Tuesday, May 20, 2008

Two Lovers



Kleber Mendonça Filho

cinemascopio@gmail.com

A valorização do cineasta americano James Gray por Cannes (seu Os Donos da Noite competiu ano passado) parece fechar-se num círculo dos mais redondos com a apresentação em competição de Two Lovers, crônica de amor delicada como pouca coisa, e que deverá se alojar na consciência de muitos quando ganhar o mundo ainda esse ano. O mais curioso nesse filme é o quanto ele é americano na sua essência, ao mesmo tempo em que revela-se peça tão rara na produção de lá, especialmente na mais bela força do filme: a naturalidade sentimental dos seus personagens.

Two Lovers foi um dos vários filmes (Ensaio Sobre a Cegueira, Linha de Passe e Che, que passa hoje) que ficaram prontos em cima da hora, alguns deles exibidos no sistema digital cristalino de Cannes, o caso de Two Lovers.

Numa atuação que deverá render pelo menos sérias considerações dentro do júri, se não o prêmio propriamente dito, Joacquin Phoenix interpreta um homem na casa dos 30 que ainda encontra-se perfeitamente instalado no seio da sua família, e família é um elemento que Gray parece entender bem, recorrência essencial (Fuga para Odessa, Caminho Sem Volta, Os Donos da Noite) para sentir seus filmes.

Localização também é importante, e a Nova York suburbana de Gray é filmada com um conhecimento de causa fascinante, neste filme em Brighton Beach, com pelo menos uma ida luminosa a Manhattan ("the city", como residentes de outras 'boroughs' nova-iorquinas a chamam). Esse universo de Gray também consegue transmitir uma naturalidade das pessoas em ambientes domésticos igualmente verdadeira. Reginald (Phoenix) mora com o pai e a mãe (Moni Moshonov e Izabella Rossellini), judeus do ramo da lavanderia, num apartamento nova-iorquino da classe média trabalhadora.

Típico "estudo de personagem" que dialoga com outros na competição esse ano (o argentino Leonera, o belga Le Silence de Lorna), onde o filme não te entrega instruções completas já no início para entender quem ele é (cena de abertura é apenas uma informação, e não uma bula), Reginald revela-se aos poucos um personagem masculino notável, com visão diferenciada de mundo e uma melancolia amorosa que define quem ele é através da sua relação com mulheres.

Porquê é tão raro ver na vasta produção americana um homem de conduta normal, tentando lidar seja honesta, ou instintivamente, com seus problemas pouco, ou nada, espetaculares?

No caso de Two Lovers, não apenas Reginald, mas também duas garotas que ele conhece chamam a atenção pela facilidade que têm para expressar o que sentem, de maneira sempre aberta. E depois de um longo período de abstinência para Reginald, eis que ambas, claro, surgem na mesma semana.

Sandra (Vinessa Shaw) é a filha de um casal amigo da família, os Cohens, e os dois patriarcas cogitam juntar suas duas empresas do mesmo ramo, e seria perfeito para todos se Reginald e Sandra se apaixonassem, noção ligeiramente perturbadora e, ao que parece, comum entre americanos. A união amorosa casa com a de capital, e chama a atenção como as duas famílias aparentam ser tranquilas e do bem, sem qualquer sinal de planejamento manipulador ou vilania. O roteiro de Gray consegue fazer de Sandra uma garota maravilha, bonita em todos os sentidos e ciente do que quer: ela quer Reginald.

Já Michelle (Gwyneth Paltrow) é um outro tipo de encrenca. É a vizinha que acaba de se mudar, transforma Reginald num amigo e confidente, relação marcada pelo notório "fator irmãozinho", e que parece puxá-lo para uma queda gigantesca pela moça confusa. Ela fala com delicadeza sobre a situação amorosa difícil na qual se encontra com um outro homem, e o efeito de Michelle e sua doçura machucada revelam-se atordoantes para Reginald, que já não vê sentido em manter a foto de um doloroso amor passado na sua cabeceira.

Gray é jovem, um autor cinéfilo, e conheça um diretor pelos detalhes que ele insere nos seus filmes que, curiosamente, nunca realmente me pegaram até este. Olhando para Izabella Rossellini como a mãe de Reginald, lembrei da atenção que ele dá às presenças maternas ao longo da sua obra, mães interpretadas por atrizes formidáveis, sempre. Vanessa Redgrave em Odessa, Ellen Burstyn em The Yards, Rossellini agora.

Ao final da sessão, colegas apontaram que o filme trazia algo da aura de Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany´s), de Blake Edwards, idéia de interessante procedência. O filme chega a um final que atinge grau pouco explorado de filosofia emocional.

O filme, aliás, será certamente vendido como algum tipo de "romance", mas não é exatamente um "romance de mercado" que o público médio vai decodificar muito facilmente, ou se funcionar, situações terão interpretação rasteira. Signatários de relações duplas não planejadas nos seus hstóricos amorosos poderão ter o filme na mais alta estima. Muito bom.

3 comments:

Rafael Carvalho said...

Confesso que não nutro muita simpatia pelo cinema do James Gray. Os Donos da Noite, do qual falaram tanto o ano passado, não me convenceu nem um pouco. Espero que ele melhore. E pela sua fala Two Lovers promete mais do que um roteiro chocho e mal conduzido.

Thiago said...

pois eu sou da turma que acha que se o Gray melhorar, ele bate o nível do espetacular. "We Own the Night" é uma maravilha de reflexão sobre conduta, peso das decisões, família e culpa. uma beleza.

*a cobertura tá ótima, Kléber, mesmo com textos rápidos. parabéns! e parabéns pelo "Crítico" também, que eu não pude dizer a você pessoalmente na mostra do Filmes Polvo.

Bruno Carmelo said...

Belo texto. Acabei de ver o filme e gostei bastante, sem falar que a Gwyneth Paltrow me surpreendeu...

Pequeno detalhe: o nome do protagonista não é "Leonard"?

Abraço.

BRUNO

PS: Por que o site està parado desde setembro? Tuas criticas estão sendo publicadas em outro espaço?