Friday, May 29, 2009

Blue Thunder (DVD)

Cartaz original de Blue Thunder
Olha o tamanho da arma. Roy Scheider e seu Trovão Azul.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Às vezes, você está numa livraria, ou supermercado, ou nas Lojas Americanas, e ao ver um filme, descobre-se ali que há uma relação antes insuspeita com aquela obra, e chega a vontade de tê-la na coleção, especialmente se for por 12 R$. Não trata-se da quase obrigação de ter um clássico, mas do desejo puro de retomar algo sem muita importância que foi visto há muito tempo e que deixou uma sensação boa.

É possível dividir o cinema entre o dos filmes que eu gostaria de ter em casa, e os que eu não tenho a menor vontade de ter em casa. Muitos desses são filmes que se relacionaram com você no passado, especialmente na infância e adolescência, e que terminam não sustentando bem os efeitos do tempo quando revistos. Mas, é assim mesmo. O carinho por eles vem exatamente do passado.

Ontem, deu vontade de ver alguma coisa à noite, algo bem distante do efeito Cannes que ainda reverbera. E lá vou eu na prateleira dos anos 80 e puxei Trovão Azul (Blue Thunder), sessão juvenil de 1983 que eu lembrava como se fosse dois meses atrás. O DVD estava guardado entre Psicose II, de Richard Franklin, e Sob Fogo Cerrado (Under Fire), de Roger Spottiswoode, dois filmes sub estimados dos anos 80.

John Badham (Os Embalos de Sábado à Noite) dirigiu esse aqui, diretor em demanda no final dos anos 70 e início dos 80. Hollywood o fez estacionar em techno-thrillers como este, Jogos de Guerra (WarGames) e Short Circuit (Um Robô em Curto Circuito).

Comecei a ver Trovão Azul, filme que, na época, me pareceu bem bacana, visto numa tela grande em 70mm (rodado em 35mm, ampliado para 70mm, seis faixas de som Dolby Stereo). Envelheceu bastante, como techno-thrillers de 25 anos atrás envelheceriam.

O que na época passava como Ok e até mesmo "cool!" hoje soa como um amontoado de clichês clássicos, material para a paródia. Roy Scheider é Frank Murphy, veterano do Vietnã que tem pesadelos onde o som ganha eco, ou suas lembranças voltam ao Vietnã quando a coisa aperta.

Ele tem um sidekick (Daniel Stern), cara super simpático que tem escrito na testa "vou morrer". Malcolm MacDowell é o vilão de papelão, e vê-lo sendo seviciado por Hollywood mais uma vez é triste.

Esse DVD francês vem com um número surpreendente de extras, e Badham comenta que eles filmaram um gazilhão de metros de filme, típico procedimento para filmes de ação caros, feitos por Hollywood. E é tudo em Panavision, com foto grungy na mão de John A. Alonzo, que também filmou Scarface, de De Palma.

Dan O'Bannon, que co-escreveu Alien (1979), queria ter feito uma espécie de Taxi Driver com um piloto de helicópteros em Los Angeles que enlouquece, mas o estúdio achou que não faria sentido torrar dólares com um psicopata que ameaçaria a lei e a ordem em LA.

O filme não faz muito sentido, mas já traz o medo muito americano do outro, num complô de direita para atacar a comunidade latina com um canhão que atira 4 mil tiros por minuto e evitar terrorismo nos jogos olímpicos do ano seguinte (1984), em Los Angeles.

A incorreção política sem filtro numa trama padrão de conspiração estilo Watergate e cenas de ação ainda curiosas me chamaram a atenção de uma maneira que tinham passado por cima da minha cabeça, na época. Dessas cenas de ação, onde muita coisa é quebrada, fica o destaque para o bombardeio de uma churrascaria e uma chuva de frangos assados caindo em carros e transeuntes.

Visão retrospectiva também me fez ver que foi na Los Angeles da época que Wim Wenders filmou e localizou Paris, Texas, os dois filmes até dividem locações. Como o cinema é capaz de registrar a mesma coisa de forma tão diferente.

Eu lembrava muito bem da música de Arthur B. Rubinstein, ótima trilha pegajosa e perfeitamente datada com seus synclaviers, o fundo para um filme de menino. Foi o último filme de Warren Oates, cujo rosto parece soletrar PECKINPAH. O filme é carinhosamente dedicado a ele.

9 comments:

Anonymous said...

http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2009/05/filmes-controversos-tem-algo-em-comum.html

João Daniel said...

Nunca ouvi falar desse filme, grande Roy Scheider.

Kleber, posta umas fotos da sua dvdteca lá no flickr...

Fernando Vasconcelos said...

eu achei o máximo esse filme quando vi uns 25 anos atrás no Art Palácio. Medo de rever hoje...

Alexandre da Maia said...

Trovão Azul virou até série de TV, não?

Kleber, e Visage, de Tsai? Vc não escreveu quase nada sobre ele. O filme é ruim?

Nádia Cristine said...

Kleber, me emociona sempre esse seu CinemaScópio.
um abraço: Nádia Gonzaga, jornalista, UFPE, 1995

Marcos Becker said...

O que houve com as atualizações?

suas críticas são as melhores que já li, parabéns.

CinemaScópio said...

Obrigado, depois de Cannes, recesso, voltando aos poucos agora.

João Solimeo said...

De fato entrar em uma lojas Americanas da vida é um convite a sair com um DVD na mão, seja ele qual for. E confesso que já fiz o mesmo que você, em comprar algum filme que nem é grande coisa, mas que "diz" algo pela nostalgia, ou pura curiosidade. Outro dia comprei o primeiro "Highlander", orgulhosamente trash, por uns doze reais, hehe.

Roy Scheider era um grande ator...pouco valorizado, eu diria. O eterno Chefe Brody de "Tubarão"...ou o alter ego de Bob Fosse em "All that Jazz". Devo ter visto este "Trovão Azul" em algum Supercine em passado indeterminado, mas eu me lembro da série que passava semanalmente na Globo. Lembra do "outro" filme de helicóptero, "Águia de Fogo"?

Abraço.

CinemaScópio said...

Airwolf!
Scheider, o cara fez Tubarão e All That Jazz. É imortal.