Monday, May 11, 2009

Låt Den Rätte Komma In (Let The Right One In)



Essa cena da piscina e o sentido de mise en scène... er... impressionam. Bravo...

Por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Depois de preparar os detalhes de viagem para Cannes, consegui finalmente ver ontem à noite Let The Right One In (Låt den rätte komma in), numa noite escura de chuva no Recife marcada pelo que chamo de “lobisomem de Setúbal”, um cão monstro desconhecido cujo uivar ganha o espaço aéreo do bairro, soando como um jumento que agoniza. Qualquer dia posto esse som louco aqui.

Sobre Let The Right One In, umas 30 pessoas tinham me falado com enorme entusiasmo do filme, e não é difícil admirá-lo. Passa como um presente de natal para quem tem particular apreço pelo ‘cinéma fantastique’, gênero que Hollywood tanto explora como destrói constantemente através de templates insuportáveis que parecem travar filmes num impasse debilóide para o consumo de um público tido como tal. (NOTA: se encontrar Eli Roth em Cannes – faz parte do entourage de Tarantino no Inglorious Basterds - lembrar de chamá-lo de otário).

Eu não diria que o aspecto a seguir independe do filme em si, pois é a partir dele que me ocorreu mais uma vez essa questão de identidade. Mesmo assim, não deixa de ser fascinante ver um filme de vampiro/horror repensado/remixado por uma outra cultura, nesse caso, a sueca.

O filme é um exemplo a ser citado num mercado internacional que, cada vez mais, investe em produtos globalizados falados em língua local, mas que nada mais são do que enlatados For Export em caixas marcadas HOLLYWOOD FUCK ME. Coisas tipo o espanhol O Orfanato ilustram esse tipo de cinema portifólio feito para flertar com os estúdios, e, creio, pouco mais do que isso.

Eu não ficaria surpreso se o diretor de Let The Right One In, Tomas Alfredson, fosse chamado para trabalhar em Hollywood, mas imagino que para se adequar ao esquema ele teria que perder um braço, ou levar eletrochoque até ficar balbuciando “money... money”. Pelo que eu vi no filme, o remake americano vai rebolar para ignorar o tom distinto do original, encaixando-se na estética moral do PG-13.

Curiosamente, o filme bate ponto em praticamente todos os procedimentos do gênero vampiro, da permissão para entrar em casa do titulo à capacidade de combustão espontânea do sangue suga em contato com a luz solar, ou mesmo sua força física sobrenatural de ser preso num limbo natural e espiritual. Esses clichês são adotados e desenvolvidos com enorme naturalidade, e logo o espectador irá acreditar que vampiros existem.

No entanto, é a coisa dos detalhes outra vez, e o filme te leva direitinho com um alcance que impressiona, tanto no horror como no ar de fábula doce sobre a beleza, a necessidade e a tristeza do amor.

No horror, Let The Right One In deixa claro que a potência de um momento vem do enquadramento inteligente de detalhes assustadores que invadem o quadro, ou que uma cena de impacto deve necessariamente ser vista em plano aberto, pois só assim nos confrontamos com o impossível.

Esse horror, ou momentos de PAVOROSO horror, não funcionaria se a história de Oskar e Eli não funcionasse como uma fábula de primeiro amor, com a lógica interna de uma fábula infantil que poderia se passar numa floresta, mas que, aqui, ganha o cenário de um bairro classe média sueco coberto de neve, no que aparenta ser os anos 80.

E há inúmeros aspectos que enriquecem e fortalecem o filme a partir de coisas que não são ditas, pois Let The Right One In suspeita que o espectador é inteligente, e que tem compaixão e que entende a mecânica da dependência no outro, e como amores antigos se desfazem e como outros novos surgem. Belo filme.

BLU-RAY – Eu vi o filme no Blu-Ray americano, numa projeção Full HD. Eu ainda estou me acostumando com o formato, o que significa que, a cada nova sessão, o queixo volta a cair. A fotografia do filme é de uma precisão que beira o maneirismo, mas logo você entende que as mudanças de foco e as cores que quebram o branco da neve são profissa. Vale deixar uma menção honrosa para o pessoal do som (DTS Máster HD 5.1, o bicho) de Let The Right One In, é uma mixagem linda. A tal cena da piscina é um momento especial nesse filme, não só pelo que você acha que está vendo, mas pelo que você acredita estar ouvindo.

3 comments:

Ricardo Lessa said...

Poxa, Kleber, seria um prazer imenso se vc desse uma olhada no meu texto sobre esse mesmo filme sueco:
http://poppycorn.com.br/artigo.php?tid=1796

Ah, com um Blu-ray rodando a 1080p., quantos anos luz ele ainda fica daquelas salas de projeção em 70mm de Cannes? Dá para fazer um esboço comparativo sobre ou é impossível?

Juliano said...

esse filme é tudo isso que você escreveu e mais um pouco!!!

CinemaScópio said...

Yeah. Idéia é sempre deixar o mais um pouco pra quem não viu ver e se chapar. Belo filme.