atualmente, e internacionalmente encaixa-se nas especificações do cinema latino que tem marcado presença. Não é coincidência que Leonera, de Pablo Trapero, co-produzido pela Videofilmes de Salles, esteja tão perto em tom e estilo.

Filme visto na Lumiere, Cannes, Maio 2008

Julianne Moore - (vídeo)

Julianne Moore na Vogue francesa de maio. Ahem.

Vou postar trechos de entrevistas feitas aqui, essa é com Julianne Moore, feita com seis outros jornalistas no Hotel Martinez. Infelizmente, sem legendas em português, sem tempo para legendar.

No contexto de um projeto internacional como Blindness, perguntei se há diferença para o trabalho do ator no trato com cineastas estrangeiros e americanos / Hollywood.

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Nesta segunda parte, perguntei sobre trabalhar em São Paulo.

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Terceira pergunta questiona se alguém como ela fica com alguma cicatriz deixada por personagens. Mencionei a atuação dela em Savage Grace, de Tom Kalin, que passou ano passado na Quinzena dos Realizadores, atualmente em cartaz no Brasil.

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Entrevista Julianne Moore

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Julianne Moore é aquela com algo de uma presença notável nos filmes, muitos lembram dela em Boogie Nights e Magnólia, filmes de Paul Thomas Anderson, ou Fim de Caso, de Neil Jordan, apresentando intensidade constante num rosto de ruivo de feições fortes. Ela parece com facilidade trafegar entre o cinemão (fez Jurassic Park: O Mundo Perdido, de Spielberg, e Hannibal, de Ridley Scott) e, cada vez mais, projetos que apresentam desafios evidentes, como a mãe alcoólatra e incestuosa de Pecados Inocentes (Savage Grace), filme que a trouxe a Cannes ano passado, via Quinzena dos Realizadores. Esse ano, ela volta a Cannes para apresentar Ensaio Sobre a Cegueira, o filme do brasileiro Fernando Meirelles que abriu o festival, também na competição, adaptado do romance de José Saramago. Na última quinta-feira, Moore recebeu a reportagem do Jornal do Commercio no Hotel Martinez, em Cannes.


Pergunta – José Saramago viu o filme?

JM – Ainda não, a filha dele estava na sessão oficial, ela gostou muito, o que me deixou feliz. Nesta próxima sexta, eles vão levar o filme para Lisboa para que ele o veja.

KMF– O seu personagem, "a mulher do médico", sai fortalecida no filme. Quando de você mesma foi no fortalecimento da personagem?

JM – Como atriz, a melhor coisa que você tem ao seu dispor é você mesma. Você tenta sempre enfocar do ponto de vista dela e aí você vai se colocando aos poucos. Com essa personagem, eu não conseguia nem enxergar o seu "o arco", se é que ele existe, eu só tinha que ir daqui para ali. Literalmente, ela ia por partes, tipo, "hoje eu faço isso", "hoje eu lavo as roupas dele", "isso está sujo". Há uma cena que infelizmente foi cortada onde eu lavava o cabelo de Alice (Braga), ela tentava se lavar na pia e eu chegava e lavava o cabelo dela. Não era um sistema onde ela pensava "vou ajudar essas pessoas que não estão enxergando", mas pequenos passos tomados em direção a um senso de responsabilidade.

KMF– Qual seria o objetivo do filme para vocês que o fizeram?

JM – Filmes não prevêem nada, filmes apenas refletem. Quando você adapta literatura, tenta-se iluminar uma história com o próprio cinema, tenta-se habitar essa história. Não faz parte do meu trabalho dizer o que vai acontecer porque, afinal de contas, esse filme reflete uma ansiedade que aflige toda uma cultura globalmente. Como Fernando diz sempre, há várias maneiras de olhar para essa história, politicamente, socialmente.

KMF – A cena que muitos comentam no filme é a do estupro do grupo de mulheres, também momento forte originalmente do livro.

JM – Nós nunca duvidamos da capacidade e delicadeza de Fernando para tocar essa cena. Sabia que ele seria específico e cuidadoso em relação ao que ele precisava. Também tínhamos um grupo de atores muito conscientes em relação aos sentimentos dos colegas. É também uma cena importante também até por fazer alguns questionar "será que as pessoas desceriam àquele ponto?" É claro que sim, e um comportamento conhecido nas guerras, estupro. Na verdade, trabalhar o livro Ensaio Sobre a Cegueira é tarefa tão árdua para o ator, especialmente para o meu papel. Como atuar e mostrar que ela quer fazer algo, mas ela não faz? A direção de Fernando (Meirelles) me permitiu desenvolver isso, pois ele administra tanta informação ao mesmo tempo em que ele pinta o quadro com um pincel pequeno, que deixa que o seu rosto fale muito do que fica implícito.

KMF – Na coletiva de imprensa você parecia empolgada com a idéia de filmar com diretores de outras nacionalidades, Fernando Meirelles, brasileiro, um filme recente seu ainda em finalização – Shelter - dirigido por dois suecos, Måns Mårlind e Björn Stein. Há uma diferença entre trabalhar com diretores americanos e estrangeiros?

