Thursday, July 10, 2008

'My Blueberry' Bombom

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

É simbólico que Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights, Hong Kong/China/França, 2007), o mais recente exemplar da obra do cineasta Wong Kar Wai, esteja sendo lançado em multiplex no Recife, exibido diariamente em diferentes sessões, como um filme de gente normal. Toda a obra anterior de Kar Wai, composta por filmes como Felizes Juntos, Amor à Flor da Pele e 2046 era falada em cantonês com atores chineses, filmada em Hong Kong, e encontrava espaço invariavelmente nos estranhos cinemas alternativos, ou nas esquisitas "sessões de arte". Esse último é falado em inglês, tem atores hollywoodianos e foi filmado nos EUA. Para quem acompanha o cineasta, esse cine-bombom passa como uma remixagem dele mesmo para ser visto por mais gente, um projeto comercial bem sucedido.

Um Beijo Roubado foi o filme de abertura de Cannes 2007, e para o festival que recebeu seus filmes anteriores acima citados, esse aqui foi visto com frieza. Isso sugere duas possíveis maneiras de olhar essa história de amor narrada em cores cuidadosamente coordenadas, lideradas pelo azul dor de cotovelo.

Uma, para quem já o conhecia, é a de que Kar Wai virou uma imitação dele mesmo, sem saber diferenciar uma publicidade de TV de alta definição (ele fez para a Sony) de uma vitrine chic de shopping, ou de um filme novo. A outra, para os novatos, é descobrir com prazer esse cineasta que filma elegantemente gente bonita num tipo de cinema romântico que vem sendo tão vulgarizado por mãos menos capazes.

Em Um Beijo Roubado, a heroína chama-se Elizabeth (a cantora Norah Jones, capaz), que acaba de ter seu coração partido. Ela vai buscar consolo na central universal dos que têm os corações partidos: um bar. Ajuda o fato de o barman ser Jude Law, que também, aliás, teve seu coração recentemente partido, por uma russa. Um detalhe tipicamente Kar Wai é o simbólico estacionamento de chaves de casa que ele mantém no balcão, um cemitério de amores desfeitos.

Elizabeth decide partir numa viagem por dentro dela mesma através dos EUA, e suspeitamos que o verdadeiro beneficiário dessa viagem é o próprio Kar Wai, aqui na sua primeira produção "americana". Segue o roteiro básico do cine-turista estrangeiro pelas paisagens U.S.A, de Nova York a Memphis, de Las Vegas a Los Angeles.

No caminho, Elizabeth encontra duas histórias de amor, para as quais ela age como anjo da guarda, agregando experiência emocional para si mesma. Na primeira, um policial (David Strathairn, roubando o filme com discreta intensidade) enche a cara num bar para tentar superar a dor de ser deixado pela esposa (Rachel Weisz). Na segunda, ela conhece uma jogadora compulsiva (Natalie Portman) que também terá de lidar com outra perda, em Las Vegas.

É tudo muito chic, às vezes parece um suntuoso teste de daltonia, às vezes um entretenimento comercial realmente incomum, feito por um olhar estrangeiro. Onde mais você verá personagens adultos bebendo e fumando em bares da vida no cinema comercial do século 21, se não numa produção franco-chinesa filmada nos Estados Unidos?

Kar Wai, que construiu esse filme a partir de um maravilhoso curta que ele fez intitulado In the Mood For Love 2001 (corações partidos e beijos com tortas e chantilly já estão todos lá) desdobra-se usando seu toque autoral num produto claramente feito para exportação. Mas, funciona.

Filme visto na Sala Debussy, Cannes, Maio 2007

1 comment:

sub-literatura said...

nossa, kléber... que eu tenho comigo que não funciona. ou, que funciona num mal sentido, enganando corações incautos. não?

achei um filme lamentável, de onde resgato algumas boas atuações e coisas que em si, poderia ter rendido um bom filme.