Sunday, May 17, 2009

Antichrist, de Lars Von Trier (competição)



por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com


1as impressões, pela natureza do filme, pode mudar.

A sessão de Antichrist (2009), de Lars Von Trier, finda agora há pouco na Debussy, foi qualquer coisa, como o filme. "Ohhhhh...s", "Ahhhhhss...", gargalhadas involuntárias, gente se levantando bufando como se abandonar a sala fosse uma questão política. Finalmente, muitos calados, outros aplaudindo com força e outros ainda empurrando uma sonoríssima vaia.

Um homem passou mal na minha fila, o tipo de frase que os produtores estão querendo para o filme, mas que, nesse caso, precisa ser escrita por ser a mais pura verdade. Ele não foi o único e tenho que admitir que ver imagens e sons fazerem isso com dezenas de pessoas adultas é algo sempre muito interessante para o observador de cinema. Resta ver o que vai acontecer no encontro de Von Trier com a imprensa, que irá acontecer amanhã, ao meio dia. Essa é apenas uma primeira reação física ao filme. Resta esperar um pouco e sentir como ele vai bater algum tempo depois.

Cinicamente dedicado à memória de Andrei Tarkovsky, chamar Lars Von Trier de doente seria um grande elogio para o seu filme de horror. Fica a suspeita de que Antichrist deverá resultar numa batata quente comercial para as dezenas de territórios que o compraram bem antes de o filme começar a ser filmado, com base na trajetória do seu autor (nota: já tem distribuição no Brasil garantida). Há um fator sexual no filme que deverá revelar-se veneno para muita gente e, de fato, não se vê esse tipo de coisa normalmente no cinema. Nos EUA seria um NC-17 duplo, com gelo.

O filme me atrai pelo fato de, no já muito sambado território do "cinema fantástico", o dinamarquês ter conseguido fazer algo de fato estranho, com climas inéditos que parecem fazer parte de uma lógica bem particular, ou de um cinismo bem especial.

Por outro lado, seja lá que clima ele obtém não vem de uma construção narrativa envolvente. Fica uma sensação dúbia em relação a esse Anticristo como filme de gênero horror, pois o narrador mestre que Von Trier já foi, tão bom em administrar tensões crescentes (Breaking the Waves, Os Idiotas, Dogville), parece ausente desse filme frio sobre, ao que parece, a loucura da perda, do luto.

Por outro lado, sua capacidade de chocar com imagens de cinema em tela larga está intacta. Na verdade, esse é o único sentido do filme, e essas imagens em muitos aspectos parecem fáceis, materializando uma psicologia que soa misteriosamente cara ao próprio cineasta, em especial na sua dolorosa perseguição do elemento mulher. Digo fácil pois não há muito o que argumentar em palavras contra um pedaço grosso de madeira no saco. Golpes baixos.

Há, de fato, uma abertura que nocauteia a platéia com uma sequência de imagens fortes, hipnotizantes, que mostram um homem e uma mulher fazendo amor (Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg), no exato momento em que algo de trágico acontece nas suas vidas. Essas imagens são acompanhadas por Rinaldo, Lascia Ch'io Pianga, de Handel, e quem ouviu Dogville e Manderlay sabe que Handel é um velho colaborador de Von Trier, como fora anteriormente de Stanley Kubrick.

O casal entra num processo de luto, isolam-se numa cabana na floresta e logo estaremos no território de Inverno de Sangue em Veneza (Don't Look Now, 1973), o filme de Nicholas Roeg sobre um casal que tenta superar a perda da filha pequena. Pensando bem, a sequência de abertura tem muito da sequência de abertura do filme de Roeg, o tom, o mistério, embora plágio esteja muito distante.

Como no filme de Roeg, nada realmente parece fazer sentido, e as imagens ganham a lógica, o tom e os filtros de fotografia normalmente associados aos sonhos, nesse caso um pesadelo bem febril e onde alguns dos medos mais profundos são escancarados, e alguns outros que Von Trier banca sem medo do ridículo - "Chaos Reigns!". Hm, sim, no filme...

Dafoe e Gainsbourg não parecem funcionar muito bem juntos, e Dafoe continua me passando a sensação de que está sempre no filme errado. A sexualidade filmada dos dois é forte, mesmo assim. Gainsbourg logo entra no formato escolhido por esse autor, chorando, gritando e batendo a cabeça no sanitário até sangrar, para começar.

Ela, claro, irá passar para estágios mais adiantados de demência agonizante, sendo o seu companheiro a principal vítima da sua loucura na mata, e é na segunda metade que a coisa fica realmente feia, quando a platéia começa, aos gritos e com náusea, a passar mal, mesmo que o que esteja sendo dito soe como uma grande psico-baboseira. Baboseira talvez, mas nada como uma tesoura nas áreas genitais para encerrar uma conversa rapidinho.

Anticristo não é o fracasso que os 45 minutos de projeção sugeriam, quando sons estranhos na trilha sonora de uma floresta viva e ataques de nervos começaram a forçar a paciência. Finda a sessão, no entanto, temos a sensação desconfiada de que, se for para errar, Lars Von Trier tem o talento bastante dúbio de errar dentro de uma loucura muito sua, e de ninguém mais.

Filme visto na Debussy, Cannes, 17 de maio 2009

10 comments:

dafne sampaio said...

uau.
mas isso é bom ou ruim?
fico no aguardo de mais parágrafos. curioso por mais essa do doente.

Raul Arthuso said...

Também estou curioso (e não gosto em geral do Lars Von Trier!).
Quanto á duração da projeção, você quis dizer 145 minutos ou 45 mesmo?

Murilo said...

Kleber, pela sua descrição me veio na memória algo de BUG, do Friedkin. Ainda mais pelo trailer desse novo do Trier, num momento, mexer com o elemento inseto, se bem me lembro. Ah, e que bela cobertura, parabéns.

Ibertson Medeiros said...

Não sei nem o que esperar de Anticristo. O filme pelo que vi não parece fazer jus ao seu nome, quanto a possessão demoníaca ou algo do tipo. Não sei o porquê, mas me lembra bastante "O Iluminado" do Kubrick.

CinemaScópio said...

Estou curioso para ver como o filme vai bater daqui a alguns dias. De qqr forma, é bem estranho e muito agressivo. No bugs, I'm afraid.

Murilo said...

Verdade, revi o trailer agora. Não são bugs, de fato. Umas bolinhas azuis que grudam na mão de Dafoe, não deu pra ver direito da primeira vez, hehe

Paulo said...

É muita consideração pelo Lars (que também gosto bastante). Alguns cineastas quando derrapam, merecem uma chance extra, oq parece ser o caso nesse filme.Seria esse reflexo da depressão que ele teve um tempo atrás?

RENATO SILVEIRA said...

Caramba, Kleber. Eu não esperava que fosse ser essa aberração toda o filme novo do von Trier. Algo excêntrico, talvez, mas pelo que ando lendo o troço é barra pesada. Aqui no Brasil sai pela Califórnia, previsto para agosto. Mas pelo visto devem segurar até o Festival do Rio, talvez. Fiquei ansioso agora.

[]s

Mateus said...

Lars Von Trier é o melhor!
Aliás, melhor não, porque ninguém we compara, ninguém chega aos pés dele.
Lars Von Trier é único!

Luís Gustavo Velani said...

as bolinhas eram carrapatos pô