JM – Eu sou uma atriz americana e aço filmes, em grande parte, americanos. No entanto, o mundo está mudando e essa "experiência global" está se tornando mais presente e ganhando reflexo no mercado de cinema. Ao mesmo tempo, não há uma diferença. É claro que há diferenças culturais, o que, obviamente, vira piada rapidamente, "o que faz os suecos serem o que são?", "porquê brasileiros são diferentes?", mas no final das contas, quando você está ali trabalhando, todos usam o mesmo vocabulário, o do cinema. Outra coisa é que, como artista, abre literalmente outros mundos para você que não estavam disponíveis dez anos atrás, ou mesmo cinco anos atrás. Ensaio Sobre a Cegueira, por exemplo, foi financiado com dinheiro do Japão, Canadá e do Brasil.

KMF – Vendo ano passado Pecados Inocentes aqui em Cannes, fica difícil não cogitar se uma atriz como você não fica com cicatrizes deixadas por personagens.

JM – Não fico, é tudo faz de conta. Tenho enorme interesse no comportamemto, porque as pessoas fazem o que fazem, porque as coisas acontecem, as conseqüências do comportamento. Fiquei fascinada pela família Baekeland (família adaptada de personagens reais, em Pecados Inocentes), eles eram realmente problemáticos psicologicamente, era claro que havia ali doença mental, alcoolismo e drogas, necessidade voraz por atenção, ela era maníaco depressiva e alcoólatra, ele foi diagnosticado como paranóico esquizofrênico.

KMF – Você está na capa da Vogue francesa esse mês, em todas as bancas. Você gosta de fazer esse lado "glamour"?

JM – Sabe que gosto?! Essa capa, em especial, eu levei muito a sério, toda a equipe representa o que há de mais sofisticado em estilo hoje no mundo, nós fotografamos muito rapidamente, foi tudo muito fácil, eu tenho que dizer que achei o máximo estar na capa da Vogue francesa.

KMF – Como foi sua experiência em São Paulo, durante o tempo em que filmou lá?

JM – Obviamente que me diverti muito lá, as pessoas foram fantásticas, mas é tão grande, tão movimentada. Até mesmo Fernando voltava impressionado com a energia louca da cidade. É uma cidade de extremos, e acho que isso foi perfeito para o filme, com riqueza extrema e pobreza extrema lado a lado. É mais um exemplo de "será que as pessoas estão vendo isso, ou estão preferindo não ver?" O próprio uso de helicópteros para evitar áreas ruins é uma amostra disso. O que acontece numa cidade como São Paulo é apenas mais dramático, pois é algo que se passa em todo o mundo.

Escrever Rápido! Meirelles! Tarkovsky!

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Na conversa com Fernando Meirelles ontem ele falou sobre a pressa com a qual filmes são julgados em Cannes e, de fato, é um ponto curioso. Ele pareceu associar as críticas mais positivas aos jornais do mundo que, supostamente, tiveram mais tempo para fazer Ensaio Sobre uma Cegueira decantar com mais cuidado, o que eu discordo. No quadro da Screen International de hoje, o filme do Meirelles mantém-se na lanterna geral com média 1.4, o filme turco 3 Macacos, de Nuri Bilge Ceylan é o mais alto – 2.8. O que eu acho é que quem gostou de Blindness gostou do filme, e essas criticas foram escritas na mesma pressa dos que não gostaram.

De qualquer forma, isso faz parte do jogo, para o bem e para o mal, especialmente para uma obra que foi colocada na vitrine mais extrema de um festival como Cannes que, apenas, é o maior e mais importante do mundo.

Com 10 anos de festival, eu continuo achando essa experiência a mais importante do ano no trabalho como crítico, e a questão da velocidade do escrever e da capacidade de processar muitas vezes atropea o próprio teclado, e na maioria das vezes há uma próxima sessão começando a um quilômetro em 20 minutos.

Em Cannes, você parece atingir um estado de ultra-sensibilidade ao que se vê que, na melhor das hipóteses, irá render um excelente e afiado trabalho. Na pior das hipóteses, o crítico irá voltar dois dias depois para um texto e não reconhecer ali o que, naquele novo momento, ele sente em relação ao filme sobre o qual escreveu. Isso pode acontecer também em setembro ou janeiro.

Friday, May 16, 2008

Une invitation pour Vicky Cristina Barcelona SVP

Allen e os Poderes Liberadores

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Acabo de sair da sessão especial fora de competição do Vicky Cristina Barcelona, novo filme de Woody Allen que passou para uma Debussy lotada. É certamente um dos exemplares mais genuinamente divertidos da vasta galeria de filmes realizados no esquema industrial desse autor que vem perdendo alguns gramas (alguns diriam quilos) da sua credibilidade ao longo desta década com uma safra 2000 não muito memorável. Isso talvez me leve a olhar para VCB com uma afeição que, suspeito, continuará intacta amanhã de manhã. O filme deverá despertar comentários por causa de um beijo entre Scarlett Johannson e Penélope Cruz, momento dos mais simpáticos.

