Wednesday, May 14, 2008

"Cegueira" com Algo de Déja Vu

foto KMF


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

O Festival de Cannes teve sua abertura oficial hoje, ironicamente com um filme chamado Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness), do brasileiro Fernando Meirelles. O tom do "não enxergar" da obra parece encontrar eco no belo cartaz oficial do festival esse ano, que traz uma foto de David Lynch onde um rosto feminino tem os olhos cobertos pela sombra de uma tarja preta. Maneira interessante de dar início a 12 dias ininterruptos de cinema, um filme sobre a ausência do olhar e que, por sua vez, também passa forte sensação de déja vu.

Exibido em projeção digital cristalina que ressaltou o trabalho do colaborador de Meirelles, César Charlone, que desta vez abandona a câmera na mão de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, o filme foi recebido na sessão de imprensa com um silêncio que abre espaço para diferentes interpretações (indiferença educada ou simples torpor, primeira opção mais provável). O silêncio foi ainda marcado por uma solitária salva insistente de palmas que não obteve adesão.

O filme deixa sensação curiosa no espectador ao investigar os efeitos da "treva branca" que o prêmio Nobel José Saramago descreve no seu livro, "um mar de leite" que chama a atenção pela luz, e não a escuridão. A sensação parece marcada por um reconhecimento do esforço de produção, mas também pela já citada sensação de um terreno já muito trilhado.

As idéias aqui traduzidas de Saramago resultam numa obra tão semelhante a tantas outras no repertório do cinema fantástico (a série inglesa de TV The Day of the Triffids, o australiano The Last Wave, de Peter Weir, Extermínio, de Danny Boyle, para citar apenas três), o drama apocalíptico que nos traz um cenário desolador de colapso social e humano. Na verdade, não faz nem seis meses que vimos algo do tipo em Eu Sou a Lenda (um desmanche sem vergonha de uma dezena de obras antepassadas), que, diga-se de passagem, também contava com a presença de Alice Braga no elenco.

A diferença aqui é que o apocalipse não é um efeito espetacularmente visual, mas uma deixa para reflexões internas que ganham peso na segunda metade do filme que investe numa claustrofobia que aproxima o filme do teatro filmado com sofisticados efeitos de luz e tonalidades lácteas. Meirelles, o montador Daniel Rezende e seu roteirista e ator Don McKellar suam as suas camisas numa primeira metade atropelada, preocupada com a apresentação relâmpago de todos os personagens, alguns deles meros figurantes (Sandra Oh).

As reflexões ganham peso, na verdade, ou evaporam, dependendo da sua escola de pensamento, pois são parcialmente entregues em pacotes de uma narração em off na voz de Danny Glover que parece desvalorizar o trabalho de imagem que Meirelles, equipe técnica e atores usam para construir o discurso. Uma imagem do filme, em especial, se destaca pela simplicidade. Através de um efeito básico, mas incrível na sua eficácia, um garoto, que está cego esbarra numa mesa invisível que aparece repentinamente ao ser atingida.

E eis que vêm as vozes em off , nesse caso trazendo coisas tipo "pior do que não ver é não ser visto", algo que Meirelles abordou em leituras sociais nos seus Domésticas (1999) e Cidade de Deus (2002). Essa cegueira branca e inicialmente literal assola a população de um país sem face numa cidade grande genérica de algum lugar do mundo, abrindo o campo para a distopia e o flagelo social.

Esse aspecto "lugar nenhum" desta variação de apocalipse me chamou a atenção, sendo brasileiro e vendo um filme internacional feito por um diretor nacional. A transformação de São Paulo, usada como locação urbana perfeitamente travestida de um abandono calculado (excelente trabalho de arte), no espaço mítico e sem nome do filme, diz uma ou duas coisas sobre o trabalho de Meirelles, cineasta paulista que constrói, filme a filme, uma inusitada carreira para si mesmo.

Refaz, nos seus próprios termos, o que realizadores do país raramente fazem, e coloco isso sem juízo de valor, pois além de uma questão de competência para uma aceitação pelo mercado externo, há simplesmente algo de vocação. Nesse sentido, talvez apenas Alberto Cavalcante fizera algo semelhante num contexto bem diferente há 60 anos, e, de uma maneira mais próxima, Hector Babenco, nos últimos 25 anos. Curiosamente, da geração de Meirelles, apenas Walter Salles trilha caminho parecido, e talvez não seja coincidência que Salles é o outro concorrente brasileiro na competição de Cannes esse ano, co-diretor de Linha de Passe, com Daniela Thomas.

