Sunday, May 25, 2008

Entre Les Murs




Kleber Mendonça Filho

cinemascopio@gmail.com

Entre Les Murs, o rigoroso filme de Laurent Cantet ganhador da Palma, chegou por último na ordem de apresentação da competição de Cannes 2008 (passou no sábado, estilo Rosetta, em ’99) para definir um festival que não parecia ter nenhum favorito, mas apenas filmes admirados isoladamente (meu entusiasmo pelos títulos de Jia Zhang Ke – 24 City, James Gray – Two Lovers, Ari Folman – Waltz With Bashir, ou Brillante Mendoza – Serbis não parecia bater com o entusiasmo de outros por ‘filmes de arte do inferno’ como os de Nuri Bilge Ceylan - Uç Maymum (Três Macacos), o húngaro Delta, e, incluo no mesmo insulto, o novo Garrel – La Frontiere du L’Aube.

O filme de Cantet, de fato, não poderia ser mais digno do prêmio, dadas as devidas circunstâncias. Sua aparição no último dia me pareceu cuidadosamente planejada semanas antes para surtir um efeito de descoberta para uma hipotética (na cabeça da organização desse festival francês) Palma de Ouro, e benvinda também, uma vez que a última Palma francesa fora 21 anos antes, com Sob o Sol de Satã (1987), de Maurice Pialat.

Numa competição 2008 onde o sentido de autoria parecia muitas vezes extrapolar o seu prazo de validade rumo à afetação (além dos já citados Ceylan, Delta e Garrel, incluir também o novo Martel), o júri ficou com o francês que vai direto ao ponto, uma máquina com idéia fixa de nos passar a experiência visceral de estar dentro de uma escola, suas salas de aula e salas de professor, sem refresco de exposição preparatória de personagens ou descanso para vermos o mundo externo.

Curiosamente, dentro da cinematografia francesa moderna, Entre Les Murs repete tema de enorme importância que vem sendo abordado por cineastas nacionais de maneira sazonal ao longo. Ça Commence Aujourd'hui (Quando Tudo Começa, 1999), do Bertrand Tavernier, Ser e Ter (Être et Avoir, 2002), do Nicolas Philibert, L’Esquive (2003), de Abdel Kechiche, os dois últimos inclusive com fronteiras semelhantes de união da ficção ao documentário.

De certa forma, a vitória de Cantet espelha algo da vitória romena, ano passado. 4 Meses 3 Semanas 2 Dias, de Cristian Mungiu, foi o primeiro filme daquele festival, o de Cantet o último. Ambos investem no que talvez deva ser descrita como ‘narrativa processual’, algo que os romenos fazem muito bem, e que o cinema europeu como um todo domina. O que interessa é o processo, e temos histórias contadas com momentos de conflito que o cinema industrial geralmente considera descartável.

Em Entre Les Murs, Cantet nos dá, de fato, a observação do que mais parecem aulas inteiras de pelo menos 20 minutos, dramatizadas em estilo ‘realidade ficcionada’. Cantet nos libera muito pouco tempo no recreio lá fora, no pátio, e a imagem limpa e larga sugere deixar tudo muito claro: A França é uma sociedade multi-tudo e para tal é essencial que as tolerâncias tenham início na escola.

“Porquê o senhor só usa nome de branquelo pra dar exemplo? Porquê não usa Rashid ou Yousef?”, pergunta uma aluna ao professor tutor da sua turma. As trocas entre as duas partes não poderiam ser mais completas, e Entre Les Murs revela-se um triunfo de cinema como projeto social necessário, assim como nos terrenos técnicos da montagem, à visão artística de Cantet, que evita os clichês explorados frequentemente nas relações professor-aluno.

2 comments:

sub-literatura said...

kléber... eis que cannes chegou ao fim. parabéns pelo seu trabalho, que acompanhei de perto. nem sempre comentando, mas sempre ligado.

esse formato de blog é muito bom e espero que você mantenha algo similar quando seu site vier a tona outra vez.

espero também reencontrá-lo em breve, para conversarmos um pouco sobre cinema, músicas e sobre os dias que sucedem uns aos outros neste mundo estranho.

grande abraço,
toinho

Renato said...

Kleber, parabéns pela cobertura, que deu um banho de informação sobre o que rolava no festival e também de opinião bem embasada e argumentada sobre os principais filmes. Não perdi um dia. Inclusive, no meu blog, andei linkando para alguns de seus textos na minha cobertura à distância. Agora é esperar esse punhado de filmes bacanas desembarcar por aqui. Ah, sim, e boa sorte com a volta do site.

[]s!