Vicky Cristina Barcelona é sobre alguns temas que ele já visitou nos quase 40 anos de sua filmoteca, como o poder das mulheres sobre os homens, a inspiração artística, a projeção de alguém numa outra pessoa, sobre beber vinho e se encharcar de arte. Acima de tudo, sobre o poder das viagens em todos nós.

Dá continuidade também ao fascínio que Allen tem de abordar os dois lados de uma face, não tanto aqui as máscaras do drama e da comédia (algo que ele faz indiretamente entre um filme e outro), mas em Vicky Cristina Barcelona nas duas amigas titulares, jovens e belas (Rebecca Hall como Vicky, Scarlett Johannson como Cristina). Elas vão passar o verão em Barcelona, na casa de uma amiga dos pais.

Vicky é a menina rica e bem comportada, estuda cultura catalã para o mestrado, está noiva de um cara rico da alta roda de Nova York, Doug (Chris Messina). Cristina é mais aberta a experiências, uma curta metragista que detestou o filme de 12 minutos que fez (era sobre a essência do amor), e assinante da filosofia do viva e deixe viver.

Numa noite, as duas conhecem um pintor espanhol, Juan Antonio (Javier Bardem), típico boêmio europeu que recupera-se da separação de sua esposa Maria Elena (Penélope Cruz), com quem desenvolveu um violento relacionamento que terminou por deixá-lo com uma faca encravada no corpo.

Elena, no entanto, era o motor artístico de Juan, uma força da natureza capaz de inspirar os que estão próximos a fazer coisas boas e também de reescrever comportamentos sentimentais, e também sexuais. Cruz está um prazer (!), e ver Bardem passar de predador gente fina a ex-marido gente fina ciente da força que ela tem é também um dos muitos pontos positivos.

Allen consegue dar ao todo um tom inusitado de credibilidade que, ao que me parece, veio de algum verdadeiro interesse por um clima de Europa. Bom lembrar que esta é a primeira vez que ele deixa, por completo, uma estrutura anglo-americana de produção e ambientação (salvo, talvez, Todos Dizem Eu Te Amo que, de qualquer forma, era todo habitado por americanos).

Há uma piada recorrente entre Juan Antonio e Maria Elena ("speak English, please") que quebra falas em espanhol legendado, algo digno de nota em filmes feitos por americanos, onde o inglês é língua oficial mesmo em países estrangeiros.

Na verdade, há um certo clima de uma certa Europa que, de fato, existe, uma atmosfera que parece ter chamado a atenção de Allen mais do que ele teria sido capaz de deturpar como gringo visitante.

Desdobramentos que envolvem diretamente Barden, Johannson e Cruz funcionam sem grandes problemas, e Hall realmente impressiona com sua sexualidade reprimida entre o envolvimento do presente e o compromisso que ficou nos EUA. Não há sinais nesse filme das aventuras emocionais e sexuais atrapalhadas dos personagens típicos que gaguejam irritantemente no mundo de Allen, mas trocas entre homens e mulheres que fazem sentido num romance de verão.

O filme é também o trabalho claro e evidente de um diretor macho que cercou-se de três personagens femininas maravilhosas física e psicologicamente, e não é nada estranho que o beijo lento e sensual entre Cruz e Johannson aconteça sob os desígnios desse autor. Vicky Cristina Barcelona consegue narrar com grau curioso de sensatez, mas conseguindo ainda um resultado que pode ser genericamente descrito como muito divertido.

Ironicamente, o mundo dá tantas voltas e chega ao mesmo lugar. Vicky Cristina Barcelona seria mais um dos filmes de Allen realizados ao longo dos últimos dez anos longe dos esquemas americanos de produção, créditos de abertura, inclusive, marcados por instituições européias e técnicos da Espanha. A ironia é que a cópia mostrada em Cannes abre com a vinheta da Warner, que, também por ironia, deverá ter um hit e tanto nas salas alternativas do mundo.

Filme visto na Sala Debussy, Cannes, 16 de maio 2008

Foto do Dia

16 de maio

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Meio inacreditável o dia de hoje, correndo de uma coisa para outra, acumulando informação e filmes, e sem ter tempo para escrever. Sem também almoçar, vi o Depleschin novo (gostei) de manhã, corri para escrever alguma coisa, depois fui conversar com Meirelles (falou abertamente que está triste com recepção - alguém leu hoje a cobertura do New York Times? Nossa. -, depois o romeno da Quinzaine, Boogie (gostei, dentro da baixa voltagem precisa do cinema deles atualmente), depois corri ara o Woody Allen novo, que eu adorei. Foi o primeiro grande momento de prazer em Cannes, e chega depois de 3 dias, not bad.

Vicky Christina Barcelona talvez seja um dos filmes mais realistas de Allen, me parece que filmar na Espanha, de fato distante da cultura anglo-americana, parece ter feito enorme bem a ele. Um filme sobre artistas, criação, mulheres e a força maravilhosa das viagens pela Europa, a sala estava cheia, Scarlett Johansonn, uma tal de Rebecca Hall praticamente ameaça a presença de Johannson de tão boa e crível, e ainda tem Penélope Cruz e Javier Bardem não apenas totalmente dentro do filme, mas, ao que me parece, colaboradores que devem ter feito hora extra no mood de tudo.

depois escrevo mais, agora correndo novamente para ver doc sobre Mike Tyson, com o homem na platéia.

