Sunday, June 15, 2008

What's 'Happening?'


Kleber Mendonça filho
cinemascopio@gmail.com

Desde a trajetória errante de Orson Welles que uma maneira de confirmar alguns cineastas americanos como auteurs é ver quem banca seus filmes, já nos créditos de abertura. O dinheiro hollywoodiano para uma carreira de sucesso logo torna-se escasso com uma seqüência de filmes não tão bem sucedidos, mas que constroem filmografia autoral sólida. Woody Allen vem associando-se a dinheiro estrangeiro, seu último filme, Vicky Cristina Barcelona, é fruto de parceria com a TV espanhola Telecinco. O mesmo com Gus Van Sant, filmando com dinheiro francês, e agora, mais notável ainda, M. Night Shyamalan, o wonder boy de O Sexto Sentido não mais do que nove anos atrás. Seu último filme, o thriller retrô-apocalíptico Fim dos Dias (The Happening, 2008), que estreou sexta-feira, traz vinheta da UTV, conglomerado multimídia indiano.

Juntando isso à reação sonoramente negativa que o filme vem tendo internacionalmente, ecoada junto de mim numa sessão cheia de público sexta à noite, no multiplex UCI Recife, observamos a construção gradual de uma obra que encolhe a cada filme dentro de uma perspectiva de projeto comercial de cinema. Ironicamente, como obras de expressão cinematográfica, os filmes de Shyamalan , independentes de análises de mercado, revelam-se curiosidades cada vez mais certas de si mesmas.

Fim dos Dias é mais um cine-produto onde o mundo e a raça humana estão sob ameaça de extinção. Só esse ano tivemos, em janeiro, Eu Sou a Lenda (vírus mortal), em maio via Cannes (estréia marcada para setembro) passou Ensaio Sobre a Cegueira, onde a raça humana perde a visão; desta vez alguma toxina, provavelmente liberada pelas plantas, leva as pessoas a enfiar seus proverbiais sorvetes nas testas. Para máximo efeito cênico, muitos desses atos resultam em suicídios dementes e algumas seqüências inéditas de horror filmado. Mostrar um ser humano tirando a própria vida é chocante, mostre ações coletivas disso e temos o horror mais perturbador.

O vírus vai pelo ar, e logo veremos a interessante imagem política de americanos correndo com medo até do vento. O personagem guia é Elliot (Mark Wahlberg), um professor que fala sobre questões ambientais na sala de aula, e há uma citação a Einstein e abelhas no quadro negro, parte de um semi-elaborado McGuffin. Quando a suposta peste ataca em Nova York, todos na Filadélfia correm para o campo, o professor com a esposa (Zooey Deschanel), um colega (John Leguizamo) e a filha pequena.

Tudo isso é muito interessante dentro de uma sensação forte de déja vú, algo que marca boa parte da obra de Shyamalan, assombrada descaradamente na sua raiz por Rod Serling e Steven Spielberg. Mesmo assim, me vi fisgado desde o início, e não consigo entender realmente nada de como o público funciona hoje em dia. O tom fantastique dessa narrativa não envolve o chamado "público médio"? O filme é lento para os padrões semanais de lançamento? O realismo da situação não é sensacional o suficiente?

Há um filme brilhante muito pouco visto chamado Le Temps du Loup (2002), de Michael Haneke (Caché), onde a idéia de "filme catástrofe" é posta pelo avesso, com foco firme na perda de controle do elemento humano via ausência de regras sociais, começando pela eletricidade.
Shyamalan segue os rastros de Haneke e também filma esse drama externo cujos efeitos são sentidos na intimidade de um enfoque próximo aos personagens. Um conflito com arma de fogo entre ocupantes de uma casa distante (ver cena de Le Temps du Loup) parece uma adaptação de incidente semelhante de Le Temps du Loup, e há também caminhadas em campos rurais abertos, espaço repleto de apreensão. Spielberg havia tentado isso em Guerra dos Mundos, mas não seria Spielberg se não misturasse o intimismo com o mega-ultra-espetacular.