Depois de localizar Domésticas e Cidade de Deus em São Paulo e no Rio, Meirelles fez O Jardineiro Fiel na África e na Europa. Agora, passa para o próximo andar, assumindo um estado de abstração nacional e geográfica completa proposta por Saramago.

Assume o caminho tomado por diretores que o mundo externo inclui num mesmo escaninho, o dos "cineastas latinos" como Alejandro Iñarritu (Babel) e Alfonso Cuaron (Filhos da Esperança, outra visão apocalíptica multicultural, Cuaron, aliás, é membro do júri esse ano) que abandonaram temáticas locais para abraçar projetos externos que, na melhor das hipóteses, refletem o mundo globalizado de hoje, na pior, um desinteresse por falar sobre sua própria realidade.

Optam por um discurso global (ou "globalizado") que reduz identidades culturais locais a um mero bip fraco no gigantesco radar do mundo. Isso é bom, ou é ruim? Talvez seja ruim para os cinemas nacionais que criaram esses cineastas, embora Ensaio Sobre a Cegueira não deixe dúvidas sobre seu pedigree: é uma produção brasileira co-realizada (técnica e financeiramente) com parceiros externos, especialmente do Canadá.

Na coletiva de imprensa do filme, o caráter internacional do filme foi visto como algo apenas positivo. "O mundo se encaminha para a globalização real, e a realização desse filme é prova disso, com equipe composta por canadenses, japoneses, brasileiros, mexicanos, e a coisa mais incrível... só três americanos! Que maravilha!"

Alguns dos lugares comuns que compõem o filme também foram reforçados na coletiva. "Me interessei pela fragilidade da idéia que temos de sociedade, na qual patinamos numa fina camada de gelo. No final das contas, somos todos animais", disse Meirelles. Ele também mostrou-se interessado pelo fato de eventos apocalípticos como o furacão Katrina, o 11 de Setembro e as atuais crises relacionadas aos alimentos estarem em pauta.

Uma jornalista britânica enxergou no filme um subtema do "abandono estatal", como o observado durante a tragédia do Katrina, em Nova Orleans, algo, que para o olhar brasileiro, poderia já ter uma leitura nacional em relação às prisões do país.

Na verdade, a sugestiva programação de Ensaio Sobre a Cegueira, logo na abertura, nos pareceu uma inspirada sugestão de auto-reflexão para freqüentadores de um festival como esse, em especial para a crítica. O filme, que adapta fiel e assustadamente os escritos de Saramago, sugere inúmeras idéias sobre nossa incapacidade de enxergar o que sempre esteve ali, ou de perder a capacidade de reconhecer imagens que nós sempre tivemos. Parece cair como uma luva não só para o filme em questão, mas também para essa sempre inesperada atividade de ver cinema e tentar apreendê-lo.


4 comments:

ROBNEY BRUNO said...

Olá, Kléber!
Sou realizador de cinema aqui em Goiás, e assim como você, venho fazendo algumas reflexões sobre o cinema, no meu caso sobre a nossa produção local, o que, infleizmente, não tem sido muito aceito por aqui. Com relação ao filme de Meirelles, escrevi há alguns meses um artigo e gostaria de disponibilizá-lo para você e o seu público.

A CEGUEIRA DE SARAMAGO E MEIRELLES
por Robney Bruno

Pertubador. Se fosse possível resumir o livro ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de José Saramago, em uma única palavra, essa seria a minha escolhida. Ao saber da adaptação do livro para o cinema, com direção de Fernando Meireles, fugi da leitura do livro para não ser influenciado. Mudanças de linguagens sempre são temerárias, ainda mais quando se trata de um escritor de grande renome. Sempre alguma coisa sai perdendo neste processo: no livro, os leitores que certamente o deixarão de ler para assistir o filme (como eu quase o fiz) - e no filme, toda a subjetividade intrínseca do autor ao escrevê-lo, e dos leitores ao lê-lo.