Meirelles sobre a recepção de "Cegueira"

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Tive a oportunidade de conversar hoje com Fernando Meirelles e, claro, foi colocada a questão da super exposição que diretores recebem em Cannes e também como ele sentia a recepção de Ensaio Sobre a Cegueira. Vale informar que, pessoalmente, não há cineasta hoje que tenha, no contato com a imprensa, postura tão aberta e livre de subterfúgios, o que ele fala é o que ele sente, aspecto também presente nos seus blogs de filmagem que escreve durante seus processos de realização.

"É claro que ninguém se prepara, não é? Ontem eu estava realmente triste com a recepção dura para o filme. Eu nunca havia tido uma recepção dessa, foi a primeira vez", falou.

Meirelles acredita que em Cannes, há uma pressa enorme por parte da critica no sentido de ter que escrever sobre um filme imediatamente após a sessão. "Eu mesmo, muitas vezes, não gosto dos filmes de Wong Kar Wai durante a sessão, minha tendência é acha-los chatos. Mas os filmes dele acontecem na minha cabeça tempos depois, não vão embora, e acho que Ensaio Sobre a Cegueira é um filme assim".

Ele informou também que os produtores trouxeram um clipping de imprensa que já elevou seu estado de espírito. "Foram as criticas positivas do The Guardian, de Londres, do Corriere de la Sierra e do Los Angeles Times. Elas me lembraram que as criticas dos chamados "trade papers" (publicações da indústria como Variety e Screen International) de fato foram negativas, mas o que realmente conta é a opinião de críticos que falam diretamente para o público".

De qualquer forma, a principal critica que Meirelles aguarda poderá vir hoje, sábado, às 21 horas horário de Lisboa, Portugal. José Saramago, 86 anos, ganhador do Prêmio Nobel, irá ver o filme numa projeção oficial. Ontem foi o último dia de trabalho de Meirelles em Cannes, de onde segue para Lisboa na manhã de hoje.

"Estou confiante de que ele goste do filme, embora o gostar dele tenha criado uma pressão enorme em mim. No início do projeto, senti Saramago não muito interessado, mas isso foi mudando. Me enviou um email há pouco tempo me falando de uma grande exposição sobre a obra dele em Lisboa, e na mensagem ele escreveu "só falta agora o filme para deixar minha obra completa". Tentando ver isso com bom humor, Meirelles, de qualquer forma, disse "coloquei a mão na cabeça quando li, a pressão é bem grande". K.M.F

Un Conte de Noël


Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Uma das grandes esperanças do cinema francês em Cannes 2008 chama-se Un Conte de Noel (Um Conto de Natal), filme de Arnaud Desplechin exibido ontem. Há, inclusive, rumores feios (externados na revista diária Variety) de que o festival estaria tentando armar cenário adequado para que a França finalmente volte a ganhar uma Palma de Ouro depois de incríveis 21 anos de jejum (a última foi por Sob o Sol de Satã, de Maurice Pialat, em 1987). Presença forte de jurados franceses apontaria para isso, e o filme já chegou na Croisette embalado por excelentes críticas da imprensa nacional, pois será lançado nos cinemas do país na próxima quarta-feira, mesmo dia do novo Indiana Jones.

Un Conte de Noel dá continuidade às investigações sobre gente realizadas por Arnaud Desplechin no seu último e intenso filme, Reis e Rainha. Desta vez, uma dezena de belos personagens que funcionam perfeitamente pelas pinceladas leves, mas precisas, que o filme usa para lhes sugerir. O elenco nível A da dramaturgia de cinema e teatro na França certamente ajuda, com Catherine Deneuve, Mathieu Almaric, Emmanuelle Devos, Chiara Mastroianni.

Ceylan e as nuvens


O cineasta turco Nuri Bilge Ceylan é veterano de Cannes, caiu nas graças do festival com filmes de difícil acesso no Brasil. Seu Uzak (Distant, 2002) é excelente, sobre dois irmãos que não se viam há muito tempo. Há três anos, exibiu (e ganhou prêmio especial) Climates, sobre um casal que se vê cada vez mais separado, e Ceylan usa para ilustrar isso as estações do ano. Climates chegou a ser adquirido para distribuição no Brasil pela Pandora, mas permanece sem data ou previsão de lançamento. Ontem, passou o filme novo dele, Uc Maymum (Três Macacos), uma clássica história de traição narrada com clara sensação de que Ceylan se considera um dos grandes artistas da arte universal, de todos os tempos e todos.

Curioso como o efeito dos filmes dele parecem estar diminuindo nos que prezam pela sutileza das imagens. Ceylan e suas imagens sugerem crença na força das nuvens, do vento e do céu, e entram também aí a chuva e os trovões. Seu filme novo super fatura as imagens de forma mega espetacular, injetando um tom de ultra-fotografia numa história de corno que não poderia ser mais básica. Em 1970, David Lean foi crucificado por fazer o mesmo tipo de coisa em A Filha de Ryan, e ainda assim aquele resultado me passa a sensação de ser bem mais funcional do que esse.