Diferente das imagens cortantes de Haneke, o apocalipse de Shyamalan parece feito de um realismo de plástico, como se uma presença muda de Robert Bresson estivesse ali por trás desdramatizando boa parte do elenco (Wahlberg e Deschanel, 'bressonianos', encontram cenário perfeito na cena da "casa modelo"). Em alguns dos piores/melhores momentos (moedor de grama), lembrei do Maximum Overdrive (1986), de Stephen King.

A presença dos tons de Serling de Além da Imaginação/The Twilight Zone (transeuntes estáticos na rua, a tal "casa modelo", a velha que há anos não sabe nada do mundo) ganham relevo enquanto explicações ficam em terceiro plano, finalmente livrando o filme de uma acusação que ele vem recebendo: a de defender uma causa ecológica. Tudo me passou bem mais como um ponto de partida crível, e não um eixo temático real a ser respeitado.

Shyamalan, cidadão americano de origem indiana, surgiu com o sucesso fenomenal de O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), bem feita história de trancoso cujo final de conceito tradicional no gênero parece ter pego milhões de surpresa. Como em Hollywood a liberdade de um diretor é tão grande quanto a bilheteria do seu último filme, Shyamalan partiu livre e leve para fazer Corpo Fechado (Unbreakable, 2001), outro interessante exercício de um diretor (já mimado) que relê a cultura pop, sucesso (menor) que atraiu primeiras distensões.

Sinais (Signs, 2002), tendo como cenário uma invasão alienígena, selou para muitos a impressão de que seria "um novo Spielberg". Depois veio A Vila (The Village, 2004), curioso ensaio sobre a sociedade moderna que marca um primeiro distanciamento do modelo original de cinema claramente comercial, algo selado com o corajosamente nulo A Dama da Água (Lady in Water, 2006).

Com Fim dos Dias, esse diretor chega a momento crucial da sua trajetória, e esse momento vem já com classificação "R" nos EUA, pista para tentar enxergar uma necessidasde de mudança por parte de Shyamalan que, até agora, trabalhava sempre denro dos limites de segurança comercial trazidos pelo PG-13.

Fica a sensação de que a história se repete. Como Welles, John Carpenter ou Brian de Palma, Shyamalan parece perder espaço, e vai filmando com a área disponível que lhe dão, um autor ambicioso cujo poder de fogo comercial está encolhendo e que, mesmo assim, ainda consegue literalmente batizar seu filme de "evento" (titulo original, The Happening), não exibí-lo para a crítica como estratégia mundial de lançamento e ainda fazer uma interessante proposta de blockbuster que terminará não sendo.

Seu filme, a logomarca de empresa indiana, a agressividade das imagens e a reclamação geral ao final da sessão lembram o quanto aprovação popular e dinheiro no caixa pouco têm a ver com a ressonância de uma obra pessoal na cabeça.

Filme visto no UCI Boa Viagem, Junho 2008

3 comments:

João Solimeo said...

Então, Kleber, me parece que Spielberg e Shyamalan estão dialogando há um tempo. Vi "sinais" em "Guerra dos Mundos", como a cena em que tudo fica escuro, ou então a cena com Tom Cruise cercado por uma paisagem vermelha que era muito parecida com uma cena de "A Vila". Agora o cartaz de "The Happening" é muito parecido com "Contatos Imediatos do Terceiro Grau".

Quanto a "The Happening"...bom, não gostei. A premissa era boa, o suspense inicial bem feito e as imagens "R" bem vindas. Mas depois...era pra rir ou levar a sério? Achei Wahlberg particularmente ruim. Ah, sim, e ele se chama "Elliot"...assim como um certo garoto que encontra um ET no jardim (em cena praticamente clonada em "Sinais").
Acho que o futuro de Shyamalan precisa de parcerias no roteiro. Ele me parece esgotado como roteirista.

(mais detalhes no texto no meu blog)

cinemantico said...

Só uma correção: o título nacional é Fim dos Tempos.

Keyser Soze said...

Desde de "A Dama da Água", (ou mesmo "A Vila") o diretor não consegue mais conter seu impulso "wikipedia" ao explicar em detalhes através dos diálogos inverossímeis de seus personagens o que supostamente estaria aocntecendo na tela. E eles estão invariavelmente certos nas suas suposições. O ego de Shyamalan ocupa toda a tela e não sobra espaço para sua obra existir independente.