Thursday, September 11, 2008

Perigo em Bangkok



Nicolas Cage e peruca estranha em duas cenas do filme.

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Às vezes a gente fica observando decisões feitas por alguns artistas, algumas delas de botar a mão na cabeça. Um deles é o ator Nicolas Cage, que saiu dos filmes pequenos e autorais nos anos 80 e 90 (Arizona Nunca Mais, dos Irmãos Coen, Coração Selvagem, de David Lynch) para ganhar um Oscar de ator por outro filme de pequeno porte, Despedida em Las Vegas (1996). Depois disso, virou astro em filmes caros tipo The Rock e 8mm. Recentemente, fez o Motoqueiro Fantasma e O Homem de Palha, dois filmes bem ruins, e agora aparece com um cabelo estranho em Perigo em Bangkok (Bangkok Dangerous, EUA/Tailândia, 2008), dos irmãos Pang, diretores chineses.

Esse thriller escuro não é tão ruim quanto a crítica americana nos levou a acreditar que seria (estreou lá há uma semana), embora contribua pouco para elevar a qualidade dos filmes recentes que têm como personagens principais assassinos profissionais (Hitman, O Procurado). O filme também chama a atenção por tratar-se de uma produção internacional feita na Tailândia por uma equipe tailandesa, curiosidade na mesma semana que vê o também multinacional Ensaio Sobre a Cegueira chegar às salas.

Perigo em Bangkok é uma refilmagem de um thriller de mesmo título dirigido pelos mesmos irmãos Pang em 1999, muito visto no mercado asiático. É mais um desses filmes onde o personagem principal não ri, mata laconicamente e movimenta-se na calada da noite como um ninja. E, claro, esse vistoso corte de Barbie morena assanhada, o mais estranho mini-carpete visto desde o gerente de boate de Tom Hanks em Da Vinci Code (o de Barden em No Country For Old Men não conta, pois de propósito).

Uma narração dele próprio explica seu modus operandi, composto por regras como associar-se a algum apoio local que seja descartável (pequenos criminosos, viciados em heroína), nunca deixar pistas (não parece conhecer investigação forense) e dar o fora o mais rápido possível. Cage murmura no microfone algo sobre o trabalho oferecer boa grana e levá-lo não importa aonde, o que termina soando como um depoimento sincero do próprio ator sobre suas escolhas recentes no cinema.

Esse matador chega a Bangkok para executar serviços, todos seguidos de gordos depósitos na sua conta corrente. Associa-se a um pequeno marginal chamado Kong, portador de maletas que trazem armas especiais para cada serviço e informações sobre a próxima vítima. Tudo isso você já viu antes, e todos nós entendemos que o sisudo matador irá mudar da água para o vinho, não tanto porque sentimos a mudança, mas pelo fato de filmes do tipo gostarem desse tipo de coisa.

Uma guinada interessante é um inesperado fator Luzes da Cidade, onde nosso amigo interessa-se por uma surda-muda, funcionária de uma farmácia. É ela quem irá dar um pouco de delicadeza a essa alma solitária. Uma cena curiosa onde os dois vão jantar de repente parece fazer parte de um outro filme, talvez uma comédia romântica, claramente a melhor cena do todo. O tema principal é comida picante.

No mais, é tudo muito escuro e rotineiro. A mudança de caráter é absurda, o cabelo permanece esquisito, as mortes dos vilões sem graça (vilão descartável No. 7 leva tiro e cai), mas, mesmo assim, permanece no filme a impressão de que estamos vendo um thriller estranho, com alguma personalidade, marcada por um final não muito hollywoodiano que deixa a sensação de ser um produto algo de alienígena na sua previsbilidade.

Filme visto no UCI Ribeiro Boa Viagem, Recife, Setembro 2008

2 comments:

Lidianne Andrade said...

assim...mas essa segunda foto é cage?? pensei que fosse tom hanks, a cara dele

CinemaScópio said...

e é mesmo.