Thursday, May 22, 2008

Che

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Um dos filmes mais esperados da seleção 2008 em Cannes passou na noite de quarta e chama-se Che (EUA/Espanha), de Steven Soderbergh, diretor americano que ganhou a Palma de Ouro no festival com seu primeiro filme, sexo, mentiras & videotape (1989). Com quatro horas e 28 minutos de duração, o calhamaço, que ainda aguarda distribuidor no Brasil e, principalmente, nos EUA, aborda, em duas partes, e em detalhes, a ascensão de Fidel Castro via Revolução cubana e depois a tentativa fracassada de Ernesto "Che" Guevara implantar o mesmo tipo de movimentação política na Bolívia. A projeção, completa com intervalo e lanche para a platéia em sacola "Che" com sanduíche, água mineral e barra de chocolate, foi bem sucedida na sua recepção junto à imprensa.

Soderbergh fez um épico moderno, sintético e apaixonado de um período da história marcado por um personagem essencial. Poderá, junto com Diários de Motocicleta, de Walter Salles, acrescentar uma personalidade à figura mundialmente divulgada nas camisetas pop.

Impressiona no filme a capacidade que Soderbergh, diretor que experimenta com praticamente todos os tipos e tamanhos de projetos em cinema, equilibra tanta informação, entrecortando múltiplas linhas de tempo, trechos em preto e branco, e em cor.Tom geral lembra uma versão mais sóbria doque Oliver Stone já fez em JFK ou Nixon. Guevara, na sua visita aos EUA onde discursou nas Nações Unidas sob onda de protestos e ameaças terroristas, ganha o tom de um documentário feito na época, evocando imagens recentes de Não Estou Lá (filme que, aliás, Soderbergh co-produziu).

Che revela-se, em cada palavra, um orador nato dotado de discurso político preciso para com o poderoso vizinho de Cuba que chamava pela palavra "imperialista". Esse retrato, na verdade, permanece imaculado ao longo de todo o filme, curiosamente livre de seja lá que aspectos mais duros certamente existiram como parte do homem.

Como colocou Soderbergh na coletiva de imprensa, "Cuba para mim me interessa menos do que o personagem Che, ele explica meu envolvimento com o filme. Che é material perfeito para o cinema, uma mente fascinante. A idéia original era fazer um filme apenas sobre a fase final boliviana, mas percebi que seria essencial chegar a essa parte com informações importantes sobre o que se passou em Cuba."

A primeira parte, apresentada em tela larga CinemaScope (filme todo rodado em digital), tem a exuberância natural de uma campanha guerrilheira que deu certo, com extensas cenas de ação na selva cubana e também nas cidades rumo a Havana. O filme aborda de maneira feliz a política humana específica desses lideres revolucionários, como a punição sumária de três voluntários que, em nome da revolução, roubou e estuprou camponeses.

Che (Benício del Toro, no tipo de atuação que geralmente rende indicções ao Oscar) é o epicentro da ação, mas estão também em cena Fidel Castro (Démian Bichir) e Raul Castro (o brasileiro Rodrigo Santoro), acompanhados de dezenas de revolucionários que perdem suas vidas no violento processo.

Del Toro, também presente na coletiva, disse que a preparação para ser Che veio com muita leitura, fotos e imagens de arquivo. "Cresci em Porto Rico, que é a mesma coisa de viver nos EUA, onde Che é supostamente um vilão. Lembro uma vez que fui à Cidade do México e vi numa livraria uma série de fotos de Che sorrindo, e achei curioso ver algo tão diferente do que estava acostumado a ver. Acima de tudo, o amor que tanta gente tem por ele, do povo e dos que o conheceram, foi a parte mais inspiradora".

Muito interessante também observar a partir de agora como o filme será percebido nos EUA com sua visão não apenas humana, mas marcadamente humanitária de uma idéia de revolução, a mesma revolução que deu origem ao embargo econômico que ainda hoje limita condições econômicas em Cuba e que também, em tese, proibiria a exibição de um filme feito, em grande parte, com dinheiro americano na ilha.

PS: imagens em digital do filme me chamaram muito a atenção. Sei que foi feito com a nova câmera Red, e ver aquela imagem digital em CinemaScope via projeção digital cristalina de Cannes me passou a estranha sensação de que a revolução travada na tela era de fato um paralelo para a revolução digital, espécie de guerrilha que Soderbergh (sempre estando e experimentando coisas) está bancando. Não é escolha fácil, pois as imagens realistas de batalhas em externas diurnas realmente parecem vídeo, muito embora um vídeo maravilhoso. Imagens de Che nos EUA em P&B estilo I'm Not There são sensacionais, mas todos sabem que preto e branco/digital sempre abriu espaço para uma saudável pureza estética.

2 comments:

tiago said...

kleber, as duas partes se igualam em qualidade ou esse projeto é como conquista da honra/cartas de iwo jima?
e tambem não entendi se você gostou ou não do del toro, afinal ser tipica de oscar é elogio ou não?

CinemaScópio said...

ele está muito bom.
partes são equilibradas, mas uma com a máscara do sorriso, a outra da tragédia.