Saturday, May 24, 2008

La leçon de Cinéma de Tarantino

foto Eduardo Valente

Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Um dos momentos que já virou tradição em Cannes é a Leçon du Cinema, onde o festival convida um autor inquestionável do cardápio de cineastas que o próprio festival já honrou em anos anteriores para, durante cerca de 90 minutos num palco, diante do público, falar sobre seus filmes. Ano passado, a Leçon du Cinema, pela primeira vez, foi transferida para a segunda maior sala do festival, a Debussy, com o cineasta convidado Martin Scorsese. Esse ano, Quentin Tarantino apareceu para, na quinta-feira, discutir cenas, idéias, método de trabalho e sua forma de fazer filmes. Tarantino ganhou em 1994 a Palma de Ouro por Pulp Fiction.

Com mediação do critico francês da Positif, Michel Ciment, Tarantino parecia à vontade como que conversando sobre filmes na varanda da sua casa num sábado à tarde, com os amigos. Chama a atenção nele uma capacidade de falar o que pensa sem qualquer verniz de intelectualização do seu trabalho, mas sempre em termos absolutamente pessoais. Diria que é o cineasta americano por excelência, totalmente apegado à experiência empírica sob o signo de um pragmatismo cortante.

Começou esclarecendo "a lenda urbana" de que ele teria aprendido tudo o que sabe trabalhando na vídeo-locadora Vídeo Archives, em Los Angeles. "Eu fui trabalhar ali por já ser um expert em cinema. Além de ter pulado fora do colegial antes de terminar, minha formação veio de ver filmes não apenas em salas alternativas dedicadas a clássicos, mas de pegar o guia de programação da TV e lê-lo de capa a capa, marcando os filmes que eu veria, ou que gravaria. Tão pensando que é como hoje, onde os filmes já estão todos separados em DVD?".

Essa cinefilia parece ter seguido um método, "descobrir um grande filme e ir atrás de todos os outros filmes daquele diretor, e isso aconteceu com Howard Hawks, Eric Rhomer, Sergio Leone, Mario Bava, Robert Aldrich, Brian de Palma..."

Ciment, ciente da quantidade de estudantes de cinema na platéia, fez a colocação obrigatória: "Qual o melhor conselho que você poderia dar para alguém que quer fazer filmes?" Tarantino, por experiência própria, disse que "bem melhor do que entrar numa escola de cinema e pagar uma pequena fortuna pela experiência é você partir para fazer seu próprio filme, mesmo sem dinheiro ou estrutura, pois esta será, de fato, a sua escola de cinema. Tentar fazer um longa sozinho com erros e acertos é a melhor escola de cinema que você jamais fará".

Ele contou que essa sua experiência prática veio de um projeto intitulado My Best Friend´s Birthday (O Aniversário do Meu Melhor Amigo), filme feito em 16mm que seria um curta e logo virou um longa que se arrastou por três anos, sempre filmando nos finais de semana. "Ia na locadora de equipamento e alugava na sexta porque, para o final de semana, só cobravam uma diária, e às vezes entregava a câmera na manhã da segunda depois de virar 48 horas trabalhando sem parar, para recomeçar no emprego no mesmo dia. Durante esses três anos, era claro que o material feito no início era muito ruim, mas que eu estava, aos poucos, melhorando".

"Também não recomendo aulas de roteiro, mas, ao invés, aulas de atuação. Ao entender como funciona a atuação, você poderá enxergar o trabalho do ator e o texto que todos irão falar. Entender uma cena significa entender a atuação, e entender uma cena significa compreender como funciona o contar histórias", completou Tarantino, que estudou atuação durante seis anos.

"Meu grande professor na vida foi o ator James Best, mais conhecido por ter feito o xerife em Os Gatões. Ele me ensinou técnicas de como atuar e se relacionar com a câmera, essenciais em Los Angeles onde os atores são chamados para trabalhar principalmente em seriados de TV. E em LA, o mercado é tão profissional que se perceberem que você está todo perdido sem achar sua marca no chão, você está fora. Isso foi fantástico porque comecei a ver o cinema de outra maneira, e passei a rever os filmes que sempre amei como Era Uma Vez no Oeste, prestando a atenção em tudo isso".

Já mais à frente, antes de filmar Cães de Aluguel, Tarantino diz ter aprendido uma outra lição, que é seguir seus instintos. "Participei do laboratório de diretores do Sundance Institute, onde cada diretor que estava com projeto pronto para filmar recebia retorno de consultores, cineastas experientes que analisam seu trabalho. Os cineastas Jon Amiel, Monte Hellman e Anne Coates (montadora de Lawrence da Arábia) basicamente me disseram que a cena que apresentei, sem cortes, um plano só, era horrível, que precisava cortar, etc."

