Sunday, February 1, 2009

A Mulher do Meu Amigo



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Uma discussão de tom nacionalista relacionada à nossa presença no mercado de cinema indica que entre o lixo estrangeiro e o lixo brasileiro, melhor ficarmos com o lixo feito aqui. De fato, é melhor mesmo, e mais saudável, mas há uma terceira possibilidade que é, entre uma bagaceira e outra, evitar as duas. Um caso específico é o filme A Mulher do Meu Amigo (Brasil, 2008), de Cláudio Torres, que funciona como nossa resposta nacional a algo importado como Jogos Mortais V. Dependendo da visão de cada um, ambos são comédias, ou filmes de horror. Essa produção da Conspiração Filmes tem um elenco composto por Marcos Palmeira, Maria Luisa Mendonça, Mariana Ximenes e Otávio Muller.

Não se sabe bem ao certo o porquê, mas a comédia brasileira de mercado vai bem mal, alguns filmes memoráveis apenas via busca na internet apontam para isso (Trair e Coçar é Só Começar, Muito Gelo e Dois Dedos D'Água, Sexo Com Amor, A Guerra dos Rocha). É uma lista tão pavorosa que, numa visão retrospectiva, o grande sucesso recente do gênero, Se Eu Fosse Você (o "2" estréia em janeiro), termina sendo o nosso atual Um Convidado Bem Trapalhão (The Party), de Blake Edwards, ou Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot), de Billy Wilder.

Para começar, é difícil fazer uma comédia, especialmente se o gênero, tão propício ao comentário sobre o ser humano e o mundo e seu estranho funcionamento, parece estar sendo tratado como pedras de dez toneladas jogadas em caminhões caçamba de 12 pneus. Curiosamente, a melhor comédia brasileira do ano parece ter sido mesmo Juventude, de Domingos de Oliveira, um micro-filme feito em vídeo sobre três homens maduros e suas lembranças da vida, isolados numa mansão interiorana e, mesmo assim, um filme humano e engraçado. A ironia é que A Mulher do Meu Amigo seria uma adaptação de um texto do mesmo Domingos de Oliveira (Largando o Escritório, no original), talvez não por acaso também ambientado numa mansão interiorana.

Palmeira (a presença mais serena do elenco) é um advogado de 38 anos, casado com a filha (Ximenes) do dono (Antônio Fagundes, especializado em ser dono, chefe e Deus). Num final de semana na já citada casa, o amigo (Muller), sua esposa (Mendonça) e os filhos testemunham uma mudança de alma no advogado, que decide abandonar o mundo dos grandes negócios escusos para dedicar-se a uma vida mais saudável, largar o escritório e cuidar dos despossuídos. Descobrimos que sua esposa é amante do amigo há mais de dez anos e que, numa ausência dela e do amigo, ele irá se interessar pela mulher do amigo.

Não é um filme de insinuações, mas de marteladas, um pouco como as tentativas de uma perua mostrar-se elegante. De fato, o filme parece direcionado ao vasto público perua dos multiplexes de bairros abastados que ainda acha que, para compreender que um casal irá ficar junto, Let's Get it On, de Marvin Gaye, precisa ser ouvida na trilha sonora. Detalhe interessante é a participação das crianças, que não falam, não têm nome e o tempo de tela que têm deve ser igual à do merchandising, que continua aparecendo como faróis em cena.

Tudo isso vindo de Cláudio Torres, uma das forças criativas da Conspiração Filmes, cujo primeiro filme, Redentor, sugeria coisas melhores do que esta. Chama a atenção a mão de Torres para com os atores. Exceto por Palmeira, que parece ter se recusado a seguir orientações, Ximenes, Muller e até mesmo a sempre interessante Mendonça desfrutam de uma euforia estranha localizada a pelo menos cinco graus da realidade. Sugerem o desespero dos que estão desesperadamente sem graça.

1 comment:

Marcus said...

Os dois "Se Eu Fosse Você", apesar de totalmente copiados de fórmulas norte-americanas, pelo menos são engraçados. São comédias, mesmo.

Essas outras tentativas dão apenas vergonha alheia.