Uma das coisas mais perturbadora no livro com certeza é imaginar, como se isso fosse possível, uma cidade inteira de cegos. Pela realidade narrada, bastaria nos faltar um dos sentidos que voltaríamos a mais completa selvageria. Seríamos como animais em busca de um único propósito, a sobrevivência. Mas indo contra o que ouvi da maioria, o livro não é de se embrulhar o estômago. Pelo contrário, confesso que me divertir muito com a bancarrota do império capitalista que nos governa. Assistir todo um sistema que levou a evolução inteira para chegar ao ápice do que somos hoje, ruir diante de um simples toque como peças de dominó. Carros abandonados, supermercados saqueados, o sistema bancário falido, pessoas perambulando sem status. Sonho com isso todos os dias. Com os "Herchcovitchs" da vida tomando água suja, com o padrão globo de qualidade sem saber sua audiência, com os governantes sem ter como apertar o botão que nos controla. Essa é a grande viagem que o livro me rendeu, não a simples parábola da visão, (oh!, que para enxergarmos seria necessário perdermos a visão, que pra mim não passa de uma piada saramesca), mas a que não precisamos de todo esse sistema “idiossincrata” que nos governa para que possamos viver. Enxergar isso no livro foi realmente compensador e o que certamente, também vai fazer valer a pena a viagem do filme. Aliás, é nas imagens do filme que deve estar o seu grande impacto. Como conseguir traduzir tantas cenas com a mesma verossimilhança que o livro nos passa, fugindo dos habituais clichês: cegos sem parecerem zumbis e a urbanidade caótica sem os efeitos katrínicos. Estes, ao meu ver, devem ser os desafios de Meirelles. "Fecho os olhos e vejo o disco amarelo iluminando-se. Também estou cego. Um a um somos guiados em direção as camaratas. Ouço o "altifalante". Sinto o cheiro da merda toda. Vou a camarata 3. Sou estuprado, chupo e mato. Fogo. A chuva lava o meu corpo. Sou guiado pelas ruas da cidade. Através dos olhos da Julianne ,vejo os carros abandonados, o lixo espalhado, comércios saqueados, pessoas mortas, matilhas de cães que vagam. Visito primeiro a casa da rapariga de óculos escuros, depois a casa do médico e a casa do primeiro que cegara. Atrás de comida e combalido, entro numa igreja onde todas as imagens sacras estão como sempre foram, de olhos vendados. O que é isso. Ninguém responde. Olho para cima e vejo o céu branco, todo branco, como a brancura da cegueira que nos cegara. Chegou a minha vez, penso. Abro os olhos. A tela do computador ainda estava ali. Uma pena".

Assistir ao filme certamente vai ser uma viagem diferente a que o livro nos proporciona. A cegueira de um, certamente não vai ser a mesma cegueira do outro. Enquanto o livro nos abre os olhos para coisas que há muito tempo deixamos de enxergar, o que o filme deve fazer, pelo menos até a sua estréia, fica no campo imagético de cada um. O que podemos neste momento é apenas esperar e torcer para que Meirelles consiga, como em seus outros trabalhos, nos surpreender com uma narrativa e estética única em seus filmes. Não criar grandes expectativas sobre um projeto é uma das primeiras coisas que se deve aprender neste mundo frágil do cinema. Ainda mais se tratando de um filme feito para se conseguir grande público nas bilheterias. Nem sempre a mágica funciona ou às vezes a soma dos números bate. A única certeza que se tem é que o filme jamais deve se igualar ao livro, não só pela linguagem diferente de ambos, mas como também pelos seus diferentes objetivos. Ma isso é como ouvir o velho ditado: livro é livro, e filme é filme.

outros textos no blog
www.euquerofazerlonga.blogspot.com

orkut said...

Que bom que começou, espero que esse ano os filmes cheguem mais rápido em recife.. até agora ainda estou esperando my blueberry nights, passou no ano passado, eu li sua crítica e quero muito ver..:}
Abraço

Fatima said...

orkut, não sei aonde você mora, mas My Blueberry Nights já tá em cartaz aqui no Rio de Janeiro há algumas semanas com o nome de Um Beijo Roubado!

Boa crítica Kleber. A imprensa estrangeira norte-americana e a inglesa receberam o filme com frieza. Li as críticas da TimeOut, The Guardian, Variety e Hollywood Reporter.

Mantenha-nos informados sobre o Festival! Beijo.

orkut said...

Fátima, eu moro em recife, e por aqui, nada..
eu tô ligado que o nome nacional do filme é um beijo roubado, muito brega por sinal, na minha opinião.:P
uhdashudas
Já pensei em baixar, mas prefiro esperar e vê-lo no cinema.