Friday, May 16, 2008

Allen e os Poderes Liberadores

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Acabo de sair da sessão especial fora de competição do Vicky Cristina Barcelona, novo filme de Woody Allen que passou para uma Debussy lotada. É certamente um dos exemplares mais genuinamente divertidos da vasta galeria de filmes realizados no esquema industrial desse autor que vem perdendo alguns gramas (alguns diriam quilos) da sua credibilidade ao longo desta década com uma safra 2000 não muito memorável. Isso talvez me leve a olhar para VCB com uma afeição que, suspeito, continuará intacta amanhã de manhã. O filme deverá despertar comentários por causa de um beijo entre Scarlett Johannson e Penélope Cruz, momento dos mais simpáticos.

Vicky Cristina Barcelona é sobre alguns temas que ele já visitou nos quase 40 anos de sua filmoteca, como o poder das mulheres sobre os homens, a inspiração artística, a projeção de alguém numa outra pessoa, sobre beber vinho e se encharcar de arte. Acima de tudo, sobre o poder das viagens em todos nós.

Dá continuidade também ao fascínio que Allen tem de abordar os dois lados de uma face, não tanto aqui as máscaras do drama e da comédia (algo que ele faz indiretamente entre um filme e outro), mas em Vicky Cristina Barcelona nas duas amigas titulares, jovens e belas (Rebecca Hall como Vicky, Scarlett Johannson como Cristina). Elas vão passar o verão em Barcelona, na casa de uma amiga dos pais.

Vicky é a menina rica e bem comportada, estuda cultura catalã para o mestrado, está noiva de um cara rico da alta roda de Nova York, Doug (Chris Messina). Cristina é mais aberta a experiências, uma curta metragista que detestou o filme de 12 minutos que fez (era sobre a essência do amor), e assinante da filosofia do viva e deixe viver.

Numa noite, as duas conhecem um pintor espanhol, Juan Antonio (Javier Bardem), típico boêmio europeu que recupera-se da separação de sua esposa Maria Elena (Penélope Cruz), com quem desenvolveu um violento relacionamento que terminou por deixá-lo com uma faca encravada no corpo.

Elena, no entanto, era o motor artístico de Juan, uma força da natureza capaz de inspirar os que estão próximos a fazer coisas boas e também de reescrever comportamentos sentimentais, e também sexuais. Cruz está um prazer (!), e ver Bardem passar de predador gente fina a ex-marido gente fina ciente da força que ela tem é também um dos muitos pontos positivos.

Allen consegue dar ao todo um tom inusitado de credibilidade que, ao que me parece, veio de algum verdadeiro interesse por um clima de Europa. Bom lembrar que esta é a primeira vez que ele deixa, por completo, uma estrutura anglo-americana de produção e ambientação (salvo, talvez, Todos Dizem Eu Te Amo que, de qualquer forma, era todo habitado por americanos).

Há uma piada recorrente entre Juan Antonio e Maria Elena ("speak English, please") que quebra falas em espanhol legendado, algo digno de nota em filmes feitos por americanos, onde o inglês é língua oficial mesmo em países estrangeiros.

Na verdade, há um certo clima de uma certa Europa que, de fato, existe, uma atmosfera que parece ter chamado a atenção de Allen mais do que ele teria sido capaz de deturpar como gringo visitante.

Desdobramentos que envolvem diretamente Barden, Johannson e Cruz funcionam sem grandes problemas, e Hall realmente impressiona com sua sexualidade reprimida entre o envolvimento do presente e o compromisso que ficou nos EUA. Não há sinais nesse filme das aventuras emocionais e sexuais atrapalhadas dos personagens típicos que gaguejam irritantemente no mundo de Allen, mas trocas entre homens e mulheres que fazem sentido num romance de verão.

O filme é também o trabalho claro e evidente de um diretor macho que cercou-se de três personagens femininas maravilhosas física e psicologicamente, e não é nada estranho que o beijo lento e sensual entre Cruz e Johannson aconteça sob os desígnios desse autor. Vicky Cristina Barcelona consegue narrar com grau curioso de sensatez, mas conseguindo ainda um resultado que pode ser genericamente descrito como muito divertido.

Ironicamente, o mundo dá tantas voltas e chega ao mesmo lugar. Vicky Cristina Barcelona seria mais um dos filmes de Allen realizados ao longo dos últimos dez anos longe dos esquemas americanos de produção, créditos de abertura, inclusive, marcados por instituições européias e técnicos da Espanha. A ironia é que a cópia mostrada em Cannes abre com a vinheta da Warner, que, também por ironia, deverá ter um hit e tanto nas salas alternativas do mundo.

Filme visto na Sala Debussy, Cannes, 16 de maio 2008

5 comments:

Rafael Carvalho said...

Há quem diga que o Allen recente perdeu muito de seu talento e vai ficando cada vez mais velho e desgastado. Mas eu não consigo pensar assim. Para um cara que já fez tanta coisa espetaular na carreira, seus filmes atuais não precisam necessariamente ser novas obras-primas. Basta que sejam bem realizdos e disso não se pode reclamar. Sua fase européia começou da melhor forma possível com um Match Point espetacular, passando por um legal e descontraído Scoop - O Grande Furo e o seguro e tenso O Sonho de Cassandra. Portanto, Vick Cristina Barcelona vem cheio de boas expectativas. Bom festival, Kleber!

sub-literatura said...

kleber, parabéns pelo seu trabalho em cannes.
queria dizer que esse formato de blog é muito interessante e li com curiosidade e atenção os posts.
você se sai muito bem e continua escrevendo de forma excelente sobre esse tema que amamos tanto.

boa sorte, e espero te ver em breve.
agrande abraço para você e emilie.
toinho

CinemaScópio said...

que bom Toinho saber que estás acompanhando! Valeu mesmo, estou gostando desse formato, possibilidades imensas, e fotos e vídeo me estimulam muito também.

Rafael, obrigado, gostei muito do filme, como deve ter ficado claro, embora não seja unanimidade, dois amigos não gostaram, faz parte.

Hypado said...

CinemaScópio que nota você daria de 0 a 10 para este novo longa de Woody Allen?

Estou curioso para ver o filme.

CinemaScópio said...

7 3/4