Sunday, February 1, 2009

Deserto Feliz


Hermila Guedes e Nash Laila em Brasília Teimosa.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Depois de estrear internacionalmente no Festival de Berlim do ano passado, ter exibições vitoriosas em festivais como Gramado (prêmio de Melhor Diretor), Rio e Mostra de São Paulo de 2007, e passar por um longo período de reconfiguração de custos de produção, finalmente chega aos cinemas Deserto Feliz, filme de Paulo Caldas (co-diretor de Baile Perfumado e Rap do Pequeno Príncipe). O longa metragem nos conta a história de uma garota de Petrolina que toma o sentido leste para a sua vida rumo a Boa Viagem, no Recife, e de lá para Berlim, na Alemanha, traçando um painel humano moderno de movimentações políticas e econômicas que levam as pessoas de um lado ao outro.

O filme de Caldas apresenta um processamento importante no sentido de estabelecer a produção pernambucana ligada direta e tematicamente com o mundo exterior, muito embora a predominância de obras de sabor "local" (Amarelo Manga, Baixio das Bestas, de Cláudio Assis), mas de apelo universal, nunca tenha sido realmente um problema nos filmes aqui produzidos. Depois de flertar com personagens estrangeiros em Baile e Cinema Aspirinas e Urubus, Deserto Feliz parece passar para a próxima fase.

O faz sob um dos temas principais do cinema hoje, que é a relação entre mundo pobre e mundo rico. Narrado no que aparentam ser três atos, Jéssica (Nash Laila), no primeiro, é a menina sertaneja que mora nos arredores de Petrolina, onde o verde das plantações domina, e verde é algo que Caldas já havia aprovado (em Baile Perfumado) como cor representativa de um sertão que o cinema insiste em mostrar cinza.

Jéssica mora com a mãe (Magdale Alves) e o padrasto (Servilio Holanda), e entre o carinho da mãe e os abusos animalescos do padrasto, ela prefere fugir de caminhão em direção ao Recife. Essa primeira parte tem um tom rústico marcado por um almoço de tatú que irá contrastar fortemente com o que veremos depois, introduzindo ainda uma sub-trama não muito bem desenvolvida sobre tráfico de animais silvestres que cheira a uma metáfora de obviedade questionável sobre o destino da própria Jéssica.

No Recife, Jéssica entra para a prostituição e passa a morar no edifício Holiday com duas outras garotas, e que interessante é poder ver o Recife do presente filmado em tela larga, muito embora Caldas prefira as internas e os closes dos seus personagens. Para quem não conhece a forma peculiar do Holiday, o edifício (anos 50) é alto e curvo, primo do Copan em São Paulo, e seu desenho, mais uma vez, sugere a curva que a vida da garota passa a tomar.

Uma das meninas chama-se Pâmela (Hermila Guedes), que ameaça roubar não apenas as afeições maternas de Jéssica, mas o filme como um todo. A questão é que o papel de Guedes tem o que falar, enquanto Jéssica permanece misteriosamente calada, fator que torna-se ainda mais frustrante ao sermos apresentados a Mark (Peter Ketnath), um turista alemão boa pinta que passa a ter a sertaneja como acompanhante turística, um tipo igualmente silencioso.

Inicialmente, a relação entre ambos sugere mimetizar a nossa própria observação (nas ruas da zona sul do Recife e hall do aeroporto) das movimentações do chamado turismo sexual, onde predomina a imagem de um homem estrangeiro mais velho e sua acompanhante nativa, os dois de mãos dadas e nenhuma palavra entre o casal.

No entanto, a relação entre Jéssica e Mark parece maior do que isso, talvez exista amor ali, a julgar pela ida dela à Alemanha, onde é exposta a um outro planeta tanto no sentido climático como cultural, algo que não parece muito bem explorado dada a riqueza da premissa. O segmento de Berlim é marcado por um tédio existencial que chega intacto ao espectador, e por uma outra cena simbólica onde Jéssica alimenta animais presos.

Essa apatia dramática do filme poderá dar ao espectador a impressão de que Jéssica e Mark estão trancados num filme de arte sobre mais uma relação marcada pela incomunicabilidade, algo que faz parceria com a fotografia bizarramente azul (mesmo no sol quente do sertão) e por uma câmera equipada com lentes de fundo de garrafa que parecem mais distração do que composição.

Se dramaticamente Deserto Feliz resulta numa experiência fria e árida (talvez seja a estranha intenção), o filme, de qualquer maneira, revela-se o trabalho de um autor que está à procura de um cinema verdadeiro, que nos fale sobre o mundo que enxergamos ao nosso redor. Como lupa para esse mundo, Caldas nos dá uma peça para que possamos construir esse olhar aberto, e no atual panorama de cinema do Brasil, Deserto Feliz tem relevância evidente.

Filme revisto no Palácio 1, Festival do Rio 2007 (visto originalmente no International, Berlim)

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