Em Uc Maymum, um pai de família trabalha para um político que envolve-se num atropelamento em estrada deserta. O patrão propõe que o empregado assuma o delito, passe seis meses na prisão e que seja recompensado financeiramente pelo esforço. Durante a ausência do homem, sua esposa (bela e madura, como as mulheres nos filmes de Ceylan geralmente são) desenvolve relação com o patrão.

Cada cena é enquadrada como se Antonioni ou Tarkovsky tivessem dado consultoria, com acurado trabalho de vento no som e uso ostensivo de nuvens pesadas no céu que parecem soletrar histericamente E-N-C-R-E-N-C-A.

Um fator interessante e positivo: Climates foi, creio, o primeiro filme rodado e projetado em sistema digital de alta definição (na projeção de Cannes, a melhor do mundo) que finalmente me chamou a atenção pelo fato de ser uma imagem não apenas diferente do "cinema película", mas dona de personalidade e possibilidades próprias. No novo filme, Ceylan continua pesquisando o digital, usando tela larga CinemaScope com resultados lindos, de fato. O último cineasta que chamou a atenção por essa pesquisa com o digital foi o Lars Von Trier, com a diferença que suas narrativas ampliavam o impacto de suas imagens. No caso desse último filme de Ceylan, ficariam mais dignas numa projeção de galeria, sem a historinha que as acompanha.

Poster do Dia


Fábio Barreto (Bela Donna, A Paixão de Jacobina) promete dirigir a história de Lula, o filme é uma promessa no mercado de Cannes com publicidade na Variety. Observar a sombrinha projetada no nosso presidente.

Thursday, May 15, 2008

3 Macacos (Uc Maymum)

por Kleber Mendonça Filho

Incrível como alguns cineastas constróem um degrau que te leva para baixo rumo ao inferno das boas intenções, e isso em 3 filmes. Do turco Nuri Bilge Ceylan, o primeiro filme que eu vi foi Uzak, aqui em Cannes, que eu gostei muito, depois Climates, também em Cannes, que eu gostei, mas já fazendo uma ou duas caretas estranhas, e agora esse 3 Monkeys (ompetição), que me pareceu uma interminável lombra. O cara acredita mesmo no poder dos céus, das nuvens e do vento, da luz do sol, raios e trovões. David Lean foi crucificado por bem menos em A Filha de Ryan.

Amanhã, escrevo mais, estou na saída do Palais durante a evacuação de fim de sessão e melhor parar que o cheiro de perfume dos passantes está ficando excessivo.

Moore


Difícil dia, ou você junta material e não escreve, ou escreve e não junta material. Fui fazer os dois hoje, terminei pregado na sala wifi (ver foto) tarde toda até agora, 21h! Insalubre.

Vi o bom "Leonera" 8h30 da manhã, dei pitú no Kung Fu Panda e fui entrevistar Julianne Moore no Hotel Martinez. Amanhã é a vez de Meirelles. Entrevista com Moore foi OK, no esquema "round table" com mais seis colegas, algumas perguntas OK, outras ruins, deu para encaixar quatro minhas. Perdi o filme de abertura da Quinzena, mas agora 21h30 passa o do Nuri Bilge Ceylan, os outros dois dele vi aqui, bom não quebrar tradição.

Hotel Carlton - Indiana Jones


O Carlton aluga espaço publicitário a peso de ouro, a fachada vira briga de material peixe grande com os principais lançamentos do ano por Hollywood. Esse ano, o do novo Indiana Jones (que passa domingo, fora de competição) é o mais arrogante de todos.


Café

Leonera


Kleber Mendonça Filho

cinemascopio@gmail.com

de Cannes

Todo ano, a Cahiers du Cinema publica o seu "Atlas" do mundo, um relatório de como anda o cinema mundial, cada país (ou mercado) coberto por um crítico local (o Brasil é avaliado por Pedro Butcher, da Folha de S. Paulo). O experiente crítico Quintín abriu seu texto sobre o cinema argentino com grande pessimismo, mas aliviado pelo fato de "não estarmos produzindo filmes fascistas como Tropa de Elite, do nosso vizinho". E se ele anda pessimista com a produção deles, para o olhar vizinho brasileiro os argentinos continuam fazendo filmes que ajudam a manter uma média observada das mais sãs, caso de Leonera, filme de Pablo Trapero que passou hoje na competição. Rodrigo Santoro tem participação interessante com personagem bissexual cuja importância não traduz-se no seu pouco tempo na tela.

O filme, na verdade, pertence a Martina Gusman, no papel de Julia, e revela-se um clássico "estudo de personagem". Ela vai presa pela morte do namorado, que trouxe seu amante para morar na casa dela. Uma discussão violenta terminou na morte do homem, e acompanhamos via narrativa processual a relação dela dentro da prisão, a comunidade interna marcada pelo homossexualismo (guardas penitenciárias e presas, em grande parte, gay), amizades e sua adaptação num bloco para presas mãe. Julia está grávida.

