Saturday, May 16, 2009

Kinatay - A Carne no Terceiro Mundo


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


Saí agora da primeira experiência em descarrego de energia em Cannes 2009, fator típico desse festival. A semana ainda será longa, mas Kinatay, de Brillante Mendoza, terá lugar cativo nas discussões ao longo dos próximos dias, com os detratores de sempre acusando-o de "o mundo é uma merda e tome merda" e os defensores que terão que rebolar muito para defendê-lo. Eu já tenho um ponto de vista bem claro, já a partir do sobe créditos.

É claramente um filme de horror, não tanto da escola escancarada que a indústria hollywoodiana filma e embala para consumo geral (Hostels, Saws e outras patifarias), onde a idéia de mutilação e morte é apresentada meramente como uma imagem dissociada de humanidade, ou, talvez a humanidade do voyeurismo pura e simples. Em Kinatay, temos uma crônica passo a passo de uma morte, e essa crônica vem acompanhada de uma bússola moral forte.

A exemplo de Serbis, exibido ano passado, Kinatay tem um 'feel' terceiro mundo que me parece bem autêntico, e sendo brasileiro, essa identidade é muito facilmente identificável, especialmente na identidade sonora, aspecto que Mendoza parece adorar trabalhar. As suas cenas de rua têm aquela massa sonora terceiro mundo que conhecemos tão bem, todos os canais do Dolby carregados de ônibus e caminhões pesados, aquela sensação de ruído fora de controle que ouvimos no Largo de Pinheiros, em São Paulo, ou na Avenida Brasil, no Rio, ou na Conde da Boa Vista, no Recife.

Diferente de Serbis, um filme, de certa forma, alegre e ensolarado ao nos mostrar aquele cinema e aquela família, Kinatay é escuro, úmido e miserável. Mendoza filma cru, sombrio e malvado, mas nunca sem perder o ponto de vista moral e humano. Acrescenta na mixagem aquele ruído de mal estar comum no gênero thriller, a sonoridade que acredito existir dentro do intestino de uma baleia, a caverna do mal estar.

Nosso representante no filme é um jovem aspirante a policial, pai de um bebê e casado com uma garota delicada. As cenas de abertura nos levam a crer que veremos um filme diferente, sua relação com a família terna e ajustada.

Para completar o dinheiro da feira, ele é chamado para participar de um trabalho especial pelo seu amigo mais velho, também policial, e que trabalha para uma gangue local. Ao longo da noite, nosso personagem entende que a missão envolve dar uma lição numa prostituta que teria pisado na bola com seus patrões. Ela será espancada, estuprada de maneira particularmente degradante, assassinada com facas e facões, mutilada e seus pedaços espalhados pela cidade, material para mais uma jornada do jornalismo policial local.

No meio do açougue que ele nos apresenta, há um agente da sanidade com tentativa de ver tudo com algum reservatório de delicadeza na figura do rapaz, que prepara-se para assumir a nova geração de lei e ordem desta sociedade, comentário tão forte quanto a necessidade que os membros da gangue, açougueiros temporários, têm de, findo o job, parar para comer carne. Eles precisam acreditar que tudo aquilo não foi nada de realmente importante, embora saibam exatamente o que fizeram.

Questões de gênero me parecem bem certeiras no filme, em especial na questão do corpo da mulher, objeto (sexual) despedaçado, uma boneca de carne desmontada numa longa sequência de dor. É foda, mas tão real, e Kinatay revela-se o verdadeiro filme de gênero (horror) possível, genuinamente, no terceiro mundo.

Filme visto no Debussy, Cannes, 16 de maio 2009

1 comment:

Blink said...

Parece ser interessante. O Roger Ebert, em seu site, disse que é o pior filme da história do festival, pior até que "Brown Bunny" do Vincent Gallo. Pegou pesado.

Bom trabalho, continue postando críticas dos filmes. Abraço