Friday, February 12, 2010

Filmar em Quê, Para Ser Visto Como?



fotos KMF

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Fiquei com vontade de escrever algo sobre esses novos sistemas de ‘ver’ cinema no dia em que Gabriel Mascaro me falou, em Roterdã, um mantra que tenho ouvido com freqüência: “Os grandes momentos de cinefilia da minha vida aconteceram na frente da tela de um computador”. Ironicamente, foi nesse dia que o novo longa metragem dele, Av. Brasília Formosa, passou numa tela Imax, projetado em alta definição.

Parece existir hoje divisão clara de cinefilias, uma seria a antiga (vou chamar de ‘clássica’, tipo a minha...), a outra que eu gosto de chamar com misto de carinho e algum desprezo de a nova, a dos “digital kids”.

Eles não têm intimidade com a sala de cinema como templo primeiro e espaço sagrado para ver um filme, parecem tratar sessões de cinema como narrativas não lineares passíveis de interrupção e acreditam que o arquivo ali reprocessado resulta em essencialmente o mesmo filme da tela de cinema, mesmo sem a coletividade do espaço, o autoritarismo da tela grande subjugando o espectador, a ida, por si só, ao cinema.

Não é difícil enxergar a beleza das possibilidades abertas para quem ama cinema e mora longe de centros exibidores de filmes. Poder baixar tudo e se incluir no cinema, passando por cima das falhas e omissões de mercado. É liberador.

Estava ouvindo um podcast da BBC vindo para Berlim sobre o conservadorismo de circuitos exibidores na Grã-Bretanha, e parecia que estavam falando do Grupo Severiano Ribeiro no Recife. Soube que, em Belfast, Irlanda do Norte, a dieta é 90% multiplex, panorama árido.

No entanto, a indústria parece ter um primeiro sinal de resultados positivos de reação contra, inicialmente, a idéia de pirataria, e indiretamente de defender uma hierarquia estabelecida pelo cinema (ver filme na sala, em primeiro lugar, acima de qualquer coisa). Esse sucesso de Avatar, de James Cameron, existe em vários níveis, e esse é um deles.

Não deixa de ser uma reedição do que ocorreu nos anos 50, com a chegada do Cinerama, CinemaScope ou Todd-Ao 70mm. A diferença é que, não há mais apenas a TV como inimiga, mas um mundo onde as imagens em movimento estão por toda parte (incluindo a TV), e tudo isso é capaz de reproduzir, em diversos tamanhos, o cinema.

(o site da Apple já anuncia o iPad com still de Star Trek – rodado em Panavision – na tela quadrada do novo ‘device’).

No caso de Avatar, o filme foi corretamente vendido como algo a ser ‘vivido’ (‘experienced’) em 3D, não apenas uma sugestão estética mas também uma questão técnica e comercial. Nesse sentido, Avatar e o seu impacto sugerem uma anulação momentânea de um modelo atual de usufruto do filme não importa em que meio, mídia, formato ou aparelho. Suepeito que DVDs de carrocinha de Avatar, ou screeners do filme, não sejam tão apetitosos, de repente.

No Recife, que está atualmente equipado com apenas uma sala 3D, eu entendi o tamanho do fenômeno quando Avatar continuava lotando a única sala diariamente enquanto a versão 2D saía de cartaz algumas semanas antes. O público continuava fazendo fila para beber água na única torneira de imagens 3D da região. Não só isso, mas, ao que parece, espectadores que haviam visto o filme em 2D voltaram para ver em 3D.

O caso de Avatar é realmente curioso, superando todos os outros avanços marketados pela indústria ao longo dos últimos 40 anos. Eu não lembro de ter visto mobilizações populares em torno do som Dolby, DTS, Dolby Digital, projeção digital pura e simples. A moda de um filme só (Terremoto) Sensurround, nos anos 70, talvez? Mas foi uma moda rápida, ‘a flash in the pan’, como o próprio 3D nos anos 50 (ver texto ligeiro sobre Dial ‘M’ For Murder, do Hitchcock, abaixo).

Talvez seja o grau de intimidade que o mundo desenvolveu nos últimos anos em torno da tecnologia, ou da palavra “digital” que faz do 3D algo que finalmente pegou, em 2009/2010. Estima-se que os diferentes formatos 3D tenham representado 70% da bilheteria do filme de Cameron nos EUA. Quatro milhões de espectadores viram o filme em Imax.

