Sunday, August 10, 2008

O Cinema de Madonna? (Ela faz 50 essa semana)


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Tem-se idéia do quão poderosa Madonna é como entidade pop quando entendemos naturalmente a importância de sua carreira insuperável na música, mas fazemos esforço intelectual de inclusão para lembrar seu legado no cinema. Foi em fevereiro desse ano, no Festival de Berlim, que voltou tal sensação melancólica quando o assunto é essa coisa pop formidável chamada Madonna. Ela, que, em termos práticos e objetivos, não dá ponto sem nó na esfera da música, sempre teve uma relação de amor não muito bem correspondido com os filmes. Isso se confirmou em Berlim, pois lá estava ela apresentando sua primeira obra como diretora, Filth and Wisdom.

Vê-la apresentando seu longa com a postura de uma curta metragista iniciante e ansiosa tanto encantou alguns, como fez os mais cínicos achar que aquela foi a primeira boa atuação da diva. Ela parecia estar realmente incorporando a artista humilde (H*U*M*I*L*D*E*???!!!), ciente das suas deficiências e diante de uma imprensa internacional que já conhecia seu currículo no cinema.

Curiosamente, ela não aparece em Filth and Wisdom ('lixo e sabedoria', livremente traduzido), um filme barato, feito em vídeo, e que, caso não fosse de Madonna, seria mais uma fuzarca sem nexo como as milhares que a tecnologia digital permite que sejam feitas no mundo inteiro hoje em dia por jovens cineastas sem talento, e que nunca serão vistos por mais do que 100 pessoas, amigos e familiares inclusos.

E porquê Madonna nunca foi muito bem no cinema? O tamanho da sua famosa ambição loira bate com a idéia de que os diamantes são os melhores amigos de uma garota. Mesmo assim, suas atuações passam a sensação de que estamos vendo uma asa delta de duas toneladas tentando voar. Vale lembrar que ela inverteu posições com uma das suas maiores inspirações, Marilyn Monroe, lembrada como atriz, às vezes como chanteuse. Madonna será lembrada como estrela pop, e com o já citado esforço, atriz.




Mais curioso ainda é observar uma artista que soube utilizar o videoclipe tão bem para definir sua imagem, e o formato tem uma boa dezena de clássicos por Madonna que pertencem ao imaginário da cultura pop. A homenagem a Monroe em Material Girl (1984), a citação a Metropolis, de Fritz Lang, em Express Yourself (1989), a montagem de corpos, braços e caras de Vogue (1990), o tom sadomasô de Justify My Love (1991). Mostram presença de imagem que apenas sugeriam o mesmo tipo de sucesso nos filmes. Não exatamente.

Nos anos 80, Madonna surgiu com uma coisa independente chamada A Certain Sacrifice (1984), foi vista cantando Crazy For You ali no fundo em Em Busca da Vitória (Vision Quest, 1985) e teve destaque num filme baratinho e simpático, Procura-se Susan Desesperadamente (Desperately Seeking Susan, 1985), cuja estréia nos cinemas foi segurada pelos produtores quando percebeu-se que Madonna, coadjuvante no filme (Rosana Arquette era a personagem principal), estouraria. Ela ainda teve Into the Groove, um dos seus clássicos do dancing, na trilha.


Depois de casar-se com Sean Penn em 1985, os dois embarcaram num delírio de lua de mel chamado Shanghai Surprise (1986), produção inglesa do Beatle George Harrison, um desses filmes onde tudo deu errado, um mico para o casal. Ela não desistiu. Quem é Essa Garota? (Who's That Girl?, 1987) é um filme estranho e interessante, mas não sei se entendi até hoje o que Madonna estava fazendo ali com personagem tão irritantemente peralta (usava boné ao contrário). A música tema é simpática.

Pulando Doce inocência (Bloodhounds of Broadway, 1989), chegamos ao muito divulgado Dick Tracy (1990), onde nem a atmosfera cartunesca ajudou a presença pesada de Madonna, na época namorada do diretor e ator Warren Beatty. Porquê tão pesada toda vez que está no quadro?

O peso ruim é veneno para qualquer aspirante às artes dramáticas, e foi revertido ao ser ela mesma no proto-reality show Na Cama Com Madonna (Truth or Dare, 1991), um freak show da auto-exposição numa época em que esse tipo de coisa ainda não fazia parte da programação diária na TV.

Teve participações inexpressivamente (Neblina e Sombras, de Woody Allen) simpáticas (Uma Equipe Muito Especial), mas voltou a pagar mico leão dourado com o sub-sub-sub Instinto Selvagem (lançado um ano antes), Corpo em Evidência (Body of Evidence, 1993). Esse é aquele thriller incompreensível onde Madonna queima o pobre do Willem Dafoe com pingos de vela. Comparações com a performance de Sharon Stone no filme anterior não ajudaram em nada.

Desistir, jamais, e essa perseverança a levou a Evita (1996), a adaptação de Alan Parker para a cafonália de Andrew Lloyd Webber, um musical CinemaScope à moda antiga, sem diálogos, onde ela interpreta Eva Peron, inicialmente para a fúria dos argentinos mais conservadores. "Evita no era puta, non!" É talvez o seu papel mais lembrado, junto com Susan, e ela não fez feio, mesmo que o filme seja intragável.

Evita parece ter acalmado Madonna. Desde então, tem feito pequenas participações, e isso inclui o mico-sagui de 007 Um Novo Dia Para Morrer (Die Another Day, 2002), onde ela faz uma instrutora de esgrima, se bem lembro. É verdade que ela repetiu a dose do vexame a dois com seu novo e atual companheiro, o cineasta inglês Guy Ritchie, para quem atuou no desastre Destino Insólito (Swept Away, 2002), e o destino do filme foi mesmo insólito, direto para DVD.

Ritchie, aliás, sugere a falta de olho de Madonna para o cinema. O diretor de filmes espetacularmente afetados como Snatch deve ser mesmo um bom marido e pai dedicado, mas seus talentos para el cine são, de fato, lamentáveis. Quero ver seu próximo clipe.

3 comments:

otis said...

Mas Kleber, você esqueceu de citar justamente o único filme onde eu acho que ela conseguiu se sair bem, Olhos de Serpente, do Abel Ferrara.

Helder said...

Putz, Kleber, você deixou a Madonna atriz mais rasa do que poleiro de pato.

CinemaScópio said...

fui eu?

PS: eu gosto de Madonna.