Friday, October 9, 2009

A Verdade Nua e Crua


"Quem é mais imbecil, eu ou você?"

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O grande mistério da cultura hoje é o porquê de o ser humano ser retratado, para fins de entretenimento de massa (novelas, séries, noticiosos, filmes, teatro), com traços de subdesenvolvimento psicológico e comportamental. Talvez acreditando que, para atingir as massas, é essencial agir e soar retardado, a indústria segue fazendo filmes como A Verdade Nua e Crua (The Ugly Truth, 2009).

Psicólogos do batente talvez interpretem isso como sintoma nos consultórios, onde a infantilização de adultos talvez seja uma praga moderna. Há três anos, Judd Apatow fez a surpresa O Virgem de 40 Anos, exatamente sobre um homem que não amadureceu emotiva e sexualmente. Foi a desculpa perfeitamente inteligente para filmar esse estado de coisas e o sucesso do filme parece ter gerado uma onda de sub-produtos que não têm a mesma percepção, astúcia e generosidade.

Na verdade, ir ao multiplex "pegar um cineminha" pode significar hoje estar preso numa sensação perpétua de Dèjá Vú. Depois de A Mulher Invisível, O Divã, Os Normais e A Proposta, marcados por personagens importantes claramente débeis mentais, descobrir-se vendo A Verdade Nua e Crua pode resultar na certeza de que o dinheiro continua indo para o mesmo filme de sempre.

Perversamente, isso parece ser exatamente o que o grande público quer. Sair de casa, pagar estacionamento, ingresso e pipoca combo com tonel de refrigerante para ver a mesma coisa, sempre.

Mais uma vez, temos duas pessoas psicologicamente debilitadas, homem e mulher, sem sucesso no amor. Ele (Gerard Butler) é consultor sentimental num programa de TV que tem chamado a atenção, suas opiniões sobre mulheres e relacionamentos, ao que parece, anotadas em anúncios brasileiros de cerveja.

Ela (Katherine Heigl) é uma produtora de TV. Esse tipo de mulher bonita e manipuladora em filmes desse tipo geralmente está há um ano sem relações sexuais (vide Sandra Bullock, em A Proposta).

Os dois irão seguir uma corrida de obstáculos via roteiro que aproxima o filme dos produtos brasileiros do tipo, ejetando sutileza e forçando "grandes momentos" artificiais como o uso de uma calcinha vibratória em público pela nossa heroína, talvez a herança desse filme para a humanidade.

Filme visto no UCI Recife, Setembro 2009

3 comments:

Fábio Henrique Carmo said...

Creio que esse fenômeno se deve ao fato de que a indústria descobriu que o maior público consumidor é mesmo o adolescente (têm mais tempo para ir ao cinema...). Então, fazem filmes para a idade mental deles. Creio que isso também está afetando o amadurecimento de muitas pessoas (exitem estudos comprovando a influência da mídia no comportamento mesmo em idades mais avançadas), já que é comum hoje em dia homens e mulheres com mais de 30 anos mais preocupados com pegações e baladas do que em estabelecer relacionamentos sérios e maduros. Esses adultecentes estão se tornando cada vez mais comuns e também fazem o estilo de gente que vai ao cinema ver bobagens como "A Verdade Nua e Crua".

CinemaScópio said...

uma coisa alimenta a outra.

bcahu said...

É exatamente isso, sem tirar uma vírgula. O público gosta de pagar por mais do mesmo, gosta de não ser confrontado, de não precisar refletir. Trata-se de preguiça mental, mediocridade mesmo. Cinema deve servir apenas para diversão. Tive uma locadora no Espinheiro e posso confirmar tudo que li aqui. Cansei de receber clientes que desejavam um filme como "aquele", mas com atores diferentes. A indústria não pensa duas vezes e tome esterco nos multiplexes...