Avatar gerou ainda castas diferentes de apresentação técnica da experiência de ver o filme em si. Em 2D, é a projeção 35mm CinemaScope, elo de ligação entre a tecnologia convencional e a nova tecnologia. Em 3D, o filme passa em Real D, Dolby Digital 3D e Imax 3D, não apenas em CinemaScope 2.35, mas também no formato que James Cameron prefere para seu filme em 3D, 1.78 (com mais teto e chão no todo, o aspecto de uma TV LCD ou plasma).

Em 1953, a Fox, mesmo estúdio por trás de Avatar, revelou O Manto Sagrado (The Robe), primeiro lançamento em CinemaScope 2.55, mas lançado em 1.37 (o formato padrão do cinema até então) nas salas que ainda não haviam feito a conversão. No Brasil, são freqüentes as arengas com a Rain e a maneira como alguns filmes originalmente scope em 35mm passam em versões readaptadas para 1.78, processo que, ao contrario do que muitos acreditam, não é feito pela Rain, em São Paulo, mas pelos próprios realizadores (vide o caso de Deserto Feliz, de Paulo Caldas).

E como adaptar novas tecnologias de um Avatar (e de um Alice, de Tim Burton, ou Fúria de Titãs...) para os que aprenderam seu vocabulário fílmico na frente de uma tela de computador? Talvez seja uma transição curiosa e dolorida, uma vez que poderá levar cinco ou dez anos para que a tecnologia administre transcrições/cópias não apenas da obra em si, mas da sua técnica, permitindo que o filme seja visto como deve ser visto.

De qualquer forma, como é que o filme “deve ser visto?” Isso existe ainda?

Desde que cheguei em Berlim que esse assunto está em toda parte, às vezes mostrando a natureza autofágica da própria indústria. Algumas das coisas que tenho ouvido e lido:

Exibidores da Inglaterra estão querendo boicotar Alice, de Burton, pois a Disney acaba de diminuir o que já era curto: o tempo que separa a vida de um filme no cinema e seu lançamento em DVD/Blu-Ray. De 17 semanas, agora cairia para 12 semanas. Reflete a natureza predatória da própria indústria, indo contra a idéia acima defendida de “a sala de cinema como espaço primeiro”. Ao diminuir o tempo, diminui-se a exclusividade.

Herzog, na coletiva de imprensa, falou candidamente sobre como seu Bad Leiutenant iria direto para DVD, caso não tivesse tido reações positivas da crítica. Quando vi o filme no Recife, adorei não apenas o filme, mas a reação do público.

Num outro podcast recente, do site da American Cinematographer, o diretor de fotografia Rodney Taylor fala com enorme orgulho de como filmou uma produção independente pequena chamada That Evening Sun com equipamento anamórfico Panavision 35mm. O entrevistador questiona se vale a pena o esforço, já que boa parte dos que virão o filme ao longo do tempo não o verá projetado em película 35mm, CinemaScope. Taylor, talvez romanticamente, responde que “vale”.

O que me leva ao meu primeiro longa, O Som ao Redor, que devo filmar esse ano. A grande questão é, filmar em quê, para ser isto como?

6 comments:

Caio said...

os diretores brasileiros podem ter certeza de uma coisa: 70 % das pessoas não assistirão seus filmes no cinema. Pois não há boa divulgação , não há salas de exibição em multiplex , e muitas vezes essas obras nem chegam aos cinemas de determinadas cidades , eu acredito que a maioria das pessoas assistem filmes em dvd e blu-ray , apesar desse ultimo ainda não ser muito popular no Brasil acho que é um formato mais decente pois a imagem é superior e os aparelhos de tv são em widescreen , preenchendo melhor a tela já que se ajusta automaticamente ao aspect ratio do filme.

romuleke said...

O melhor do post foi o Histoire de Melody Nelson do Gainsbourg ao fundo, meio escondido pelo reflexo da luz.

CinemaScópio said...

é mesmo. Vai entrar texto sobre o filme do Gainsbourg, sábado.

nando said...

Confesso sem tanto pesar algo bem semelhante ao Mascaro, pois sem a tela do computador eu não teria alcançado minhas melhores experiências estéticas dos últimos anos. É impressionante a capacidade de adequação em torno dessa nova possibilidade de se experimentar um filme. Posso até testemunhar casos em que vi um filme no cinema, mas só o admirei plenamente quando o revi no PC, não devido ao 'rever', mas ao 'ver' da maneira como já se tornou preferência.
Bom trabalho aí no longa! Não sei onde vou vê-lo, mas vou ver! rsrsrs

CinemaScópio said...

Eu não sei se merece pesar esse tipo de postura. É apenas um caminho que eu entendo perfeitamente, mas que ainda me incomoda. Mas é o que é, ou seja, é real, está acontecendo.

CinemaScópio said...

Quem identificar o filme passando no monitor, ganha um doce.