Friday, February 12, 2010

The Ghost Writer


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A grande ausência em Berlim esse ano é a de Roman Polanski, 76 anos. Ele perdeu a estréia mundial do seu novo filme, o ótimo Ghost Writer, exibido hoje em competição, com Ewan McGregor e Pierce Brosnan. Polanski está em prisão domiciliar no seu chalé, na Suíça, por questões judiciais pendentes desde 1978, nos EUA, quando foi acusado formalmente de manter relações sexuais com garota de 13 anos de idade. Aguarda decisão da justiça sobre uma possível extradição, numa batalha legal que ainda deverá render muito.

Os problemas de Polanski foram esmiuçados no documentário inédito no Brasil Roman Polanski: Wanted and Desired (Procurado e Desejado), da realizadora Marina Zenovich, olhar informativo (e generoso) para com o realizador de Repulsa ao Sexo (exibido aqui na retrospectiva especial dos 60 anos da Berlinale, esta semana), O Bebê de Rosemary e O Pianista. Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Olivia Williams e equipe falaram o óbvio sobre a ausência de Polanski, enfim, de que é lamentável.

Não é difícil enxergar paralelos entre Polanski e as tensões de um personagem chave de Ghost Writer, um ex-primeiro ministro britânico (Brosnan) exilado numa belíssima casa de praia nos EUA. Enfrenta acusações sobre manobras ilegais que levaram a Inglaterra à guerra no oriente médio.

Há aí um segundo e espetacular paralelo real, com o ex-primeiro ministro britânico Tony Blair. Ele enfrenta atualmente o mesmo tipo de acusação em relação à participação da Inglaterra na Guerra do Iraque, em alianças escusas com os EUA de George W. Bush.

Na coletiva de imprensa, o escritor e roteirista Robert Harris explicou que o texto foi escrito em 2007, mas que, ao longo dos últimos três anos, viu os fatos transformarem seu livro (e, agora, o filme) “num quase documentário”. Há pressão cada vez mais forte para que Blair seja levado ao tribunal de Haia, em especial por ter mentido, ao lado de Bush, sobre as armas de destruição em massa inexistentes de Sadam Hussein.

No filme, um “escritor fantasma” (McGregor) é contratado para escrever a autobiografia desse ex-primeiro ministro, substituindo um outro escritor que morreu misteriosamente, fato estabelecido numa cena de abertura muito eficaz, a bordo de um ferry.

Com estilo clássico cristalino, Polanski faz o espectador assumir o ponto de vista desse jovem escritor, entrando num mundo que ele não conhece. A sua viagem entre Londres e Martha’s Vineyeard (litoral nordeste dos EUA, mas filmado no norte da Alemanha e em estúdio, em Berlim) é detalhada realisticamente, com trocas de avião, carro e ferry boat. É tudo ágil e sempre instigante como entretenimento, facilmente associável ao cinema de Alfred Hitchcock, algo que um outro filme de Polanski, Busca Fernética (1988), já lembrava. Também não é difícil imaginar Cary Grant no papel de McGregor.

Ghost Writer é mais um exemplar de um cinema moderno feito por realizador maduro, dotado do tipo de qualidade que não associamos às narrativas da pressa nos filmes de mercado. Tem um outro timbre. Não é difícil lembrar de Clint Eastwood ou Alain Resnais durante esse novo Polanski, autores maduros que, às suas maneiras pessoais, nos dão filmes, e jeitos de filmar, que terminam fazendo a diferença. Talvez isso venha de parecerem ligeiramente deslocados no quadro geral do cinema.

Observamos com interesse que em Ghost Writer, lançado em 2010, a peça principal que move a trama (o ‘McGuffin’ hitchcockiano) não é uma imagem, um disco digital ou um arquivo de computador, mas a palavra escrita na forma de um livro. De fato, são palavras impressas em papel que encerram o filme, a palavra como imagem assinatura.

1 comment:

Jack Lewis said...

Também estou na cobertura de Berlim, abraço Kleber!