Thursday, May 20, 2010

'My Joy'


'My Joy', de Sergei Losnitza.

Obs: Esse texto é uma revisão geral acrescida do texto anterior sobre 'My Joy' publicado anteriormente.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


A Palma de Ouro clara e evidente, a primeira desse Festival de Cannes, é a produção Alemanha/Ucrânia Schastye Moe (My Joy – Minha Alegria), do cineasta russo Sergei Losnitza, que não apenas estréia no longa metragem, mas o faz já na competição. Além da Palma, ele ainda arrisca ganhar a Câmera de Ouro, para estreantes. Poderosíssimo, como só o cinema russo parece conseguir ser, esse filme passa como uma parábola de proporções bíblicas sobre a Rússia atual, cultura fascinante marcada por uma história brutal que sugere pesado karma.

Losnitza apresenta uma pintura sofisticada do estado de espírito de toda essa cultura, pelo jeito marcada pela palavra “documentos...”, falada inúmeras vezes de maneira ameaçadora por homens fardados exercendo as piores formas de poder, oprimindo os mais fracos.

O filme parece tirar todo o ar da sala. O espectador pode sentir-se intimidado pelas imagens de Losnitza, num filme que abre com um trator passando literalmente por cima do espectador. No entanto, há sempre a certeza de que ele sabe bem o que está fazendo.

A força descomunal do filme poderá ser discutida e/ou questionada pelos que não têm intimidade com o país e sua história recente, ou seu panorama atual, algo que um outro realizador jovem, Ilya Khrjanovsky, fez no seu primeiro longa, 4 (2005), inédito comercialmente no Brasil. Tudo pode parecer agressivo demais, sombrio demais.

Losnitza tem uma carreira brilhante no documentário em curta e média metragem. Fez um outro filme impressionante chamado Blockade (2006) a partir dos arquivos do orgão de propaganda soviético sobre o cerco nazista a São Petersburgo (Leningrado, na época), recriando sons para as imagens mudas que mostram uma cidade asfixiada tentando viver.

Em Schastye Moe, o espectador é colocado num estado de tensão suspensa constante, e entra na casa das duas dezenas as imagens potentes da força bruta esmagando sinais inconfundíveis de delicadeza. Quando existe a suspeita de nihilismo por parte do realizador, ele nos dá uma sinfonia de rostos humanos numa feira de cidade pequena, um homem que só quer passar amor para seu filho pequeno, um outro que quer voltar para casa com um vestido para sua mulher.

O personagem principal é um motorista de caminhão (Viktor Nemets) que, como um garoto num conto de fadas, tenta manter-se na estrada principal, mas aos poucos toma caminhos cada vez menores e perdidos na floresta, aqui filmada em dois tons: no verde do verão e no branco gelado do inverno, onde Schastye Moe confirma suas tendências fabulares.

O fotógrafo moldavo Oleg Mutu (A Morte do Senhor Lazarescu, 4 Meses 3 Semanas 2 Dias) usa a tela larga scope de maneira orgânica, cada espaço ciente de sua importância, unindo estética e informação narrativa.

Losnitza nos leva a uma estrutura fabular perfeitamente cortada pelo clima de modernidade, vez ou outra nos contando episódios isolados no passado russo de uma memória afetiva traumatizada pela guerra.

Com a bússola moral quebrada, Losnitza desconstrói nossa segurança de espectador treinado, nos deixando sozinhos com os elementos. É ainda mais impressionante a sequência final, um apocalipse perfeitamente integrado à história, claramente fruto de um russo que lamenta muito o estado atual da cultura política e herança histórica que parece prender o seu país num estado constante de trauma.

MIKHALKOV - A participação de Schastye Moe na competição de Cannes terá um aspecto interessantíssimo pois baterá de frente com um outro filme, O Sol Enganador 2, produção russa dirigida pelo veterano Mikhail Mikhalkov. O choque será não apenas estético, mas político.

Conversando com colegas russos, soubemos que, diferente de Losnitza, que abandonou a Rússia por não saber mais lidar com o país, especialmente sua política ufanista de cinema, Mikhalkov é próximo do poder e de Vladimir Putin, que muitos na Rússia vêem como herdeiro da mentalidade stalinista de autoridade e propaganda.

Mikhalkov esteve também responsável pela política de cinema na Rússia, que praticamente deixou de apoiar filmes independentes para canalizar verba para esse seu filme novo, o mais caro da história cinematográfica russa (custou 40 milhões de dólares). Mikhalkov seria ainda uma continuação das reduzidíssimas classes abastadas que prosperavam favorecidas pelo antigo regime, seu filme uma promessa de propaganda.

O Sol Enganador 2, segunda parte do filme que ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro (1993) passa sexta-feira, em Cannes.

2 comments:

Bruno Carmelo said...

Oi, Kleber,

gosto de acompanhar diversos blogs diferentes durante o festival de Cannes para acompanhar as diversas reações, e achei curioso ver no blog dos Inrockuptibles as mesmas reações, mas aplicadas a filmes oposto dos teus. Você parece ter gostado de My Joy pela mesma razão que eles amaram Biutiful ; e eles viram em My Joy todos os grandes defeitos morais que você enxergou no filme do Inãrritu.

No entanto, os dois me parecem bastante diferentes (suposição coerente, já que tanto você quanto os Inrocks gostaram de um, mas não do outro). Engraçado ver que dois filmes aparentemente tão diferentes podem ser enxergados pela mesma visão de mundo.

Abraço.

CinemaScópio said...

Bruno, n tenho tempo de ler, mas interessante saber. Qqr outro filme, eu entenderia, mas esse filme do Biutiful é realmente dose. Curioso.