Friday, May 15, 2009

Thirst (Competição)


Só os sul coreanos para nos oferecer algo do tipo

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Com uns dez minutos de projeção do filme sul coreano Thirst, eu comecei a sentir uma alegria de saber que, com eles (os sul coreanos), você pode contar, sempre. Não há outra filmografia que ofereça filmes tão desinibidos em questões narrativas, choques de imagem e idéias loucas, a proverbial "kitchen sink" que os americanos chamam (a pia da cozinha, jogada na fogueira se preciso), flertando ainda com o 'fantastique'. Esses filmes coreanos parecem algum tipo de "evil twin", o irmão malvado do que Hollywood faz, sem amarras ou medo de ofender.

Thirst (Bak-Kwi) se passa no mundo fantástico, com o tipo de desprendimento que nós aprendemos a esperar do cinema coreano, a cinematografia que melhor transforma gêneros normalmente tidos como hollywoodianos em escritas próprias, em muitos aspectos melhorando o tipo de coisa que normalmente vemos. Nesse caso, o gênero “vampiro” ganha uma roupa nova toda bordada com detalhes impossíveis. Ela vem também toda melada de sangue.

Thirst é o segundo filme de vampiro em um ano a nos dar algo de novo nesse tipo de narrativa marcada por seres humanos que precisam se alimentar de sangue humano, que são alérgicos à luz solar sob o risco de virarem cinza e ainda donos de novos super poderes físicos.

Como no excelente filme sueco Let The Right One In (2008, ainda inédito no Brasil, ver texto no blog), Park Chan Wook parece estar em casa com uma história calculadamente provocadora. Seu personagem principal é um padre católico (coreano), interpretado por Kang-ho Song, que fez The Host. Ele doa-se para uma pesquisa científica na África como um São Francisco de Assis moderno lidando com uma nova lepra, volta de viagem com um diagnóstico bem claro de vampirismo.

Os sintomas são enorme força física e vigor sexual, a segunda aquisição incompatível com a batina, algo que deverá fazer do filme algo de controvertido nos círculos católicos. Na Coréia do Sul, onde Thirst já foi lançado, dois milhões de sul coreanos viram o filme, que foi produzido com dinheiro da Universal americana. Imaginar que uma doidera dessa é um blockbuster no seu país de origem não apenas me causa admiração, mas também me inspira algum medo.

Park Chan Wook, dono de um humor terrível, e lançando mão de todos os efeitos especiais que a sua imaginação põe para excelente uso, cria um senso constante de demência que desconcerta a platéia durante toda a projeção, alguns, inclusive, preferem bater em retirada. Ele enrola bastante os procedimentos na metade do filme, como se à procura de um roteiro, mas a parte final iguala, felizmente, a ferocidade da primeira metade, e fica uma sensação de satisfação aliada à idéia de que o que acabamos de ver não é nada normal.

Especialmente forte é a questão da carnalidade, uma vez que nosso padre encontra uma parceira à sua altura e perfil sanguíneo, oferecendo mais uma leitura animadora de Thirst, a da história de amor louco, onde amantes não apenas se beijam e fazem amor, mas se alimentam um do sangue do outro, se chupando com todos os suc-sons que somos capazes de fazer em momentos íntimos.

Também curiosa é a forma como esse padre sensato tenta dominar seus instintos chegando a poupar vidas com seu respeito ao ser humano (é um frequente consumidor de sangue de pacientes em coma via tubos intravenosos). Já a sua fêmea, instigadíssima pela energia sexual do vampirismo, sente enorme prazer em trucidar pobres coitados que encontra pela noite, uma irresponsável, lindamente terrível.

E pensar que Park Chan Wook acha espaço até mesmo para duas misteriosas baleias no seu filme apenas sugere o tipo de tratamento 100% livre de razão e restrições orçamentárias que parecem marcar esses coreanos malucos. Freak out total, com estilo.

Filme visto na Sala Bazin, Cannes, Maio 2009

5 comments:

Ibertson Medeiros said...

Estou louco para assistir esse filme. E esse comentário me animou ainda mais. Sou fã de carteirinha do cinema coreano.
Aguardado agora a análise de Mother, outro que aguardo ansiosamente.

Marcelo Miranda said...
This comment has been removed by the author.
Marcelo Miranda said...

Me pareceu algo como DESEJO E OBSESSÃO, da Claire Denis, só que com humor despirocado. Cool!

André said...

Você não viu Bright Star da Jane Campion?

CinemaScópio said...

Perdi, vou tentar ver no último dia.