Sunday, February 14, 2010

Lixo Extraordinário

Artsy Eye For The Trash Guy

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


As artes plásticas apareceram em dois filmes que não poderiam ser mais distantes um do outro, este final de semana, em Berlim. No doc brasileiro Lixo Extraordinário (Waste Land, exibido na Panorama), da inglesa Lucy Walker (co-dirigido por João Jardim e Karen Harley), temos um testemunho involuntário sobre a auto-importância da arte e do artista pela visão de mundo de Vik Muniz, o sol do filme. Em Exit Through The Gift Shop (seleção oficial fora de competição), primeiro filme do ‘street artist’ inglês Banksy, há uma reflexão rica sobre expressão artística e os valores a ela aplicados, sem auto-importância.

Lixo Extraordinário é uma produção da O2 Filmes, de Fernando Meirelles, e passa como um vídeo institucional sobre Vik Muniz. A trilha é de Moby. Nas suas próprias palavras, “sou, possivelmente... o artista brasileiro que mais vende no exterior”, Muniz parte para usar a sua importância, iludida por uma filosofia novo-rico marcante (Muniz afirma ter sido pobre e já ter conquistado tudo na vida), para ajudar um seleto grupo de catadores de lixo no aterro sanitário de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro.

A idéia de Muniz, aqui registrada, é fotografar cada personagem interagindo artisticamente com o lixo, retrabalhar cada imagem com pedaços artísticos de lixo e fazer obras de arte que sejam vendidas em Londres por uma baba. O dinheiro é revertido para a comunidade, aqui representada por lindos personagens que o filme usa de maneira estarrecedora.

É um filme absolutamente essencial para discutir questões já antigas na representação problemática das classes no Brasil, pelo cinema. Há ainda o bônus de Lixo Extraordinário ser um híbrido de olhar brasileiro com o olhar estrangeiro, ganhando esse último numa quebra de braços entre a displicência e a simples cegueira.

De fato, o aspecto “for gringos only” é notável não só nas imagens apaixonadas de dezenas de pessoas lutando por toneladas de lixo, os pés encharcados em espesso chorume, mas ao acompanharmos Muniz (que mora e trabalha nos EUA) e seus colaboradores brasileiros falando inglês em reuniões conceituais do projeto, aparentemente numa encenação incômoda para a câmera.

À frente de computadores, como num estranho reality show, tomam decisões imbuídas de bruto poder, tanto sobre seus personagens carentes de tudo na vida, como sobre o próprio lixo. Ou seja, a matéria prima é tão importante quanto as pessoas. O filme ganhou o prêmio do público em Sundance e foi aplaudido de pé em Berlim por parte da platéia.

Filme visto no International, Berlim, Fev 2010

1 comment:

wagner gomes said...

quero ver esse filme ha muito tempo, mas nao consigo encontrar nem pra alugar, nem pra baixar, nem em lugar nenhum, qualquer dica meu email eh wgomes.vix@gmail.com
obrigado