Saturday, February 21, 2009

Oscar: Slumdogs e Chihuahuas



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A 81a. cerimônia de entrega dos Oscars, que acontece hoje em Los Angeles, tem pelo menos dois aspectos curiosos. O primeiro por ter caído no domingo brasileiro de carnaval, o que poderá contribuir para que a propaganda gerada tenha efeito limitado no público nacional, solto na folia, isolado em retiros ou simplesmente sem acesso à TV paga (canal TNT exibe, TV aberta não mostra ao vivo). Em segundo lugar, tudo indica que esse ano Hollywood, a mais rica indústria de cinema do mundo (em poder e dinheiro), poderá estar dando um chapéu na Bollywood indiana, a maior indústria de filmes do mundo (em quantidade), com a vitória há muito anunciada de Quem Quer Ser um Milionário (Slumdog Millionaire), filme do inglês Danny Boyle.

A vitória de Slumdog Millionaire é tão certa quanto o prêmio para o falecido Heath Ledger (Coadjuvante), por seu último filme concluído, The Dark Knight, no papel do Coringa. Slumdog vem papando tudo o que é troféu como nenhum filme antes na chamada "temporada de prêmios" dos últimos dois meses. Levou o Globo de Ouro, o Bafta (Oscar inglês), os prêmios das associações de fotografia, roteiristas, som e montagem. É um grande sucesso nas bilheterias internacionais, especialmente para um filme de pequeno porte (custou U$ 15 milhões). Prepara-se para chegar às salas brasileiras 6 de março, com pré-estréias carnavalescas neste final de semana.

O filme concorre a dez prêmios (Fotografia, Montagem, Trilha Original, Canção Original -duas músicas -, Som, Montagem de Som, Roteiro, Diretor e Filme). Com a (falsa) aparência de um artesanato do terceiro mundo, estética de comercial para bebida energizante e uma estrutura espertalhona escondida num roteiro hollywoodiano, o filme de Boyle (Trainspotting, A Praia, Extermínio, Sunshine) é o perfeito bombom pseudo-artístico para as sensibilidades de uma Academia que deverá escolhê-lo para fugir dos mesmos dramas caucasianos de sempre, narrados no que seria uma rotação tida como normal.

Temos os obrigatórios dramas de Holocausto onde destaca-se sempre a capacidade que o ser humano tem de se superar (O Leitor, Um Ato de Liberdade), há reflexões sobre a vida (O Curioso Caso de Benjamin Button, Dúvida, O Lutador) e temos retratos político-histórico-pessoais de variadas densidades, que expõem os nomes dos seus objetos nas marquises (Milk, Frost/Nixon). Entre filmes ruins e outros bem feitos, nenhum deles tem o fator exótico do filme de Boyle, que destaca-se como um olho inchado do lote 2009.

Especula-se (o Globo de Ouro foi uma boa amostragem) que paira sobre O Curioso Caso de Benjamin Button, filme de David Fincher, a nuvem negra da decepção, e que o filme saia com zero Oscars, um feito e tanto para as suas 13 indicações obtidas. Ambicioso com quase três horas, veículo comercial de prestígio com Brad Pitt e uma sensação desagradável de déjà vu por causa das semelhanças com Forest Gump (1994, os dois filmes tem o mesmo roteirista, Eric Roth), Button poderá confirmar-se o elefante branco que sempre foi. De qualquer forma, o prêmio de Maquiagem seria de bom tamanho.

Afirmar que Button é o maior sucesso comercial (U$ 241 milhões no mundo) do Oscar 2009 nos leva a uma outra questão discutida na indústria, a baixa voltagem comercial dos filmes. Desde o anúncio das indicações, em meados de janeiro, que o mercado não reagiu como se esperava. Especula-se que o tom pessimista da crise financeira mundial tenha estimulado o grande público, nos EUA, a ver filmes fantasiosos, distantes dos dramas sérios que Hollywood escolhe para premiar.

No final de semana passado, por exemplo, a franquia recauchutada de Sexta-Feira 13 (já em cartaz no Brasil) arrecadou inacreditáveis U$ 45 milhões em três dias, como se o Oscar não existisse. Para se ter uma idéia, Frost/Nixon, de Ron Howard, fez até agora U$ 17 milhões em 11 semanas de exibição. Até mesmo Benjamin Button tornou-se um sucesso bem antes de ser indicado a qualquer coisa, o peso das suas 13 indicações negligível na soma geral. Milk, de Gus Van Sant (indicado a Melhor Diretor, Ator – Sean Penn, Ator-Coadjuvante – Josh Brolin, Filme, Figurino, Montagem, Roteiro Original), foi bem mais visto nos cinemas em dezembro, um mês antes das indicações serem anunciadas.

Isso explica as críticas dos que acreditam que a Academia deveria relaxar mais e abraçar os bons produtos de apelo popular lançados ao longo do ano, como o sucesso de quase um bilhão de dólares para a Warner, The Dark Knight, de Christopher Nolan (indicado em sete categorias técnicas, e pela atuação póstuma de Ledger), e também Wall-e, de Andrew Stanton, a sofisticada animação autoral da Pixar que deve levar Melhor Filme de Animação (mais cinco indicações tecnicas, incluindo roteiro original, possível vitória).

Curiosamente, são todos fatores que conspiram para uma vitória da pequena produção multi-nacional (e de marca inglesa) Quem Quer Ser um Milionário, o próprio filme a história do que os americanos chamam de 'underdog', aquele cavalo meio magrelo e feio que corre por fora e termina ganhando. Seria o perfeito final feliz da vida real para esse 'cachorro de favela' milionário (tradução literal), algo que poderá também ser aplicado à volta de Mickey Rourke em O Lutador, onde Melhor Ator é uma real possibilidade.

Sobre Rourke, uma figura e tanto, a máquina de publicidade pré-Oscar, na véspera de entrega das cédulas de votação (quarta-feira), anunciava nos sites de cine-fofoca que um dos seus Chihuahuas morreu na madrugada de terça-feira, deixando-o desolado. É o verdadeiro vale-tudo de mídia e contra-informação.

3 comments:

Jeniss Walker said...

espero por uma vitoria de Rourke nesse domingo.
e espero pela lavada de Slumdog Millionaire. (:P)

CinemaScópio said...

teus desejos serão atendidos.

Paulo said...

Quase todos...deu Sean Penn