Monday, May 11, 2009

Happy Go Lucky


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Não vamos aqui tentar definir o sentido de felicidade para o ser humano, mas sabe-se que é uma sensação desejada por muitos e que, na melhor das hipóteses, é ela que dá algum sentido à vida. Por ser tida como tão rara por tantos, a noção de ser feliz pode muitas vezes passar uma idéia de utopia, ou, para os mais pessimistas, prova irrefutável de ignorância perante o mundo cruel que nos cerca... Talvez seja isso que nos leva a ver com estranha e inicial suspeita aqueles que estão sempre esgravatando os dentes, caso claro da super-pra-cima heroína Poppy do novo filme do cineasta inglês Mike Leigh, Simplesmente Feliz (Happy Go Lucky, 2008).

Ecos do último filme de Leigh, Vera Drake, um drama cavernoso sobre aborto na Londres sombria do pós-guerra, não serão encontrados em Simplesmente Feliz. Na verdade, a filmografia de Leigh tem uma tendência para o pessimismo, e não são raras as análises pavorosas que ele já nos deu sobre a vida em sociedade (Naked talvez o exemplo mais extremo), muito embora ecos mais leves do passado surjam ao longo da projeção (Garotas de Futuro, Topsy Turvy).

Já na resplandecente seqüência de abertura desse filme novo (lembra algo de A Noviça Rebelde), Londres é filmada em alegre tela larga com sol e tons claros, onde vemos Poppy (Sally Hawkins, Urso de Ouro de Melhor Atriz em Berlim, ano passado) sorrindo para o mundo na sua bicicleta primaveril. Quem é essa doida?

A beleza do filme é nos mostrar, aos poucos, que doida ela não é, e que seu talento para o equilíbrio emocional e visão aberta do mundo é uma dádiva que tem efeitos positivos não só para ela, mas também para os que a cercam, incluindo boa parte dos que vêem o filme. Poppy é também chegada a ataques de riso toda vez que a situação engrossa, mesmo que isso inclua uma crise aguda de dor na coluna.

Ela é uma professora primária que gosta do que faz, e as crianças parecem gostar dela. Tem 30 anos e um pequeno grupo de boas amigas, juntas conversam muito e riem bastante. Julgar os outros não é algo que Poppy faz normalmente, mas mostra-se firme e forte quando sua irmã a julga com o tipo de parâmetro social que, na verdade, sabemos, é um gerador de infelicidade crônica para tantos, talvez, inclusive, para a referida irmã.

Obviamente que personagem tão equilibrado e em paz consigo mesma precisa, para fins narrativos, administrar outros não tão quietos, e Leigh nos fornece uma pequena galeria de neuroses que Poppy tentará administrar. Curiosamente, essa professora vê-se na posição de aluna de dois instrutores claramente carentes emocionalmente. A primeira, com excelentes resultados cômicos, dá aula de flamenco na seqüência que estreita laços entre o cinema de Leigh e o de Pedro Almodóvar.

O segundo personagem chama-se Scott (Eddie Marsan), professor de auto-escola para uma Poppy que viu o roubo da sua estimada bicicleta como uma chance de a mesma (a bicicleta) finalmente deixar o ninho e ganhar a vida. E é tentando aprender a dirigir que ela encontra esse homem pura e simplesmente infeliz, maluco beleza típico do vasto zoológico humano que Leigh e seu olhar inglês ranzinza já nos deu na sua filmografia.

Metódico, neurótico e sub-desenvolvido emocionalmente, Scott transforma seu óbvio amor por Poppy numa série de pequenas agressões típicas da 1a ou 2a série do primário, situação humana e tanto que Leigh, Hawkins e Marsan negociam com rara felicidade, uma vez que a graça anda de mãos dadas com uma certa tristeza absoluta.

Há aquela cena clássica de Noivo Neurótico Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977), onde Woody Allen pára um casal ensolarado na rua e pergunta o porquê de tanta felicidade – “Eu sou uma pessoa rasa e vazia, e ele também”, responde a mulher. Obviamente que é uma visão pessimista típica do Allen mais jovem para um mundo que vende a felicidade e a alegria como produtos que podem ser comprados.

Simplesmente Feliz, no entanto, consegue mostrar com grande naturalidade que o otimismo no cinema não precisa necessariamente ser obtido a golpes de marreta como nas imagens publicitárias de uma comédia romântica, mas através da observação generosa de certos movimentos da própria vida.

Filme visto no Berlinale Palast, Berlim, Fevereiro 2008

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