Thursday, July 24, 2008

Arquivo X - Eu Quero Acreditar




por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A série Arquivo X (The X-Files), um dos símbolos pop dos anos 90, teve o mérito técnico de borrar a linha entre TV e cinema com episódios "cinematográficos" que, sempre num clima de mistério sci-fi-sobrenatural, tanto alimentava-se dele, como contribuía com o gênero. Botou para fora os medos culturais mais simplórios da sociedade americana em divertidas historinhas de trancoso. Em 1998, a série ganhou versão para o cinema em Arquivo X – O Filme, esforço para dar mais largura ao que víamos na TV. Chega agora o segundo filme, Arquivo X – Eu Quero Acreditar (The X Files – I Want to Believe, EUA, 2008), filme tranqüilo que sugere resgatar as origens e ainda dar lucro à Fox com o que mais parece um piloto da série extinta.

Dirigido pelo criador de tudo, Chris Carter, seu maior mérito é manter os pés no chão e proporcionar uma volta à série de TV, que foi ao ar entre 1993 e 2002. Chama a atenção o quanto o filme é pequeno em termos de estrutura. Num mercado exigente onde séries de TV como Lost ou Roma têm um certo look e tom de cinema, esse novo Arquivo X poderá levar pau de um público que espera ver na tela grande um filme caro com grandes explosões e coisas sendo destruídas. Nada disso aqui. Não há pipocos ou efeitos especiais espetaculares, e a única perseguição é a pé.

Olhando o orçamento divulgado (U$ 35 milhões, o filme anterior custou U$ 66 milhões, e sem correção de inflação), Arquivo X – Eu Quero Acreditar é talvez o blockbuster do verão americano mais barato em exibição, competindo a partir de hoje com Batman – O Cavaleiro das Trevas e Hancock, cada um feito com U$ 150 milhões. Dá para imaginar uma reunião em Hollywood com os executivos da Fox resmungando para Carter, "Tá bom, vai lá, faz baratinho e encerra o caso".

VIDENTE - Os dois personagens centrais, o agente "crente" do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e a médica "cética" Dana Scully (Gillian Anderson) se reúnem como num bom e descarado filme B. Há um estranho caso onde as investigações convencionais não estão dando conta, e o FBI não vê outra saída se não chamar os dois cujos poderes de interpretação continuam elásticos na lógica e afiados na desconfiança.

Depois de fazer pantim por não mais do que 60 segundos, Mulder diz sim ao chamado e lá vão eles tentar solucionar o caso de uma agente do FBI que sumiu numa noite fria. Ela não apenas sumiu, mas um padre pedófilo e fumante (o escocês Billy Connolly) diz estar recebendo visões do paradeiro da mulher.

Ao longo dos 197 episódios produzidos para a TV (boa parte deles disponíveis em DVD), Arquivo X parecia ter três escaninhos, representações claras dos medos culturais da América média: histórias com alienígenas, estranhos assassinatos em série e conspirações misteriosas via governo. Dessa vez, explora-se o escaninho numero dois, e mais uma vez russos papa-fígado, herança de antigo medo do comunismo, são os vilões, com resultados minimamente divertidos que ainda usam questões relacionadas à crença no divino.

É um filme que, a partir do próprio título, defende a fé nos elementos místicos que o próprio cinema de gênero usa para existir. Dessa forma, todos nós queremos acreditar em muita coisa, incklusive nesse tipo de cinema sintomático para toda uma cultura.

Vale lembrar que o filme é lançado uma semana depois de um novo Batman cujo enorme sucesso parece vir de um desejo de acreditar que aquele filme teria um elemento "realista", uma fantasia cheia de "seriedade". Ironicamente, a única coisa real desse tipo de cinema é o resultado nas bilheterias.

Filme visto meio fora de foco no UCI Boa Viagem, Recife, Julho 2008

3 comments:

tomaz said...

o filme é praticamente um remake do grande clássico esquecido THE THING WITH TWO HEADS. imperdível! :P

http://www.imdb.com/title/tt0069372/

CinemaScópio said...

e não é que não é mesmo?

Keyser Soze said...

O maior mistério é saber onde foram párar os "34" milhões restantes...