Thursday, January 28, 2010

À Procura de Eric


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Assim como em Invictus, de Clint Eastwood, que também estréia hoje, À Procura de Eric (Looking For Eric, Inglaterra/França, 2009), filme de Ken Loach, tenta conciliar a vida a partir da filosofia do esporte, nesse caso o futebol. A pauta de Loach, no entanto, veterano cineasta inglês que sempre voltou-se para um olhar realista e humano, sugere uma fantasia prazerosa que dá um olhar bem humorado à idéia de fanatismo. É narrada com enorme simpatia e um senso de romantismo surpreendente.

A ficha corrida de serviços prestados ao cinema inglês por Loach é longa. Seu primeiro filme foi o grande Kes (1969), lançado em DVD recentemente no país, e há quatro anos ganhou a Palma de Ouro por Ventos da Liberdade (The Wind That Shakes the Barley). Loach também adora futebol.

O esporte sempre se infiltra nos seus filmes, normalmente com muito senso de humor. É de Loach um dos melhores curtas da compilação Cada Um Com Seu Cinema (2007), organizada pelo Festival de Cannes. Ali, um pai leva o filho ao multiplex para ver um filme. Na fila, percebem que só tem porcaria passando e decidem felizes trocar o programa por uma pelada.

Em A Procura de Eric (que esteve na seleção oficial de Cannes ano passado, onde foi aplaudido em cena aberta), o personagem principal (Steve Evets, caba simpático) é um carteiro, homem doce. Seu fanatismo, do tipo mais estridente, é pelo futebol (torce pelo Manchester United). No nível mais íntimo, exerce um outro tipo de fanatismo, do tipo amoroso, com um saudosismo paralisante pelo seu primeiro grande amor, Lily (Stephanie Bishop).

Eric abandonou Lily durante uma crise existencial da juventude, relacionada ao choque de ser pai tão jovem. Flashbacks nos mostram o jovem Eric para entendermos o quarentão gente finíssima que não está nada bem com os caminhos da sua vida, refletida na sua própria casa, uma bagunça de filhos e enteados desocupados, jogando videogame.

Talvez do puro desespero, entra na história um mentor espiritual para Eric, o ídolo já aposentado do Manchester United e craque francês Eric Cantona (ele mesmo, numa atuação tranquilíssima). A aparição de Cantona é o provável fruto de uma mente masculina carente de auto estima e de um norte emocional, estimulada por referências projetadas e nuvens de maconha queimada.

A partir daí, o título À Procura de Eric ganha interpretação dúbia, uma vez que os dois Erics passam a ser necessários, especialmente o Eric carteiro, que precisa se achar. Ele passará por processo de recuperação gradual de Lily, uma mulher doce como ele, enquanto administra o trabalho e as tensões (muito engraçadas) na torcida.

Vendo Eric e seus amigos exercendo sua doença pelo Manchester, lembramos de uma passagem de Invictus, onde alguém afirma que “futebol é um jogo de cavalheiros assistido por hooligans, enquanto o rugby é um jogo de hooligans assistido por cavalheiros”.

Loach é claramente o cavalheiro nessa história. Filma Londres com sol e claridade (a exemplo de Simplesmente Feliz, de Mike Leigh, o que está acontecendo com os cinzentos ingleses?) e passa a impressão de que ele está de bem com a vida. À Procura de Eric é generoso.

Filme visto na sala Lumiere, Cannes, Maio 2010

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