Saturday, March 21, 2009

Radiohead



por Kleber Mendonça Filho
Rio de Janeiro


Três filmes me impressionaram até agora, esse ano:

- Peculiaridades de Uma Rapariga Loira, de Manoel de Oliveira.
- Gran Torino, de Clint Eastwood.
- o show do Radiohead no Rio, ontem.

algumas coisas sobre o ocorrido na Praça da Apoteose.

Será que as bandas brasileiras que abrem eventos desse tipo, antes de bandas estrangeiras, assinam contrato de limitação técnica resignada como forma de servir de trampolim para as atrações principais? Digo isso pois o simpático show dos Hermanos não parecia ter luz, ou a que tinha me lembrava o tipo de luz que uma bandinha de colegial tocando no encerramento do ano letivo teria, no auditório da escola. O som estava à altura da luz.

No Kraftwerk, uma coisa me chamou a atenção. Os quatro men machines alemães representam uma banda essencial na música pop, e que, nos anos 70 e 80, estiveram à frente do tempo, com um catálogo de músicas que parecia prever um futuro que hoje sabemos que estava certo, eletronicamente falando.

Dessa forma, a idéia de quatro homens expressionsitas com algo de Lang e Metropolis cuidando de máquinas minimalistas no palco deveria ser um conceito e tanto 30 anos atrás, mesmo 20.

Só que hoje, vendo os quatro ali, enfileirados, atrás de laptops, a primeira coisa é que me vem à mente é que eles talvez estejam checando email num internet lounge. Nossa relação com as máquinas e computadores é hoje excessiva e promíscua, e o conceito do Kraftwerk ao vivo me parece velho, embora as músicas (The Model, Trans Europe Express, Music Non Stop, Autobahn) não esteja. São lindas.

Acho que Kraftwerk, depois de anos à frente do seu tempo, finalmente está preso no presente, possivelmente até mesmo já um pouco no passado.

Já o Radiohead, não sei bem o que é aquilo. Melhoram, a cada disco, senso de imagem deles é belo, e a capacidade que têm de traduzir uma obra musical numa apresentação ao vivo através do som, do design de palco e de luz, e da capacidade técnica da banda em si, é assombrosa.

Voltando à coisa da luz e som dos Hermanos ontem, a discrepância entre o início da noite e a entrada do Radiohead é o equivalente a ver um filme preto e branco em DVD mono projetado em vídeo e depois entrar um outro filme em 70mm seis canais. A projeção larga de flagrantes muito bem pensados dos músicos no palco tem uma concepção perfeita, jogando fora as imagens televisivas que normalmente "mostram" bandas tocando para quem está mais longe do palco.

Eu já vi alguns shows históricos (Prince 3 vezes, The Cure, R.E.M, Chico Science & Nação Zumbi), e dá pra sentir que você está vendo um na hora, como o de ontem. Espero que quando filhos e netos estiverem descobrindo o catálogo completo do Radiohead, aos poucos, eu possa dizer, "eu vi ao vivo".

A banda parecia estar dando tratamento especial à platéia, primeira vez no Brasil, tocaram, acho que tudo do In Rainbows, mais de duas horas, 3 bis, Paranoid Android, No Surprises, até Creep, cujos primeiros acordes geraram uma saraivada de "CARALHO!" na multidão. Aquelas ameaças da guitarra em Creep, antes do refrão, ganharam luz à altura da ameaça.

É uma das grandes bandas do mundo, no auge dos seus super poderes. O show gerou um tipo especial de euforia, e o que mais se via no descampado de lixo que escoava lentamente rumo ao metrô era gente se abraçando e se perguntando, "você viu aquilo?".

9 comments:

salomão santana said...

kleber,
medina fala sobre o som:
http://colunas.g1.com.br/instanteposterior/2009/03/21/primeiras-consideracoes/

Paulo said...

Que inveja...assistiu Prince 3 vezes e aposto que todas antes da auto-censura dos palavrões! :-(
Sign o'times foi uma delas, Kleber?

samuel said...

Foi do caralho. Antológico.

lilo said...

vendo o vídeo, e por não ter ido ao show (soluços), só pude comparar com um show do U2, da turne ZOO TV, que vi... er.. na TV. Lembro de ter ficado impressionado com o uso que eles faziam das tecnologias de transmissão de vídeo. Talvez hoje em dia aquela parafernália ainda seja algo de deixar queixos caídos. Mas vendo utilização das imagens captadas em video e transmitidas via telão nesse show do Radiohead, me pareceu algo tão acertadamente banal... os videos do U2 serviam para distanciar (hmm... era uma crítica á TV)... os do Radiohead servem, nesses tempo de Youtube, para aproximar, me parece...
mas ainda preferia nao pensar em nada disso e ter estado lá (resignado)

Lis said...

parece que vai passar o show de são paulo ao vivo no multishow domingo. vale demais. (e ao vivo foi pra chorar tb).

CinemaScópio said...

vi Pop Mart do U2, mas é uma coisa gigante, feito um aeroporto grande demais, impressiona, mas te cansa. o do Radiohead me pareceu do tamanho das pessoas, só que ainda vai ficando melhor. Sim, Sign O Times.

Priscila said...

Ahhh que inveja...! =_=

sub-literatura said...

pequeno clichê... o karftwerk saiu da linha do tempo. para mim há muito trata-se de algo como bach.
mas achei-os desconfortáveis naquele palco e a condensação de seu show foi prejudicial.

é, parece-me um espetáculo para locais fechados, menores, onde você está mergulhado naquilo.

a apoteose é dispersiva, própria para massas sonoras das bandas de rock.

radiohead foi impecável.

juan-o-salazar said...

muito triste eu não ter ido nesse "filme".
snif.