Rodado em tela larga e a câmera na mão típica de filmes intimistas, Leonera tem os cacoetes de uma produção latina realista, preciso na sua vontade de mostrar o amadurecimento de uma garota que ainda tenta entender o que fez, e porque está ali, com o filho que, até os quatro anos de idade, cresce na prisão. Sem ser particularmente excelente, tocante ou diferenciado, Trapero (El Bonaerense) fez, de qualquer forma, uma crônica segura não só nas atuações, mas também na ambientação que nos diz algumas coisas sobre o processo de justiça e detenção num país latino.

O que mais me chamou a atenção: É um filme incrivelmente feminino, e sempre me interessa muito ver obras de homens com olhares tão interessados pela mulher (recentemente, Paul Verhoeven em A Espiã, Céu de Suely, de Karim Ainouz). Julia vai de amante machucada a presa atordoada e, em momentos que explicam, talvez, o título, a uma fera enfurecida, ataque causado por eventos relacionados à sua cria. E essa fera está ainda enjaulada, muito bom. É um aspecto sempre válido de mostrar a mulher dona do seu caminho, mesmo com uma corrente no tornozelo.

Eu sei que, de um tempo para cá, alguns colegas e amigos críticos no Brasil estão trabalhando duro para desativar essa noção até certo ponto benevolente para com o cinema argentino, Trapero, inclusive, tornou-se incrivelmente "uncool" depois do seu, de qualquer forma, muito agradável e verdadeiro Família Rodante. Mesmo assim, eu não consigo olhar para um Leonera com desprezo, especialmente se compará-lo à nossa média nacional que, para mim, permanece (na ficção/longa, claro), com as obrigatórias raras exceções, das mais lamentáveis.

Meu Cartaz Preferido no Mercado Até Agora


É o estranhíssimo mundo do marketing goela abaixo de Cannes, com algumas das peças gráficas mais bizarras do mercado de cinema, traduzindo com incrível (im)precisão o espírito de obras que estão à venda para quem quiser comprar. Até agora, o meu preferido na vasta coleção de estranhezas.

Wednesday, May 14, 2008

O horror da da Guerra do Líbano em documentário animado israelense


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

O terreno do documentário continua em plena expansão formal, e observar isso é interessante sempre. Dois filmes recentes representam bem isso, o Standard Operating Procedure, de Errol Morris, que passou em Berlim (prêmio especial do júri), filme equipado com todo tipo de luxo áudio-visual de reconstituição factual, e o outro é esse que acabo de ver agora, Waltz With Bashir (Valsa Com Bashir, Israel/Alemanha, 2008), filme de Ari Folman que está na competição.

O documentário é uma animação rotoscopada, estilo Waking Life. Depoimentos e reconstituições (ou dramatizações) são animadas, dando ao filme uma aura de ficção sistematicamente quebrada pela verdade dos depoimentos, todos de homens israelenses no presente (na faixa dos 40/50) que lembram de detalhes (ou tentam recuperar, eles mesmos, esses detalhes) de suas participações no exército de Israel nos anos 80.

Folman, ele mesmo um ex-combatente que parece ter feito o filme para conseguir negociar traumas pessoais, constrói toda a sua narrativa em torno do notório massacre de Sabra & Shatila, no Líbano, em 1982, e o filme lenta, mas seguramente, nos leva a um clímax de selvageria bem construído através de uma dezena de pequenas histórias que ilustram a crueldade dos conflitos naquela região.

Durante a projeção, um certo desconforto foi sendo criado pela semelhança não muito saudável com o universo proposto ano passado por Persépolis, de Marjane Satrapi, que, esse ano, nada mais é do que uma jurada.

O conceito de lembranças muito pessoais da história recente do oriente médio e animação moderna temperada por música pop ocidental (Orchestral Manoeuvres in the Dark, PIL) me pareceu estranho, embora, rumo ao final, Folman parece conseguir se desvencilhar da sombra com um final inegavelmente potente que parece entender muito bem o significado e o peso de imagens, especialmente num filme que repensa toda uma idéia de "documento".

Também riquíssimo no filme é o subtexto histórico e cultural de um povo (o israelense) que sobreviveu atrocidades sob os nazistas para, num ciclo demente e vicioso, ver-se, 30 anos depois, supervisionando (ou como o filme coloca muito bem, "iluminando") uma ação dantesca de extermínio nos campos do Líbano.

Filme visto na Sala Bazin, Cannes, 14 de maio 2008

"Cegueira" com Algo de Déja Vu

foto KMF


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

O Festival de Cannes teve sua abertura oficial hoje, ironicamente com um filme chamado Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness), do brasileiro Fernando Meirelles. O tom do "não enxergar" da obra parece encontrar eco no belo cartaz oficial do festival esse ano, que traz uma foto de David Lynch onde um rosto feminino tem os olhos cobertos pela sombra de uma tarja preta. Maneira interessante de dar início a 12 dias ininterruptos de cinema, um filme sobre a ausência do olhar e que, por sua vez, também passa forte sensação de déja vu.

