Friday, February 13, 2009

Double Take (Forum Expanded)


Johan Grimmonprez depois da sessão, conversando com a platéia.



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Uma das minhas descobertas de Berlim 2009 é um pequeno filme belga chamado Double Take, que acabei de ver, uma dessas obras que burlam perfeitamente qualquer tentativa de encaixe nos padrões conhecidos de gênero. Exibido na paralela Forum Expanded, o filme pode ser descrito como uma colagem cujo principal personagem é Alfred Hitchcock, mais vivo do que nunca na rica herança de imagens que ele deixou como cineasta, showman, ou figura pop. Double Take, dirigido por Johan Grimmonprez, também seria um ensaio filosófico sobre duplos, e o filme expande isso nas mais imprevisíveis direções.

Preciso deixar claro que, no entanto, o filme não é exataente sobre Hitchcock, mas uma articulação livre de imagem de cinema que tem nele um eixo. A essência de Double Take é a idéia do duplo, que pode tanto ser assustadora como liberadora. Obviamente que Hitchcock trabalhou inúmeras vezes com esse conceito (Vertigo, Psicose, Intriga Internacional, O Homem Errado) de "alguém está exercendo o meu eu fora de mim" o suficiente para fornecer material suficiente para o filme inteiro.

No entanto, Grimmonprez vai alguns andares além. Sugere que o Hitchcock do cinema transformou-se no Hitchcock da TV, onde a sua série Alfred Hitchcock Apresenta, nos anos 50, tornou-o uma imagem pop. Essa mistura ambígua resultou, inclusive, em Psicose, feito para o cinema com uma equipe da divisão de TV da Universal.

Imagens espetacularmente montadas numa narrativa fluente de livres associações passam a mesclar toda uma herança da Guerra Fria (contemporânea ao cinema de Hitchcock), quando os EUA encontraram na União Soviética uma imagem dupla perfeita, ilustrada pelas propagandas da "lua portátil" do Sputnik, símbolo da superioridade soviética sobre os EUA.

Há a utilização inteligente do registro de uma discussão absurda entre Nikita Kruschev e Richard Nixon, na feira mundial de Moscou de 1959, no stand americano, dentro de uma cozinha perfeitamente americana, montada para ilustrar a superioridade dos americanos sobre os soviéticos.

A imagem dos dois líderes é a perfeita ilustração para Double Take, que também vai em direção à idéia de duplos como sósias, e o filme vem, inclusive, com o seu próprio Hitchcock, um inglês que ganha dinheiro imitando o mestre do suspense. Poética é a forma como cenas isoladas dos filmes (Os Pássaros, Psicose, Topázio, Tortura do Silêncio, Intriga Internacional) ganham releituras totalmente orgânicas, e a serviço dessa obra, numa era moderna onde a idéia de mídia, e de mídia original torna-se cada vez mais confusa. Double Take não é apenas um "filme de arquivo", mas um "filme arquivo", em mutação constante, um perfeito 'save as'.

Traz também uma das imagens do festival, exemplo de apropriação e montagem via associação: A tempestade de estática na tela preto e branco de uma TV dos anos 60 se transforma via corte na tempestade de pássaros numa sala de The Birds.

Filme visto no Arsenal 1, Berlim, Fevereiro 2009

3 comments:

Pedro Butcher said...

Kleber, esse é o cara do Dial H.I.S.T.O.R.Y, vc conhece?

CinemaScópio said...

não Pedro, me fala dele. gd abraço, K

Pedro Butcher said...

É um filme-ensaio muito doido sobre terrorismo - fiquei chocado (no bom sentido) quando vi, em 98, em Roterdã.