Tarantino disse que ficou preocupado e foi andar sozinho, pensando "Ok, eles não gostaram, mas eu estou querendo experimentar e, sabe de uma coisa, eu gosto da minha cena!". A próxima leva de consultores chegou, composta por Terry Gilliam e Volker Schlöndorff. "Gilliam disse 'é isso mesmo rapaz, você quer experimentar, fazer algo novo!", e Schlöndorff quand me conheceu disse, com o sotaque alemão dele, 'então, é você o geniozinho!". Aprendi ali que seria assim, sempre vão gostar do meu trabalho, e sempre alguém não vai gostar, e é isso mesmo, papo encerrado".

O depoimento de Tarantino foi acompanhado de cenas dos filmes do diretor especialmente escolhidas por Ciment para ilustrar idéias. Sobre Cães de Aluguel (1992), Tarantino disse que ao se aproximarem as filmagens ele começou a entrar num estado de ansiedade "pelo simples fato de ser bom demais para ser verdade. Coisas desse tipo não acontecem com alguém como eu, ou com meus amigos, não temos esse tipo de oportunidade de dirigir nosso próprio filme. Meu maior medo era ser chutado para fora do projeto. Isso aconteceu com Scorsese em The Honeymoon Killers!".

Agradece a Cães de Aluguel a chance de ter podido, pela primeira vez, conhecer o mundo. "Antes de fazer esse filme, eu era um californiano que tinha visitado o Tenessee. Passei meus 20 sem um puto no bolso, morava com minha mãe. Depois que o filme ficou pronto, passou em Sundance em janeiro e, depois, embarquei para a Europa, onde fiquei quatro meses e emendei, em maio, com a exibição em Cannes".

Em Pulp Fiction, Tarantino disse que a cena onde John Travolta vai buscar Uma Thurman para sair à noite era apenas uma idéia antiga anotada que ele inseriu no filme, que vê como "uma coleção de clichês de histórias que ganha vida própria minha". Falou que seus filmes, na verdade, são compostos por pequenos filmes de dez ou 15 minutos, e que a questão e apenas encontrar uma ligação entre eles.

Em Jackie Brown, disse que se não conseguisse autorização para filmar no shopping center Del Amo, em Los Angeles, ele provavelmente cogitaria não fazer o filme. "Aquele shopping faz parte da minha vida, passei a infância indo lá, vi centenas de filmes lá, o cinema de onde Robert Foster sai no filme é o mesmo cinema que freqüento até hoje".

Sobre Kill Bill, disse que "é o tipo de filme que meus outros personagens vão ver no cinema". Ele também começou a sentir a sedução da tecnologia em KB. "Em Cães de Aluguel, fazer uma fusão significava usar processo ótico que era uma chateação, você só veria a fusão com o filme pronto, o que me levava a não querer usar nada além de corte seco, o que é muito bom para qualquer filme".

"Em Kill Bill - que eu fiz para me testar como um diretor de ação, já que para mim a cena de ação é a maior expressão que há na linguagem cinematográfica – já tínhamos todas essas coisas digitais, e você começa a acrescentar penduricalhos no filme, começa a pirar. O que me levou ao The Hulk, de Ang Lee, que é um filme que eu gosto, mas que me parece claramente um caso de Lee e sua equipe terem enlouquecido com as possibilidades, dividindo tela em duas, três, cinco janelas, um carnaval. Falei para Sally Menke (montadora), vá ver The Hulk como modelo para o que não pode acontecer com Kill Bill! Sally! Cuidado, The Hulk!"

Obviamente que o assunto trilha sonora não poderia passar em branco. "Eu talvez tenha uma das grandes coleções de trilha sonora dos EUA. Em 1981, vi Caçadores da Arca Perdida, comprei o disco, voltava para casa para ouvir a música e criava um segundo filme na minha cabeça com as lembranças que tinha das imagens".

"Pensava nos meus próprios filmes e idéias com músicas alheias, e por isso que não tenho a paciência de terminar um filme, chamar um compositor e mostrar o filme para ele. E se eu não gostar do que ele fizer? E se eu já tiver pago o cara? Como fica? Prefiro trabalhar com os maiores compositores do cinema, Ennio Morricone, Lalo Schifrin, John Barry, estão todos em casa! Acho que combina com a minha percepção de que, a cada filme, regrido tecnologicamente, contra a corrente de toda essa porcaria digital".

3 comments:

tiago said...

admiro muito o talento do tarantino, mas convenhamos, depois de cães e pulp ele não voltou ao mesmo nivel

Victor Rodrigues said...

massa!

aproveito pra referenciar aqui Tarantino's mind, um curta que tá no youtube, com Selton Mello e Seu Jorge, onde eles ficam noiando em cima do "Código Tarantino".

Muito divertido, e faz sentido mesmo pra maioria das coisas :P

Anonymous said...

Adorei seu post!

Pessoal, essa eu tenho que recomendar, dois sites interessantíssimos: www.meus3desejos.com.br e www.videoflix.com.br.

Abs.