Exibido em projeção digital cristalina que ressaltou o trabalho do colaborador de Meirelles, César Charlone, que desta vez abandona a câmera na mão de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, o filme foi recebido na sessão de imprensa com um silêncio que abre espaço para diferentes interpretações (indiferença educada ou simples torpor, primeira opção mais provável). O silêncio foi ainda marcado por uma solitária salva insistente de palmas que não obteve adesão.

O filme deixa sensação curiosa no espectador ao investigar os efeitos da "treva branca" que o prêmio Nobel José Saramago descreve no seu livro, "um mar de leite" que chama a atenção pela luz, e não a escuridão. A sensação parece marcada por um reconhecimento do esforço de produção, mas também pela já citada sensação de um terreno já muito trilhado.

As idéias aqui traduzidas de Saramago resultam numa obra tão semelhante a tantas outras no repertório do cinema fantástico (a série inglesa de TV The Day of the Triffids, o australiano The Last Wave, de Peter Weir, Extermínio, de Danny Boyle, para citar apenas três), o drama apocalíptico que nos traz um cenário desolador de colapso social e humano. Na verdade, não faz nem seis meses que vimos algo do tipo em Eu Sou a Lenda (um desmanche sem vergonha de uma dezena de obras antepassadas), que, diga-se de passagem, também contava com a presença de Alice Braga no elenco.

A diferença aqui é que o apocalipse não é um efeito espetacularmente visual, mas uma deixa para reflexões internas que ganham peso na segunda metade do filme que investe numa claustrofobia que aproxima o filme do teatro filmado com sofisticados efeitos de luz e tonalidades lácteas. Meirelles, o montador Daniel Rezende e seu roteirista e ator Don McKellar suam as suas camisas numa primeira metade atropelada, preocupada com a apresentação relâmpago de todos os personagens, alguns deles meros figurantes (Sandra Oh).

As reflexões ganham peso, na verdade, ou evaporam, dependendo da sua escola de pensamento, pois são parcialmente entregues em pacotes de uma narração em off na voz de Danny Glover que parece desvalorizar o trabalho de imagem que Meirelles, equipe técnica e atores usam para construir o discurso. Uma imagem do filme, em especial, se destaca pela simplicidade. Através de um efeito básico, mas incrível na sua eficácia, um garoto, que está cego esbarra numa mesa invisível que aparece repentinamente ao ser atingida.

E eis que vêm as vozes em off , nesse caso trazendo coisas tipo "pior do que não ver é não ser visto", algo que Meirelles abordou em leituras sociais nos seus Domésticas (1999) e Cidade de Deus (2002). Essa cegueira branca e inicialmente literal assola a população de um país sem face numa cidade grande genérica de algum lugar do mundo, abrindo o campo para a distopia e o flagelo social.

Esse aspecto "lugar nenhum" desta variação de apocalipse me chamou a atenção, sendo brasileiro e vendo um filme internacional feito por um diretor nacional. A transformação de São Paulo, usada como locação urbana perfeitamente travestida de um abandono calculado (excelente trabalho de arte), no espaço mítico e sem nome do filme, diz uma ou duas coisas sobre o trabalho de Meirelles, cineasta paulista que constrói, filme a filme, uma inusitada carreira para si mesmo.

Refaz, nos seus próprios termos, o que realizadores do país raramente fazem, e coloco isso sem juízo de valor, pois além de uma questão de competência para uma aceitação pelo mercado externo, há simplesmente algo de vocação. Nesse sentido, talvez apenas Alberto Cavalcante fizera algo semelhante num contexto bem diferente há 60 anos, e, de uma maneira mais próxima, Hector Babenco, nos últimos 25 anos. Curiosamente, da geração de Meirelles, apenas Walter Salles trilha caminho parecido, e talvez não seja coincidência que Salles é o outro concorrente brasileiro na competição de Cannes esse ano, co-diretor de Linha de Passe, com Daniela Thomas.

Depois de localizar Domésticas e Cidade de Deus em São Paulo e no Rio, Meirelles fez O Jardineiro Fiel na África e na Europa. Agora, passa para o próximo andar, assumindo um estado de abstração nacional e geográfica completa proposta por Saramago.

Assume o caminho tomado por diretores que o mundo externo inclui num mesmo escaninho, o dos "cineastas latinos" como Alejandro Iñarritu (Babel) e Alfonso Cuaron (Filhos da Esperança, outra visão apocalíptica multicultural, Cuaron, aliás, é membro do júri esse ano) que abandonaram temáticas locais para abraçar projetos externos que, na melhor das hipóteses, refletem o mundo globalizado de hoje, na pior, um desinteresse por falar sobre sua própria realidade.

Optam por um discurso global (ou "globalizado") que reduz identidades culturais locais a um mero bip fraco no gigantesco radar do mundo. Isso é bom, ou é ruim? Talvez seja ruim para os cinemas nacionais que criaram esses cineastas, embora Ensaio Sobre a Cegueira não deixe dúvidas sobre seu pedigree: é uma produção brasileira co-realizada (técnica e financeiramente) com parceiros externos, especialmente do Canadá.

