Thursday, February 5, 2009

The International





Olhos em Berlim

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


O 59o. Festival Internacional de Berlim começou ontem sob dois fatores particulares à Alemanha. Lembranças da queda do Muro de Berlim, que em 2009 completa 20 anos, estão prometidas para todo o festival, e a comemoração de números excelentes para produções locais com a conquista de 27% do mercado de cinema. Ao longo do último ano, 129 milhões de espectadores foram aos kinos alemães. Para combinar, o filme de abertura, The International, do alemão Tom Tykwer, é uma produção multinacional, com dinheiro americano e germânico, ironicamente um filme onde os vilões são banqueiros.

Esse leve divertimento em formato de thriller conspiratório tem um aspecto curiosamente factual. Obviamente, Tykwer, que vem trabalhando no projeto há mais de quatro anos, explicou na coletiva de imprensa que tudo não passa de uma coincidência se o filme nos remete à crise financeira mundial originada na questão do crédito, fator claro e evidente já no início da projeção. "A crise é catastrófica, claro, mas para tentar tirar algo de positivo dela, talvez o público de cinema esteja mais ciente sobre os caminhos do poder no mundo de hoje", ponderou.

No filme, guerras e terrorismo são financiados por uma instituição financeira inescrupulosa com sede em Luxemburgo que banca guerras e o terrorismo. O modelo de negócio deles parece consistente com o do mundo real, que é negociar (ou fornecer crédito) para quem puder pagar, estimulando pequenas guerras e grandes conflitos. Os que tentam enfrentá-los, morrem misteriosamente em acidentes e assassinatos que os grandes poderes não tem muito interesse em esclarecer.

Até que entra o herói da história, um policial inglês (Clive Owen) trabalhando para a Interpol que acredita em fazer o bem para a humanidade, aliado sem nenhum motivo forte o suficiente a Naomi Watts, exceto talvez pela idéia de que os dois fazem um bom par. (química ausente entre os dois, aliás) Ela trabalha na justiça em Nova Iorque, investigando venda de armas no exterior, e o papel de Watts resulta no tipo de trabalho que atores, assim como os banqueiros do filme, fazem estritamente pelo dinheiro.

The International assobia e olha para cima como se a franquia A Identidade Bourne não existisse, talvez pelo fato de aqueles filmes de fato funcionarem bem como exercícios de cinema de gênero, atualizando a idéia de "thriller de espionagem". Nesse sentido, Tykwer parece levar cada uma das suas cenas como coisa séria, sem que ninguém tenha lhe alertado que o material é nada mais do que uma fórmula já tão gasta. Precisaria de alguém com visão, humor e até mesmo um pouco de saudável desdém para dar alguma energia a esse tipo de coisa.

Há uma cena, no entanto, digna de nota, um (improvável) tiroteiro no Museu Guggenheim de Nova York que poderá deixar alguns espectadores aflitos sobre a integridade física do acervo e, em especial, da arquitetura de Frank Lloyd Wright.

Tykwer, que firmou-se na Alemanha com filmes pequenos (Corra Lola Corra é o mais conhecido), entrou de cabeça em euro-produções faladas em inglês (Paraíso, O Perfume), e agora chega a The International, um filme realmente internacional. Faz o tipo de cinema consumista altamente industrializado que esperaríamos de um cineasta germânico globalizado do ano 2000, e esse seu primeiro produto de estúdio (Columbia/Sony) filmado em Berlim, Istanbul, Lyon, Nova York, Luxemburgo e Milão resulta num passatempo descartável que, de qualquer forma, poderá ter carreira comercial ok.

SUCESSOS - The International será o próximo grande lançamento alemão nas salas do país (12 de fevereiro), e deverá dar continuidade ao bom momento da produção local. Sucessos como Der Baader-Meinhof Komplex (indicado ao Oscar 2009) e o recente Keinohrhasen (Coelho Sem Orelhas), uma comédia, (quase cinco milhões de espectadores, 50 milhões de euros nas bilheterias), ajudaram o cinema alemão a chegar à maior porcentagem de ocupação das salas nacionais contra o produto de Hollywood desde 1991, número de difícil alcance no Brasil.

6 comments:

sub-literatura said...

só faltou avisar a certos leitores que seu blog voltou a ativa, meu amigo. sobretudo aqueles que estavam sempre perguntando!
rsrs
bom ler você por aqui de novo.
abraço forte

Gisa Leão said...

Kleber,

Baader-Meinhof estréia no Brasil? Aqui em Recife mais especificamente?

=/

João Solimeo said...

Vi o trailer ontem, antes de assitir a "Dúvida". Gosto de Tykwer, embora sinta falta da inventividade de "Corra, Lola, Corra". Este filme me pareceu óbvio demais, do tipo em que, depois de visto o trailer, nem precisa mais ver o filme.

CinemaScópio said...

Gisa, realmente não sei, imagino que sim, filme tem chances, Oscar e tudo. Ia comprar o DVD aqui, mas, sem legendas em inglês!

João, Tykwer parece Bourne sem ação.

CinemaScópio said...

Toinho, desculpe, corre, corre, vou divulgar.

João Solimeo said...

Kléber, o engraçado é que eu tenho quase certeza que rolou alguma influência do Corra, Lola, Corra no Bourne, nem que seja na presença da própria Lola, Franka Potente, no papel da companheira de Matt Damon!

Abs