Na coletiva de imprensa do filme, o caráter internacional do filme foi visto como algo apenas positivo. "O mundo se encaminha para a globalização real, e a realização desse filme é prova disso, com equipe composta por canadenses, japoneses, brasileiros, mexicanos, e a coisa mais incrível... só três americanos! Que maravilha!"

Alguns dos lugares comuns que compõem o filme também foram reforçados na coletiva. "Me interessei pela fragilidade da idéia que temos de sociedade, na qual patinamos numa fina camada de gelo. No final das contas, somos todos animais", disse Meirelles. Ele também mostrou-se interessado pelo fato de eventos apocalípticos como o furacão Katrina, o 11 de Setembro e as atuais crises relacionadas aos alimentos estarem em pauta.

Uma jornalista britânica enxergou no filme um subtema do "abandono estatal", como o observado durante a tragédia do Katrina, em Nova Orleans, algo, que para o olhar brasileiro, poderia já ter uma leitura nacional em relação às prisões do país.

Na verdade, a sugestiva programação de Ensaio Sobre a Cegueira, logo na abertura, nos pareceu uma inspirada sugestão de auto-reflexão para freqüentadores de um festival como esse, em especial para a crítica. O filme, que adapta fiel e assustadamente os escritos de Saramago, sugere inúmeras idéias sobre nossa incapacidade de enxergar o que sempre esteve ali, ou de perder a capacidade de reconhecer imagens que nós sempre tivemos. Parece cair como uma luva não só para o filme em questão, mas também para essa sempre inesperada atividade de ver cinema e tentar apreendê-lo.


Cegueira II

Imagem do Dia: Antes da coletiva de Blindness.

Chegando em Cannes


O filme de abertura do maior festival de cinema do mundo
chama-se Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness).

Sunday, May 11, 2008

10 Anos em Cannes. C´est Pas Possible...


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Já são 10 Anos em Cannes, e mesmo com a data redonda, eu consegui ser relapso o suficiente com o www.cinemascopio.com.br para que ele não estivesse no seu melhor estado de conservação durante o mês dessa tranquila comemoração. O site passa atualmente por uma reconstrução.

Enquanto isso, encontrei essa simpática pousada que deverá, durante essa décima ida a Cannes, oferecer um dos espaços importantes para esse trabalho que considero tão especial. Na verdade, eu não sabia que essas ferramentas já estavam tão boas, e ainda mais tudo interligado na quase assustadora família Google.

Como sempre, a cobertura poderá ser vista em diferentes formatos nas páginas do Jornal do Commercio, no Recife, no www.jc.com.br do portal JC on Line e também no site da Aliança Francesa, http://www.af.rec.br. O JC e a AF comigo dão continuidade a esse projeto que já conta 10 festivais. Aqui, no http://cinemascopiocannes2008.blogspot.com, eu estarei atualizando pessoalmente durante toda a cobertura.

Ao que tudo indica, eu vou poder postar não apenas textos, mas também fotos e vídeo. Ao longo desses últimos 10 anos, eu tentei escrever sobre imagens da maneira mais viva possível, e nos últimos anos as imagens de Cannes têm tentado entrar na cobertura, aos poucos. Talvez esse ano, mais do que nunca, espero. Ao lado, separei algumas fotos via Picasa de boa parte dos 10 anos em Cannes, adoraria postar mais, mas tempo não deixa.

Sobre ser relapso com o site, meu envolvimento com meus filmes, com o Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, onde sou co-responsável pela programação, e com o próprio trabalho de crítico no JC simplesmente me tomaram o tempo que poderia ter ido para a reformulação do CinemaScópio. Foram boas essas causas, e o site deverá voltar em breve.

Esse ano, também já se configura uma mudança interessante na presença brasileira em Cannes. Além da minha cobertura, Eduardo Valente já vinha cobrindo pela Cinética - www.revistacinetica.com.br - há dois anos, outro pernambucano, Leonardo Sette, que estreou em Cannes ano passado, estará enviando material para a filmes polvo de BH - http://www.filmespolvo.com.br -, e só aí temos 3 cineastas fazendo cinema também como críticos.

Fiquei sabendo também que a Contracampo – www.contracampo.com.br estará representada pela primeira vez por Tatiana Monassa e o portal Filme B – www.filmeb.com.br - dará atenção extra a Cannes pelo seu sempre interessante lado ‘mercado’ com João Cândido Zacharias. Nada mal para o leitor, com uma feira de sensações escritas em brasileiro.

Eu preciso aqui agradecer aos leitores que, durante os últimos 7 meses, me escrevem diariamente com claros sintomas de ansiedade em relação à falta que meus textos fazem no CinemaScópio, alguns deles com interessantes xingamentos pela minha suposta desistência. Com mais de 1000 emails recebidos (nem todos respondidos, desculpem), essa foi a melhor parte de o site ter deixado de operar, sentir o quanto essa troca de idéias é vital como trabalho de crítica e amor pelos filmes. Obrigado.

PS: Vai aqui um trecho do meu filme "Crítico", precisamente sobre o alegre pandemônio que é trabalhar no Festival de Cannes.


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